O PRNCIPE CORVO
THE RAVEN PRINCE
Elizabeth Hoyt



"Nessa mesma noite, naquela que foi a mais estranha cerimnia
alguma vez testemunhada, urea casou-se com o Corvo."
Little Battleford, Inglatera rural, segunda metade do sculo XVIII. Assistindo  constante debilidade das finanas familiares, Anna Wren, recentemente enviuvada, 
v-se na necessidade de encontrar emprego. Culta e letrada, torna-se secretria de Edward de Raaf, conde de Swartingham
Homem de um carcter que a vida tornou mordaz e inflexvel,
de rosto e corpo marcado por cicatrizes de infncia, tudo parece indicar que Anna Wren ser uma secretria a prazo.
Numa improvvel partida do destino, ambos despertam o lado mais secreto do outro, rapidamente desenvolvendo um desejo mtuo e de forte carga ertica, inicialmente 
no assumido.
Na Inglaterra do Imprio e das conquistas ultramarinas, nas vsperas da Revoluo Industrial, conseguir o preconceito e o conservadorismo separar duas almas talhadas 
para se unirem?



Para o meu marido, Fred, a minha tarte de mirtilo: doce, cido e sempre reconfortante.


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Ttulo original: The Raven Prince
Copyright (r) 2007, Nancy M. Finney

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Ttulo: O Prncipe Corvo
Autora: Elizabeth Hoyt
Traduo: Miguel Corvo
Reviso: Miguel Martins Rodrigues
Design e paginao: rpvpdesigners
Impresso e acabamento: Tipografia Peres
Dep. Legal: 299834/09
Tiragem: Setembro de 2009
l.a edio E-4046-09
ISBN: 978-972-770-702-7
           

  Captulo 1
       
       
       
       
      
       Era uma vez, numa terra longnqua, um duque depauperado
       e as suas trs filhas...
       in O Prncipe Corvo
       
      
      
      
      Little Battleford, Inglaterra Maro de 1760
      A combinao entre um cavalo a galopar demasiado rpido, uma vereda lamacenta com uma curva e uma senhora a p nunca  boa. Mesmo na melhor das circunstncias, 
a probabilidade de um resultado positivo  deprimentemente reduzida. Acrescente-se a tudo isto um co - um co enorme - e, reflectiu Anna Wren, o desastre torna-se 
inevitvel.
      O cavalo em questo deu um salto repentino para o lado, ao ver Anna no seu caminho. O mastim, correndo junto ao cavalo, reagiu metendo-se-lhe debaixo do focinho, 
o que, por sua vez, fez com que se empinasse. Cascos do tamanho de pires malharam o ar. Inevitavelmente, o enorme cavaleiro perdeu o equilbrio. O homem caiu aos 
ps dela como um falco despenhado do cu, ainda que com menos elegncia. Os seus compridos membros esparramaram-se com a queda, deixando cair o pingalim e o tricrnio 
e indo aterrar numa poa de lama, acompanhado de um repuxo espectacular. Uma parede de gua lamacenta ergueu-se, ensopando-a.
      Todos, incluindo o co, pararam.
      Idiota, pensou Anna, embora no o tivesse dito. As vivas respeitveis de uma certa idade - trinta e um anos daqui a dois meses - no insultam cavalheiros, 
ainda que eles o meream. De todo.
      - Espero que no se tenha magoado com a queda - disse ela, ao invs. - Quer que o ajude a levantar-se? - Por entre um ranger de dentes, sorriu para o homem 
encharcado.
      Ele no correspondeu  sua boa disposio.
      - Mas o que raio fazia a senhora no meio da estrada, sua tonta?
      O homem soergueu-se da poa de lama, aproximando-se dela naquele jeito irritante que os cavaleiros tm de parecer importantes quando acabam de ser patticos. 
A gua suja que lhe ornamentava o rosto plido, bexigoso, fazia dele uma viso horrvel. Pestanas negras aglomeravam-se luxuriantemente em torno de olhos de obsidiana,
o que, porm, mal contrabalanava o nariz e o queixo enormes, bem como os lbios finos e exangues.
      - Peo imensa desculpa. - O sorriso de Anna no quebrou. - Dirigia-me para casa. Obviamente, soubera eu que o senhor iria necessitar de toda a largura da estrada...
      Todavia, aparentemente, a pergunta dele fora retrica. Afastou-se, ignorando-a e  sua explicao. Esquecidos o chapu e o pingalim, foi atrs do cavalo, amaldioando-o
em voz baixa, num tom montono e calmante.
      O co sentou-se para assistir  cena.
      O cavalo, um baio ossudo, apresentava umas peculiares manchas claras sobre a pele, que lhe conferiam um infeliz aspecto malhado. Rodou os olhos na direco
do homem e, timidamente, afastou-se alguns passos.
      - Isso mesmo. Pe-te a danar como uma virgem ao primeiro belisco, seu pedao repugnante de couro comido pelos insectos - ciciou o homem ao animal. - Assim
que te apanhar, seu fruto bastardo de uma mula corcunda coberta por um camelo doente, toro-te esse pescoo imbecil, ai toro, toro.
      O cavalo rodou as orelhas desencontradas para ouvir melhor aquela carinhosa voz bartona e deu um passo inseguro para a frente. Anna sentia compaixo pelo
animal. A voz daquele homem feio era como uma pena na sola dos seus ps, simultaneamente irritante e sedutora. Anna interrogava-se se ele falaria daquela maneira 
enquanto fazia amor com uma mulher. Oxal, pelo menos, recorresse a outro vocabulrio.
      O homem aproximou-se o suficiente do cavalo desorientado para agarrar a rdea. Ficou ali um minuto, a murmurar obscenidades. Depois, montou num movimento gil.
Os msculos das suas coxas, revelando-se indecentemente atravs da camura molhada, cingiram o lombo do animal, conforme este lhe voltava o nariz.
      Inclinou para Anna a cabea nua.
      - Minha senhora, tenha um bom-dia.
      E, sem olhar para trs, afastou-se a meio-galope pela vereda, com o co a correr a seu lado. Num pice, encontrava-se j longe da vista. Depois, o som dos
cascos a embater contra o solo comeou a desvanecer-se.
      Anna olhou para baixo.
      O cesto repousava na poa, os contedos - as compras matinais -, espalhados pela estrada. Devia t-lo deixado cair no momento em que evitava o cavalo que se 
aproximava. Agora, meia dzia de ovos vertiam as gemas amarelas para a gua lamacenta e um arenque fitava-a ameaadoramente, como se a culpasse pela sua desonrada 
aterragem. Ela apanhou o peixe, recusando o dilogo. Pelo menos, ele poderia ser salvo. O seu vestido cinzento, contudo, pendia lastimosamente, ainda que a verdadeira 
cor no fosse muito diferente da lama que o encrostava. Puxou as saias para as separar das pernas, antes de suspirar e de as deixar cair. Perscrutou a estrada em 
ambas as direces. L no alto, os ramos nus das rvores chocalhavam com o vento. A pequena vereda encontrava-se deserta.
      Anna respirou fundo e pronunciou a palavra proibida diante de Deus e da sua alma eterna: "Sacana!" Susteve a respirao,  espera que um relmpago ou, mais 
provavelmente, uma pontada de culpa a atingisse. Nem uma coisa nem outra, o que deveria t-la deixado incomodada. Afinal, as senhoras no insultam os cavalheiros, 
seja qual for a provocao.
      E, acima de tudo, ela era uma senhora respeitvel, ou no seria?
      No momento em que pisava a custo o trilho que dava entrada para a sua casa, as suas saias, agora secas, apresentavam-se desalinhadas e rijas. No Vero, as 
flores exuberantes que enchiam o pequeno jardim da frente tornavam-no festivo, mas, nesta altura do ano, era quase s lama. Antes de Anna l chegar, a porta abriu-se. 
Uma mulherzinha com rolos de cabelo cinzentos balanando ao nvel das tmporas espreitou, apoiada na ombreira da porta.
      - Ah, est a. - A mulher brandia uma colher de pau lambuzada com suco de carne, lanando inadvertidamente pingos para o seu queixo. - Eu e a Fanny temos estado 
a fazer um ensopado de borrego e parece-me que o molho dela apresenta melhoras.  que quase no d para ver os pedaos de carne. - Inclinou-se para diante, para 
segredar: - Mas ainda estamos a tentar acertar com os bolinhos de ma. Infelizmente, esto com uma textura bem invulgar.
      Anna ofereceu um sorriso exausto  sua sogra.
      - Estou certa de que o ensopado ficar maravilhoso. - Penetrou no vestbulo apertado e pousou o cesto.
      A outra mulher sorriu largamente, mas, depois,  passagem de Anna, franziu o nariz.
      - Querida, h um cheiro peculiar que vem de... - A voz sumiu-se e os olhos concentraram-se no alto da cabea de Anna. - Porque  que tem folhas hmidas no 
chapu?
      Anna esboou um esgar e palpou.
      - A verdade  que sofri um percalo, na estrada principal.
      - Um percalo? - A me Wren deixou cair a colher, com a perturbao. - Magoou-se? Credo, pelo vestido, parece que esteve a chafurdar numa pocilga.
      - Estou bem, apenas um pouco molhada.
      - Bom, tem de vestir imediatamente roupas secas, minha querida. E o seu cabelo... Fanny! - A senhora interrompeu-se a si mesma, para gritar vagamente na direco 
da cozinha. - Vamos ter de o lavar. O seu cabelo! V, eu subo as escadas consigo. Fanny!
      Uma rapariga, toda ela cotovelos, mos avermelhadas e encimada por um volume de cabelo acenourado, entrou de mansinho no vestbulo.
      - O que foi?
      A me Wren parou a meio das escadas, atrs de Anna, e debruou-se sobre o corrimo.
      - Quantas vezes j te pedi para dizeres "sim, minha senhora"? Nunca havers de ser criada numa grande casa enquanto no falares convenientemente.
      Fanny estava parada, pestanejando na direco das duas mulheres, de boca ligeiramente aberta.
      A me Wren suspirou.
      - Pe um pcaro de gua a aquecer. A menina Anna precisa de lavar o cabelo.
      A rapariga apressou-se na direco da cozinha, mas a sua cabea logo tornou a assomar.
      - Sim, minha senhora.
      A ngreme escadaria dava para um patamar minsculo. A esquerda, ficava o quarto da mulher mais velha;  direita, o de Anna. Entrou no seu pequeno quarto e 
foi direita ao espelho, pendurado sobre a cmoda.
      - No sei onde esta cidade vai parar - esbaforiu, por trs dela, a sogra. - Foi uma carruagem que a ensopou? Alguns dos cocheiros dos correios so uns irresponsveis. 
Pensam que a estrada  toda deles.
      - No poderia estar mais de acordo - retorquiu Anna, enquanto observava o seu reflexo no espelho. Uma grinalda mortia de flores de macieira decorava a parte 
de cima do espelho, uma recordao do seu casamento. - Mas, neste caso, foi um nico cavaleiro. - O seu cabelo parecia um ninho de ratos, apresentando ainda pingos 
de lama na testa.
      - Pior ainda, esses cavalheiros a cavalo - murmurou a mulher mais velha. - Acho que no so capazes de controlar os seus animais, alguns deles. So muito perigosos, 
uma ameaa para mulheres e crianas.
      - Hum... - Anna despiu o xaile e, ao andar pelo quarto, foi com a canela de encontro a uma cadeira. Lanou um olhar  volta do apertado quarto. Fora aqui que 
ela e Peter haviam passado quatro anos do seu casamento. Pendurou o xaile e o chapu no cabide, onde o casaco de Peter costumava estar. A cadeira onde em tempos 
se amontoavam os seus pesados livros de leis servia agora de mesa-de-cabeceira. At mesmo a escova dele, com uns quantos cabelos ruivos presos, h muito havia sido 
arrumada.
      - Pelo menos, salvou o arenque - a me Wren mostrava-se ainda apoquentada -, embora um mergulho na lama no beneficie em nada o seu sabor.
      - Sem dvida - retorquiu Anna, num tom ausente. Os seus olhos regressaram  grinalda. Estava a desfazer-se, o que no era de admirar, visto que enviuvara h 
j seis anos. Uma coisa horrvel. Ficaria melhor na pilha de lixo, no jardim. P-la de lado, para, mais tarde, a levar para baixo.
      - V, querida, deixe-me ajud-la. - A me Wren comeou a desprender o vestido a partir de baixo. - Vamos ter de passar aqui uma esponja imediatamente. Ainda 
h bastante lama na bainha. Talvez se lhe fizesse um novo remate... - Ao dobrar-se, a voz dela saiu abafada. - Ah, recordei-me agora, chegou a vender a minha renda 
 modista?
      Anna puxou o vestido para baixo e libertou os ps.
      - Sim, ela gostou bastante da renda. Disse que era a melhor que vira nos ltimos tempos.
      - Bom, fao renda h quase quarenta anos.- A me Wren tentava parecer modesta. Tossicou. - Quanto lhe ofereceu por ela?
      Anna retraiu-se.
      - Um xelim e seis pence - disse, agarrando num agasalho pudo.
      - Mas passei cinco meses a trabalhar nela! - disse a senhora, ofegante.
      - Bem sei. - Anna suspirou e desprendeu o cabelo. - E, tal como j disse, a modista considerou o seu trabalho da melhor qualidade. O problema  que a renda 
no vale assim tanto.
      - Passar a valer assim que a aplicar num chapu ou num vestido - murmurou a me Wren.
      Compassiva, Anna esboou um trejeito. Retirou uma toalha de banho do cabide por baixo do beiral e, depois, as duas mulheres desceram as escadas, em silncio.
      Na cozinha, Fanny pairava sobre uma chaleira de gua. Ramos de ervas secas pendiam das traves pretas, perfumando o ar. A velha lareira de tijolo ocupava uma 
parede inteira. Do lado oposto, uma janela com cortinas dava para o quintal traseiro. As alfaces apresentavam-se numa verde fileira folheada, que percorria o pequeno 
alfobre, e os rabanetes e os nabos h uma semana que estavam prontos a ser colhidos.
      A me Wren colocou uma bacia lascada sobre a mesa da cozinha. Alisada pelos muitos anos de esfrega diria, a mesa orgulhava-se do seu posto, no centro da diviso. 
A noite, era empurrada contra a parede, para que a pequena criada pudesse desenrolar a esteira de palha diante da lareira.
      Fanny trouxe a chaleira com gua. Anna inclinou-se sobre a bacia e a sogra derramou-lhe gua sobre a cabea. Estava morna.
      Anna ensaboou o cabelo e inspirou profundamente.
      - Receio que tenhamos de fazer algo relativamente  nossa situao financeira.
      - Oh! No me diga que vm a mais poupanas, minha querida... - resmungou a me Wren. - J abdiquei de carne fresca,  exceo do borrego s teras e quintas-feiras. 
E h j muito tempo que nenhuma de ns sabe o que  um vestido novo.
      Anna reparou que a sogra no mencionara o sustento de Fanny. Embora a rapariga fosse, supostamente, uma criada-cozinheira, fora, na realidade, um impulso caritativo 
de ambas. O nico parente de Fanny, o av, morrera quando ela tinha dez anos. Nessa altura, falava-se na aldeia em enviar a rapariga para um asilo, mas Anna decidiu-se 
a intervir e Fanny permanecia com elas desde essa poca. A sogra tinha esperanas de educ-la para que ela pudesse trabalhar numa casa maior, mas, at  data, os 
seus progressos eram lentos.
      - Relativamente s nossas poupanas, o seu comportamento tem sido exemplar - disse ento Anna, enquanto fazia chegar a fina espuma ao seu couro cabeludo. - 
Mas os investimentos que o Peter nos deixou no esto a correr to bem. Desde que ele faleceu, os nossos rendimentos no pararam de descrescer.
      -  uma pena que ele nos tenha deixado to pouco para viver - disse a me Wren.
      Anna suspirou.
      - A inteno dele no era deixar uma soma to pequena. Era ainda jovem quando a febre o reclamou. Tivesse ele sobrevivido, estou certa de que consolidaria 
consideravelmente as suas poupanas.
      Na verdade, Peter melhorara as finanas deles desde a morte do seu prprio pai, pouco antes do casamento. O velhote fora solicitador, mas vrios investimentos 
desavisados haviam-no enterrado em dvidas. Aps o casamento, Peter vendera a casa em que crescera, para conseguir saldar as dvidas, e mudou-se, com a sua nova 
esposa e a sua me enviuvada, para uma muito mais pequena casa de campo. Trabalhava como solicitador quando adoeceu, tendo morrido passadas duas semanas, deixando 
Anna a ter de cuidar, sozinha, da pequena famlia.
      - Enxague, por favor.
      Um fluxo de gua fria escorreu-lhe sobre a nuca e a cabea. Tateou para ter a certeza de que no restava sabo algum e, em seguida, espremeu dos cabelos a 
gua excedente. Envolveu a cabea numa toalha e olhou para cima.
      - Creio que deveria procurar um emprego.
      - Oh, minha querida, isso  que no. - A me Wren abateu-se sobre a cadeira da cozinha. - As senhoras no trabalham.
      Anna sentiu a boca a contrair-se.
      - Prefere que continue a ser uma senhora e que morramos ambas  fome?
      A sogra hesitou. Fez realmente teno de debater aquele assunto.
      - No precisa de responder - disse Anna. - De qualquer forma, no chegaremos a essa situao. Todavia, precisamos mesmo de encontrar uma maneira de aumentar 
os rendimentos da famlia.
      - Talvez se fizesse mais renda. Ou... ou podia abdicar completamente da carne - disse a sogra, um pouco descontrolada.
      - No quero que tenha de fazer isso. Alm disso, o meu pai teve o cuidado de me proporcionar uma boa educao.
      A me Wren iluminou-se.
      - O seu pai foi o melhor vigrio que Little Battleford conheceu, Deus d descanso  sua alma. Ele fazia questo de que toda a gente conhecesse a sua viso 
acerca da educao das crianas.
      - Hum... - Anna retirou a toalha da cabea e comeou a pentear o cabelo hmido. - Certificou-se de que eu aprenderia a ler, a escrever e a fazer contas. Cheguei 
a aprender um pouco de latim e de grego. Amanh, estava a pensar ir procurar emprego, como preceptora ou dama de companhia.
      - A senhora Lester est praticamente cega. De certeza que o genro dela contrataria algum para ler... - A velha senhora interrompeu-se.
      Ao mesmo tempo, Anna apercebeu-se de um cheiro acre no ar.
      - Fanny!
      A pequena criada, que ficara a assistir  troca de palavras entre as suas amas, soltou um grito e correu para a panela do ensopado. Anna resmungou.
      Mais uma ceia queimada.
      
      
      Felix Hopple parou diante da porta da biblioteca do conde de Swartingham, para examinar a sua aparncia. A peruca, com dois apertados rolos de cada um dos 
lados, fora recentemente pulverizada com um apropriado toque de lavanda. A sua figura, bastante esbelta para um homem da sua idade, surgia realada por um colete 
roxo, rematado com trepadeiras amarelas. E as calas possuam listas verdes e laranja, belas sem serem ostentatrias. A sua indumentria roava a perfeio. Com 
efeito, no havia qualquer motivo para que hesitasse junto  porta.
      Suspirou. O conde tinha uma desconcertante propenso para resmungar. Enquanto feitor de Ravenhill Abbey, Felix ouvira esse resmungo aflitivo frequentemente 
nas ltimas duas semanas. Fazia-o sentir-se como um desses desafortunados nativos, de que ouvimos falar nas narrativas de viagem, que viviam  sombra de vulces 
enormes e ameaadores. Daqueles que podem entrar em erupo a qualquer momento. O motivo por que lorde Swartingham escolhera fixar residncia ali, aps anos de abenoada 
ausncia, era para Felix insondvel, embora tivesse uma sensao desanimadora de que o conde pretendia permanecer ali por muito, muito tempo.
      O administrador passou a mo pela parte da frente do colete. Relembrava a si mesmo que, embora o assunto que estava prestes a sujeitar  considerao do conde 
no fosse agradvel, no poderia, de forma alguma, deixar entender que a culpa era sua. Assim preparado, acenou com a cabea e bateu  porta da biblioteca.
      Fez-se uma pausa, seguida de uma voz grave, segura e spera:
      - Entre.
      A biblioteca situava-se na ala ocidental da casa senhorial e o sol da tarde escorria pelas grandes janelas que preenchiam quase por completo a parede exterior. 
Poderia pensar-se que isso fizesse da biblioteca uma sala soalheira, acolhedora, mas, mal entrava, a luz parecia ser engolida por aquele espao cavernoso, deixando 
a maior parte da sala dominada pelas sombras. O teto - com a altura de dois pisos - entranava-se nas trevas.
      O conde estava sentado atrs de uma portentosa secretria barroca, capaz de fazer com que um homem mais pequeno parecesse um ano. Ali perto, uma lareira tentava 
animar o ambiente, falhando soturnamente. Um gigantesco co malhado esparramava-se diante do lume, como se estivesse morto. Felix encolheu-se. Claramente rafeiro, 
tinha uma boa parte de mastim e, talvez, um pouco de co de caa. O resultado era um candeo feio, mal-encarado, que Felix procurava evitar.
      Tossicou.
      - Poderia disponibilizar-me um momento, excelncia?
      Lorde Swartingham levantou os olhos do papel que tinha na mo.
      - O que  agora, Hopple? Entre, homem, entre. Sente-se, enquanto termino isto. Ter toda a minha ateno daqui a nada.
      Felix atravessou a sala at um dos cadeires em frente da secretria de mogno e afundou-se nele, sempre de olho no co. Aproveitou aquele adiamento para estudar 
o humor do seu amo. O conde olhava, carrancudo, a pgina diante de si, com as bexigas a tornarem a sua expresso particularmente pouco atraente. Obviamente, isso, 
por si s, no constitua um mau sinal, j que o conde apresentava habitualmente um olhar carrancudo.
      Lorde Swartingham atirou o papel para o lado. Tirou os culos de leitura em meia-lua e lanou o seu considervel peso contra a cadeira, fazendo-a ranger. Felix 
recostou-se, solidrio.
      - Diga l, Hopple.
      - Excelncia, trago notcias desagradveis que espero no o indisponham demasiado. - Sorriu hesitantemente.
      O conde olhava pelo seu enorme nariz abaixo, sem comentrio algum. Felix puxou as mangas da camisa.
      - O novo secretrio, o senhor Tootleham, recebeu a notcia de uma emergncia familiar que o obrigou a apresentar de imediato a sua demisso.
      O rosto do conde mantinha-se inalterado, embora tivesse comeado a percutir o brao da cadeira com os dedos.
      Felix falou mais rapidamente.
      - Parece que os pais do senhor Tootleham, que moram em Londres, foram acometidos por uma febre e carecem da sua ajuda,  uma doena muito virulenta, provoca 
suores e diarreias, bas... bastante contagiosa. - O conde soergueu uma sobrancelha negra. - A... alis, os dois irmos, as trs irms, a av idosa, uma tia e o gato 
da famlia do senhor Tootleham j todos foram contagiados, encontrando-se profundamente incapazes de cuidarem de si mesmos.
      - Felix parou de falar e olhou para o conde.
      Silncio.
      Felix esforava-se, corajosamente, para no balbuciar.
      - O gato? - resmungou lorde Swartingham ao de leve.
      Felix comeou a gaguejar uma resposta, mas viu-se interrompido por um grito obsceno. Agachou-se com um  vontade recm-adquirido, quando o conde pegou numa 
jarra de porcelana e a lanou por cima da cabea dele, indo estatelar-se contra a porta. Ouviu-se um tremendo estrondo e o tinir dos fragmentos em queda. O co, 
aparentemente j habituado ao estranho modo de lorde Swartingham descarregar o seu mau humor, limitou-se a soltar um suspiro.
      Lorde Swartingham inspirou profundamente, fitando Felix com os seus olhos negros como o carvo.
      - Espero que j tenha encontrado um substituto.
      O leno de pescoo do feitor apertou-se subitamente. Felix passou o dedo pela parte de cima.
      - Hum... na verdade, excelncia, embora, como  bvio, eu tenha pro... procurado diligentemente, e de facto todas as aldeias vizinhas foram exploradas, ainda 
no... - Engoliu em seco, fixando corajosamente os olhos do amo. - Infelizmente, ainda no consegui encontrar um novo secretrio.
      Lorde Swartingham no se mexeu.
      - Preciso de um secretrio para transcrever o meu manuscrito para a srie de conferncias que o Grmio Agrrio organizar daqui a quatro semanas - anunciou 
ele com desagrado. - De preferncia, algum que fique mais do que dois dias. Encontre-me essa pessoa. - Puxou de outra folha de papel e retomou a leitura.
      O encontro terminara.
      - Com certeza, excelncia. - Felix levantou-se nervosamente da cadeira e apressou-se em direco  porta. - Comearei imediatamente a procurar, excelncia.
      Lorde Swartingham aguardou que Felix estivesse prestes a chegar  porta, para proferir:
      - Hopple...
      A meio da fuga, Felix afastou culposamente a mo da maaneta.
      - Excelncia...
      - Tem at  manh de depois de amanh.
      Felix fitou o amo, ainda cabisbaixo, e engoliu em seco, sentindo-se um pouco como Hrcules quando viu pela primeira vez os estbulos do rei Egeu.
      - Com certeza, excelncia.
      Edward de Raaf, o quinto conde de Swartingham, terminou a leitura do relatrio chegado da sua propriedade em North Yorkshire, lanando-o para uma pilha de 
papis, juntamente com os culos. A luz que entrava pela janela esmorecia rapidamente e, em breve, desapareceria. Ergueu-se da cadeira e foi espreitar. O co levantou-se, 
espreguiou-se e caminhou at ficar ao seu lado, dando-lhe um toque na mo. Edward, absorto, deu-lhe uma palmada nas orelhas.
      Este era o segundo secretrio a fugir pela calada da noite num espao de dois meses. Pensar-se-ia que ele era um monstro. Todos os secretrios tinham mais 
de rato do que de homem. Bastava um pouco de mau feitio, um tom de voz mais elevado, e escapuliam-se de imediato. Se ao menos um deles tivesse metade da verve da 
mulher que ele quase atropelara no dia anterior... Os lbios contraram-se-lhe. No esquecera aquela resposta sarcstica ao motivo por que se encontrava ela na estrada. 
No, aquela senhora defendera-se quando ele lhe cuspira fogo  cara. Pena que os seus secretrios no conseguissem fazer o mesmo.
      Olhava ferozmente pela janela escurecida. E havia ainda uma outra perturbao... arreliante. A casa da sua infncia no se parecia nada com a recordao que 
tinha dela.
       verdade que, agora, era um homem. Da ltima vez que vira Ravenhill Abbey, era um rapazito a lamentar a perda da famlia. Nas duas dcadas entretanto passadas, 
vagueara pelas suas propriedades a norte at  casa de Londres, embora, de certa forma, apesar do tempo decorrido, esses dois lugares nunca tivessem conseguido ser 
um lar para ele. Mantivera-se  distncia precisamente por Ravenhill Abbey jamais poder vir a ser o stio que fora quando a sua famlia ali morara. Contou com algumas 
mudanas, mas no se preparara para esta melancolia, nem para a terrvel sensao de solido. Aquelas salas vazias destroavam-no, troando dele com as gargalhadas 
e a luz que ele recordava.
      A famlia que ele recordava.
      O nico motivo por que insistira em abrir a manso fora a esperana de trazer para aqui a sua nova noiva - a sua futura nova noiva, dependendo do sucesso na 
negociao do contrato matrimonial. Edward no estava disposto a repetir os erros cometidos aquando do seu primeiro e breve casamento, ao procurar instalar-se num 
outro lugar. Nessa altura, tentara agradar  sua jovem mulher permanecendo em Yorkshire, de onde ela era natural. No resultara. Nos anos que se seguiram  prematura 
morte da esposa, Edward chegara  concluso de que ela no teria sido feliz qualquer que fosse o local que escolhessem para a sua casa.
      Afastou-se da janela e caminhou na direco das portas da biblioteca. Comearia pela sua primeira inteno: prosseguir com a sua vida e morar em Ravenhill 
Abbey; devolver quele lugar a sensao de um lar. Era a sede do seu condado e o local onde ele pretendia plantar novamente a sua rvore genealgica. E, quando o 
casamento desse frutos, quando os corredores voltassem a ressoar com gargalhadas de crianas, ento, Ravenhill Abbey recuperaria certamente a vida.
      

  Captulo 2
       
       
       
       
       As trs filhas do duque eram igualmente formosas. A mais velha tinha o cabelo do mais profundo breu, brilhando com reflexos azul-escuros; a segunda possua 
madeixas flamejantes, que emolduravam uma pele branca como o leite; e a mais nova era dourada, quer de rosto quer de linhas, parecendo banhada pela luz do sol. Porm, 
destas trs donzelas, apenas a mais nova recebera a bondade do pai. O nome dela
       era urea...
       in O Prncipe Corvo
      
      
      
      Quem haveria de dizer que existia em Little Battleford uma tal carncia de empregos para damas distintas? Anna sabia que no iria ser fcil encontrar um trabalho 
quando deixou a quinta nessa manh, mas fez-se ao caminho com uma certa esperana. Necessitaria apenas de encontrar uma famlia com crianas analfabetas, que estivesse 
precisada de uma preceptora, ou uma velhota  procura de uma fiadeira. Seria pedir muito? Evidentemente, era.
      A tarde ia j a meio. Doam-lhe os ps, de calcorrear veredas lamacentas, e ainda no conseguira trabalho. A velha senhora Lester no nutria amor algum pela 
literatura. De qualquer modo, o genro dela era demasiado parcimonioso para sequer contratar uma dama de companhia. Anna bateu  porta de muitas outras senhoras, 
pressentindo que talvez precisassem de algum, mas vindo a descobrir que, ou no tinham oramento para uma dama de companhia, ou, simplesmente, no desejavam uma.
      Foi ento que chegou  casa de Felicity Clearwater.
      Felicity era a terceira mulher do squire1 Clearwater, um homem trinta anos mais velho do que a sua esposa. O fidalgo era o maior proprietrio de terras do 
condado, depois do conde de Swartingham. Enquanto sua mulher, Felicity considerava-se, claramente, uma figura social distinta em Little Battleford, bem acima da 
humilde famlia Wren. Porm, Felicity era me de duas raparigas com idades apropriadas para terem uma preceptora, razo por que Anna lhe bateu  porta. Despendeu 
uma dolorosa meia hora a palpar terreno, como um gato a andar sobre pedrinhas afiadas. Quando Felicity se inteirou do motivo da visita, passou suavemente uma mo 
complacente sobre o penteado, j de si imaculado. Foi ento que inquiriu acerca dos conhecimentos musicais de Anna.
      O vicariato nunca se candidatara a um cravo no tempo em que a famlia de Anna o ocupara, facto que Felicity conhecia bem, pois estivera l diversas vezes quando 
criana.
      Anna inspirou profundamente.
      - Infelizmente, no possuo quaisquer conhecimentos musicais, mas sei um pouco de latim e grego.
      Felicity abrira um leque e ria por trs dele.
      - Oh, peo desculpa - disse ela quando se recomps. - Mas as minhas meninas no vo aprender coisas to masculinas como latim ou grego. Seria bem desajustado 
para uma senhora, no lhe parece?
      Anna cerrara os dentes, mas esboou um sorriso. At que Felicity sugeriu que ela tentasse a cozinha e visse se o cozinheiro estaria precisado de uma nova copeira. 
A partir da, tudo foi por gua abaixo.
      Anna suspirou. Poderia muito bem acabar como copeira ou algo ainda pior, mas no em casa de Felicity. Estava na altura de voltar para casa.
      Ao virar a esquina do ferreiro, Anna escapou, por pouco, a uma coliso com o senhor Felix Hopple, que se apressava na direco contrria. Escorregara e fora 
parar a centmetros do peito do feitor de Ravenhill. Do seu cesto, escaparam para o cho uma embalagem de agulhas, fio amarelo de bordados e um pequeno saco de ch 
para a sogra.
      - Oh, peo perdo, senhora Wren - arquejou o homenzinho, enquanto se baixava para apanhar as coisas. - Lamento, mas no ia a prestar ateno aonde punha os 
ps.
      - No tem importncia. - Anna ps os olhos no colete listado, violeta e carmim, que ele trazia vestido e pestanejou. Deus do Cu. - Ouvi dizer que o conde 
voltou, finalmente, a habitar Ravenhill. O senhor deve andar bastante atarefado.
      Os mexericos da aldeia sibilavam com o misterioso ressurgimento (lo conde na vizinhana, depois de tantos anos, e, como toda a gente, tambm Anna estava curiosa. 
Na realidade, comeava a interrogar- se acerca da identidade do horrvel cavaleiro que quase a atropelara no dia anterior...
      O senhor Hopple soltou um suspiro.
      - Temo bem que sim. - Puxou de um leno e limpou a fronte. - Ando  procura de um novo secretrio para sua senhoria, mas no est a ser uma tarefa fcil. O 
ltimo homem que entrevistei no parava de esborratar o papel e no fiquei l muito convencido relativamente  sua ortografia. 
      - Isso seria um problema para um secretrio - murmurou  Anna.
      - Certamente. 
      - Se no encontrar ningum hoje, no se esquea de que estaro vrios cavalheiros na igreja, no domingo de manh - disse Anna. - talvez encontre algum por 
l.
      - Receio que isso no me sirva de muito. Sua senhoria deixou bem claro que deseja um novo secretrio j para a manh de amanh.
      - To rpido? - Anna olhava, espantada. -  muito pouco tempo. - Nisto, despontou-lhe um pensamento. O feitor tentava, em vo, retirar a lama da embalagem 
de agulhas. - Senhor Hopple perguntou docemente -, o conde especificou que precisava de um secretrio masculino?
      - Bom, no - retorquiu, absorto, o senhor Hopple, ainda ocupado com a embalagem. - O conde limitou-se a ordenar que contratasse um outro secretrio, mas quem... 
- Calou-se subitamente.
      Anna endireitou o chapu de palha e sorriu abertamente.
      - A verdade  que tenho andado a pensar no excesso de tempo de que disponho. No sei se sabe, mas tenho uma caligrafia impecvel. E domino muito bem a ortografia.
      - No est a sugerir...? - O senhor Hopple estava estupefacto, parecendo um alabote com uma peruca cor de lavanda.
      - Sim, estou a sugerir isso mesmo - confirmou Anna. - Parece-me a coisa mais acertada. Amanh, deverei apresentar-me em Ravenhill s nove ou s dez?
      - Hum, s nove. O conde levanta-se cedo. Mas... tem a certeza, senhora Wren... - o senhor Hopple gaguejava.
      - Sim, tenho a certeza, senhor Hopple. Pronto. Est tudo aceitado. Vemo-nos amanh s nove. - Anna deu uma palmadinha na manga do pobre homem. Ele no estava 
nada com bom ar. Virou-se para se ir embora, mas parou quando se recordou de um ponto bem importante. - S mais uma coisa. Que salrio oferece o conde?
      - O salrio? - O senhor Hopple piscou os olhos. - Bem... o conde pagava ao ltimo secretrio trs libras por ms. Estar bem para si?
      - Trs libras. - Os lbios de Anna mexeram-se lentamente, enquanto repetia as palavras em silncio. Subitamente, fizera-se um dia glorioso em Little Battleford. 
- Est muito bem.


      - E sem dvida que muitos dos quartos de cima precisaro de ser arejados e, possivelmente, tambm pintados. Tomou nota, Hopple?
      - Edward desceu os ltimos trs degraus da entrada de Ravenhill Abbey e encaminhou-se para os estbulos, com o sol morno do final de tarde a bater-lhe nas 
costas. O co, como de costume, perseguia-lhe os tornozelos.
      No houve resposta.
      - Hopple? Hopple! - Deu meia volta, com as botas a enterrarem- se na gravilha, e olhou para trs.
      - S um momento, excelncia. - O feitor s agora descia os degraus da frente. Vinha esbaforido. - Estarei consigo... num... instante.
      Edward esperou, batendo com o p, at Hopple o alcanar, dirigindo-se ento para as traseiras. Ali, no ptio, a gravilha dava lugar a pedras arredondadas. 
      - Tomou nota do que disse sobre os quartos de cima?
      - Hum... os quartos de cima, excelncia? - arquejou o pequeno homem, enquanto revia as suas notas.
      - Mande a governanta arej-los - repetiu Edward vagarosamente. - E veja se precisam de pintura. V, no se atrase, homem.
      - Sim, excelncia - murmurou Hopple, escrevinhando.
      - Espero que tenha encontrado um secretrio.
      - Hum... bem... - O feitor espreitava atentamente as suas notas.
      - Disse-lhe que precisaria de um j amanh de manh.
      - Absolutamente, excelncia, e na realidade encontrei... uma pessoa que penso poder muito bem...
      Edward estacou diante das macias portas duplas dos estbulos.
      - Hopple, encontrou um secretrio ou no?
      O feitor pareceu alarmado.
      - Sim, excelncia. Creio que se pode dizer que encontrei um secretrio.
      - Ento, porque no diz-lo de uma vez? - Edward franziu o sobrolho. - Passa-se algo de errado com o homem?
      - N... no, excelncia - Hopple ajeitou o terrvel colete roxo. - Parece-me que o secretrio ser... bastante satisfatrio, enquanto, enfim, enquanto secretrio. 
- Os seus olhos estavam fixos no cavalo do cata-vento, no cimo do telhado dos estbulos.
      Edward deu por si a inspecionar o cata-vento, que chiava e rodava lentamente. Desviou ento o olhar, para baixo. O co estava sentado a seu lado, de cabea 
espetada, fitando igualmente o cata-vento.
      Edward meneou a cabea.
      - Muito bem. Estarei ausente amanh, quando ele chegar. - Passaram da luz morna da tardinha para a escurido dos estbulos. O co ia  frente, a trote, farejando 
os cantos. - Pelo que ter de lhe mostrar o meu manuscrito e de lhe explicar, genericamente, os seus deveres. - Voltou-se. Teria imaginado ou Hopple mostrara-se 
aliviado?
      - Com certeza, excelncia - disse o feitor.
      - Viajarei at Londres amanh cedo e estarei fora o resto da semana. Quando regressar, ele ter de ter transcrito os papis que lhe deixar.
      - Absolutamente, excelncia. - O feitor estava, de facto, radiante.
      Edward olhou para ele e resmoneou:
      - Estou ansioso por conhecer o meu novo secretrio, quando regressar.
      O sorriso de Hopple esbateu-se.
      
      
      Ravenhill Abbey era um lugar intimidador, pensou Anna na manh seguinte, enquanto calcorreava a estrada que conduzia  casa senhorial. A caminhada desde a 
aldeia at  herdade era de quase cinco quilmetros e comeavam a doer-lhe as pernas. Felizmente, o sol brilhava alegremente. Velhos carvalhos ladeavam o caminho, 
uma mudana em relao aos campos abertos ao longo da vereda que vinha de Little Batlleford. As rvores eram to velhas que dois cavaleiros poderiam passar lado 
a lado pelos espaos entre elas.
      Anna contornou uma curva, arquejou e estacou. Alguns narcisos pontuavam a relva verde e fofa por baixo das rvores. Por cima, os ramos apresentavam apenas 
um tufo de folhas novas e a luz do sol atravessava-os praticamente sem obstculos. Cada narciso amarelo brilhava, translcido e perfeito, criando um mundo frgil 
e encantado.
      Que espcie de homem se afastaria deste lugar por quase duas dcadas?
      Anna recordou os relatos de uma grande epidemia de varola que dizimara Little Battleford nos anos que haviam antecedido a mudana dos seus pais para o vicariato. 
Ela sabia que a famlia do atual conde morrera por causa dessa doena, mas no deveria ele ter feito, pelo menos, uma visita durante os anos que se seguiram?
      Meneou a cabea e continuou. Logo a seguir ao campo de narcisos, o souto abriu-se e pde ver a manso com clareza. Tinha a altura de quatro andares, construda 
com pedra cinzenta, num estilo clssico. A entrada nica e central dominava a fachada no primeiro piso, de onde duas escadarias encurvadas desciam at ao piso trreo. 
Num mar de campos abertos, a casa senhorial era uma ilha, solitria e arrogante.
      Anna iniciou a longa aproximao a Ravenhill, sentindo a confiana diminuir  medida que a distncia encurtava. Aquela entrada frontal era, simplesmente, demasiado 
imponente. Hesitou um segundo ao abeirar-se da manso, contornando ento a esquina; a poucos metros, viu a entrada de servio. Tambm essa porta era alta e dupla, 
mas, pelo menos, no teria de subir degraus de granito para a alcanar. Aps inspirar profundamente, puxou a maaneta metlica e avanou diretamente para o interior 
da enorme cozinha.
      A gigantesca mesa que havia ao centro, uma corpulenta mulher de cabelos louros e brancos amassava, com os braos metidos at ao cotovelo numa tigela de barro 
do tamanho de uma caldeira. Madeixas de cabelo caam-lhe sobre a face, colando-se ao suor das suas faces ruborizadas. As restantes pessoas presentes eram uma criada 
de copa e um rapazito engraxador. Todos se viraram para Anna.
      A mulher de belos cabelos - seria realmente a cozinheira? - levantou os braos enfarinhados.
      - Sim?
      Anna levantou o queixo.
      - Bom-dia. Sou a senhora Wren, a nova secretria do conde. Sabem dizer-me onde estar o senhor Hopple?
      Sem tirar os olhos de Anna, a cozinheira gritou ao rapazito: - Tu a, Danny, vai chamar o senhor Hopple e diz-lhe que est aqui na cozinha a senhora Wren. 
Despacha-te, v.
      Danny zarpou para fora da cozinha e a cozinheira concentrou-se novamente na sua massa. Anna ficou  espera.
      A copeira olhava especada, junto  lareira imensa, coando absorta o brao. Anna sorriu-lhe. A rapariga desviou rapidamente o olhar.
      - Nunca ouvi falar de uma mulher secretria. - A cozinheira mantinha os olhos postos nas mos, trabalhando velozmente a massa. Atirou-a experientemente para 
cima da mesa e enrolou-a numa bola, contraindo os msculos dos antebraos. - J conhece, ento, sua senhoria?
      - Ainda no fomos apresentados - disse Anna. - Mas discuti as condies com o senhor Hopple e ele no levantou qualquer objeo a que eu me tornasse a secretria 
do conde. - Pelo menos, o senhor Hopple no se referiu a isso, acrescentou mentalmente, para si mesma.
      A cozinheira resmungou, sem levantar os olhos.
      - Muito bem, ento. - Arrancava com rapidez pedaos de massa, do tamanho de nozes, enrolando-os em bolinhas e formando uma pilha. - Bertha, chega-me essa travessa.
      A copeira trouxe uma travessa de ferro fundido e alinhou nela, em filas, as bolinhas.
      - Tremo de arrepios, quando ele grita - sussurrou ela.
      A cozinheira lanou um olhar amargo  copeira.
      - O piado das corujas faz-te tremer de arrepios. O conde  um excelente cavalheiro. Paga-nos a todos um salrio decente e concede-nos folgas com regularidade.
      Bertha mordia o lbio inferior, enquanto dispunha cuidadosamente cada bola.
      - Ele tem uma lngua terrivelmente afiada. Talvez tenha sido por isso que o senhor Tootleham abandonou to... - parecendo aperceber-se de que a cozinheira 
a fitava, fechou abruptamente a boca.
      A chegada do senhor Hopple quebrou o silncio incmodo. Trazia vestido um aterrador colete violeta, com cerejas escarlates bordadas por todo o lado.
      - Bom-dia, bom-dia, senhora Wren. - Dirigiu um olhar  cozinheira expectante e  copeira e baixou a voz. - Est segura... de que  isto que quer?
      - Certamente, senhor Hopple. - Anna sorriu para o feitor de um modo que esperava parecer confiante. - Estou ansiosa por conhecer o conde.
      Ouviu, atrs de si, a cozinheira soltar um suspiro.
      - Ah - tossiu o senhor Hopple. - Quanto a isso, o conde deslocou-se a Londres devido a negcios. Sabe, ele passa bastante tempo por l - disse, num tom confidente. 
- Em encontros com outros cavalheiros eruditos. O conde  como que uma autoridade em assuntos agrcolas.
      A desiluso atravessou-a.
      - Terei de esperar pelo seu regresso? - perguntou ela.
      - No, no. No ser necessrio - disse o senhor Hopple. - Sua senhoria deixou alguns papis na biblioteca para a senhora os transcrever. Permita-me que a 
acompanhe at l.
      Anna assentiu e saiu da cozinha atrs do feitor, subindo as escadas das traseiras at ao trio principal. O cho consistia num parqu de mrmore negro e rosa, 
magnificamente incrustado, embora fosse difcil perceber isso, quela luz fraca. Chegaram  entrada principal e ela contemplou a enorme escadaria. Santo Deus, era 
enorme! Os degraus conduziam a um patamar do tamanho da sua cozinha, dividindo-se em dois lanos em arco, que davam para os pisos superiores. Como  que um homem 
sozinho conseguia viver naquela casa enorme, ainda que possusse um exrcito de criados?
      Anna apercebeu-se de que o senhor Hopple falava com ela.
      - O ltimo secretrio e, como  bvio, tambm o penltimo, trabalharam num escritrio prprio por baixo das escadas - disse o pequeno homem. - Mas essa sala 
 um pouco desolada, nada apropriada para uma senhora. Da ter pensado que seria melhor instalar-se na biblioteca, onde o conde trabalha. A menos que - sugeriu o 
senhor Hopple, j sem flego - prefira ter uma sala s para si.
      O feitor dirigiu-se para a biblioteca e abriu a porta a Anna. Ela entrou e estacou subitamente, forando o senhor Hopple a contorn-la.
      - No, no. Est muito bem assim. - Ficou espantada com a suavidade da sua prpria voz. Tantos livros! Alinhavam-se em trs dos lados da sala, confinando sobre 
a lareira e estendendo-se at ao teto abobadado. Estariam mais de mil livros naquela sala. A um canto, encontrava-se uma instvel escada com rodas, aparentemente 
apenas para possibilitar o acesso a todos os volumes. Anna imaginou-se dona de todos aqueles livros, considerando a oportunidade de os ler sempre que lhe apetecesse.
      O senhor Hopple conduziu-a a um dos cantos da sala cavernosa, onde se situava uma descomunal secretria em mogno. Do lado oposto, a alguns metros de distncia, 
encontrava-se uma secretria mais pequena, em pau-rosa.
      - C est, senhora Wren - disse ele com entusiasmo. - Preparei tudo aquilo que achei que iria precisar: papel, penas, tinta, mata-borro e areia.  este o 
manuscrito que o conde gostaria de ver copiado. - Apontou para um desarrumado monte de folhas, com uns dez centmetros de altura. - O cordo da campainha est naquele 
canto. Certamente que a cozinheira ter todo o gosto em preparar-lhe ch e algo para comer, se assim desejar. Precisa de mais alguma coisa?
      - Oh, no. Est tudo muito bem assim.- Anna juntou as mos e tentou no parecer impressionada.
      - Deveras? Bom, no hesite em dizer-me se precisar de mais papel ou qualquer outra coisa. - O senhor Hopple sorriu e fechou a porta atrs de si.
      Ela sentou-se junto  pequena e elegante secretria e, reverentemente, passou o dedo pelo embutido polido. Que adorvel pea de moblia...! Suspirou e pegou 
na primeira pgina do manuscrito do conde, coberta por uma caligrafia distinta, inclinada para a direita. Havia aqui e ali frases riscadas, sendo indicadas alternativas 
escrevinhadas  margem, com vrias setas a apontar para onde deveriam ser includas.
      Anna comeou a copiar. A sua prpria caligrafia fluiu pequena e limpa. Parava de vez em quando para tentar decifrar uma palavra. A caligrafia do conde era 
verdadeiramente atroz. Passado um tempo, porm, comeou a habituar-se aos seus "psilones" enrolados e "erres" precipitados.
      Pouco depois do meio-dia, Anna pousou a pena e esfregou a tinta que tinha na ponta dos dedos. Levantou-se e puxou, a medo, o cordo da campainha. O silncio 
continuava, mas, supostamente, uma campainha teria soado algures, reclamando algum que lhe trouxesse uma chvena de ch. Olhou para a fileira de livros perto do 
cordo. Eram tomos pesados, gravados em relevo, com nomes latinos. Curiosa, puxou um deles. Ao faz-lo, um volume delgado caiu ao cho, com um baque. Anna inclinou-se 
imediatamente para o apanhar, olhando comprometida para a porta. Ainda ningum respondera  chamada.
      Concentrou-se novamente no livro que tinha entre mos. Estava encadernado em couro vermelho, suave ao toque, e no tinha qualquer ttulo. O nico adorno reduzia-se 
a uma pena de ouro em relevo, no canto inferior direito da capa. Franziu o sobrolho e ps novamente no lugar a sua primeira escolha, abrindo ento, cuidadosamente,
      O livro de couro vermelho. L dentro, na primeira folha, aparecia escrito com mo infantil: "O livro de Elizabeth Jane de Raaf."
      - Sim, minha senhora?
      Anna quase deixou cair o livro vermelho, ao ouvir a voz da criada. Apressou-se a recoloc-lo na prateleira e lanou um sorriso  rapariga.
      - Ser que poderia trazer-me um pouco de ch?
      - Com certeza. - A criada escusou-se e saiu sem mais palavras.
      Anna olhou novamente para o livro de Elizabeth, mas, decidindo que a circunspeo seria a melhor amiga da ousadia, regressou  sua secretria para esperar 
pelo ch.
      s cinco horas, o senhor Hopple voltou a entrar na biblioteca.
      - Como foi o seu primeiro dia? No muito extenuante, espero...
      Pegou no monte de folhas acabadas e passou os olhos pelas primeiras. 
      - Parecem muito bem. O conde envi-las- com prazer aos impressores. - Parecia estar aliviado.
      Anna interrogou-se se ele teria passado o dia a preocupar-se com as capacidades dela. Recolheu as suas coisas e, depois de uma ltima inspeo  secretria, 
para se certificar de que tudo ficara em ordem, desejou boa-tarde ao senhor Hopple e regressou a casa.
      A me Wren irrompeu no exato momento em que Anna chegava  pequena casa de campo, bombardeando-a com perguntas ansiosas. At Fanny a fitava, como se trabalhar 
para o conde fosse uma audcia tremenda.
      - Mas eu ainda nem sequer o conheci - protestou Anna, inutilmente.
      Os dias seguintes passaram rapidamente,  medida que a pilha de pginas transcritas aumentava constantemente. O domingo foi um dia de desejado descanso.
      Quando Anna regressou na segunda-feira, corria no ar da manso uma certa agitao. Finalmente, o conde regressara de Londres. A cozinheira nem sequer tirou 
os olhos da sopa que mexia quando Anna entrou na cozinha; o senhor Hopple no estava l para a cumprimentar, como fora diariamente o seu hbito. Anna dirigiu-se 
sozinha para a biblioteca, com a esperana de, finalmente, conhecer o seu empregador.
      Todavia, encontrou a diviso vazia.
      Ora bolas! Expirou de desiluso e pousou o cesto com o almoo na secretria de pau-rosa. Lanou-se ao trabalho e o tempo foi passando, assinalado apenas pelo 
arranhar da pena pgina abaixo. Alguns instantes depois, Anna sentiu uma outra presena e ergueu o olhar. Engoliu em seco.
      Junto  sua secretria, estava um co enorme, a apenas um brao de distncia. O animal entrara sem fazer qualquer barulho.
      Anna ficou quieta, enquanto pensava. No tinha medo de ces; em criana, tivera um pequeno e amoroso terrier. Mas este candeo era o maior que ela alguma vez 
encontrara. E, infelizmente, era-lhe tambm familiar. Vira o mesmo animal h menos de uma semana, correndo ao lado do homem horroroso que cara do cavalo na estrada 
principal. E se o bicho estava agora ali... ai, Deus meu. Levantou-se, mas o co deu um passo na sua direco e Anna sentiu a tentao de fugir da biblioteca. Ao 
invs, expirou e voltou a sentar-se. Ela e o co fixavam-se, olhos nos olhos. Esticou a mo, com a palma para baixo, para que o co a cheirasse. O animal acompanhou 
o movimento da mo com os olhos, mas desdenhou o gesto.
      - Muito bem - disse Anna, baixinho -, se vossa excelncia no se quer mexer, deixe-me, pelo menos, continuar o meu trabalho.
      Pegou novamente na pena, procurando ignorar o bicho enorme a seu lado. Pouco depois, o co sentou-se, embora continuasse a observ-la. Quando o relgio sobre 
a lareira bateu o meio-dia, Anna voltou a pousar a pena e esfregou a mo. Cautelosamente, esticou os braos sobre a cabea, certificando-se da lentido dos seus 
movimentos.
      - Ser que queres almoar? - murmurou para o animal. Abriu o pequeno cesto, coberto por um pano, que trazia todas as manhs. Pensou em fazer soar a campainha 
para pedir um pouco de ch com que acompanhar a refeio, mas no estava certa se o co lhe permitiria afastar-se da secretria.
      - Se ningum souber se preciso de alguma coisa - resmungou ela para o animal -, irei ficar colada a esta secretria toda a tarde por tua culpa.
      O cesto continha po e manteiga, uma ma e um pedao de queijo, enrolado num pano. Ofereceu uma cdea de po ao co, mas ele nem sequer a farejou.
      - s esquisito, no s? - Assim, comeou ela prpria a comer. - Suponho que estejas acostumado a comer faiso e champanhe.
      O co manteve-se sigiloso.
      Anna terminou o po e comeou a comer a ma sob o olhar atento do animal. Ser que o deixariam andar  solta pela manso se fosse perigoso? Guardou o queijo 
para o fim, inspirando ao desembrulh-lo e apreciando o aroma pungente. O queijo era, por enquanto, um enorme luxo. Anna lambeu os lbios.
      O co aproveitou esse momento para esticar o pescoo e farejar.
      Anna ficou quieta, com o pedao de queijo a meio caminho da boca. Olhou primeiro para o queijo e, depois, novamente para o co. Os olhos dele eram de um castanho 
lmpido. O animal pousou uma pesada pata no colo dela.
      Anna suspirou.
      - Um pouco de queijo, meu senhor? - Partiu um pedao e estendeu-lho.
      O queijo desapareceu num segundo, deixando-lhe na mo um  rasto de saliva canina. A espessa cauda do co varreu o tapete. Os olhos dele fitavam-na, expectantes.
      Anna levantou autoritariamente as sobrancelhas.
      - O senhor  uma vergonha.
      Deu-lhe o resto do queijo. S ento o animal se dignou a consentir que ela lhe afagasse as orelhas. No momento em que lhe dava umas palmadas na cabea, dizendo-lhe 
quo bonito e vaidoso ele era, ouviu o som de passos de botas no corredor. Levantou o olhar e viu o conde de Swartingham  porta da biblioteca, com os seus olhos 
de obsidiana fixos nela.
      

  Captulo 3
       
       
       
       
       
       Um prncipe poderoso, um homem que no temia nem Deus nem os mortais, governava as terras a leste do duque. Era um homem cruel e ambicioso, invejando do duque 
a abundncia das suas terras e a felicidade da sua gente. Certo dia, o prncipe reuniu uma fora poderosa e varreu o pequeno ducado, pilhando a terra e as gentes, 
instalando o seu exrcito junto s muralhas do castelo do duque. O velho duque trepou ao alto das ameias e contemplou um mar de guerreiros, que se estendia das muralhas 
do castelo at ao horizonte. Como poderia ele derrotar um exrcito to poderoso? Comeou a chorar pela sua gente e pelas suas filhas, que, certamente, iriam ser 
violentadas e assassinadas. Todavia, encontrando-se em tal desespero,
       ouviu uma voz rouca: - No chore, duque. Nem tudo est perdido...
       
       in O Prncipe Corvo
      
      
      
      
      Edward suspendeu a entrada na sua biblioteca. Pestanejou.  mesa do seu secretrio estava sentada uma mulher.
      Reprimiu o impulso instintivo de recuar um passo e verificar se aquela seria a porta certa. Em vez disso, semicerrou os olhos, para inspecionar a intrusa. 
Era um pequeno pedao de gente, vestida de castanho, com o cabelo escondido por uma pavorosa touca pregueada. As suas costas estavam to direitas, que no tocavam 
na cadeira. Parecia uma daquelas senhoras bem-educadas mas de poucos meios, enquanto afagava - a afagar, por amor de Deus - o monstro do seu co. A cabea do animal 
estava inclinada e a lngua pendia de lado, como a de um idiota pasmado, de olhos semicerrados pelo xtase.
      Edward olhava-o reprovadoramente.
      - Quem  a senhora? - perguntou ele, mais bruscamente do que era sua inteno.
      A boca da mulher adelgaou-se, atraindo a ateno dele. Tinha a boca mais ertica que alguma vez vira numa mulher. Era larga, o lbio superior mais cheio do 
que o inferior, um dos cantos arrebitava.
      - Chamo-me Anna Wren, excelncia. Como se chama o seu co?
      - No sei. - Entrou, altivo, na diviso, cuidando para no se mover repentinamente.
      - Mas... - a mulher franziu o sobrolho - o co no  seu?
      Ele fitou o co e ficou momentaneamente hipnotizado. Os elegantes dedos de Anna afundavam-se no plo do animal.
      - Segue-me e dorme junto  minha cama. - Edward encolheu os ombros. - Mas no lhe conheo nenhum nome.
      Parou diante da secretria de pau-rosa. Ela teria de passar por ele, caso pretendesse escapulir-se da sala.
      As sobrancelhas de Anna contraram-se repreensivamente.
      - Mas ele tem de ter um nome. Como  que o chama?
      -  raro faz-lo.
      A mulher era normalssima. Tinha um nariz comprido e fino, olhos e cabelo castanhos - pelo menos, no que respeita a este ltimo, pelo que conseguia ver. Nada 
nela era fora do comum, excetuando a boca.
      A ponta da lngua dela humedeceu o canto mais pronunciado.
      Edward sentiu o membro erguer-se e enrijecer; esperou que ela no reparasse e ficasse chocada, devido  sua mente de donzela. Sentia-se excitado por uma mulher 
desmazelada que nem sequer conhecia.
      O co deve ter-se cansado daquilo. Deslizou de baixo da mo de Anna para ir deitar-se, com um suspiro, junto  lareira.
      - Atribua-lhe a senhora um nome, se tiver de ser. - Edward voltou a encolher os ombros e pousou as pontas dos dedos da mo direita na secretria.
      O olhar avaliador que ela lhe dedicava despertou-lhe uma recordao. Os seus olhos semicerraram-se.
      - Foi a senhora que fez com que o meu cavalo se empinasse na estrada principal, no outro dia.
      - Sim. - Ela olhou-o com uma doura desconfiada. - Lamento muito que tenha cado do cavalo.
      Impertinente.
      - Eu no ca, desmontei.
      - Ah... sim?
      Ele ia retorquir, quando ela lhe estendeu um monte de papis.
      - Importa-se de ver aquilo que transcrevi hoje?
      - Hum... - resmungou, desinteressadamente.
      Retirou os culos do bolso e colocou-os sobre o nariz. Levou algum tempo a concentrar-se na pgina que tinha na mo, mas, quando o fez, Edward reconheceu a 
caligrafia da sua nova secretria. Estivera a rever as pginas transcritas na noite anterior e, embora aprovasse o esmero da cpia, intrigara-o o jeito efeminado.
      Olhou para a pequena Anna Wren por cima dos culos e expirou. No era efeminado. Era feminino. O que explicava as evasivas de Hopple.
      Leu mais algumas frases, antes de se ver confrontado com um outro pensamento. Olhou de soslaio para a mo da mulher, reparando que no usava anel. Ah... Os 
homens das redondezas deviam, provavelmente, ter medo de a cortejar.
      - A senhora no  casada?
      Ela mostrou-se surpreendida.
      - Sou viva, excelncia.
      - Ah! - Ento, fora cortejada e casada, mas deixara de o ser. Atualmente, no usufrua da companhia de nenhum homem.
      Na sequncia daquele raciocnio, Edward experimentara um sentimento de ridculo por alimentar pensamentos predatrios em relao a uma mulher to pardacenta. 
Excetuando aquela boca... Sentindo-se desconfortvel, Edward mudou de posio, fazendo regressar os seus pensamentos errantes  pgina que tinha na mo. No conseguia 
divisar borres ou erros ortogrficos. Exatamente aquilo que seria de esperar de uma viva pequena e morena. Franziu o nariz.
      Ah! Um erro. Visou a viva por cima dos culos.
      - Esta palavra deveria ser estrumar, e no extremar. No consegue perceber a minha caligrafia?
      A senhora Wren inspirou profundamente, como se quisesse fortalecer a pacincia, o que fez com que o seu generoso peito se expandisse.
      - Na verdade, excelncia, no, nem sempre consigo.
      Edward suspirou, um pouco desapontado por ela no ter discutido. Provavelmente, precisaria de vrias inspiraes profundas, se estivesse enfurecida.
      Terminou a reviso dos papis e atirou-os para cima da secretria dela, onde foram deslizando de lado. Ela esboou um esgar perante aquela pilha de papis 
a deslizar, dobrando-se para apanhar uma folha que cara ao cho.
      - Esto bastante bem - disse ele, enquanto se punha atrs dela. - Terei de vir trabalhar para aqui ao final da tarde. Enquanto isso, termine a transcrio 
do manuscrito.
      Estendeu o brao  volta dela para apanhar um pedao de linho sobre a secretria. Por um instante, conseguiu sentir o calor do corpo dela e o sumido aroma 
a rosas que dele emanava. Percebeu-a tensa.
      Edward endireitou-se.
      - Amanh, precisarei que trabalhe comigo nuns assuntos que dizem respeito  propriedade. Espero que isso seja do seu agrado.
      - Claro que sim, excelncia.
      Sentiu-a voltar-se para o fitar, mas ele encaminhava-se j para a porta.
      - Muito bem. Tenho coisas para fazer antes de vir para aqui trabalhar. - Parou junto  porta. - Ah... senhora Wren?
      Ela ergueu o sobrolho.
      - Sim, excelncia.
      - No se v embora antes de eu voltar.
      Edward avanou pelo trio, decidido a encontrar e interrogar o seu feitor.
      Na biblioteca, Anna estreitou os olhos perante a retirada do conde. Mas que homem dominador! At visto de trs parecia arrogante, com os seus largos ombros 
esqulidos e a cabea assumindo uma inclinao imperial.
      Anna ponderou as suas ltimas palavras e voltou uma cara espantada para o co deitado junto  lareira.
      - Porque acha ele que haveria de ir-me embora?
      O mastim abriu um dos olhos, mas pareceu perceber que a pergunta era retrica e fechou-o novamente. Ela suspirou e meneou a cabea, retirando ento da pilha 
uma folha de papel limpa. Afinal, ela era a sua secretria; teria apenas de aprender a suportar o desptico conde. E, como  bvio, guardar sempre para si as suas 
consideraes.
      Trs horas mais tarde, Anna j quase terminara a transcrio das pginas, sentindo uma pontada no ombro devido ao esforo. O conde ainda no voltara, apesar 
da ameaa. Ela suspirou e contraiu a mo direita, levantando-se em seguida. Talvez se justificasse um passeio pela sala. O co abriu os olhos e foi atrs dela. Ociosamente, 
Anna passou os dedos por uma prateleira de livros. Eram tomos desmedidos, volumes de geografia, a julgar pelos ttulos nas lombadas, certamente maiores do que aquele 
encadernado a vermelho que vira na semana anterior. Parou. Ainda no tivera a coragem para investigar esse pequeno volume desde que fora interrompida pela criada, 
mas, agora, a curiosidade impelia-a para a prateleira junto ao cordo da campainha.
      Ali estava ele, aninhado entre os companheiros mais altos, tal como ela o deixara. O delgado livro vermelho parecia convid-la. Anna pegou nele e abriu na 
pgina de rosto. A tipografia era ornamentada e de difcil legibilidade: O Prncipe Corvo. No havia meno a qualquer autor. Franziu a testa e folheou vrias pginas, 
at chegar a uma ilustrao de um gigantesco corvo preto, desproporcionado.
      Aparecia empoleirado sobre um muro de pedra, junto a um homem com uma comprida barba branca e de semblante fatigado. Anna esboou um esgar. A cabea do corvo 
inclinava-se, como se soubesse algo que o velho desconhecia, e o bico estava aberto como se fosse...
      - O que tem a?
      A voz grave do conde assustou-a de tal forma, que, desta vez, Anna deixou mesmo cair o livro. Como  que um homem daquele tamanho chegara em silncio? Ele 
atravessou o tapete, indiferente ao rasto de lama atrs de si, e apanhou o livro junto aos ps dela. A sua expresso apagou-se assim que viu a capa. Ela no sabia 
dizer o que estaria ele a pensar.
      Ento, ele levantou o olhar.
      - Pensei em pedir um pouco de ch - disse ele, prosaicamente, puxando o cordo.
      O enorme co encostou o focinho  mo livre do dono. Lorde Swartingham fez-lhe umas festas na cabea e virou-se para colocar o livro numa gaveta da secretria.
      Anna tossicou.
      - Estava apenas a dar uma vista de olhos. Espero que no se importe...
      Mas o conde fez-lhe sinal para se calar, no mesmo instante em que uma criada de mesa apareceu  porta. Dirigiu-se a ela.
      - Bitsy, pea  cozinheira que prepare um tabuleiro com po e ch e algo mais que tenha por l. - Olhou para Anna, aparentemente como se pensasse melhor. - 
Veja tambm se h por l uns bolinhos ou uns biscoitos, sim?
      No perguntara a Anna se preferia doces, pelo que o melhor seria que gostasse. A criada fez uma pequena reverncia e abandonou rapidamente a sala.
      Anna contraiu os lbios.
      - A minha inteno no era...
      - No h problema - interrompeu ele. O conde estava  sua secretria, procurando tinta e penas, de uma forma atabalhoada. - Veja  vontade. Todos estes livros 
merecem ser manuseados. Todavia, no sei se encontrar neles algo de interessante. A maior parte deles so histrias aborrecidas, se bem me recordo, e, provavelmente, 
estaro bolorentos, ainda por cima.
      Interrompeu-se para examinar uma folha que estava sobre o tampo. Anna abriu a boca para uma nova tentativa, mas distraiu-se ao v-lo bater com a pena, enquanto 
lia. As suas mos eram grandes e bronzeadas, bem mais do que o aceitvel para um cavalheiro. Estavam pejadas de plos pretos. Invadiu-lhe o pensamento a ideia de 
que ele talvez tambm tivesse abundncia de plos no peito. Endireitou-se e fez teno de falar.
      O conde levantou o olhar.
      - Acha que Duque seria um bom nome? - perguntou ela.
      O rosto dele imobilizou-se por instantes. Olhou pensativamente para o co.
      - No me parece. Ficaria acima de mim.
      A chegada de trs criadas com pesados tabuleiros bem recheados dispensou Anna de retorquir. Colocaram o servio de ch numa mesa junto  janela e retiraram-se. 
O conde indicou-lhe o canap e puxou para si uma cadeira.
      - Deseja que o sirva? - perguntou ela.
      - Se no se importa - assentiu ele.
      Anna serviu o ch. Julgou sentir o conde a observ-la enquanto procedia ao ritual, mas, quando levantou os olhos, o olhar dele fixava-se na chvena. A quantidade 
de comida era intimidadora. Havia po e manteiga, trs compotas diferentes, fiambre fatiado, empada de pombo, um pouco de queijo, dois pudins diferentes, bolinhos 
com fruta cristalizada e frutos secos. Anna encheu um prato para o conde com um pouco de cada, tendo em mente a fome que um homem devia ter aps algum exerccio; 
escolheu depois alguns frutos e um bolo para si. Aparentemente, o conde dispensava a conversa durante a refeio, devorando metodicamente a comida que tinha no prato.
      Anna observava-o, enquanto mordiscava um bolo de limo.
      Edward recostava-se na cadeira, uma perna cruzada sobre a outra, que se estendia para baixo da mesa. Os olhos dela acompanha iam o comprimento das suas botas 
enlameadas, subindo pelas pernas musculadas at s ancas elegantes, passando pela barriga lisa at ao peito que se ampliava nuns ombros bastante largos para um homem 
to esguio. O olhar de Anna demorou-se no rosto dele. Os olhos negros de Edward cintilaram nos dela.
      Ela corou e, depois de aclarar a garganta, disse:
      - O seu co  to... - olhou para o animal domstico - raro. No creio ter alguma vez visto um como ele. Onde o arranjou?
      O conde expirou.
      - A pergunta deveria ser antes onde  que ele me arranjou...
      - Como assim?
      O conde suspirou, ajeitando-se na cadeira.
      - Apareceu certa noite, h cerca de um ano, perto da minha propriedade em North Yorkshire. Encontrei-o na estrada. Estava esqueltico, mordido pelas pulgas 
e tinha uma corda  volta do pescoo e das patas dianteiras. Cortei a corda e o maldito animal seguiu-me at casa. - Lanou uma careta ao co, junto  sua cadeira.
      Este abanou a cauda com alegria. O conde atirou um pedao de crosta da empada, que o co abocanhou em pleno ar.
      - No consigo ver-me livre dele, desde ento.
      Anna contraiu os lbios, contendo um sorriso. Quando levantou o olhar, pareceu-lhe que o conde observava a sua boca. Oh, no! Teria acar na cara? Limpou 
rapidamente os lbios com um dedo.
      - Deve ser-lhe bem leal, depois de o ter salvo.
      Ele resmungou.
      -  mais leal aos restos de comida que consegue aqui. - O conde ergueu-se subitamente e, acompanhado pelo co, soou a campainha para que viessem buscar os 
tabuleiros. Aparentemente, a hora do ch havia terminado.
      O resto do dia passou-se de forma muito socivel.
      O conde no escrevia em silncio. Murmurava e passava as mos pelo cabelo at lhe descarem, desalinhadas, algumas madeixas sobre a face. Por vezes, levantava-se 
para passear pela sala, para depois regressar  secretria e escrevinhar furiosamente. O co parecia estar habituado ao modo de trabalho do conde e, imperturbvel, 
ressonava junto  lareira.
      Quando o relgio do trio soou as cinco horas, Anna comeou a arrumar o seu cesto. O conde franziu o sobrolho.
      - J se vai embora?
      Anna parou.
      - J bateram as cinco horas, excelncia.
      Ele mostrou-se surpreendido, olhando em seguida para as janelas escurecidas.
      - Pois, de facto.
      Ficou de p,  espera que ela terminasse, e acompanhou-a at  porta. Anna estava perfeitamente consciente da presena do conde ao seu lado enquanto caminhava 
pelo trio. A cabea dela no lhe chegava ao ombro, recordando-lhe, uma vez mais, o tamanho do homem.
      O conde esboou um esgar, quando viu o ptio da entrada vazio.
      - Onde est a sua carruagem?
      - No tenho carruagem - disse ela, um pouco asperamente. - Vim a p da aldeia.
      - Ah, claro - disse ele. - Espere aqui. Vou mandar aprontar a minha carruagem.
      Anna comeou a protestar, mas ele desceu a correr os degraus e encaminhou-se para os estbulos, deixando-a com o co por companhia. O animal gemeu e sentou-se. 
Ela fez-lhe uma festa nas orelhas. Aguardaram em silncio, escutando o vento que agitava a copa das rvores. O co espetou subitamente as orelhas e levantou-se.
      A carruagem dobrou a esquina e parou diante da escadaria frontal. O conde desceu e segurou a porta para Anna. Ansioso, o mastim comeou a descer os degraus 
 frente dela.
      Lorde Swartingham olhou, carrancudo, para o animal.
      - No s tu.
      O co baixou a cabea e foi colocar-se ao seu lado. Anna pousou a mo enluvada na mo do conde, para que ele a ajudasse a entrar na carruagem. Por um instante, 
fortes dedos masculinos apertaram os seus, desprendendo-se ento para que ela se sentasse no banco de couro vermelho.
      O conde inclinou-se para o interior da carruagem.
      - No precisa de trazer almoo amanh. Ir almoar comigo.
      Fez um sinal ao condutor antes mesmo de ela agradecer, posto o que a carruagem se ps em marcha. Anna virou o pescoo para olhar para trs. O conde permanecia 
ainda diante da escadaria, com o co enorme. Por algum motivo, aquela viso encheu-a de uma solido melanclica. Meneou a cabea e voltou a olhar em frente, repreendendo-se. 
O conde no precisava da sua compaixo.
      Edward viu a carruagem a fazer a curva. Dominava-o um estranho sentimento de que no devia perder a viva de vista. A presena dela junto de si na biblioteca, 
naquela tarde, fora estranhamente pacificadora. Censurou-se. Anna Wren no era mulher para ele. Pertencia a uma classe diferente da sua e, sobretudo, era uma viva 
respeitvel da aldeia. No era uma sofisticada senhora de sociedade que pudesse considerar uma ligao fora do matrimnio.
      - Anda. - Deu uma palmada na coxa.
      O co seguiu-o de volta  biblioteca. A diviso encontrava-se novamente fria e desoladora. Enquanto a senhora Wren estivera ali sentada, o ambiente parecera
mais aconchegante. Abeirou-se da secretria em pau-rosa e reparou num leno cado no cho. Era branco, com flores bordadas num dos cantos. Violetas, talvez? Difcil 
de dizer, uma vez que estavam um pouco tortas. Edward levou o tecido ao rosto e inalou. Cheirava a rosas.
      Enquanto passava os dedos pelo leno, dirigiu-se para as janelas escurecidas. A viagem a Londres correra bem. Sir Richard Gerard aceitara o pedido da mo da
sua filha. Gerard no passava de um baronete, mas a famlia era antiga e saudvel. A me dera  luz sete crianas, cinco das quais tinham atingido a idade adulta.
Alm do mais, Gerard possua uma pequena propriedade contigua  sua, em North Yorkshire. O homem hesitava em acrescentar esse terreno ao dote da sua filha mais velha,
mas Edward estava certo de que acabaria por ceder. Afinal, Gerard estaria a ganhar um conde como genro: um motivo de orgulho. Quanto  rapariga...
      Os pensamentos de Edward esfumaram-se e, por um horrvel instante, no conseguiu recordar-se do nome dela. Acabou por recordar-se: Sylvia. Claro, Sylvia. No 
passara muito tempo a ss com ela, mas certificara-se de que aquela aliana era do seu agrado. Perguntara-lhe, sem rodeios, se as bexigas a repugnavam, ao que ela 
respondera que no. Edward fechou o punho. Teria dito a verdade? No passado, j fora enganado pela mentira de outras pessoas em relao s bexigas. A rapariga podia 
muito bem estar a dizer-lhe aquilo que ele queria ouvir e s mais tarde ele haveria de descobrir o seu asco. Mas que alternativa lhe restava? Continuar solteiro 
e sem filhos para o resto da vida, por temer uma possvel mentira? Seria um destino insustentvel.
      Edward levou a mo  cara e sentiu o linho suave na pele. Segurava ainda o leno. Fitou-o por um instante, esfregando o tecido com o polegar; depois, dobrou-o 
cuidadosamente e pousou-o na secretria.
      Abandonou a biblioteca, seguido pelo co.
      A chegada de Anna a casa numa grande carruagem provocou excitao na famlia Wren. Viu o rosto plido de Fanny a espreitar pelas cortinas da salinha quando 
o cocheiro fez parar os cavalos junto  casa. Esperou que o criado puxasse os degraus e desceu constrangida da carruagem.
      - Obrigada. - Sorriu ao criado. - E a si tambm, cocheiro John. Lamento ter-vos causado este incmodo.
      - No constituiu qualquer incmodo, minha senhora. - O cocheiro tocou com a ponta dos dedos na aba do chapu redondo. - Ficamos satisfeitos por v-la em casa
e em segurana.
      O criado pulou para a parte de trs da carruagem e, com um aceno de cabea para Anna, o cocheiro emitiu um som para incitar os cavalos. A carruagem mal se
afastara quando a me Wren e Fanny se apressaram a sair de casa, para bombardearem Anna com perguntas.
      - O conde mandou-me para casa na sua carruagem - explicou Anna, enquanto se dirigia para o interior.
      - Meu Deus, que homem gentil - exclamou a sogra.
      Anna pensou na maneira como o conde lhe ordenara que fosse na carruagem.
      - Deveras - disse, retirando o xaile e a touca.
      - Conheceu ento pessoalmente o conde, senhora? - perguntou Fanny. Anna sorriu  rapariga, assentindo. - Nunca vi um conde, senhora. Como  ele?
      -  um homem como todos os outros - retorquiu Anna.
      Mas no estava segura das suas prprias palavras. Se o conde era um homem como todos os outros, por que razo sentia ela aquela estranha necessidade de o espicaar 
para discutir? Nenhum dos outros homens dos seus conhecimentos lhe dava vontade de o desafiar.
      - Ouvi dizer que tem marcas horrveis no rosto, devido  varola.
      - Querida Fanny - exclamou a me Wren -, o nosso interior  bem mais importante do que o aspecto exterior.
      Ficaram as trs a contemplar aquele nobre sentimento por um instante. Fanny franziu a testa, enquanto digeria as palavras.
      A me Wren tossicou.
      - Ouvi dizer que as bexigas lhe abrangem a metade superior do rosto.
      Anna reprimiu um sorriso.
      - Ele tem, de facto, bexigas no rosto, mas no so assim to visveis. Alis, tem um lindo e espesso cabelo preto, uns belos olhos escuros e a sua voz  bem 
atraente, bela at, especialmente quando fala baixo. E  muito alto, com ombros bastante largos, musculados. - Parou repentinamente.
      A me Wren fitava Anna com estranheza, enquanto esta se desembaraava das luvas.
      - A ceia est pronta?
      - A ceia? Ah, sim, j deve estar pronta - disse a sogra, enxotando Fanny para a cozinha. - Temos morcela e uma deliciosa galinha assada, que a Fanny comprou 
por um belo preo ao senhor Brown. Ela tem andado a praticar a arte de regatear. Achmos que seria uma bela iguaria para celebrar o seu emprego.
      - Que bom. - Anna comeou a subir as escadas. - Vou refrescar-me.
      A me Wren segurou-a pelo brao.
      - Tem a certeza de que sabe o que est a fazer, minha querida? - perguntou, em voz baixa. - Por vezes, as senhoras de uma certa idade desenvolvem... bem... 
ideias acerca de cavalheiros. - Fez uma pausa, rematando em seguida: - Ele no  da sua classe, sabe? S lhe iria provocar sofrimento.
      Anna olhou para a mo frgil e enrugada que a segurava pelo brao; ento, sorriu deliberadamente e levantou o olhar.
      - Estou perfeitamente ciente de que qualquer coisa de natureza pessoal entre mim e lorde Swartingham seria desapropriada. No precisa de se preocupar.
      A velhota perscrutou os olhos de Anna por um instante, antes de lhe afagar o brao.
      - No se demore, querida. Esta noite, ainda no queimmos a ceia.
      

  Captulo 4





       O duque voltou-se e viu um corvo enorme empoleirado na muralha do castelo. O pssaro aproximava-se aos saltinhos, empertigando a cabea.
       - Ajudar-vos-ei a derrotar o prncipe se me concederdes a mo de uma das vossas filhas. 
       -  Como te atreves, tratante?! - O velho duque estremeceu de indignao. - Insultas-me ao considerares que seria capaz de pensar em casar uma das minhas filhas 
com um pssaro poeirento.
       - Belas palavras, meu amigo - crocitou o corvo. - Mas no vos precipiteis. Num instante, podereis perder as vossas filhas, bem como a vossa vida. 
       O duque fitou o corvo e constatou que no se tratava de um pssaro comum. Trazia uma corrente dourada ao pescoo e, pendurado nela, um pingente de rubi, com 
a forma de uma pequena e perfeita coroa. Olhou novamente para o exrcito ameaador que se encontrava aos seus portes e, vendo que pouco tinha a perder, concordou 
com o mpio acordo...
       
       in O Prncipe Corvo
      
      
      
      - J pensou no nome Fofinho? - perguntou Anna, enquanto dava uma colherada na ma cozida.
      Ela e o conde estavam sentados numa das pontas da enorme mesa da sala de jantar. A avaliar pela fina camada de p sobre o mogno da outra ponta da mesa, Anna 
sups que aquela sala no teria muito uso. Cearia o conde regularmente ali? Todavia, todos os dias da semana anterior, a sala de jantar fora aberta para o almoo 
de ambos. Nessa semana, Anna dera-se conta de que o conde no era muito conversador. Depois de vrios dias de grunhidos e respostas monossilbicas, tornara-se uma 
espcie de jogo provocar uma reao no seu amo.
      Lorde Swartingham parou de cortar a empada de carne e fgado.
      - Fofinho?
      Os olhos dele concentravam-se na boca dela e Anna apercebeu-se de que tinha lambido os lbios.
      - Sim. No acha que Fofinho  um nome encantador?
      Olharam ambos para o co, ao lado da cadeira do conde. O animal roa um osso, com os afiados caninos a brilharem.
      - Creio que Fofinho no ser o mais adequado para o seu carcter - disse lorde Swartingham, colocando no prato uma fatia de empada.
      - Hum... talvez tenha razo - mastigou Anna pensativamente. - Contudo, no props nenhuma alternativa.
      O conde cortava vigorosamente um pedao de carne.
      - Isso deve-se ao facto de me sentir satisfeito por o animal no ter um nome.
      - No teve ces quando era pequeno?
      - Eu? - Fitou-a como se lhe tivesse perguntado se possura duas cabeas em pequeno. - No.
      - Nenhum animal de estimao?
      Ele esboou um trejeito, olhando para a empada.
      - Enfim, havia o cozinho da minha me...
      - V, a tem - exclamou Anna triunfalmente.
      - Mas o bicho era um pug extremamente irritante.
      - Ainda assim...
      - Costumava rosnar e morder toda a gente, menos a minha me - meditou o conde, aparentemente para si mesmo. - Ningum gostava dele. Chegou a morder um criado. 
O meu pai teve de dar um xelim ao coitado.
      - E esse pug tinha um nome?
      - Fiddles - O conde acenou a cabea e comeu um pedao de empada. - Mas o Sammy chamava-lhe Piddles. Dava-lhe gomas s para o ver com os doces colados ao cu 
da boca.
      Anna sorriu.
      - O Sammy era o seu irmo?
      Lorde Swartingham levara um copo de vinho aos lbios, tendo parado uma frao de segundo antes de beber.
      - Sim - pousou o copo, com preciso, ao lado do prato. - Esta tarde, vou precisar de tratar de uma srie de assuntos relacionados com as minhas propriedades.
      O sorriso de Anna eclipsou-se. Aquela encenao estava a chegar ao fim. Ele prosseguiu:
      - Amanh, preciso que saia comigo. O Hopple quer mostrar-me umas terras que esto com problemas de drenagem e gostaria que tomasse notas enquanto discutimos 
possveis solues. - Levantou os olhos. - Dispe de roupa adequada para montar, certo?
      Anna bateu com os dedos ao de leve na chvena de ch.
      - Na realidade, nunca montei.
      - Nunca? - O conde ergueu o sobrolho.
      - No temos nenhum cavalo.
      - Pois, claro.- Franziu o nariz  empada que tinha no prato, como se fosse ela a culpada pela falta de vesturio adequado por parte de Anna. - Tem algum vestido 
que pudesse usar como traje de amazona?
      Anna percorreu mentalmente o seu magro guarda-roupa.
      - Poderia modificar um antigo.
      - Excelente. Vista-o amanh e dar-lhe-ei uma lio elementar de equitao. No ser muito difcil. No iremos muito longe.
      - Oh, mas, excelncia - protestou Anna -, no quero causar-lhe nenhum incmodo. Posso pedir a um dos moos da estrebaria para me ensinar.
      - No - fitou-a fixamente. - Eu prprio irei ensin-la a montar.
      Que homem dominador. Anna contraiu os lbios e conteve uma resposta, optando, ao invs, por beber um gole de ch.
      O conde terminou a sua empada com duas dentadas e empurrou a cadeira para trs.
      - Vemo-nos antes de se ir embora esta tarde, senhora Wren. - E, com um "anda" murmurado, abandonou a sala, seguido pelo co, ainda annimo.
      Anna ficou a olhar para os dois. Estaria ela irritada por o conde lhe dar ordens, como fazia com o co? Ou comovida por ele insistir em ser ele prprio a ensin-la 
a montar? Encolheu os ombros e terminou o ch.
      Ao entrar na biblioteca, atravessou a sala at  sua secretria e comeou a escrever. Pouco depois, quis puxar de uma folha limpa, mas descobriu que j no 
havia nenhuma. Que maada! Levantou-se para tocar a campainha, mas de imediato se recordou da resma que o conde guardava na gaveta lateral. Esgueirou-se por trs 
da secretria dele e abriu a gaveta. Ali, no cimo de uma pilha de folhas em branco, repousava o livro de couro vermelho. Anna afastou-o e retirou umas quantas folhas. 
Com o movimento, um pedao de papel caiu ao cho. Dobrou-se para o apanhar e viu tratar-se de uma carta ou de um recibo. No cimo, estava gravada uma marca curiosa. 
Pareciam ser dois homens e uma mulher, embora ela no conseguisse distinguir o que as figurinhas estariam a fazer. Ficou a estudar a carta em vrias posies na 
sua mo.
      O lume crepitava na lareira ao canto da sala. De repente, Anna compreendeu e quase deixou cair o papel. Uma ninfa e dois stiros estavam envolvidos num ato 
que no parecia ser fisicamente possvel. Inclinou a cabea para um lado. Obviamente, era possvel. Por baixo daquela ilustrao obscena surgiam escritas em letra 
adornada a expresso Gruta de Afrodite. O papel era uma factura relativa a uma estada de duas noites numa casa, e dava para imaginar que tipo de casa seria, pela 
escandalosa imagem no topo. Quem haveria de dizer que um bordel enviava facturas mensais, tal como um alfaiate?
      Anna sentiu no estmago um certo enjoo. Se guardava a factura na secretria, lorde Swartingham devia frequentar aquele lugar. Sentou-se com custo e tapou a 
boca com uma mo. Porque a incomodaria tanto a descoberta das paixes mais bsicas do conde? Era um homem maduro, que perdera a mulher havia vrios anos. Ningum 
com um pingo de conhecimento mundano poderia esperar que ele permanecesse celibatrio para o resto da vida. Anna pousou a folha execrvel no colo. Mas a verdade 
era que imagin-lo a participar em tal atividade com belas mulheres lhe despertava no peito um estranho peso.
      Raiva. Ela sentia raiva. A sociedade podia no contar com o celibato do conde, mas esperaria, certamente, o celibato dela. Ele, enquanto homem, podia frequentar 
casas de m reputao e divertir-se toda a noite com criaturas sedutoras e sofisticadas. Ao passo que ela, uma mulher, deveria ser casta e nem sequer pensar em olhos 
escuros e peitos peludos. No era justo. Nada mesmo.
      Anna meditou na maldita carta ainda por um instante. Depois, voltou a coloc-la cuidadosamente na gaveta da secretria, por baixo do papel em branco. Fez teno 
de fechar a gaveta, mas parou, fixando-se no livro do corvo. A sua boca contraiu-se e, impulsivamente, pegou no livro. Enfiou-o na gaveta do meio da sua prpria 
secretria e retomou o trabalho. O resto da tarde foi-se arrastando e o conde no chegou a regressar das terras, tal como prometera.
      Horas mais tarde, na carruagem ruidosa que a levava a casa, Anna batia com uma das unhas no vidro da janela e via os campos a cederem lugar aos trilhos lamacentos 
da aldeia. Os bancos de couro cheiravam a mofo, devido  humidade. Identificou uma rua conhecida ao fazerem uma curva, levantando-se abruptamente e batendo no tejadilho 
da carruagem. John, o cocheiro, gritou aos cavalos e a carruagem estacou num solavanco. Anna desceu e agradeceu apressadamente ao cocheiro. Encontrava-se numa zona 
com casas um pouco maiores e mais recentes do que a sua modesta residncia. A terceira casa no caminho era feita de tijolos, com uma faixa branca. Bateu  porta.
      Num pice, uma criada espreitou.
      Anna sorriu  rapariga.
      - Ol, Meg. A senhora Fairchild est em casa?
      - Boa tarde, senhora Wren. - Meg, de cabelos escuros, sorria com alegria. - A senhora vai ficar muito satisfeita por v-la! Pode esperar na salinha, que eu 
vou avis-la de que est c.
      Meg indicou o caminho para a salinha de luminosas paredes amarelas. Um gato pardo esparramava-se no tapete, aproveitando os ltimos raios de sol que entravam 
pela janela. No sof, estava um cesto com uma grande panplia de material de coser, os fios pendendo desarrumados. Anna dobrou-se para cumprimentar o gato, enquanto 
esperava.
      Ouviram-se passos nas escadas e Rebecca Fairchild surgiu  entrada.
      - No tem vergonha? Passou-se tanto tempo desde a ltima vez que veio c... comeava a pensar que me tinha abandonado quando mais preciso.
      A mulher contradisse imediatamente as suas palavras, ao dirigir-se a Anna para a abraar. A sua barriga tornava difcil o abrao, pois estava redonda e pesada, 
impondo-se diante de Rebecca como as velas enfunadas de um barco.
      Anna retribuiu com fervor o abrao da sua amiga.
      - Peo desculpa. Tem razo. Tenho desleixado as minhas visitas. Como se sente?
      - Gorda. Sim,  verdade - disse Rebecca, face ao protesto de Anna. - At o James, esse homem adorvel, deixou de se oferecer para me carregar escadas acima. 
- Sentou-se repentinamente no sof, falhando por pouco o cesto de coser. - O cavalheirismo j quase desapareceu. Mas tem de me contar tudo acerca do seu novo emprego 
na manso.
      - Soube disso? - Anna tomou uma das cadeiras em frente do canap.
      - Se soube disso? No tenho ouvido falar de outra coisa. - Rebecca baixou dramaticamente a voz: - O sombrio e misterioso conde de Swartingham contratou a jovem 
viva Wren por motivos desconhecidos e fecha-se diariamente com ela com nefandos propsitos s seus.
      Anna estremeceu.
      - Apenas lhe transcrevo documentos.
      Rebecca esboou um gesto, como que ignorando aquela explicao mundana, no momento em que Meg entrou com um tabuleiro de ch.
      - No me diga isso. Sabe que  das poucas pessoas que conhece realmente o homem? Pelos boatos que correm na aldeia, esconde-se na sua manso para que ningum 
tenha a oportunidade de o observar. Ele  realmente to repugnante como dizem?
      - Ah, no! - Anna sentiu uma pontada de raiva. Ser que diziam que lorde Swartingham era repugnante apenas por causa de algumas marcas? - No  bonito, como 
 bvio, mas no deixa de ser atraente. - Bem atraente para ela, pelo menos, sussurrou-lhe uma voz interna. Anna olhou para as mos. Quando  que teria deixado de 
reparar nas marcas e comeara a concentrar-se no homem que se ocultava por trs delas?
      - Pena... - Rebecca parecia desiludida com a informao de que o conde no seria um ogre hediondo. - Quero saber dos seus segredos obscuros e das tentativas 
que fez para a seduzir.
      Meg desapareceu em silncio. Anna riu-se.
      - Ele pode muito bem ter vrios segredos obscuros - a voz dela hesitou, ao recordar-se da factura -, mas  pouco provvel que ande a tentar seduzir-me.
      - Claro que ele no tentar enquanto a Anna andar com essa horrvel touca. - Rebecca apontou, com a chaleira, para a desagradvel pea de vesturio. - No 
percebo porque a pe. No tem idade para isso.
      -  suposto as vivas usarem toucas - disse Anna, palpando a touca de musselina de forma constrangida. - Alm disso, no pretendo que ele me seduza.
      - Porque no?
      - Porque... - Anna parou.
      Apercebeu-se, com horror, de que as palavras lhe fugiam e que no conseguia recordar-se de uma razo pela qual no quisesse que o conde a seduzisse. Levou 
um biscoito  boca e mastigou com vagar.
      Felizmente, Rebecca no reparara no seu sbito silncio, discorrendo agora sobre penteados que achava ficarem bem  sua amiga.
      - Rebecca - interrompeu Anna -, acha que todos os homens sentem necessidade de mais do que uma mulher?
      Rebecca, que servia a segunda chvena de ch, olhou-a de uma forma demasiado complacente.
      Anna sentiu-se a corar.
      - Quero dizer...
      - Deixe, querida, sei bem o que quer dizer. - Rebecca pousou lentamente a chaleira. - No posso falar por todos os homens, mas estou certa de que o James me 
tem sido fiel. Na verdade, se alguma vez ele pretendesse procurar uma aventura, esta seria a altura ideal. - Fez uma pequena festa na barriga e pegou em mais um 
biscoito.
      Anna j no conseguia ficar quieta. Levantou-se e comeou a examinar o bricabraque na prateleira sobre a lareira.
      - Desculpe. Eu sei que o James jamais...
      - Ainda bem que sabe - suspirou Rebecca com delicadeza. - Devia ter ouvido o conselho que a Felicity Clearwater me deu sobre o que esperar de um marido quando 
estamos grvidas. Segundo ela, todos os maridos esto s  espera... - de repente, Rebecca marcou uma pausa.
      Anna pegou numa pastora de porcelana e tocou a borda dourada do seu chapu. No estava a ver bem. Sentia-se como se os seus olhos estivessem desfocados.
      - Agora sou eu quem pede desculpa - disse Rebecca.
      Anna no levantou os olhos. Sempre se perguntara se Rebecca saberia. Agora, tinha a certeza. Fechou os olhos.
      - Parece-me que qualquer homem que tome levianamente os votos matrimoniais - ouviu Anna da boca de Rebecca - se desonra a si mesmo de forma imperdovel.
      Devolveu a pastora  prateleira.
      - E a esposa? Em parte, no ser ela culpada por ele ter procurado satisfao fora do casamento?
      - No, minha querida - retorquiu Rebecca. - No creio que a esposa tenha culpa.
      Anna sentiu-se subitamente mais leve. Esboou um sorriso, embora temesse que sasse forado.
      -  a melhor das amigas, Rebecca.
      - Claro que sim. - A outra mulher sorriu como uma gata vaidosa. - E, para prov-lo, vou chamar a Meg para que nos traga uns bolos com natas. Que decadncia, 
minha amiga!
      Na manh seguinte, Anna chegou a Ravenhill Abbey envergando um velho vestido azul de l fiada. Ficara acordada at bem para l da meia-noite, a alargar a saia, 
esperando agora conseguir montar um cavalo com toda a modstia. O conde estava j  entrada da manso, aparentemente  espera dela. Vestia umas calas cinzento-amareladas 
at ao joelho e botas militares castanhas, que lhe chegavam a meio da perna. Estavam um pouco gastas e baas, e Anna deu por si a pensar, no pela primeira vez, 
no criado pessoal do conde.
      - Ah, senhora Wren! - O conde fitou a saia dela. - Sim, servir perfeitamente. - Sem esperar por uma resposta, comeou a dirigir-se para os estbulos.
      Anna apressou o passo para o acompanhar.
      O cavalo castanho do conde encontrava-se j selado e impaciente, mostrando os dentes ao moo da estrebaria. O rapaz segurava, de brao esticado, o freio do 
cavalo,  cautela. Por contraste, uma rolia gua acastanhada estava imvel, placidamente, junto  pedra que ajudaria Anna a mont-la. O co surgiu das traseiras 
dos estbulos e veio na direco de Anna, aos pulos. Parou numa derrapagem diante dela, tentando recuperar, tardiamente, alguma da sua dignidade.
      - J te desmascarei, menino - sussurrou-lhe ela, fazendo-lhe uma festa na orelha.
      - Quando parar de brincar com esse animal, senhora Wren...
      Lorde Swartingham olhava, carrancudo, para o co.
      Anna endireitou-se.
      - Estou pronta.
      Ele apontou para a pedra e Anna aproximou-se, hesitante. Conhecia a teoria de montar um cavalo com silho; porm, a realidade era um pouco mais complicada. 
Conseguiu colocar um p no estribo, mas sentiu dificuldades em alar-se e em passar a outra perna sobre a sela.
      - Se me permite... - O conde estava atrs dela. Anna sentiu a sua respirao morna, com um suave hlito a caf, quando ele se debruou sobre ela.
      Assentiu, muda.
      Ele ps as enormes mos em volta da sua cintura e levantou-a, sem esforo aparente. Cuidadosamente, colocou-a na sela e segurou o estribo, para que ela fixasse 
o p. Anna sentiu-se corar, ao olhar para a cabea inclinada do conde. Ele deixara o chapu com o rapaz e ela pde ver alguns cabelos brancos, como que intrusos, 
no seu rabo-de-cavalo. Seria o seu cabelo liso ou hirsuto? A mo enluvada de Anna ergueu-se e, como se por sua espontnea vontade, tocou ao de leve os cabelos do 
conde. Recolheu de imediato a mo, mas ele parecia ter sentido qualquer coisa. Olhou para cima e fitou-a nos olhos por um instante, que pareceu intemporal. Ela ficou 
a ver as suas plpebras cerrarem-se e um leve rubor propagou-se pelas mas do rosto do conde.
      Foi ento que ele se endireitou, pegando no brido do cavalo.
      -  uma gua bem serena - disse ele. - Acho que no ter problemas com ela, a menos que apaream ratazanas.
      Ela olhou-o, pestanejando.
      - Ratazanas?
      Ele assentiu.
      - Ela tem medo de ratazanas.
      - No a censuro - murmurou Anna. Fez uma festa, a medo, na crina da gua, sentindo nos dedos o plo spero.
      - Chama-se Daisy - disse lorde Swartingham. - Quer que a conduza um bocadinho, pelo terreiro para que se habitue?
      Ela concordou.
      O conde deu um estalido com a lngua e a gua ps-se em movimento. Anna agarrou-se a um tufo da crina. O seu corpo contraiu-se por completo, perante aquela 
sensao desconhecida de se mover to distante do cho. A gua sacudiu a cabea.
      Lorde Swartingham olhou para as mos dela.
      - Ela consegue perceber o seu medo. No  verdade, minha menina?
      Anna, desarmada por estas ltimas palavras, largou a crina da gua.
      - Muito bem. Deixe o seu corpo relaxar-se. - A voz dele rodeava-a, envolvendo-a no seu calor. - Ela reage melhor a um toque suave. Quer ser acarinhada e amada, 
no , minha linda?
      Andaram  volta do terreiro do estbulo, com a voz grave do conde a encantar a gua. Algo no interior de Anna parecia aquecer e derreter ao escut-lo, como 
se tambm ela se deixasse encantar. Ele deu-lhe instrues simples sobre como segurar nas rdeas e sentar-se. Ao fim de meia hora, Anna sentia-se j muito mais confiante 
sobre a sela.
      Lorde Swartingham montou o seu cavalo e avanou pelo caminho. O co corria junto deles, desaparecendo por vezes na erva alta que ladeava o acesso  manso 
e ressurgindo minutos mais tarde. Quando chegaram  estrada, o conde deixou que o seu cavalo tomasse a dianteira, galopando estrada abaixo e regressando logo de 
seguida, de maneira a libert-lo de alguma energia. A pequena gua observava as diabruras do macho sem dar sinal de pretender alterar o seu passo lento. Anna voltou 
o rosto para o sol. Sentia muito a sua falta, aps o longo Inverno. Divisou algo amarelado por baixo das sebes que delimitavam a estrada.
      - Olhe, prmulas. Parece-me que so as primeiras do ano, no acha?
      O conde olhou para onde ela apontava.
      - Aquelas flores amarelas? Nunca as tinha visto.
      - Tentei cultiv-las no meu jardim, mas elas no gostam de ser transplantadas - disse ela. - No entanto, tenho algumas tlipas. Reparei nos narcisos maravilhosos 
que h no souto de Ravenhill Abbey. Tambm tem tlipas, excelncia?
      Ele mostrou-se um pouco perplexo com a pergunta.
      - Talvez ainda haja tlipas nos jardins. Recordo-me de a minha me as apanhar, mas j no vou aos jardins h tanto tempo...
      Anna esperou, mas ele nada acrescentou.
      - Nem toda a gente gosta de jardinagem,  certo - disse ela, procurando ser bem-educada.
      - A minha me adorava jardinagem. - Ele tinha os olhos postos no fundo da estrada. - Plantou os narcisos que a senhora viu e recuperou os enormes jardins murados 
nas traseiras da manso. Quando ela morreu... - o conde esboou um esgar - quando morreram todos, havia que tratar de outras coisas mais importantes. E, agora, os 
jardins esto to descuidados, e h tanto tempo que esto assim, que vou mandar arras-los.
      - Ah, nem pensar! - Anna reparou no levantar de sobrolho do conde e baixou o tom de voz. - Quero dizer, um bom jardim pode sempre ser recuperado.
      - Com que finalidade? - perguntou ele, esboando um esgar.
      Anna ficou desorientada.
      - Um jardim tem sempre uma finalidade.
      Ele arqueou, cptico, o sobrolho.
      - A minha me tinha um jardim encantador no vicariato, quando eu era pequena - disse Anna. - Havia crocos, narcisos e tlipas na Primavera, para alm de cravos, 
dedaleiras e mil-flores, com amores-perfeitos um pouco por todo o lado.
      Enquanto ela falava, lorde Swartingham observava atentamente o seu rosto.
      - Em minha casa, agora, tenho malvas-rosas, claro, bem como muitas das outras flores que a minha me cultivava. Gostaria de ter mais espao para acrescentar 
umas rosas - ponderou. - Porm, as rosas so caras e requerem bastante terra. Infelizmente, no posso justificar essa despesa, uma vez que a horta est em primeiro 
lugar.
      - Talvez pudesse aconselhar-me em relao aos jardins da manso nesta Primavera - disse o conde. Voltou a cabea do cavalo e virou para uma vereda de lama.
      Anna concentrou-se na tarefa de fazer virar a gua. Quando olhou em redor, viu o campo inundado. O senhor Hopple j l estava,  conversa com um agricultor, 
que envergava um avental de l e um chapu de palha. Este ltimo estava a sentir dificuldades em encarar o seu interlocutor olhos nos olhos, pois o seu olhar descaa 
para o fantstico colete cor-de-rosa que o senhor Hopple trazia vestido, o qual tinha qualquer coisa preta bordada nas pontas. A medida que se aproximava, Anna foi-se 
apercebendo de que o bordado parecia representar porquinhos pretos.
      - Bom-dia, Hopple, senhor Grundle. - O conde acenou com a cabea ao seu feitor e ao agricultor. Os olhos precipitaram-se para o colete. - Mas que indumentria 
mais interessante, Hopple. No me recordo de alguma vez ter visto algo assim. - O tom do conde era solene.
      O senhor Hopple sorriu abertamente, passando a mo pelo colete.
      - Bem, muito obrigado, excelncia. Mandei faz-lo numa lojinha em Londres, na minha ltima viagem.
      O conde apeou-se, passando a comprida perna por cima da garupa do cavalo. Entregou as rdeas ao senhor Hopple e dirigiu-se para a montaria de Anna. Segurando-a 
suavemente pela cintura, ajudou-a a descer. Por um breve instante, as pontas dos seus seios roaram no casaco dele e Anna sentiu os enormes dedos do conde apertarem-se. 
Passados uns segundos, j estava no cho e ele voltava-se para o feitor e para o agricultor.
      Passaram a manh a cirandar pelo campo, examinando o problema com a gua. A dada altura, o conde ficou atolado at aos joelhos em gua lamacenta, enquanto 
investigava uma fonte suspeita da inundao. Anna tirava notas num pequeno caderno que ele lhe facultara. Estava contente por ter escolhido usar uma saia velha, 
pois rapidamente esta ficou suja at ao debrum.
      - Como pretende drenar o terreno? - perguntou Anna, no caminho de regresso  manso.
      - Teremos de escavar uma vala ao longo da parte norte. - Lorde Swartingham olhava pensativamente, de soslaio. - O que pode vir a ser um problema, porque as 
terras nessa zona do para a propriedade do Clearwater e, por cortesia, terei de mandar l o Hopple para pedir permisso. O agricultor j perdeu a plantao de ervilhas 
e, se o terreno no ficar rapidamente arvel, perder a oportunidade para o trigo... - Interrompeu-se e olhou-a de esguelha.
      - Peo desculpa. Com certeza, a senhora no se interessa por nenhum destes assuntos.
      - Na realidade, interesso-me, excelncia. - Anna endireitou-se na sela, agarrando-se apressadamente  crina de Daisy quando esta se desviou. - Tenho andado 
imersa nos seus escritos acerca da gesto de terrenos. Se bem compreendo as suas teorias, um agricultor dever, aps uma plantao de trigo, proceder a uma plantao 
de feijes ou ervilhas, seguindo-se uma de beterrabas forrageiras e por a fora. Se  assim, no deveria o agricultor plantar agora beterrabas, em vez de trigo?
      - Na maioria das situaes, teria razo, mas neste caso...
      Anna escutou a voz grave do conde discorrendo sobre legumes e cereais. Teria sido a agricultura sempre assim fascinante sem que ela disso se apercebesse? Por 
algum motivo, Anna achava que no.
      Uma hora mais tarde, durante o almoo com a senhora Wren, Edward deu por si, absorto, a propor vrias maneiras de drenar um terreno. O tpico era, obviamente, 
interessante, mas ele nunca antes tivera a ocasio de falar com uma mulher acerca de assuntos to masculinos. Alis, ele mal tivera qualquer oportunidade para falar 
com uma mulher, pelo menos desde a morte da me e da irm. Quando era jovem, tinha naturalmente desempenhado o papel do sedutor, sabendo igualmente como participar 
numa amena cavaqueira. Porm, trocar ideias com uma mulher, da mesma forma que faria com um homem, era uma nova experincia. E agradava-lhe conversar com a pequena 
senhora Wren. Ela escutava-o inclinando a cabea para um dos lados, enquanto os raios solares se difundiam pela janela da sala de jantar, acentuando suavemente a 
curva da sua face. Tal ateno extrema era sedutora.
      Por vezes, ela respondia com um sorriso arqueado ao que ele ia dizendo. Estava fascinado com aquele sorriso cambado. Uma das pontas dos seus lbios rosados 
levantava-se sempre mais do que a outra. Apercebeu-se de que estava fixado na boca dela, na esperana de ver aquele sorriso novamente, fantasiando com o seu possvel 
sabor.
      A excitao comeava a pressionar-lhe o forro das calas, tornando-as desconforta-velmente apertadas. Deu-se conta de que, ultimamente, tinha este problema 
quase constantemente na companhia da sua nova secretria.
      Cus! Era um homem acima dos trinta, no um rapazito, para andar a suspirar pelo sorriso de uma mulher. A situao at podia ser risvel, no lhe estivesse 
a doer tanto o membro.
      Edward apercebeu-se, repentinamente, de que a senhora Wren lhe fizera uma pergunta.
      - O qu?
      - Perguntei-lhe se estava a sentir-se bem, excelncia - insistiu ela. Parecia preocupada.
      - Sim, estou bem. - Inspirou profundamente e desejou, irritado, que ela o tratasse pelo nome prprio. Ansiava ouvi-la dizer "Edward". Mas no. Seria altamente
desapropriado.
      Reuniu os seus pensamentos dispersos.
      -  melhor voltarmos ao trabalho. - Levantou-se e atravessou a sala, com a sensao de que estava a fugir de monstros que cuspiam fogo, em vez de uma mera 
viva.
      Quando o relgio bateu as cinco horas, Anna arrumou a pequena pilha de transcries que terminara nessa tarde e olhou para o conde. Ele estava sentado, debruado 
sobre uma folha. Ela tossicou.
      - J est na hora? - inquiriu ele, levantando o olhar.
      Ela assentiu.
      Ele ergueu-se e esperou que ela recolhesse as suas coisas. O co seguiu-os at  entrada, descendo ento as escadas para o caminho. O animal farejou atentamente 
qualquer coisa no cho, tendo depois rebolado, esfregando a cabea e o pescoo no que quer que fosse.
      Lorde Swartingham suspirou.
      - Tenho de mandar um dos moos do estbulo lav-lo antes de ele entrar novamente em casa.
      - Hum... - murmurou Anna pensativamente. - O que acha de Adnis? - Ele olhou-a com um horror to incrdulo, que lhe foi difcil conter o riso. - No, no me 
parece - murmurou ela.
      O co levantou-se e sacudiu-se, ficando com uma das orelhas dobrada ao contrrio. Veio na direco deles e quis parecer solene, com a orelha ainda do avesso.
      - Tem tino, rapaz. - O conde endireitou a orelha do co.
      Com isto, Anna riu-se mesmo. Ele olhou-a de soslaio, transmitindo a impresso de que a sua boca se contrara. Surgiu ento a carruagem e Anna entrou, com a
ajuda do conde. O co j sabia que no poderia subir e deixou-se ficar, observando melancolicamente.
      Anna recostou-se e ficou a admirar o desfile do cenrio habitual. Quando a carruagem se aproximou da periferia da povoao, viu um vulto na valeta. Curiosa, 
debruou-se da janela, para ver melhor. O vulto mexeu-se e surgiu uma cabea com belos cabelos castanhos, que se voltaram perante o som da carruagem.
      - Pare! Cocheiro John, pare imediatamente! - Anna batia no tejadilho com o punho.
      A carruagem abrandou at parar e ela abriu rapidamente a porta.
      - O que se passa, menina?
      Anna viu o rosto pasmado de Tom, o criado, enquanto ela passava pela parte de trs da carruagem, levantando as saias com uma das mos. Chegou ao lugar onde 
vira o vulto e olhou para baixo.
      Na valeta, estava uma jovem mulher.
      

  Captulo 5
       
       
       
       
       
       No instante em que o duque aceitou a proposta, o corvo lanou-se nos ares com um poderoso bater de asas. Ao mesmo tempo, um exrcito mgico comeou a sair 
da torre de menagem do castelo. Primeiro, dez mil soldados de infantaria, todos armados com escudos e espadas. Em seguida, dez mil arqueiros, transportando compridos 
e mortferos arcos e aljavas repletas. Por fim, dez mil cavaleiros, com os seus cavalos de dentes cerrados e prontos para o combate. O corvo voou at  cabea do 
exrcito e enfrentou as tropas do prncipe com um estrondo de trovo. Nuvens de poeira cobriam ambas as foras, impossibilitando a viso. Apenas se ouviam os gritos 
terrveis dos homens em batalha. E quando, por fim, a poeira se dissipou, no havia vestgio do exrcito do prncipe,  exceo de umas quantas ferraduras jazendo 
por terra...
       
       in O Prncipe Corvo
      
      
      
      A mulher estava deitada de lado na valeta, com ambas as pernas recolhidas, como que para gerar calor. Segurava um xaile sujo em volta dos ombros, to magros 
que metiam d. O vestido debaixo do xaile fora em tempos de um rosa vivo, encontrando-se agora coberto de ndoas. Os seus olhos fechavam-se, num rosto plido e doente.
      Anna segurava na saia com uma das mos, usando a outra para se amparar na rampa,  medida que descia na direco da mulher enferma. Sentiu um cheiro revoltante 
ao aproximar-se.
      - Est magoada, minha senhora? - Anna tocou o rosto plido.
      A mulher gemeu e os seus enormes olhos abriram-se, sobressaltando Anna. Nas suas costas, o cocheiro e o criado desciam da carruagem.
      O cocheiro John soltou um som de repugnncia.
      - Venha embora, senhora Wren. Isto no  lugar para uma senhora.
      Anna voltou, atnita, os olhos para o cocheiro. Ele desviou a cara, olhando para os cavalos. Ela olhou para Tom, que inspecionava as pedras aos seus ps.
      - Esta senhora est magoada ou doente, John - Anna franziu a testa. - Temos de ir buscar ajuda.
      - Com certeza, senhora, mandaremos algum para cuidar dela - disse John. - Agora, devia voltar  carruagem e seguir viagem para casa, senhora Wren.
      - Mas no posso deixar a senhora aqui.
      - Ela no  propriamente uma "senhora", se  que me fao entender - John cuspiu para o lado. - No lhe fica bem incomodar-se com ela.
      Anna olhou para a mulher que envolvera nos seus braos. Reparava agora numa coisa que lhe escapara: a poro de pele descoberta no cimo do vestido da mulher 
e a m qualidade do tecido. Franziu o sobrolho, enquanto refletia. Alguma vez encontrara uma prostituta? No lhe parecia. Essas pessoas viviam num mundo diferente 
do das pobres vivas do campo. Um mundo que a comunidade proibia terminantemente que intersectasse o seu. O melhor seria fazer o que John dizia, deixando para trs 
aquela coitada. Era, afinal, o que se esperaria dela.
      O cocheiro estava de mo estendida, para a ajudar a subir. Anna fitou aquela mo. Teria sido a sua vida sempre assim to constrangida, com fronteiras to estreitas, 
que sentia, por vezes, estar a caminhar numa corda bamba? Preocupar-se-ia assim tanto com a sua reputao social?
      No, no podia ser. Anna ganhou foras.
      - Seja como for, John, estou preocupada com esta mulher. Leve-a, por favor, at  carruagem, com a ajuda do Tom. Ir para minha casa e chamaremos o doutor 
Billings.
      Os dois homens no pareciam nada satisfeitos com a situao, mas, sob o seu olhar determinado, carregaram entre os dois a leve mulher at  carruagem. Anna 
entrou primeiro, voltando-se para ajudar a instalar a mulher no banco da carruagem. Abraou-a com os dois braos, para que ela no casse durante a viagem. Quando 
a carruagem parou, deitou a mulher com cuidado e saiu. John continuava no banco alto do condutor, olhando em frente, com a testa enrugada.
      Anna levou as mos s ancas.
      - John, venha ajudar o Tom a lev-la para dentro.
      O cocheiro resmungou, mas acabou por descer.
      - O que se passa, Anna? - A me Wren viera at  porta.
      - Uma senhora infeliz que encontrei junto  estrada. - Anna ficou a ver os homens retirando a mulher da carruagem. - Tragam-na para dentro, por favor.
      A me Wren abriu caminho, para que os homens passassem com a mulher inconsciente pela soleira da porta.
      - Onde quer que a deixemos, senhora? - arquejou Tom.
      - Creio que no meu quarto, no cimo das escadas.
      Isto fez com que John olhasse reprovadoramente para Anna, mas ela ignorou-o. Levaram a mulher escada acima.
      - O que se passa com a senhora? - perguntou a me Wren.
      - No sei. Parece-me que est doente - respondeu Anna. - Achei melhor traz-la para c.
      Os homens desceram as escadas e saram.
      - No se esqueam de passar em casa do doutor Billings - gritou Anna.
      O cocheiro acenou, irritado, com a mo sobre o ombro, para mostrar que ouvira. Pouco depois, a carruagem afastou-se ruidosamente. Por essa altura, Fanny estava 
j  entrada, de olhos esbugalhados.
      - Pes a chaleira ao lume para o ch, Fanny? - pediu Anna. Assim que Fanny se dirigiu para a cozinha, Anna puxou a sogra para o lado. - O John e o Tom dizem 
que esta pobre mulher no  inteiramente respeitvel. Mando-a para outro lado, se a senhora quiser. - Olhou-a com ansiedade.
      A me Wren franziu o sobrolho.
      - Quer dizer que  uma "puta"? - Perante o olhar pasmado de Anna, ela sorriu e deu-lhe uma palmadinha na mo. - Seria muito difcil chegar  minha idade sem 
ter ouvido a palavra pelo menos uma vez, minha querida.
      - Pois, de facto - retorquiu Anna. - Sim, o John e o Tom sugeriram-me que ela seria uma meretriz.
      - Sabe que o mais aconselhvel seria mand-la embora... - suspirou a me Wren.
      - Sim, sem dvida. - Anna ergueu o queixo.
      - Porm - a velha senhora levantou os braos -, se  seu desejo cuidar dela aqui, no me oporei.
      Anna expirou de alvio, correndo escada acima, para se inteirar do estado da sua doente.
      Um quarto de hora depois, ouviu-se uma pancada seca na porta. Anna desceu as escadas a tempo de ver a sogra aprumar as saias e abrir.
      O Dr. Billings, com uma peruca branca, estava  porta.
      - Muito bom-dia, minhas senhoras.
      - Bom-dia, doutor Billings - respondeu a me Wren, em nome da ambas.
      Anna acompanhou o mdico at ao seu quarto. O Dr. Billings teve de baixar a cabea para entrar na diviso. Era um cavalheiro alto e esqueltico, com uma ligeira 
inclinao de ombros e cabea. A ponta do seu nariz aquilino estava sempre cor-de-rosa, mesmo no Vero.
      - Bom, que temos ento aqui?
      - Uma mulher que encontrei em dificuldades, doutor Billings - disse Anna. - Pode verificar se est doente ou magoada? 
      Ele tossicou.
      - Se me deixar a ss com esta pessoa, senhora Wren, tentarei examin-la.
      Claramente, John informara o Dr. Billings do gnero de mulher que tinham encontrado.
      - Creio que vou ficar, se no se importar, doutor Billings - disse Anna.
      O mdico obviamente que se importava, mas no tinha razo alguma para mand-la sair do quarto. Independentemente da ideia que fazia da paciente, o Dr. Billings 
foi metdico e cuidadoso na sua avaliao. Examinou-lhe a garganta e pediu a Anna que se virasse, para que pudesse auscultar o peito da mulher adoecida.
      Estendeu ento os cobertores sobre ela e suspirou.
      - Creio que o melhor  discutirmos isto l em baixo.
      - Com certeza. - Anna saiu do quarto  frente e desceu as escadas, parando para pedir a Fanny que trouxesse um pouco de ch  salinha. Apontou ento o nico 
cadeiro ao mdico e sentou-se em frente dele, no pequeno canap, enleando as mos no colo. Estaria a mulher a morrer?
      - Ela est bastante doente - comeou o Dr. Billings por dizer.
      Anna inclinou-se para a frente.
      - Sim?
      O mdico evitou o seu olhar.
      - Est com febre, talvez devido a uma infeo pulmonar. Vai precisar de descansar na cama, para recuperar. - Hesitou, apercebendo- se depois da inquietao 
no rosto de Anna. - Oh, no  nada de grave, posso garantir-lhe, senhora Wren. Ela vai recuperar. S precisa de tempo para ficar boa.
      - Fico muito aliviada. - Anna sorriu. - Por aquilo que disse, pensei que a doena seria fatal.
      - De todo.
      - Graas a Deus.
      O Dr. Billings passou o dedo pelo nariz.
      - Mandarei imediatamente algum assim que chegar a casa. Ela vai ter de ser levada para o asilo para ser tratada, naturalmente.
      Anna esboou um esgar.
      - Mas pensei que tivesse percebido, doutor Billings. A nossa inteno  tratar dela aqui em casa.
      O rosto do mdido foi ficando cada vez mais ruborizado.
      - Que absurdo!  completamente desapropriado para si e para a senhora Wren ficarem a cuidar de uma mulher daquelas.
      Anna marcou a sua posio.
      - J debati o assunto com a minha sogra e concordamos ambas em que a senhora seja tratada em nossa casa.
      O rosto do Dr. Billings estava, agora, completamente enrubescido.
      - Isso est completamente fora de questo.
      - Doutor...
      Mas o Dr. Billings interrompeu-a.
      - Ela  uma meretriz!
      Anna esqueceu-se do que ia a dizer e fechou a boca. Fitou o mdico e viu a verdade no seu semblante: era assim que a maior parte das pessoas de Little Battleford 
reagiria. Inspirou profundamente.
      - Decidimos que iramos cuidar desta mulher. A forma como ela ganha a vida no ir alterar a nossa deciso.
      - Seja razovel, senhora Wren - resmungou o mdico. - -vos impossvel tratar daquela criatura.
      - A doena no  contagiosa, pois no?
      - No, no, neste momento j no ser - admitiu ele.
      - Bem, ento no h motivo para no cuidarmos dela. - Sorriu com ironia.
      Fanny entrou com o ch. Anna serviu-se a si e ao mdico, tentando manter-se to serena como possvel. No estava habituada a discutir com cavalheiros e sentia 
que era bem difcil permanecer resoluta e no pedir desculpa. Saber que o mdico discordava da conduta dela, que, na realidade, a condenava, era uma sensao bastante 
perturbadora. Simultaneamente, no podia conter o entusiasmo. Que coisa fantstica, dizer abertamente o que lhe ia na cabea, independentemente da opinio de um 
homem! De facto, devia envergonhar-se com esse pensamento, mas nada nela parecia arrepender-se. Absolutamente nada.
      Beberam o ch num silncio pesado, com o bom mdico, aparentemente, convencido de que no conseguiria fazer Anna mudar de ideias.
      Ao terminar a sua chvena, o Dr. Billings retirou da sua mala um pequeno frasco castanho, que entregou a Anna, fornecendo-lhe tambm indicaes quanto  administrao 
do medicamento. Depois disso, enfiou o chapu na cabea e enrolou um cachecol cor de lavanda em volta do pescoo.
      Acompanhado por Anna, parou junto  porta.
      - Se mudar de ideias, senhora Wren, mande chamar-me, por favor. Encontrarei um lugar apropriado para a rapariga.
      - Obrigada - murmurou Anna. Fechou a porta e encostou-se a ela, de ombros descados.
      A me Wren apareceu e examinou cuidadosamente a nora.
      - O que tem ela, minha querida?
      -  Febre e uma infeo pulmonar. - Anna olhou-a, exausta. - Talvez fosse melhor a senhora e a Fanny ficarem em casa de amigos at isto terminar.
      A me Wren franziu a testa.
      - Quem cuidaria dela durante o dia, quando est em Ravenhill?
      Anna reflectiu, subitamente preocupada.
      - Tinha-me esquecido disso.
      A sogra meneou a cabea.
      - Ser mesmo necessrio criar todo este incmodo, minha querida?
      - Peo desculpa.- Anna olhou para baixo, reparando que tinha uma mancha de erva na saia. No iria sair... as manchas de erva nunca saem. - No quero arrast-la
para esta minha confuso.
      - Ento, porque no aceitar a ajuda do mdico?  muito mais fcil fazermos simplesmente o que  esperado de ns, Anna.
      - Pode ser mais fcil, mas no  necessariamente o que est certo. Consegue compreender isso? - Olhou suplicantemente para a sogra,  procura das palavras
certas. As suas aes tinham feito todo o sentido quando contemplara, na valeta, o rosto doentio da mulher. Agora, com a me Wren pacientemente  espera, era-lhe
mais difcil argumentar a sua lgica. - Sempre fiz o que era esperado, no foi? Fosse ou no aquilo que estava certo.
      A sogra franziu o nariz.
      - Mas nunca fez nada de errado...
      - Mas no  isso que est em questo, ou ? - Anna mordeu o lbio e descobriu, para seu horror, que estava  beira das lgrimas.
      - Por nunca ter ousado renegar o papel que me foi atribudo  nascena, nunca me pus  prova. Acho que sempre tive demasiado medo das opinies dos outros.
Tenho sido uma covarde. Se aquela mulher precisa de mim, porque no ajud-la, por ela... e por mim?
      - S sei que esse caminho lhe reserva enormes sofrimentos. - A me Wren meneou novamente a cabea, suspirando.
      Anna dirigiu-se para a cozinha, onde as duas mulheres iriam preparar um caldo de carne. Levou-o, juntamente com o frasquinho castanho do remdio, at ao quarto 
de cima. Silenciosamente, entreabriu a porta e espreitou. A mulher mexia-se sem foras, tentando levantar-se.
      Anna pousou o que trazia nas mos e atravessou o quarto na direco dela.
      - No tente mexer-se.
      Ao ouvir a voz de Anna, a mulher abriu os olhos e observou em redor, descontroladamente.
      - Qu... qu... quem  a senhora?
      - Chamo-me Anna Wren. Est em minha casa.
      Apressou-se a trazer o caldo de carne para junto da mulher.
      Passou o brao  volta da sua paciente, ajudando-a cuidadosamente a sentar-se. A mulher bebericou o caldo e engoliu com dificuldade. Aps beber metade da tigela, 
os seus olhos comearam novamente a fechar-se. Anna ajudou-a a recostar-se na cama e recolheu a tigela e a colher.
      A mulher agarrou-a com uma mo trmula, quando ela se voltava.
      - A minha irm - segredou ela.
      Anna franziu a testa.
      - Quer que eu informe a sua irm?
      A mulher assentiu.
      - Espere - disse Anna. - Deixe-me ir buscar um pedao de papel e um lpis, para apontar a morada. - Foi rapidamente at  cmoda e abriu a gaveta inferior. 
Por baixo de um monte de velhos lenis, estava um estojo de escrita castanho que pertencera a Peter. Retirou-o e sentou-se na cadeira ao lado da cama, com o estojo 
no colo. - Para onde devo enviar uma carta  sua irm?
      A mulher ciciou o nome da irm e o respectivo endereo, que ficava em Londres, enquanto Anna ia anotando a morada num pedao de papel. Depois disso, a mulher 
deixou-se cair, exausta, sobre a almofada.
      Anna tocou-lhe, a medo, na mo.
      - Pode dizer-me o seu nome?
      - Pearl - murmurou ela sem abrir os olhos.
      Anna saiu do quarto com o estojo, fechando a porta atrs de si, com cuidado. Correu escadas abaixo e entrou na salinha, para redigir a carta  irm de Pearl, 
uma certa menina Coral Smythe.
      O estojo de escrita de Peter era uma caixa rectangular rasa. Podia ser ajustada ao colo e usada como secretria porttil. No topo, apresentava uma tampa dobrvel, 
que ocultava uma caixinha para penas, um frasco de tinta, papel e outras coisas que podiam ser utilizadas para a correspondncia. Anna hesitou. Aquele estojo de 
escrita era uma coisa lindssima e ela ainda no tocara nele desde a morte de Peter. Quando ele era vivo, fora um objecto muito privado. Anna sentia-se quase uma 
intrusa ao us-lo, particularmente por no terem estado muito prximos nos ltimos tempos de vida dele. Meneou a cabea e abriu o estojo.
      Escreveu cuidadosamente, tendo necessitado, todavia, de alguns rascunhos para compor a carta. Por fim, conseguiu uma missiva que a satisfazia, pondo-a de lado 
para a levar, no dia seguinte,  estao da mala-posta de Little Battleford. Quando ia para colocar novamente a caixa com as penas no estojo castanho, apercebeu-se 
de que havia qualquer coisa por baixo, a obstruir. A caixa no cabia. Abriu por completo a tampa e abanou o estojo. Ps ento a mo por trs. Estava ali qualquer 
coisa arredondada e fria. Anna fez fora e o objeto desprendeu-se. Quando retirou a mo, na sua palma aninhava-se um pequeno medalho de ouro. A tampa apresentava 
uns belos rabiscos gravados e linha na parte de trs um alfinete, para que uma senhora o pudesse usar como broche. Apertou o fecho de ouro e o medalho abriu-se.
      Estava vazio.
      Anna voltou a unir as duas metades. Passou, pensativamente, o dedo sobre a gravao. O medalho no era seu. Na verdade, nunca o vira. Sentiu uma sbita vontade 
de o atirar para o outro lado da sala. Como se atrevia ele? Mesmo aps a morte, atormentava-a desta forma? No aturara ela j o bastante enquanto fora vivo? E agora, 
encontrava aquele objeto desgraado, que estivera ali  espera durante tantos anos. Anna levantou o brao, com o medalho encerrado no seu punho. As lgrimas turvavam-lhe 
a viso.
      Ento, respirou fundo. Peter estava sepultado havia mais de seis anos. Ela estava viva e ele h muito que se tornara p. Voltou a inspirar e distendeu os dedos. 
O medalho rutilava, inocente, na palma da sua mo.
      Com cuidado, Anna meteu-o no bolso.
      O dia seguinte era domingo.
      A igreja de Little Battleford era um pequeno edifcio de pedra cinzenta, com um campanrio inclinado. Construda durante a Idade Mdia, era terrivelmente ventosa 
e fria nos meses de Inverno. Anna passara vrios domingos na esperana de que a homilia terminasse antes que a botija de gua quente trazida de casa perdesse o calor 
e os dedos dos ps se lhe gelassem por completo.
      Fez-se um sbito silncio quando as Wren entraram na igreja. Os muitos olhos que rapidamente se desviaram vieram confirmar a suspeita de Anna de que seria 
ela o tpico em debate, mas cumprimentou as outras senhoras sem demonstrar que sabia ser o centro das atenes. Rebecca acenou de um dos bancos da frente. Estava 
sentada junto ao marido, James, um homem alto e louro, com uma barriga proeminente. A me Wren e Anna sentaram-se no banco ao lado deles.
      - Mas que vida animada a senhora tem levado ultimamente - segredou Rebecca.
      - Ah, sim? - Anna estava a braos com as suas luvas e a Bblia.
      - Hum... - murmurou Rebecca. - No fazia ideia de que estaria a ponderar exercer a mais velha profisso do mundo.
      Estas palavras cativaram a ateno de Anna.
      - O qu?
      - Ainda no a acusaram disso, mas alguns andam muito perto de o fazer. - Rebecca sorriu  senhora da fila de trs, que se inclinara para a frente. A mulher 
recuou bruscamente, suspirando. A amiga prosseguiu: - Os boatos, por c, no andavam to animados desde que a mulher do moleiro deu  luz dez meses depois de ele 
ter morrido.
      O vigrio entrou e a congregao calou-se para a missa. Como era de esperar, a homilia versou sobre os pecados de Jezebel, embora o pobre vigrio Jones no 
parecesse muito agradado com a prdica. Anna apenas precisou de fitar as costas direitas que nem um prumo da senhora Jones, sentada no banco da frente, para adivinhar 
quem escolhera aquele tema. Por fim, a missa chegou ao seu desolador trmino e toda a gente se levantou para abandonar a igreja.
      - No sei porque  que deixaram as mos e os ps - disse James, quando a congregao se levantava.
      Rebecca olhou para o marido com uma afetuosa exasperao.
      - O que  que ests para a a dizer, querido?
      - A Jezebel - murmurou James. - Os ces no lhe comeram as mos nem os ps. Por que razo? No costumam ser to especficos em relao ao que comem, pelo que
sei.
      Rebecca revirou os olhos, dando uma palmada no brao do marido.
      - No te preocupes com isso, meu querido. Talvez, naquela poca, os ces fossem diferentes.
      James no pareceu ficar muito satisfeito com a explicao, tendo, porm, acatado o discreto toque da mulher, indicando a porta. Anna ficou comovida ao reparar
que a sogra e Rebecca iam lado a lado com ela, ficando James a "defender" a retaguarda.
      Todavia, no precisaria de uma to leal barricada, pois, apesar de ter recebido alguns olhares reprovadores, nem todas as senhoras de Little Battleford mostravam
descontentamento. Na verdade, muitas das mulheres mais jovens invejavam o novo trabalho de Anna como secretria de lorde Swartingham, sentimento que, aos olhos delas,
parecia transcender a problemtica defesa de uma prostituta.
      Anna estava quase a deixar para trs a pequena multido no exterior da igreja, comeando a descontrair-se, quando escutou uma voz excessivamente afvel por
cima do ombro.
      - Senhora Wren, queria que soubesse que a considero verdadeiramente corajosa.
      Felicity Clearwater segurava, descuidadamente, a sua pequena capa numa das mos, de maneira a evidenciar o elegante vestido. Ramalhetes cor de laranja e azuis
pendiam sobre um fundo amarelo. A saia abria-se  frente, revelando um saiote em brocado azul, e todo o conjunto ocultava uma larga armao.
      Por instantes, Anna fantasiou como seria bom vestir uma roupa to bela como a de Felicity; ento, a sogra empertigou-se a seu lado.
      - A Anna no pensou em si prpria quando trouxe para casa aquela pobre mulher.
      Felicity esbugalhou os olhos.
      - Ah, certamente que no. Cus, para enfrentar o desagrado de uma aldeia inteira, j para no falar na repreenso que acabou de receber do plpito, no deve 
ter mesmo pensado em nada.
      - No creio que tenha de levar to a srio os sermes sobre Jezebel - disse Anna baixinho. - Afinal, tambm podero aplicar-se a outras mulheres desta aldeia.
      Por algum motivo, esta fraca rplica fez com que a outra mulher endurecesse.
      - No fao ideia do que est a falar. - Os dedos de Felicity percorreram s cegas, como aranhas, o seu cabelo. - Ao contrrio do que acontece consigo, ningum
poder apontar-me o dedo pelas minhas companhias. - Com um sorriso tenso, Felicity desapareceu antes que Anna pudesse elaborar uma resposta adequada.
      - Gata... - Os prprios olhos de Rebecca cerraram-se, um pouco como os dos felinos.
      J em casa, Anna passou o resto do dia a remendar meias, um talento que desenvolvera por necessidade. Depois de cear, subiu ao quarto de Pearl e encontrou-a
bem melhor. Ajudou-a a sentar-se e a comer um pouco de papas de aveia, deslassadas com leite. Era uma mulher de boa aparncia, ainda que desgastada pela vida.
      Pearl no parou sossegada com uma madeixa do seu cabelo claro durante alguns minutos, at que finalmente rebentou:
      - Mas porque  que me trouxe para sua casa?
      Anna sobressaltou-se.
      - Estava deitada na beira da estrada. No ia deix-la ali.
      - Sabe que tipo de rapariga eu sou, no sabe?
      - Bem...
      - Sou prostituta. - Pearl pronunciou a ltima palavra com um desafiador franzir de boca.
      - Pensmos que poderia ser - respondeu Anna.
      - Ento, agora tem a certeza.
      - Mas no vejo que isso faa diferena alguma.
      Pearl ficou perplexa. Anna aproveitou a oportunidade para enfiar um pouco mais de papa na boca aberta.
      - Olhe l! A senhora no  uma daquelas religiosas, pois no? - Os olhos de Pearl fecharam-se, suspeitosos.
      Anna parou com a colher em pleno ar.
      - O qu?
      Pearl remexeu, nervosamente, no lenol que lhe cobria os joelhos.
      - Uma daquelas religiosas que pegam em raparigas como eu para as recuperar. Ouvi dizer que no lhes do nada mais que po e gua e as pem a fazer malha at
os dedos sangrarem e se arrependerem.
      Anna olhou para a papa leitosa na tigela.
      - Isto no  po e gua, pois no?
      Pearl corou.
      - No, senhora, creio que no.
      - Dar-lhe-emos algo mais substancial quando estiver mais fortalecida, garanto-lhe.
      Pearl parecia ainda duvidosa, pelo que Anna acrescentou:
      - Pode ir-se embora logo que queira. Enviei uma carta  sua irm. Ela no deve tardar a chegar.
      -  verdade... - Pearl parecia aliviada. - Recordo-me de lhe ter fornecido o endereo dela.
      - Tente no se preocupar, durma bem - disse Anna, levantando-se subitamente.
      - Certo. - A testa de Pearl estava ainda franzida.
      Anna suspirou.
      - Boa-noite.
      - Boa-noite, senhora.
      Anna desceu as escadas com a tigela e a colher e enxaguou-as. J estava bastante escuro quando recolheu ao colcho de palha, instalado no quarto da sogra.
      Dormiu profundamente, s acordando quando a sogra lhe abanou levemente o ombro.
      - Anna, talvez seja melhor levantar-se, querida, se quiser chegar a Ravenhill a horas.
      S ento passou pela cabea de Anna o que iria pensar o conde da sua paciente.
      Segunda-feira de manh, Anna entrou apreensiva na biblioteca da manso. Percorrera a p todo o caminho desde sua casa, temendo o confronto com lorde Swartingham, 
esperando, sem acreditar muito nisso, que ele fosse mais razovel do que o mdico. Contudo, o conde parecia estar como sempre: carrancudo e rabugento, com o cabelo 
e o leno de pescoo desalinhados. Depois de a cumprimentar, no tardou a comunicar-lhe que encontrara um erro numa das pginas que ela transcrevera no dia anterior. 
Anna suspirou, grata de alvio, e lanou-se ao trabalho.
      Aps o almoo, porm, a sua sorte esgotou-se. Lorde Swartingham dera um salto  povoao para se encontrar com o vigrio e discutir uma contribuio financeira 
para a renovao da abside. O seu regresso foi anunciado pela porta da frente a bater contra a parede.
      - Senhora Wren!
      Anna contraiu-se com o berro e o subsequente fechar de porta. O co, junto  lareira, levantou a cabea.
      - Maldio! Onde se meteu a mulher?
      Anna revirou os olhos. Estava na biblioteca, como de costume. Onde achava ele que ela poderia estar?
      O som das botas atravessou o trio; foi ento que a figura alta do conde ensombrou a entrada.
      - O que tem a dizer-me sobre essa refugiada imprpria que est em sua casa, senhora Wren? O mdico estava perturbadssimo quando me contou do seu desvario. 
- Avanou at  secretria de pau-rosa e cruzou os braos diante dela.
      Anna levantou o queixo e tentou fit-lo; proeza difcil, pois ele empregava toda a sua envergadura.
      - Encontrei uma infeliz que precisava de ajuda, excelncia, e, naturalmente, levei-a para minha casa at ela se restabelecer.
      Ele fitava-a carrancudo.
      - Uma infeliz rameira, diga antes. A senhora perdeu o juzo?
      Estava bem mais furioso do que Anna esperara.
      - Ela chama-se Pearl.
      - Ah, muito bem. - O conde afastou-se energicamente da secretria dela. - J tem intimidade com essa criatura.
      - Quero apenas realar que  uma mulher, no uma criatura.
      - Semntica. - O conde esboou um gesto de rejeio. - No se preocupa com a sua reputao?
      - A questo no  a minha reputao.
      - No  a questo? No  a questo? - Deu meia volta, impetuosamente, e comeou a palmilhar o tapete em frente da secretria.
      O co deixou descair novamente as orelhas e baixou a cabea, ficando a seguir os movimentos do dono com os olhos.
      - Gostaria que no repetisse as minhas palavras - murmurou Anna. Sentia um rubor a alastrar pelas faces e desejava conseguir control-lo. No queria mostrar-se 
fraca diante dele.
      O conde, na extremidade mais distante do seu trajeto, no parecia ter ouvido a resposta dela.
      - A nica questo aqui  a sua reputao.  suposto ser uma mulher respeitvel. Um deslize destes pode manch-la com uma sombra mais negra do que um corvo.
      Com franqueza! Anna endireitou-se  secretria.
      - Est a pr em causa a minha reputao, lorde Swartingham?
      Ele ficou transido e voltou um rosto furibundo na direco dela.
      - No seja tola.  claro que no estou a pr em causa a sua reputao.
      - No estar?
      - Ora! Eu...
      Mas Anna suplantou-o.
      - Se sou uma mulher respeitvel, pode muito bem confiar na minha sensatez - pronunciou ela, sentindo a sua prpria raiva a crescer, uma enorme presso no interior 
da cabea que ameaava escapulir-se. - Como mulher respeitvel, considero ser meu dever ajudar os menos afortunados do que eu.
      - No me venha com sofismas - exclamou ele, apontando-lhe um dedo do outro lado da sala. - A sua reputao na aldeia ficar arruinada, se conservar essa atitude.
      - Posso ser alvo de algumas crticas - replicou Anna, cruzando os braos -, mas no me parece que venha a ficar arruinada por um ato de caridade crist.
      O conde sibilou um som deselegante.
      - Os cristos da aldeia sero os primeiros a castig-la.
      - Eu...
      - A senhora est extremamente vulnervel. Uma viva jovem, atraente...
      - A trabalhar para um homem solteiro - realou ela com doura. - Obviamente que a minha virtude est em perigo iminente.
      - Eu no disse isso.
      - No, mas outros j o fizeram.
      -  exatamente a isso que me refiro - gritou ele, aparentemente com a impresso de que, se berrasse suficientemente alto, conseguiria explicar-se. - A senhora 
no pode conviver com essa mulher!
      Isto foi a gota de gua. Os olhos de Anna semicerraram-se.
      - No posso conviver com ela?
      Ele cruzou os braos junto ao peito.
      - Exatamente...
      - No posso conviver com ela? - repetiu, sobrepondo-se a ele, desta vez mais alto.
      Lorde Swartingham ficou alarmado com aquele tom de voz. E com razo.
      - Ento, e todos os homens que fizeram dela o que ela  por conviverem com ela? - perguntou Anna. - Ningum se preocupa com a reputao dos homens que justificam 
a existncia de prostitutas.
      - Nem quero acreditar que a senhora esteja a falar desses assuntos - vociferou ele com indignao.
      A presso na cabea de Anna desaparecera, substituda agora por uma vaga eufrica de liberdade.
      - Com efeito, falo desses assuntos. E sei que os homens fazem mais do que falar deles. Cus, um homem pode visitar regularmente uma prostituta, at todos os 
dias da semana, e continuar perfeitamente respeitvel. Ao passo que a pobre rapariga que participou no mesmo ato que ele  considerada perdida.
      O conde parecia ter perdido o dom da fala. Ficou-se por uma srie de resfolgos. Anna no conseguia estancar o rio de palavras que lhe afluam  boca.
      - E suspeito que no sejam s as classes mais baixas a visitar essas mulheres. Creio que homens e, alis, cavalheiros de categoria elevada frequentam casas 
de m reputao. - Os lbios tremiam- lhe descontroladamente. - Alis,  uma hipocrisia um homem recorrer a uma prostituta e no ajudar uma quando ela precisa. - 
Calou-se e pestanejou rapidamente. No podia chorar.
      Os resfolgos condensaram-se num enorme bramido.
      - Meu Deus, mulher!
      - Creio que vou para casa - conseguiu Anna dizer, antes de sair a correr da sala.
      Santo Deus, que fizera ela? Perdera as estribeiras com um homem e discutira com o seu amo. E, pelo meio, no restavam dvidas, destrura qualquer possibilidade 
de continuar a trabalhar como secretria do conde.
      
      
  Captulo 6
       
       
       
       
       
       Dentro do castelo, todos danavam e gritavam de alegria. O inimigo fora derrotado e j nada tinham a temer. Porm, no meio da celebrao, o corvo regressou 
e estacou diante do duque. - Fiz o que prometi e destru o prncipe. Dai-me agora o meu prmio. Mas qual das filhas deveria tornar-se sua esposa? A mais velha, gritava 
que no iria desperdiar a sua beleza com um pssaro horrvel. A segunda, argumentava que, agora que o exrcito do prncipe fora derrotado, para qu cumprir o acordo? 
Apenas a mais nova, urea, concordou em preservar a honra do pai. Nessa mesma noite, naquela que foi a mais estranha cerimnia alguma vez testemunhada, urea casou-se 
com o corvo. E, assim que foi declarada sua esposa, o corvo pediu-lhe que subisse para o seu dorso, partindo com a noiva
       agarrada a ele...
       in O Prncipe Corvo
      
      
      
      Edward ficou especado, numa ira perplexa. O que acabara de acontecer? Quando perdera ele o controlo da conversa?
      Virou-se e arrebatou da prateleira da lareira duas estatuetas de porcelana e uma caixa de rap, atirando-as contra a parede em rpida sequncia. Todos os objetos 
se fragmentaram com o impacto, mas isso no ajudou em nada. O que passara pela cabea da mulher? Ele apenas sublinhara - com firmeza,  certo - como era desapropriado 
ela acolher uma tal pessoa na sua prpria casa e, de alguma maneira, o aviso acabara por voltar-se contra ele. O que raio acontecera?
      Correu para o trio, onde um criado estacava, embasbacado, junto  porta principal.
      - No fique a especado, homem. - O criado deu um salto, voltando-se com o responso de Edward.- V a correr dizer ao cocheiro John para ir atrs da senhora 
Wren com a carruagem. A pateta quer regressar a p  aldeia s para me despeitar.
      - Sim, excelncia. - O criado fez uma vnia e zarpou.
      Edward enfiou as mos no cabelo, puxando com tanta fora, que o sentiu escapar-se do rabo-de-cavalo. Mulheres! A seu lado, o co gania.
      Hopple espreitou, como um rato sado da sua toca, para verificar se a tempestade j havia passado. Tossicou.
      - As mulheres, por vezes, conseguem ser despropositadas, no , excelncia?
      - Ora, cale-se, Hopple - disse Edward, abandonando pesadamente o trio.
      Na manh seguinte, os pssaros tinham iniciado a sua alegre cacofonia, quando ouviu algum bater  porta da casa de campo. Ao incio, Anna pensou que aquele 
som fazia parte de um sonho vago, mas os seus olhos acabaram por abrir-se, enevoados, e o sonho dissipou-se.
      O mesmo no se passou, infelizmente, com as pancadas na porta.
      Anna levantou-se do colcho e pegou no seu robe azul-celeste. Envolvendo-se nele, desceu descala os degraus frios, bocejando de tal forma que o maxilar estalou. 
Por esta altura, quem batia entrara num frenesim. Quem quer que fosse, revelava muito pouca pacincia. Na verdade, a nica pessoa que ela conhecia que possua um 
tal feitio era...
      - Lorde Swartingham!
      Ele estava com um brao musculado apoiado no lintel por cima dela, o outro levantado em preparao para uma nova pancada na porta. Apressadamente, baixou o 
punho. A seu lado, o co ps-se de p e comeou a abanar a cauda.
      - Senhora Wren. - Olhava-a furibundo. - Ainda no se vestiu?
      Anna olhou para o seu robe amarrotado e os ps descalos.
      - Evidentemente que no, excelncia.
      O co abriu caminho por entre as pernas do conde e enfiou o focinho na mo dela.
      - Porque no? - perguntou ele.
      - Porque  muito cedo para o fazer? - O co encostou-se a Anna, enquanto ela lhe fazia festas.
      Lorde Swartingham olhou, com desdm, para o co absorto.
      - Que palerma - disse ele.
      - Desculpe?!
      O conde virou-se para ela.
      - No era para si, era para o co.
      - Quem , Anna? - A me Wren estava nas escadas, espreitando ansiosa. Fanny apareceu no vestbulo.
      -  o conde de Swartingham, minha sogra - disse Anna, como se fosse costume os fidalgos baterem-lhes  porta antes do pequeno-almoo. Voltou-se novamente para 
ele e disse, mais formalmente: - Deixe-me apresentar-lhe a minha sogra, a senhora Wren. Me Wren, sua senhoria, Edward de Raaf, o conde de Swartingham.
      A me Wren, vestindo um espampanante robe cor-de-rosa, fez uma arriscada mesura nas escadas.
      - Como tem passado?
      -  por certo um prazer conhec-la, minha senhora - murmurou o homem  porta.
      - Ainda estar em jejum? - perguntou ela a Anna.
      - No sei. - Anna virou-se para lorde Swartingham, cujas faces marcadas comeavam a enrubescer. - Ainda est em jejum?
      - Eu... - As palavras pareciam faltar-lhe, inusitadamente. Franziu ainda mais a testa.
      - Pea-lhe que entre, Anna, por favor - sugeriu a me Wren.
      - Gostaria de se juntar a ns para o pequeno-almoo, excelncia? - interrogou Anna com doura.
      O conde assentiu. Ainda de testa franzida, inclinou a cabea para evitar o lintel e entrou. A velha senhora Wren apressou-se escada abaixo, num esvoaar de 
fitas em forma de fcsias.
      - Estou muito contente por finalmente o conhecer, excelncia. Fanny, vai depressa pr a chaleira ao lume.
      Fanny soltou um suspiro e desapareceu na cozinha. A me Wren acompanhou a visita at  pequena salinha e Anna reparou que a diviso pareceu encolher quando 
ele entrou. O conde sentou-se cuidadosamente no nico cadeiro, ficando as senhoras com o canap. O co percorreu a sala, feliz da vida, enfiando o nariz nos recantos 
at o conde lhe ter ordenado que se sentasse.
      A me Wren esboava um sorriso luminoso.
      - A Anna deve ter feito confuso quando disse que o senhor a despediu.
      - O qu? - O conde agarrou-se aos braos do cadeiro.
      - Ela ficou com a impresso de que o senhor j no precisaria de uma secretria.
      - Por favor - segredou Anna.
      - Foi o que me disse, querida.
      Os olhos do conde fixaram-se em Anna.
      - Equivocou-se. Ainda preciso da minha secretria.
      - Ah, que bom! - A me Wren estava radiante. - Ela passou a noite de ontem muito apoquentada, a pensar que perdera o emprego...
      - Minha sogra...
      A velhota inclinou-se confidentemente para a frente, como se Anna tivesse desaparecido da sala.
      - E que os olhos dela estavam to avermelhados quando chegou a casa... Creio que ter chorado.
      - Minha sogra!
      A me Wren voltou um olhar inocente para a nora.
      - Estavam avermelhados, minha querida.
      - Deveras? - murmurou o conde. Os seus profundos olhos escuros cintilaram.
      Felizmente, Fanny salvou-a de dar uma resposta ao entrar com a bandeja do pequeno-almoo. Anna reparou, com alvio, que a rapariga se lembrara de fazer ovos 
cozidos e de torrar po, para acompanhar a habitual papa de aveia. At encontrara um pouco de fiambre. Em jeito de aprovao, acenou com a cabea  empregada, que 
lhe retribuiu um sorriso cmplice.
      Depois de se ter servido de uma quantidade verdadeiramente espantosa de ovos cozidos - que sorte Fanny ter ido ao mercado precisamente no dia anterior -, o 
conde levantou-se e agradeceu o pequeno-almoo  me Wren. Ela dirigiu-lhe um sorriso matreiro, deixando Anna a pensar quanto tempo demoraria at que toda a aldeia 
soubesse que haviam recebido, de robes vestidos, o conde de Swartingham.
      - Poderia vestir-se para montar, senhora Wren? - perguntou o conde a Anna. - Tenho o meu cavalo e a Daisy  espera l fora.
      - Com certeza, excelncia. - Anna escusou-se e foi at ao quarto para se mudar.
      Minutos mais tarde, correu escadas abaixo e encontrou o conde  sua espera no jardim da frente. Estava a contemplar a terra molhada junto  porta, onde jacintos 
azuis e narcisos amarelos floriam alegremente. Levantou o olhar quando ela saiu de casa e, por um instante, os seus olhos ostentaram uma expresso que a fez suster 
a respirao. Anna baixou o olhar para calar as luvas, sentindo as faces a ruborizar.
      - J no era sem tempo - disse ele. - Estamos mais atrasados do que previ.
      Anna ignorou a sua brusquido e ps-se junto  gua, esperando que ele a ajudasse a montar. O conde avanou e envolveu-lhe a cintura com as suas mos enormes, 
atirando-a para a sela. Ficou ali ao lado dela por um instante, com o vento a ondular uma madeixa do seu cabelo escuro, e procurou-lhe o rosto. Tambm Anna olhou 
para ele, despojada de qualquer pensamento. Ento, ele dirigiu-se para o seu cavalo e montou.
      O dia estava luminoso. Anna no se recordava de ter ouvido chover durante a noite, mas as evidncias faziam notar-se por toda a parte. Havia poas no caminho, 
as rvores e as cercas por que passavam ainda gotejavam. O conde conduziu os cavalos para o campo fora da aldeia.
      - Onde vamos? - perguntou ela.
      - As ovelhas do senhor Durbin comearam a parir e gostaria de verificar como esto. - Tossicou. - Talvez devesse t-la informado mais cedo dos nossos compromissos 
de hoje.
      Anna manteve os olhos fixos no horizonte e emitiu um som descomprometido.
      Ele tossiu.
      - Poderia t-lo feito, se a senhora no tivesse sado to precipitadamente ontem  tarde.
      Ela franziu um sobrolho, mas no respondeu. Instalou-se um longo silncio, apenas interrompido pelo latido ansioso do co, quando afugentou um coelho da sebe 
que ladeava o caminho.
      Ento, o conde fez nova tentativa.
      - J ouvi algumas pessoas dizerem que o meu feitio  um pouco... - Fez uma pausa, aparentemente em busca de uma palavra.
      - Selvagem? - ajudou-o Anna.
      Ele olhou-a de soslaio.
      - Cruel?
      Ele esboou um esgar, preparando-se para dizer qualquer coisa.
      Ela foi mais rpida.
      - Brbaro?
      O conde interrompeu-a, antes de ela poder acrescentar mais adjetivos  lista.
      - Sim, enfim, digamos apenas que intimida algumas pessoas. - Hesitou. - No gostaria de a intimidar, senhora Wren.
      - No intimida.
      Ele olhou subitamente para ela. Nada mais disse, mas o seu rosto iluminou-se. No minuto seguinte, j tinha posto o baio a galopar pelo caminho lamacento, levantando 
no ar grandes torres de terra. O co foi no seu encalo, com a lngua cada de um dos lados da boca.
      Anna sorriu sem motivo e ergueu a face  suave brisa matinal.
      Continuaram pelo caminho at chegarem a uma pastagem ladeada por um ribeiro. O conde inclinou-se para abrir o porto e entraram. Quando se aproximaram do extremo 
mais distante, Anna viu que estavam cinco homens reunidos perto do ribeiro, com uma srie de ces a correr de um lado para o outro.
      Um dos homens, mais idoso e de cabelo grisalho, viu-os a aproximarem-se.
      - Excelncia! Est aqui um belo sarilho.
      - Durbin. - O conde saudou o agricultor com a cabea e desceu do cavalo, indo, de seguida, ajudar Anna a desmontar. - O que se passa? - perguntou ele sobre 
o ombro.
      - Ovelhas no ribeiro. - Durbin cuspiu para o lado. - Criaturas idiotas. Devem ter descido ladeira abaixo uma atrs da outra e, agora, no conseguem subir. 
Trs delas esto prenhas.
      - Ah! - O conde abeirou-se do ribeiro e Anna seguiu-o. Conseguia agora ver as ovelhas apanhadas pela corrente. Os pobres animais estavam emaranhados com o 
entulho, num remoinho. Naquele ponto, a margem tinha metro e meio de altura e estava escorregadia, devido  lama.
      Lorde Swartingham meneou a cabea.
      - No h outra coisa a fazer a no ser recorrer  fora bruta.
      - Foi isso mesmo o que pensei. - O agricultor acenou com a cabea,  confirmao da sua prpria ideia.
      Dois homens, juntamente com o conde, deitaram-se na margem do ribeiro e esticaram-se para agarrar a l das ovelhas. Isto, com o incentivo extra dos ces a 
acossarem-nas pela retaguarda, viria a convencer as quatro ovelhas a trepar a margem. Cambalearam dali para fora, balindo por se verem assim confrontadas. A quinta 
ovelha, porm, encontrava-se fora do alcance dos homens. Ou estava completamente aprisionada ou seria demasiado estpida para subir a ladeira por si mesma. Prostrada 
de lado, balia desesperadamente dentro de gua.
      - Caramba! Aquela est bem presa. - O agricultor suspirou, limpando a testa suada  bainha do bluso.
      - Porque no mandamos a Bess para a assustar, pai? - O filho mais velho do agricultor acariciava as orelhas de uma cadela preta e branca.
      - N, rapaz. N quero perder a Bess na gua. Ela fica sem p ali. Tem de ser um de ns a ir l buscar aquela besta idiota.
      - Eu vou l, Durbin. - O conde afastou-se, despindo o casaco. Atirou-o para Anna, que quase o deixou cair ao cho. Seguiu-se o colete e a sua bela camisa de 
cambraia. Sentou-se na margem, para descalar as botas.
      Anna tentava no olhar. No estava acostumada a ver um homem meio nu. Na realidade, no se recordava de alguma vez ter visto um homem sem camisa em pblico. 
A varola deixara-lhe marcas espalhadas pelo torso, mas ela estava mais interessada em outras coisas. A sua imaginao estava certa. Ele tinha mesmo plos no peito. 
Bastantes, alis. Caracis pretos povoavam-lhe o peito, afunilando para o rgido ventre. Os plos estreitavam-se numa fina faixa que lhe cruzava o umbigo, desaparecendo 
ento nas calas.
      Em meias, o conde ps-se de p e foi deslizando pela margem ngreme at  gua. O ribeiro lamacento rodopiava  volta das suas ancas,  medida que se esforava 
por chegar junto da ovelha assustada. Dobrou-se sobre o animal, afastando os ramos que a prendiam. Os largos ombros brilhavam com o suor e com as manchas de sujidade.
      Os observadores soltaram um grito. A ovelha estava liberta, mas, na sua pressa em escapar  corrente, empurrara o conde, que se afundou num repuxo de gua 
lamacenta. Anna engoliu em seco e avanou um passo. O co de lorde Swartingham corria para trs e para a frente, ao longo da margem, ladrando agitadamente. O conde 
emergiu do ribeiro como um Neptuno andrajoso, com gua a escorrer-lhe em farripas do torso. Sorria, apesar de ter o cabelo colado  cara, tendo-se perdido na corrente 
a fita que o segurava.
      O co continuava a ladrar, expressando a sua censura a todo aquele procedimento. Enquanto isso, o agricultor e os seus parentes cambaleavam de um lado para 
o outro, soltando gargalhadas e batendo nos joelhos. Quase rebolavam no cho de tanto rir. Anna suspirou. Aparentemente, um aristocrata a engolir um golo de gua 
era a coisa mais divertida que aqueles homens alguma vez haviam visto. Os homens, por vezes, eram bastante desconcertantes.
      - Ei! Excelncia! Tem sempre tanta dificuldade em agarrar as suas meninas? - gritou um dos homens.
      - N, rapaz, ela  que no gostou da mo dele no rabo dela. - O agricultor esboou um gesto mmico, que desencadeou novamente a galhofa.
      O conde riu-se, mas acenou a cabea na direco de Anna. Recordados agora da sua presena, os homens pararam com as graolas, embora continuassem a rir baixinho. 
O conde levantou ambas as mos para retirar a gua do rosto.
      Anna susteve a respirao perante aquela viso. Com as mos atrs da cabea, espremendo a gua do cabelo, os seus msculos realaram-se acentuadamente. O sol 
refletia-se nos braos dobrados e no peito, e os plos das axilas, hmidos, encaracolavam-se. Fios de gua suja, misturada com sangue da ovelha, corriam-lhe pelo 
peito e pelos braos. As calas apertadas colavam-se s ancas e coxas, delineando a salincia da sua masculinidade. Estava com um ar bem plebeu.
      Anna estremeceu.
      O conde avanou at  margem, subindo-a com a ajuda dos filhos do agricultor. Anna sacudiu o torpor e apressou-se a ir at junto do conde, com as roupas na 
mo.
      Ele utilizou a camisa de cambraia como toalha, vestindo ento o casaco sobre o peito nu.
      - Bem, Durbin, espero que me chame novamente da prxima vez que no conseguir lidar com uma fmea.
      - Sim, excelncia. - O agricultor deu uma palmada nas costas de lorde Swartingham. - Muito obrigado por nos ter ajudado. No me recordo de ter visto algum 
afundar-se daquela maneira.
      Isto fez com que os homens desatassem novamente a rir, tendo ainda demorado algum tempo at o conde e Anna poderem partir. Quando estavam j montados, o corpo 
do conde tremia de frio, mas ele no se mostrava com pressa.
      - Vai morrer de frio, excelncia - disse Anna. - Por favor, dirija-se para a manso  minha frente. Pode ir muito mais rpido sem mim a atras-lo.
      - Estou bem assim, senhora Wren - retorquiu ele, cerrando os dentes para no trepidarem. - Alm disso, no gostaria de me ver privado da sua doce companhia 
nem por um instante.
      Anna fitou-o, sabendo bem que ele estava a ser sarcstico.
      - No precisa de contrair uma febre para dar provas da sua masculinidade.
      - Acha, ento, que sou msculo, senhora Wren? - Sorria como um mido. - J comeava a pensar que se debatera com uma ovelha malcheirosa para nada.
      Anna tentou, mas era impossvel impedir que a sua boca se contrasse.
      - No sabia que os latifundirios ajudavam assim os seus arrendatrios - observou ela. - No ser invulgar?
      - Ah, certamente - retorquiu ele. - Creio que a maioria dos meus pares fica sentada em Londres, deixando que os seus traseiros se alarguem, enquanto os empregados 
vo gerindo as propriedades por eles.
      - Porque prefere, ento, meter-se em ribeiros lamacentos para resgatar ovelhas tresmalhadas?
      O conde encolheu os ombros hmidos.
      - O meu pai ensinou-me que um bom terratenente conhece os seus arrendatrios e est a par do que andam a fazer. Alm disso, envolvo-me mais devido aos meus 
estudos agrcolas. - Voltou a encolher os ombros, sorrindo com alguma ironia. - E agrada-me lutar com ovelhas e outras criaturas que tais.
      Anna retribuiu-lhe um sorriso.
      - O seu pai tambm lutava com ovelhas?
      Fez-se um silncio, pelo que receou ter feito uma pergunta demasiado pessoal.
      * No, no me recordo de o ter visto assim to sujo. - Lorde Swartingham fitava a estrada em frente. - Mas no se importava de percorrer um terreno inundado 
na Primavera ou de supervisionar as colheitas no Outono. E levava-me sempre com ele a visitar as pessoas e as terras.
      * Deve ter sido um pai maravilhoso - murmurou ela. Para ter criado um filho to maravilhoso.
      * Sim, foi. Se conseguir ser para os meus filhos metade daquilo que o meu pai foi para mim, dar-me-ei por satisfeito. - Olhou para ela com alguma curiosidade. 
- No teve filhos durante o seu casamento?
      Anna ps-se a olhar para as mos, cerradas sobre as rdeas.
      * No. Estivemos casados quatro anos, mas no foi a vontade de Deus abenoar-nos com filhos.
      - Lamento. - Parecia existir um pesar sincero nos olhos do conde.
      - Tambm eu, excelncia. - Todos os dias, pensou.
      Prosseguiram ento em silncio, at avistarem Ravenhill Abbey.
      Quando Anna chegou a casa nessa noite, Pearl estava sentada na cama, a comer sopa com a ajuda de Fanny. Ainda estava magra, mas o cabelo fora puxado para trs 
das tmporas e preso com uma fita, e vestia um dos velhos vestidos da criada. Anna encarregou-se da tarefa e mandou Fanny descer para acabar de cozinhar o jantar.
      - Esqueci-me de lhe agradecer, minha senhora - disse Pearl, envergonhada.
      - No tem de qu - Anna sorriu. - S espero que se sinta melhor o quanto antes.
      A outra mulher suspirou.
      - Oh, preciso apenas de um pouco de descanso.
      -  daqui das redondezas ou estava em viagem quando adoeceu? - inquiriu Anna, enquanto propunha um pouco de carne.
      Pearl mastigou lentamente e engoliu.
      - No, minha senhora. Estava a tentar regressar a Londres, onde vivo. Um cavalheiro trouxe-me para aqui numa bela carruagem, com a promessa de me instalar 
como deve ser.
      Anna soergueu o sobrolho.
      - Pensei que ele fosse instalar-me numa casinha de campo. - Pearl roava os dedos no lenol. - Estou a ficar velha, percebe? No posso continuar a levar esta 
vida por muito mais tempo.
      Anna permaneceu calada.
      - Mas tratava-se simplesmente de uma trapaa - continuou Pearl. - Ele queria-me apenas para uma festa com uns amigos.
      Anna procurou algo para dizer.
      - Tenho pena de que no tivesse sido algo mais permanente.
      - Pois. E o pior ainda estava para vir. A inteno dele era que eu o entretivesse a ele e aos seus dois amigos. - A boca da rapariga descaiu.
      Dois amigos?
      - Est a dizer-me que era suposto... hum... entreter trs cavalheiros ao mesmo tempo? - perguntou Anna, com uma voz sumida.
      Pearl franziu os lbios e acenou com a cabea.
      - Exato. Os trs juntos ou um de cada vez. - Foi obrigada a reparar no choque de Anna. - Alguns desses cavalheiros gostam de faz-lo em grupo, como que a exibirem-se 
uns para os outros. Mas, na maioria das vezes, a rapariga sai magoada.
      Nossa Senhora! Anna fitava fixamente Pearl, horrorizada.
      - Mas no interessa - continuou a rapariga. - Eu fui-me embora.
      Anna apenas conseguiu assentir.
      - Depois, comecei a sentir-me mal na diligncia, na viagem de regresso. Devo ter adormecido, pois s me recordo de a minha carteira ter desaparecido e de ter 
de sair, porque, sem dinheiro, no pude seguir viagem. - Pearl meneou a cabea. - Teria certamente morrido, se a senhora no me tem encontrado naquela altura.
      Anna olhou para as palmas das mos.
      - Posso fazer-lhe uma pergunta, Pearl?
      - Claro, sinta-se  vontade. - A mulher cruzou as mos sobre a cintura, meneando afirmativamente. - Pergunte-me o que quiser.
      - J ouviu falar de um estabelecimento chamado Gruta de Afrodite?
      Pearl recostou a cabea na almofada e olhou Anna com curiosidade.
      - Nunca pensei que uma dama como a senhora soubesse desses estabelecimentos.
      - Ouvi alguns cavalheiros a falarem dele - disse Anna, evitando o olhar de Pearl. - Creio que no se tero apercebido de que eu estava a ouvir.
      - No devem, no - concordou Pearl. - Cus, a Gruta de Afrodite  um bordel carssimo. As raparigas que trabalham l tm uma bela vida, seguramente.  certo 
que j ouvi falar de algumas senhoras de alto nvel que vo at l com os rostos cobertos por uma mscara, para se fazerem passar por aquilo que eu sou.
      Os olhos de Anna escancararam-se.
      - Ou seja...?
      - Levam para o quarto qualquer cavalheiro que lhes interesse e passam com ele a noite. - Acenou com a cabea, como que reforando a ideia. - Ou o tempo que 
lhes aprouver. Algumas at ficam no quarto e pedem  Madame que lhes envie um homem com determinadas caractersticas. Talvez um tipo baixo, louro, ou um alto e ruivo.
      - Como se estivessem a escolher cavalos... - Anna franziu o nariz.
      Foi a primeira vez que viu Pearl sorrir.
      - Bem visto, minha senhora.  como escolher um garanho. - Soltou uma gargalhada. - No me importava de ser eu a escolher, para variar, em vez de serem sempre 
os cavalheiros a decidir.
      Anna sorriu com algum desconforto, face quelas realidades da profisso de Pearl.
      - Mas porque haveria um cavalheiro de se sujeitar a um trato desses?
      - Os cavalheiros gostam, porque sabem que vo passar a noite com uma senhora de verdade. - A mulher encolheu os ombros. - Se  que se lhes pode chamar isso.
      Anna pestanejou, sacudindo o torpor.
      - Estou a priv-la do seu descanso.  melhor ir ver do jantar.
      - Muito bem. - Pearl bocejou. - Mais uma vez, obrigada.
      Durante o jantar, Anna manteve-se absorta. O comentrio de Pearl sobre o quo agradvel poderia ser, por uma vez, caber  mulher a oportunidade de escolher 
no lhe saa do pensamento. Anna comia, alheadamente, a empada de carne. Era verdade que, mesmo no seu nvel social, os homens reservavam-se o direito de escolher. 
As raparigas tinham de esperar que um homem mostrasse interesse por elas, ao passo que os cavalheiros podiam escolher quem iriam cortejar. J casada, uma mulher 
respeitvel esperava zelosamente o seu marido no leito matrimonial. A iniciativa pertencia sempre ao homem. Com efeito, ela nunca deixara que Peter se apercebesse 
das suas prprias necessidades ou de que no estaria satisfeita com o que se passava na cama.
      Nessa mesma noite, quando se preparava para se deitar, Anna no conseguia parar de pensar em lorde Swartingham na Gruta de Afrodite, tal como Pearl a descrevera. 
O conde a ser avistado e escolhido por uma qualquer mulher ousada da aristocracia. O conde a passar a noite nos braos de uma mulher mascarada. Estes pensamentos 
doam-lhe no peito, mesmo quando adormeceu.
      E foi ento que deu por si na Gruta de Afrodite.
      Tinha uma mscara e procurava o conde. Homens de toda a sorte, velhos, jovens, belos e feios, centenas de homens, enchiam uma sala. Freneticamente, Anna avanava 
atravs da massa,  procura de um singular par de olhos negros, fulgentes, cada vez mais desesperada com a demora da sua busca. Por fim, viu-o do outro lado da sala 
e comeou a correr na sua direco. Mas, como  costume nos pesadelos, quanto mais corria, mais devagar progredia. Cada passo parecia demorar uma eternidade. Naquele 
seu esforo, viu uma outra mulher mascarada a acenar ao conde. Sem a ter visto, ele voltou-se e abandonou a sala com a outra mulher.
      Anna acordou no escuro, com o corao a bater descompassado e a pele arrepiada. Ficou deitada num absoluto silncio, recordando o sonho e escutando a sua respirao 
encrespada.
      S passados alguns instantes se deu conta de que chorava.
      
      
  Captulo 7
       
       
       
       
       
       O enorme corvo voou com a sua esposa no dorso durante dois dias e duas noites, at que, ao terceiro dia, chegaram a uns campos dourados de cereais amadurecidos. 
- De quem so estes campos?- perguntou urea,
       olhando para baixo. - Do vosso esposo - informou o corvo. Chegaram a um prado interminvel, repleto de gado cevado,
       cuja pele brilhava ao sol. - De quem  este gado? - perguntou urea.
       - Do vosso esposo - respondeu o corvo. Surgiu ento uma vasta floresta esmeralda, espraiando-se sobre as
       colinas at onde a vista alcanava. - De quem  esta floresta? - perguntou urea.
       - Do vosso esposo! - crocitou o corvo...
       
       in O Prncipe Corvo
      
      
      
      Na manh seguinte, Anna dirigiu-se para Ravenhill, sentindo-se cansada, depois de uma noite agitada e mal dormida. Parou por um momento para admirar o mar 
de campainhas que desabrochavam sob as rvores que marcavam o caminho. Os pontos azuis cintilavam ao sol, como moedas recm-cunhadas. Normalmente, a viso de qualquer 
flor instalava-lhe uma certa leveza no corao, mas hoje no. Suspirou e prosseguiu viagem, at dobrar uma curva e, subitamente, estacar. Lorde Swartingham, caminhando 
velozmente nas suas habituais botas enlameadas, vinha dos estbulos sem a ter avistado ainda.
      Ele soltou um grito terrvel:
      - Co!
      Pela primeira vez nesse dia, Anna sorriu. Era bvio que o conde no conseguia encontrar o omnipresente candeo, limitando-se a vociferar o nome da espcie.
      Anna avanou na sua direco.
      - No vejo como poderia ele responder a esse nome.
      Lorde Swartingham deu meia volta ao ouvir aquela voz.
      - Creio que a encarreguei de atribuir um nome ao rafeiro, senhora Wren.
      Anna abriu bem os olhos.
      - J propus trs alternativas, excelncia.
      - E todas elas foram rejeitadas, como bem sabe - disse ele, sorrindo malignamente. - Acho que j lhe dei tempo suficiente para escolher um nome. Est na hora 
de o divulgar.
      Anna achava divertida aquela inteno bvia de a pr  prova.
      - Pintas?
      - Demasiado juvenil.
      - Tibrio?
      - Demasiado imperial.
      - Otelo?
      - Demasiado assassino. - Lorde Swartingham cruzou os braos junto ao peito. - Ento, senhora Wren? Uma mulher com a sua inteligncia  capaz de melhor.
      - Ento e se fosse Jock?
      - No serve.
      - Porque no? - replicou Anna, travessamente. - Gosto do nome Jock.
      - Jock. - O conde parecia enrolar o nome com a lngua.
      - Aposto que ele vai aparecer se o chamar por esse nome.
      - Ah! - exclamou ele, enquanto olhava pela ponta do nariz naquele jeito superior dos homens quando lidam com mulheres tolas. - Faa favor de experimentar.
      - Muito bem,  o que farei. - Empertigou o queixo. - E, se ele vier, o senhor ter de me levar a visitar os jardins da manso.
      Lorde Swartingham franziu o sobrolho.
      - E se ele no vier?
      - No sei. - Ainda no pensara nisso. - Escolha o seu prmio.
      Ele comprimiu os lbios, contemplado o cho debaixo dos ps.
      - Julgo que  tradio entre homens e mulheres apostadores que o cavalheiro pea um favor  senhora.
      Anna inspirou, sentindo dificuldade para soltar o ar.
      Os olhos negros do conde brilhavam por baixo das sobrancelhas.
      - Talvez um beijo?
      Oh, meu Deus. Talvez se tivesse precipitado. Anna exalou repentinamente e endireitou os ombros.
      - Muito bem.
      Ele estendeu uma mo lnguida.
      - Avante.
      Anna aclarou a garganta.
      - Jock!
      Nada.
      - Jock!
      Lorde Swartingham comeou a rir entredentes.
      Anna inspirou profundamente, soltando um grito nada feminino.
      - Jock!
      Ficaram os dois  escuta. Nada.
      O conde voltou-se lentamente para ela, com o som das botas na gravilha a ressoar na calmaria. Estavam apenas a poucos centmetros de distncia. Ele deu um 
passo, os seus belos olhos fixos no rosto dela.
      Anna sentia o sangue a pulsar-lhe no peito. Passou a lngua pelos lbios.
      O olhar dele desceu sobre a boca dela e as narinas alargaram-se-lhe. Deu mais um passo. Como num sonho, viu as mos dele a erguerem-se e a agarrarem-na pelos 
braos, sentindo a presso dos seus grandes dedos atravs do manto e do vestido.
      Comeou a tremer.
      Ele inclinou a cabea escura na direco dela e a sua respirao morna acariciou-lhe os lbios. Ela fechou os olhos.
      Ouviu o co a aproximar-se.
      Abriu os olhos. Lorde Swartingham estava transido. Devagar, voltou a cabea, a poucos centmetros da dela, e fitou o candeo. O co devolvia-lhe um sorriso, 
de lngua de fora, arfando.
      - No pode ser - exasperou o conde.
      Bem o pode dizer, pensou Anna.
      Ele largou-a subitamente, afastou-se e voltou-se. Passou ambas as mos pelo cabelo e sacudiu os ombros. Ela ouviu-o a inspirar profundamente, mas, quando falou, 
a sua voz soava ainda bastante rouca.
      - Ao que parece, a senhora ganhou a aposta.
      - Sim, excelncia. - Esperava ter soado suficientemente impassvel, como se estivesse habituada a ter cavalheiros quase a beijarem-na  porta de casa. Como 
se no estivesse a ser-lhe difcil normalizar a respirao. Como se no desejasse desesperada-mente que o co tivesse ficado bem longe dali.
      - Irei mostrar-lhe os jardins com todo o prazer - murmurou o conde -, tal como esto, aps o almoo. Talvez possa trabalhar na biblioteca, at l?
      - No vir tambm para a biblioteca? - disse Anna, tentando ocultar a sua desiluso.
      Ele ainda no se voltara.
      - Julgo que h assuntos a requerer a minha ateno na herdade.
      - Com certeza - murmurou Anna.
      Por fim, ele fitou-a. Ela reparou que os seus olhos estavam ainda semicerrados e imaginou que olhassem para o peito dela.
      -Vemo-nos ao almoo.
      Ela assentiu e o conde estalou os dedos para o co. Ao passar, ficou com a impresso de o ter ouvido a murmurar qualquer coisa ao animal. Idiota pareceria 
mais adequado do que Jock.
      Deus do Cu, em que pensava eu? Edward caminhava, furioso, pela sua propriedade.
      Colocara, deliberadamente, a senhora Wren numa posio vulnervel. No havia maneira de ela recusar os seus avanos ousados. Como se uma mulher da sua rara 
sensibilidade pudesse desejar o beijo de um homem com o rosto deformado. Mas Edward no pensara nas suas marcas quando a puxara para os seus braos. No pensara 
em nada. Agira por puro instinto, pela luxria de tocar aquela boca bela e ertica. O mero pensamento de o fazer provocara-lhe, em poucos segundos, uma intensa e 
dolorosa ereo. Fora-lhe difcil largar a senhora Wren quando o co apareceu e vira-se forado a voltar-lhe as costas, para que ela no reparasse naquilo que era 
bvio. E ainda no se acalmara.
      - E o que andavas tu a fazer, Jock? - grunhiu Edward ao mastim alegre e inconsciente. - Tens de melhorar o teu sentido de oportunidade, rapaz, se queres continuar 
a devastar a cozinha de Ravenhill.
      Jock dirigia-lhe um adorvel sorriso canino. Uma das orelhas estava virada do avesso e Edward endireitou-a distraidamente.
      - Um minuto antes ou depois... de preferncia, depois... teria sido o melhor momento para apareceres aos pulos.
      Suspirou. No podia permitir que esta luxria desenfreada continuasse. Ele gostava da mulher, caramba! Era inteligente e no receava o seu carcter. Fazia-lhe 
perguntas sobre os seus estudos agrcolas. Andava a cavalo pelos seus terrenos, por entre lama e imundice, sem uma palavra de protesto. Parecia at apreciar os passeios 
a dois. E, por vezes, quando ela o olhava, inclinando a cabea para o lado e concentrando nele toda a sua ateno, algo parecia agitar-se-lhe no peito.
      Esboou um trejeito e pontapeou uma pedra do caminho. Era injusto e desonrado sujeitar a senhora Wren aos seus avanos desajeitados. No devia ser obrigado 
a combater pensamentos sobre os seus peitos macios, imaginando se os seus mamilos seriam de uma tonalidade rosa-clara ou mais escura. Cogitando se os seus mamilos 
haveriam de entumecer imediatamente quando ele passasse um dedo por eles ou se aguardariam, recatadamente, pelo toque da sua lngua.
      Que diabo!
      Ria-se e resmungava ao mesmo tempo. O seu membro pusera-se novamente em riste e pulsante, s de pensar nela. O seu corpo no experimentava este descontrolo 
desde os tempos de jovem rapaz em mudana de voz.
      Deu um pontap numa outra pedra e parou a meio do caminho, de mos nas ancas, para voltar a cabea para o cu.
      No serviu de nada. Fletiu a cabea para trs, tentando aliviar a tenso. Teria de fazer, em breve, uma viagem a Londres para passar uma noite, ou at duas, 
na Gruta de Afrodite. Talvez, depois disso, conseguisse estar na presena da sua secretria sem pensamentos libidinosos a dominarem-lhe a mente.
      Ao voltar-se, enterrou a pedra em que viera a dar pontaps e comeou a caminhar de regresso aos estbulos. Comeava a sentir ideia de ir a Londres como um 
fardo. J no ansiava por passar a noite numa cama de reputao duvidosa. Ao invs, sentia-se saturado. Saturado e a suspirar por uma mulher que no poderia ter.
      Nessa mesma tarde, Anna lia O Prncipe Corvo quando comeou o batuque. Ia apenas na terceira pgina, que descrevia uma batalha mgica entre um prncipe malfico 
e um enorme corvo. Tratava-se de um mero conto de fadas antigo, embora cativante, e ainda demorou um minuto a aperceber-se do som da aldraba da porta principal da 
manso. Nunca antes a ouvira. A maior parte das pessoas que ali entravam fazia-o pela porta de servio.
      Pousou o livro novamente na sua secretria e, ao ouvir passadas rpidas no trio, possivelmente do criado, a caminho da porta, pegou numa pena. Um vago rumor 
de vozes, uma delas feminina, seguido dos saltos altos de uma senhora dirigindo-se para a biblioteca. O criado franqueou a porta e Felicity Clearwater entrou.
      Anna ps-se de p.
      - Em que posso ajud-la?
      - Oh, no se levante. No pretendo perturb-la nos seus afazeres. - Felicity agitou uma mo na sua direco, enquanto inspecionava a instvel escada de ferro 
ao canto. - Vim apenas deixar um convite a lorde Swartingham para o meu sarau de Primavera. - Bateu com a ponta enluvada de um dedo no corrimo de ferro e franziu 
o nariz, face  poeira ferrugenta que se libertou.
      - Ele no est, de momento - disse Anna.
      - No? Terei ento de lhe confiar a si o convite. - Felicity perambulou at  secretria, retirando da algibeira um envelope profusamente ornamentado. - Poderia 
entregar-lho... - Tinha o envelope estendido, mas as palavras recuavam-lhe na garganta, enquanto olhava para Anna.
      - Sim? - Anna passou uma mo embaraada pelo cabelo. Teria uma mancha na cara? Algo entre os dentes? Felicity fitava-a, como se se tivesse transformado num 
bloco de mrmore. A sujidade no poderia, certamente, provocar um tal choque.
      O adornado invlucro tremeu na mo de Felicity e caiu sobre a secretria. Ela afastou os olhos e o momento dissipou-se.
      Anna pestanejou. Talvez tivesse imaginado aquele olhar.
      - Certifique-se de que lorde Swartingham recebe o meu convite, est bem? - disse Felicity. - Estou certa de que ele no querer perder o mais importante acontecimento 
social das redondezas. - Dirigiu um falso sorriso a Anna e saiu porta fora.
      Esta levou absortamente a mo ao pescoo, sentindo um metal frio na palma da mo. Franziu o sobrolho ao recordar-se. Nessa manh, ao vestir-se, achara que 
o xaile em volta do pescoo no lhe ficaria bem. Remexera na pequena caixa que continha a sua magra joalharia, mas o seu nico broche era demasiado grande. Foi ento 
que os seus dedos deram com o medalho que descobrira no estojo de Peter. Desta vez, sentira apenas uma pontada de dor ao v-lo.
      Talvez ele estivesse a perder o poder de a magoar, pelo que pensou: Bom, porque no? Depois, desafiadoramente, prendeu o medalho ao pescoo.
      Anna passou os dedos pela joia que tinha ao pescoo. Era fria e dura ao toque, desejando agora no ter cedido ao impulso matinal.
      Maldio! Maldio! Maldio! Na sua carruagem, Felicity observava vagamente o exterior,  medida que se afastava de Ravenhill Abbey. No suportara onze anos 
de apalpes e safanes de um homem com idade para ser seu av para, agora, deitar tudo a perder.
      Qualquer pessoa pensaria que a busca de Reginald Clearwater por crianas teria ficado cumprida com os quatros filhos que as duas primeiras mulheres lhe tinham 
dado, para no falar das seis filhas. Afinal, a antecessora de Felicity morrera ao dar  luz o seu primeiro filho. Mas no, Reginald vivia obcecado com a sua prpria 
virilidade e com a misso de fazer filhos  mulher. Havia ocasies, durante as visitas conjugais bissemanais, em que ela se perguntava se valeria mesmo a pena. O 
homem tivera j trs esposas e ainda no mostrara qualquer talento no quarto. Felicity suspirou.
      Porm, apesar desse lado negativo, simplesmente, ela adorava ser a mulher do squire. Clearwater Hall era a maior casa do condado,  exceo, claro, de Ravenhill 
Abbey. Felicity beneficiava de uma generosa verba para despender em roupas e de uma carruagem s para si. Ansiava por belas e carssimas joias, a cada aniversrio. 
E os lojistas locais quase se ajoelhavam a seus ps quando ela lhes batia  porta. Em suma, era uma vida que valia a pena preservar.
      Facto que a trazia de volta para o problema de Anna Wren.
      Felicity tocou o cabelo, percorrendo-o, procurando madeixas desalinhadas. H quanto tempo saberia Anna? Era impossvel que o episdio com o medalho tivesse 
sido um acaso. Coincidncias desta magnitude, simplesmente, no acontecem, o que significaria que, passado tanto tempo, a desgraada da mulher estava a provoc-la. 
A carta que Felicity escrevera a Peter fora lavrada no calor da luxria, sendo bastante incriminadora. Colocara-a no medalho que ele lhe oferecera, entregando-lho 
sem pensar que ele fosse guardar aquela tolice. Foi ento que ele morreu e ela ficou em suspenso,  espera que Anna lhe batesse  porta com a prova. Uma vez que 
o medalho no apareceu nos primeiros anos, quisera acreditar que Peter o vendera ou o enterrara, juntamente com a carta, antes de morrer.
      Homens! Que criaturas inteis!
      Felicity tamborilava os dedos no vidro da janela. Os nicos motivos para Anna lhe mostrar o medalho agora seriam a vingana ou a chantagem. Esboou um trejeito 
e passou a lngua pelos dentes da frente, sentindo-lhes as pontas. Delicadas, lisas e afiadas. Bem afiadas. Se a pequena Anna Wren achava que podia assustar Felicity 
Clearwater, estava prestes a descobrir o quo enganada estava.
      
      
      - Creio que estou em falta para consigo, senhora Wren - anunciou o conde ao irromper na biblioteca, nessa tarde. O sol que entrava pelas janelas realava os 
fios prateados no cabelo de lorde Swartingham. As suas botas estavam novamente enlameadas.
      Anna pousou a pena e estendeu a mo para Jock, que seguira o dono at  sala.
      - Comeava a pensar que se esquecera da dvida desta manh, excelncia.
      Ele soergueu o sobrolho, arrogantemente.
      - Est a pr em dvida a minha honra?
      - Se assim fosse, desafiar-me-ia para um duelo?
      Ele fez um rudo deselegante.
      - No. O mais provvel era a senhora vencer. No sou l muito bom a disparar e precisaria de treinar o meu manejo com a espada.
      Anna levantou o queixo de forma altiva.
      - Ento, o melhor  ter cuidado com o que me diz.
      Um dos cantos da boca de lorde Swartingham encurvou para cima.
      - Quer vir at ao jardim, ou prefere prosseguir com esta troca de palavras?
      - No vejo porque no haveremos de fazer as duas coisas murmurou ela, pegando no seu agasalho.
      Anna deu-lhe o brao e saram da biblioteca. Jock foi no encalo, de orelhas espetadas perante a perspectiva de uma "excurso". O conde levou-a pela porta 
principal, contornando a manso e passando os estbulos. Nesse ponto, as pedras deram lugar  relva aparada. Passaram por uma sebe baixa que delimitava a horta, 
do lado da entrada de servio. Algum plantara j alho-porro. Delicados rebentos verdes marcavam uma linha que, mais tarde, haveria de se intensificar,  medida 
que as plantas crescessem. Para l da horta, ficava um relvado inclinado, ao fundo do qual se encontrava um jardim grande e murado. Percorreram a ladeira por um 
caminho de pedra cinzenta. Ao aproximarem-se, Anna reparou que a hera quase obscurecia os velhos tijolos vermelhos do muro. Uma porta de madeira encastrava-se no 
muro, encimada por parreiras castanhas.
      Lorde Swartingham levou a mo  enferrujada maaneta da porta e puxou. A porta rangeu e abriu-se dois centmetros. Ele murmurou qualquer coisa e olhou para 
ela.
      Anna sorria encorajadoramente.
      Ele ps as duas mos  volta da maaneta e firmou os ps, antes de dar um puxo poderoso. A incio, nada aconteceu, mas a porta acabou por ceder com um rangido. 
Jock disparou pela abertura at aos jardins. O conde ficou de lado e, com um gesto de mo, incitou-a a entrar.
      Anna baixou a cabea, para espreitar.
      Viu uma selva. O espao parecia ter a forma de um grande retngulo, ou, pelo menos, fora essa, em tempos, a sua configurao. Um caminho de tijoleira, que 
mal se distinguia por entre os destroos, dava a volta pelo interior dos muros. Estava ligado a uma passadeira central em forma de uma cruz, que dividia o jardim 
em quatro pequenos retngulos. O muro mais distante continha uma outra porta, praticamente escondida por trs do esqueleto de uma trepadeira. Talvez um segundo jardim, 
ou uma srie de jardins, se ocultasse para l dela.
      - A minha av disps a planta original destes canteiros - disse o conde, por trs de Anna. Tinham j passado a porta, embora ela no se recordasse de se ter 
mexido. - E a minha me expandiu-os e desenvolveu-os.
      - Deve ter sido muito bonito, em tempos. - Anna ps o p num intervalo em que algumas tijoleiras tinham desparecido. Seria aquela rvore do canto uma pereira?
      - No sobra muito do trabalho dela, pois no? - perguntou ele. Ela ouviu-o pontapear qualquer coisa. - Parece-me que o mais adequado seria, simplesmente, derrubar 
os muros e terraplanar tudo.
      Anna rodopiou a cabea na direco dele.
      - Oh, no, excelncia! No faa isso.
      Ele franziu a testa, perante o seu protesto.
      - Porque no?
      - H aqui muita coisa que pode ser salva.
      O conde perscrutou o jardim descuidado e a passadeira destruda com um claro ceticismo.
      - No consigo vislumbrar uma coisa sequer digna de ser salva.
      Ela lanou-lhe um olhar exasperado.
      - Cus, olhe para as rvores em latada nos muros.
      Ele voltou-se para onde ela apontara.
      Anna comeou a dirigir-se para o muro. Tropeou numa pedra escondida nas ervas e equilibrou-se, tentando manter-se em p. Fortes braos arrebataram-na por 
trs, levantando-a com facilidade. Com duas longas passadas, lorde Swartingham alcanara o muro.
      P-la no cho.
      - Era isto que queria ver?
      - Era. - Sem respirao, olhou-o de soslaio.
      Ele fitava, carrancudo, a espaldeira.
      - Obrigada. - Voltou-se para a pattica rvore contra o muro e ficou imediatamente entretida. - Parece-me ser uma macieira ou uma pereira. D para ver como 
esto plantadas junto aos muros do jardim. E esta aqui est a despontar.
      O conde examinou, obedientemente, o ramo indicado. Soltou um suspiro.
      - E, na verdade, apenas precisam de uma boa poda - prosseguiu ela. - Poderia at produzir a sua prpria cidra.
      - Nunca gostei muito de cidra.
      A expresso dela suavizou-se.
      - Ou podia pr a cozinheira a fazer compota de ma.
      Ele franziu o sobrolho.
      Anna estava prestes a iniciar a defesa dos benefcios da compota de ma, mas divisou uma flor escondida entre as ervas.
      - Acha que  uma violeta? Ou ser uma pervinca?
      A flor encontrava-se a cerca de um metro da extremidade de um canteiro. Anna dobrou-se pela cintura para olhar mais de perto, colocando uma das mos no cho, 
para se apoiar.
      - Ou talvez um miostis, ainda que, normalmente, desabrochem em grupos maiores. - Colheu cuidadosamente a flor. - No, que estupidez. Repare nas folhas.
      Lorde Swartingham permanecia imvel, por trs dela.
      - Creio que ser uma espcie de jacinto - disse ela, endireitando-se e virando-se para o consultar.
      - Oh! - A solitria expresso saiu-lhe num gutural tom bartono.
      Ela pestanejou com a voz dele.
      - Sim, e claro que, onde h um, existem sempre outros.
      - O qu?
      Ela semicerrou, duvidosa, os olhos.
      - No prestou ateno ao que eu dizia, pois no?
      - No - respondeu ele, sacudindo a cabea.
      Fitava-a fixamente de tal forma, que a respirao de Anna acelerou. Sentiu o rosto a ruborizar. Uma leve brisa fez com que uma madeixa de cabelo lhe descasse 
sobre a boca. Ele aproximou lentamente os dedos, afastando-a cuidadosamente. Os calos das suas mos rasparam na pele sensvel dos lbios de Anna, que, ansiosa, fechou 
os olhos. Ele comps minuciosamente a madeixa, demorando a mo na sua tmpora.
      Ela sentia a respirao dele a acariciar-lhe os lbios. Oh, sim.
      Ento, ele deixou cair a mo.
      Anna abriu os olhos e descobriu o seu olhar de obsidiana. Esticou a sua prpria mo para protestar, ou talvez toc-lo no rosto, no estava certa, e pouco interessava 
tambm, mas ele rodopiara j e, distanciando-se uns quantos passos, Anna teve a sensao de que o conde no se apercebera sequer daquele seu gesto abortado.
      Ele virou a cabea, de maneira a que ela apenas conseguisse ver o seu rosto de perfil.
      - Peo desculpa.
      - Porqu? - Tentava sorrir. - Eu...
      Ele fez um movimento de corte com as costas da mo.
      - Deslocar-me-ei a Londres amanh. Alguns assuntos requerem a minha presena sem mais demoras.
      Anna comprimiu as mos.
      - Pode continuar a admirar o jardim, se quiser. Eu preciso de voltar  minha escrita. - Afastou-se rapidamente, com as botas a restolharem nas tijoleiras quebradas.
      Anna abriu os punhos e sentiu a flor esmagada a escapar-se-lhe dos dedos.
      Olhou em volta, contemplando o jardim em runas. Tantas possibilidades... Arrancar ervas daninhas junto ao muro, acol; plantar algumas coisas neste canteiro. 
Nenhum jardim poder alguma vez estar morto desde que um jardineiro competente saiba como nutri-lo. Mas precisaria apenas de um pouco de cuidado, de um pouco de 
amor...
      Um vu de lgrimas obscureceu-lhe os olhos. Limpou-as, irritadamente, com uma mo trmula. Esquecera-se do leno dentro de casa. As lgrimas inundaram-lhe 
os olhos, escorrendo at ao queixo. Que maada. Teria de usar a manga para as enxugar. Que tipo de senhora andaria sem um leno? Seguramente, uma mulher deplorvel. 
O tipo de senhora que um cavalheiro no se permitiria beijar. Esfregou a cara com a parte de dentro do antebrao, mas as lgrimas insistiam em surgir. Como se ela 
pudesse acreditar naquela absurda desculpa de assuntos urgentes para tratar em Londres! Era uma mulher madura. Sabia muito bem onde  que o conde tencionava tratar 
dos seus assuntos. Naquele horrvel bordel.
      Susteve a respirao num soluo. Ele ia para Londres para se deitar com uma outra mulher.
      

  Captulo 8
       
       
       
       
       
       urea voou com o corvo por mais um dia e uma noite e, durante esse perodo, tudo o que ela viu lhe pertencia. urea tentava compreender tamanha riqueza, tal 
poder, mas tudo aquilo estava para alm da sua compreenso. O seu prprio pai governava sobre muito poucas pessoas e terras, em comparao com os domnios que esta 
ave parecia possuir. Por fim, na quarta noite, ela viu um grande castelo, feito inteiramente de mrmore branco e de ouro. O Sol poente refletia-se nele com tal brilho, 
que lhe magoava os olhos.
       - Quem  o senhor deste castelo? - sussurrou urea, e um temor indefinvel trespassou-lhe o corao. O corvo voltou a sua enorme cabea e fitou-a com um
       cintilante olhar negro.
       - O vosso esposo! - crocitou ele...
       in O Prncipe Corvo
      
      
      
      Nessa noite, Anna arrastou-se at casa sozinha. Depois de ter posto em ordem os seus pensamentos no jardim arruinado, regressara  biblioteca com a inteno 
de trabalhar. No devia ter-se incomodado.
      Lorde Swartingham no apareceu durante o resto da tarde e, no momento em que recolhia as suas coisas, ao final do dia, um jovem criado trouxe-lhe um pequeno 
bilhete dobrado. Era curto e incisivo. Sua senhoria partiria de manh bem cedo e, logo, no iria v-la antes da partida. Expressava o seu lamento.
      Uma vez que o conde no se encontrava por perto para ela poder protestar, Anna foi para casa a p, em vez de ir na carruagem, em parte num gesto de revolta, 
em parte por precisar de algum tempo sozinha para pensar e recompor-se. No podia chegar a casa deprimida e com os olhos vermelhos. A menos que quisesse passar metade 
do sero a ser interrogada pela sogra.
      Quando chegou aos arredores da aldeia, doam-lhe j os ps. Acostumara-se ao luxo da carruagem. Avanou penosamente e virou para sua casa. Ao chegar, estacou. 
Um coche escarlate e negro, com ornamentos dourados, encontrava-se diante da porta. O cocheiro e os dois criados encostados ao veculo vestiam uniformes pretos a 
condizer, com remates vermelhos e imensas franjas douradas. Junto ao veculo, um bando de rapazitos pulava de um lado para o outro, interrogando os criados. Anna 
no os censurava: parecia que uma pequena realeza viera bater-lhe  porta. Esgueirou-se  volta da carruagem e entrou em casa.
      L dentro, a me Wren e Pearl tomavam ch, na salinha, com uma terceira mulher que Anna nunca antes vira. Era bastante jovem, vinte e poucos anos. Um cabelo 
polvilhado a branco varria-lhe a testa, num estilo enganadoramente simples, destacando uns estranhos olhos verde-claros. O vestido era preto. A cor indicava, normalmente, 
o luto, mas Anna nunca vira roupa de luto como aquela. Um material escuro e lustroso corria  volta da mulher sentada, a saia superior puxada para trs, revelando 
o bordado vermelho da angua por baixo. As costuras salientes repetiam-se no decote descido e quadrangular, com uma tripla camada de renda a pender das mangas curtas. 
A mulher parecia deslocada na salinha de Anna, como um pavo num galinheiro.
      A me Wren ergueu um olhar radioso quando Anna entrou.
      - Querida, esta  a Coral Smythe, a irm mais nova da Pearl. Estvamos a tomar um chazinho. - Gesticulava com a chvena, quase fazendo salpicar o ch para 
o colo de Pearl. - A minha nora, Anna Wren.
      - Como vai, senhora Wren? - disse Coral, numa voz profunda e rouca que parecia pertencer a um homem, e no a uma mulher jovem e extica.
      - Prazer em conhec-la - murmurou Anna, aceitando uma chvena de ch.
      - Teremos de sair em breve, se quisermos chegar a Londres antes de amanhecer - disse Pearl.
      - Sentes-te suficientemente recuperada para fazer a viagem, irm? - Coral mal deixava transparecer uma emoo no rosto, embora fitasse Pearl atentamente.
      - Por certo que passar a noite connosco, menina Smythe? - perguntou a me Wren. - Assim, a Pearl poder partir recomposta pela manh.
      Os lbios de Coral esboaram um leve sorriso.
      - No gostaria de vos causar inconvenincia alguma, querida senhora Wren.
      - Oh, no  inconvenincia nenhuma. J est quase escuro l fora e no me parece que seja seguro duas jovens irem agora viajar. - Apontava com a cabea para 
a janela, pela qual, de facto, no entrava praticamente qualquer claridade.
      - Obrigada. - Coral inclinou a cabea.
      Aps terminarem o ch, Anna levou Coral at ao quarto que Pearl estava a usar, para que pudesse lavar-se antes do jantar. Trouxe toalhas e gua fresca para 
a bacia e voltava-se para sair quando Coral a interpelou.
      - Senhora Wren, queria agradecer-lhe... - Coral olhava para Anna com uns olhos verdes, insondveis, sem brilho. A sua expresso no espelhava as suas palavras.
      - No tem de qu, menina Smythe - retorquiu Anna. - No podamos deixar que fosse para a estalagem.
      - Claro que podiam. - Os lbios de Coral contraram-se num esgar sardnico. - Mas no  a isso que me refiro. Queria agradecer-lhe por ter ajudado a Pearl. 
Ela disse-me como estava doente. Se no a tivesse trazido para sua casa e cuidado dela, teria morrido.
      Anna encolheu os ombros, desconfortavelmente.
      - Outra pessoa passaria um minuto depois e...
      - T-la-ia deixado por l - interrompeu Coral. - No me diga que qualquer outra pessoa faria o mesmo que a senhora, porque no faria.
      Anna estava sem palavras. Por mais que quisesse protestar contra a viso cnica de Coral em relao  Humanidade, sabia que a mulher tinha razo.
      - A minha irm calcorreou as ruas para me dar de comer, quando ramos mais novas - prosseguiu Coral. - Ficmos rfs quando ela tinha quinze anos e, pouco 
depois, ela perdeu o emprego que possua como criada numa casa chique. Poderia muito bem ter-me entregado a um asilo. Sem mim, talvez tivesse conseguido encontrar 
um outro trabalho respeitvel, talvez pudesse at ter casado e constitudo famlia. - Os lbios de Coral apertaram-se. - Em vez disso, passou a entreter homens.
      Anna estremeceu, tentando imaginar como seria essa lgubre vida. Uma total ausncia de opes.
      - Tentei convencer a Pearl a deixar-me apoi-la agora - Coral desviou o olhar. - Mas a senhora no est para ouvir a nossa histria. Basta dizer que ela  
o nico ser vivo  face da terra por quem nutro amor.
      Anna mantinha-se em silncio.
      - Se alguma vez se der o caso de poder fazer algo por si, senhora Wren - os estranhos olhos de Coral trespassavam-na -,  s dizer.
      - A sua gratido  suficiente - limitou-se Anna a dizer. - Fiquei contente por ajudar a sua irm.
      - Vejo que no leva a srio a minha oferta. Mas no a esquea. Farei por si tudo o que estiver ao meu alcance. Seja o que for.
      Anna assentiu e preparou-se para sair do quarto. Seja o que for... Parou junto  porta e voltou-se num impulso, sem ter tempo para reconsiderar.
      - J ouviu falar de um estabelecimento chamado Gruta de Afrodite?
      - J. - O semblante de Coral tornou-se opaco. - Sim, e conheo a dona, a prpria Afrodite. Posso arranjar-lhe uma noite ou uma semana na Gruta de Afrodite, 
se assim desejar.
      Deu um passo na direco de Anna.
      - Posso conseguir-lhe uma noite com um prostituto exmio ou um colegial virgem. - Os olhos de Coral dilataram-se e pareciam flamejar. - Famosos libertinos 
ou vagabundos de rua. Um homem em especial ou dez completos desconhecidos. Homens escuros, homens brancos, homens amarelos, homens com que apenas sonhou na noite 
profunda, solitria na sua cama, enfiada debaixo de cobertores. O que quer que deseje. Aquilo por que mais anseia. Basta pedir-me.
      Anna olhava para Coral como um rato hipnotizado diante de uma cobra particularmente bela. Comeou a balbuciar uma recusa, mas Coral acenou-lhe com uma mo 
indolente.
      - Durma sobre o assunto, senhora Wren. Durma sobre o assunto e, de manh, d-me a sua resposta. Agora, se no se importa, gostaria de ficar sozinha.
      Anna deu por si no corredor,  porta do seu prprio quarto, meneando a cabea. Poderia o Diabo assumir o disfarce de uma mulher?
      O que era certo  que estava a ser confrontada com a tentao.
      Desceu vagarosamente as escadas, com a sedutora oferta de Coral alojada no pensamento. Tentava afugent-la, mas, para seu horror, descobria que isso lhe era 
impossvel. E, quanto mais pensava na Gruta de Afrodite, mais aceitvel se tornava a oferta.
      Durante a noite, Anna mudou de ideias vezes sem conta a respeito da escandalosa oferta de Coral. Despertava de sonhos enevoados e sinistros, ficando s voltas 
na cama, at que deslizava novamente para um mundo onde lorde Swartingham se afastava eternamente e ela corria atrs dele, sem nunca conseguir alcan-lo. Perto 
da madrugada, Anna desistiu da pretenso de dormir e ficou deitada, a olhar cegamente para o teto ainda escuro. Uniu as mos debaixo do queixo, como uma menina, 
e rezou a Deus, para que lhe permitisse resistir quela terrvel proposta. Uma mulher virtuosa no deveria ter problemas em resistir, disso estava certa. Uma senhora 
correta jamais pensaria em frequentar os bordis londrinos para seduzir um homem que deixara perfeitamente claro que no estava interessado nela.
      Quando voltou a abrir os olhos, j era dia. Levantou-se rigidamente e lavou a cara e o pescoo na gua gelada da bacia, vestindo-se e saindo furtivamente, 
para no acordar a sogra.
      Saiu para o jardim. Ao contrrio do do conde, o dela era pequeno e estava bem cuidado. O aafro estava quase pronto, mas permaneciam alguns narcisos tardios. 
Dobrou-se para arrancar um, que deixara de florir. A viso das tlipas a despontar, por momentos, apaziguou-lhe a alma. Mas logo se recordou de que o conde estaria 
hoje a viajar para Londres. Cerrou com fora os olhos, para afastar esse pensamento.
      Nesse instante, ouviu passos atrs de si.
      - J tomou uma deciso, senhora Wren?
      Voltou-se e deparou-se com um belo Mefistfeles de olhos verdes. Coral dirigia-lhe um sorriso.
      Anna comeou por menear negativamente a cabea, mas ouviu-se a si mesma dizer:
      - Aceito a sua oferta.
      O sorriso de Coral expandiu-se numa curva perfeita, melanclica.
      - Muito bem. Poder vir comigo e com a Pearl at Londres na minha carruagem. - Soltou uma gargalhada baixa. - Isto vai ser interessante.
      Reentrou em casa sem que Anna tivesse tempo para pensar numa resposta.
      
      
      - Eia - murmurou Edward ao baio. Ps-lhe a mo na cabea e esperou pacientemente, enquanto o cavalo batia com a pata e mordia o freio. O animal costumava revelar-se 
rebelde pela manh e, hoje, selara-o mais cedo do que era costume. O cu s agora comeava a clarear a leste.
      - Eia, malandro - sibilou. Pela primeira vez, deu-se conta de que o cavalo com o qual falava no tinha um nome. H quanto tempo tinha ele aquele baio? H meia 
dzia de anos, pelo menos, e nunca se preocupara em batiz-lo. Anna Wren haveria de o repreender, se viesse a saber.
      Quando finalmente montou, Edward estremeceu. Era exatamente por isso que fazia esta viagem: para se libertar de pensamentos a respeito da viva. Decidira-se 
a desgastar aquele desassossego, tanto de corpo quanto de mente, cavalgando at Londres. A bagagem e o seu criado segui-lo-iam na carruagem. Porm, como que para 
escarnecer do seu plano, o recm-batizado Jock saltou mal o baio ps a pata fora dos estbulos, disparando porta fora e tomando a dianteira; durante meia hora, nada 
soube dele. Agora, os quartos traseiros do animal estavam cobertos de lama fedorenta.
      Edward deteve o cavalo e suspirou. Planeara visitar, nesta viagem, a sua noiva e respectiva famlia, para ultimar as negociaes matrimoniais. Um rafeiro malcheiroso 
e gigantesco no o ajudaria em nada junto da famlia Gerard.
      - Fica, Jock.
      O co sentou-se e fitou-o com os seus olhos grandes, castanhos, levemente raiados de sangue. A cauda varria o pavimento atrs dele.
      - Desculpa, meu velhote - Edward inclinou-se para afagar as orelhas do co. O cavalo nervoso afastou-se alguns passos para o lado, interrompendo o contacto. 
- Desta vez, tens de ficar por aqui.
      O co espetou a cabea. Edward sentiu uma indesejada vaga de melancolia. O co no pertencia  sua vida, o mesmo se passando com a viva.
      - De guarda, Jock. Toma conta dela por mim, rapaz. - Esboou algo entre um sorriso e um esgar, perante a sua prpria estranheza. Jock no tinha praticamente 
treino algum para fazer guarda. E, fosse como fosse, Anna Wren no lhe pertencia, pelo que a questo no se levantava.
      Afastando tais pensamentos, virou o baio e partiu a meio-galope pelo caminho de acesso.
      Aps alguma ponderao, Anna disse  sogra que iria viajar at Londres com Pearl e Coral, a fim de comprar tecidos para novos vestidos.
      - Sinto-me muito contente por, finalmente, podermos comprar tecidos, mas tem a certeza? - perguntou a me Wren, de faces rosadas; prosseguiu, num tom de voz 
mais baixo: - Elas so muito simpticas, claro, mas no deixam de ser cortess.
      Anna sentia dificuldades em cruzar o seu olhar com o da sogra.
      - A Coral est muito agradecida pelo cuidado que dispensmos  Pearl. Sabe, elas so muito chegadas...
      - Sim, mas...
      - E ofereceu-me o uso da sua carruagem para me levar a Londres e trazer de volta.
      As sobrancelhas da me Wren uniram-se incertamente.
      -  uma oferta muito generosa - disse Anna com suavidade. - Poupa-nos os gastos com uma viagem de diligncia, para alm de ser mais confortvel. Poderei comprar 
mais tecidos com o dinheiro que gastaramos na diligncia.
      Visivelmente, a me Wren hesitava.
      - No gostaria de ter um novo vestido? - seduziu Anna.
      - Bem, preocupo-me muito com o seu conforto, querida - disse finalmente a sogra. - Se est satisfeita com a situao, ento, tambm eu estou.
      - Obrigada. - Anna beijou-a na face e correu escadas acima, para acabar de fazer as malas.
      Os cavalos j batiam com os cascos no cho quando Anna voltou a descer. Despediu-se apressadamente e subiu para a carruagem, onde as irms Smythe a esperavam. 
Acenou pela janela ao afastarem-se, o que muito divertiu Coral, e, quando estava prestes a recolher-se, avistou Felicity Clearwater ao fundo da rua. Hesitou, mas 
os seus olhos cruzaram-se com os da outra mulher. Ento, a carruagem passou por ela e Anna sentou-se no seu lugar. Mordeu o lbio inferior. Felicity no podia fazer 
ideia do motivo da sua viagem a Londres, mas, ainda assim, v-la deixara-a incomodada.
      A sua frente, Coral ergueu o sobrolho.
      Anna agarrou a fita sobre a cabea quando a carruagem dobrou uma esquina, sacudindo as mulheres. Levantou o queixo.
      Coral sorriu ligeiramente e acenou com a cabea.
      Fizeram uma paragem em Ravenhill Abbey, para que Anna pudesse informar o senhor Hopple de que faltaria ao trabalho por uns dias. A carruagem esperou ao fundo 
do caminho, fora de vista, enquanto ela foi at  manso e voltou. E foi apenas quando estava quase a chegar  carruagem que se apercebeu de que Jock seguia na sua 
sombra.
      Voltou-se para o co.
      - Para trs, Jock.
      Jock sentou-se no meio do caminho, olhando-a calmamente.
      - V, menino. Jock, para casa! - Anna apontava para a manso.
      Jock virou a cabea para olhar na direco do seu dedo, mas no se mexeu.
      - Pois muito bem - suspirou ela, sentindo-se tola por discutir com um co. - Vou ignorar-te.
      Fez o resto do caminho determinada a no prestar ateno ao enorme co que a seguia. Contudo, quando contornou os portes da propriedade e viu a carruagem, 
percebeu que tinha um problema. O criado vira-a e abrira a porta do veculo, antecipando a sua chegada. Ouviu-se o confuso som de patas a esgaravatar a gravilha 
quando Jock disparou  sua frente e pulou para dentro da carruagem.
      - Jock! - Anna estava horrorizada.
      Dentro da carruagem, gerou-se uma certa agitao, que a sacudiu por momentos; depois, a carruagem estabilizou. O criado olhava pela porta. Anna aproximou-se 
e, tambm ela, espreitou hesitantemente.
      Jock estava sentado num dos bancos de veludo. Em frente, Pearl observava o co, aterrorizada. Coral, previsivelmente, mantinha-se impassvel e sorria frouxamente.
      Anna esquecera-se de como Jock podia ser assustador  primeira vista.
      - Peo imensa desculpa. Na verdade, ele  bem inofensivo.
      Pearl, rolando os olhos, no parecia convencida.
      - Vamos, deixem-me tir-lo da - disse Anna.
      Mas no iria ser assim to fcil. Aps uma ameaadora rosnadela de Jock, o criado deixou claro que o seu trabalho no inclua lidar com animais perigosos. 
Anna enfiou-se na carruagem, para tentar enganar o co e traz-lo para o exterior. No dando resultado, agarrou o plo solto junto ao pescoo e tentou arrast-lo. 
Jock fincou as patas e esperou, enquanto ela se esforava.
      Coral comeou a rir.
      - Parece que o seu co quer vir connosco, senhora Wren. Deixe-o estar. No me incomoda ter mais um passageiro.
      - No, no pode ser - ofegou Anna.
      - Pode, sim. No nos faa discutir. Entre e proteja-nos a mim e  Pearl do animal.
      Jock parecia satisfeito quando Anna se sentou. Assim que ficou estabelecido que no seria expulso, deitou-se e adormeceu. Pearl observou-o, tensamente, durante 
algum tempo. Quando ele deixou de se mexer, a cabea dela comeou a ceder ao sono. Anna descansava contra as belas almofadas de veludo da carruagem e pensava sonolentamente 
que eram melhores que as da carruagem de lorde Swartingham. Pouco depois, tambm ela estava adormecida, esgotada pela falta de repouso na noite anterior.
      Durante a tarde, pararam para um almoo tardio, numa estalagem da estrada principal. Alguns moos de cavalaria saram aos gritos para segurar as rdeas dos 
cavalos inquietos, enquanto as mulheres desciam rigidamente. A estalagem era surpreendentemente asseada. Deliciaram-se com uma boa carne cozida e cidra. Anna trouxe 
um pedao de carne para a carruagem, para dar a Jock. Depois, antes de seguirem viagem, deixou-o correr por ali, assustando os cavalarios.
      O sol j se pusera quando a carruagem se aproximou de uma bela casa londrina. Anna ficou surpreendida com o luxo do edifcio. Porm, considerando a carruagem 
de Coral, no havia razes para tal.
      Coral deve ter reparado como ela se embabascara diante da fachada, pois sorriu enigmaticamente.
      - Tudo devido  gentileza do marqus. - Fez um gesto amplo, esboando um sorriso cnico. - O meu bom amigo.
      Anna seguiu-a pelos degraus frontais, at  entrada obscurecida. Os seus passos ecoavam no reluzente cho de mrmore branco. As paredes estavam igualmente 
cobertas de mrmore branco, terminando num teto estucado, de onde pendia um cintilante candelabro de cristal. Era uma entrada bastante bonita, porm vazia. Anna 
perguntou-se se refletiria a sua ocupante atual ou o dono ausente.
      Coral voltou-se nesse momento para Pearl, que comeava a mostrar-se abatida, depois da longa viagem.
      - Quero que fiques aqui comigo, irm.
      - O teu marqus no gostar que eu fique aqui muito tempo. Sabes disso... - Pearl parecia ansiosa.
      Os lbios de Coral contraram-se acentuadamente.
      - Com o marqus, preocupo-me eu. Ele compreender a minha vontade. Alm disso, estar fora do pas nas prximas duas semanas. - Sorriu quase calorosamente. 
- Deixem-me agora mostrar-vos os vossos quartos.
      O quarto de Anna era uma bela pequena diviso pintada em tom de azul-escuro e branco. Coral e Pearl despediram-se dela e Anna preparou-se para se deitar. Jock 
suspirou fundo e deitou-se junto  lareira. Anna escovou o cabelo, enquanto conversava com ele. Proibia-se firmemente de pensar na manh seguinte. Mas, ao deitar-se 
para dormir, todos os pensamentos a que se esquivara acorreram em abundncia. Estaria prestes a cometer um grave pecado? Poderia continuar a viver consigo mesma 
depois do dia de amanh? Seria ela capaz de dar prazer ao conde?
      Para seu desconsolo, era com este ltimo pensamento que mais se preocupava.
      
      
      Felicity acendeu o candeeiro com uma vela e colocou-o cuidadosamente a um canto da secretria. Reginald fora particularmente amoroso aquela noite. Um homem 
da sua idade j deveria ter reduzido os desempenhos no leito.
      Felicity desabafou consigo mesma. A nica coisa que se tornara mais lenta era o tempo que ele demorava a atingir o clmax. Ela poderia ter escrito uma pea 
em cinco atos enquanto ele arfava e suava em cima dela. Em vez disso, ponderara as razes que levariam uma viva da provncia como Anna Wren a viajar at Londres. 
A velha senhora Wren, quando interrogada, dissera que o propsito da viagem era comprar tecidos para novos vestidos. Uma desculpa plausvel,  certo, mas havia muitas 
outras distraes que uma senhora descomprometida podia encontrar naquela cidade. Tantas, alis, que Felicity pensou valer a pena descobrir exatamente o que Anna 
fora fazer a Londres.
      Puxou de uma folha de papel da secretria do seu marido e destapou o tinteiro. Molhou a pena e marcou uma pausa. Quem, de entre os seus conhecimentos em Londres, 
seria a melhor escolha? Vernica era demasiado curiosa. Timothy, embora tivesse um desempenho soberbo sob os lenis, possua, infelizmente, fracos dotes mentais. 
Depois havia... mas claro!
      Felicity sorriu de prazer ao traar as primeiras letras da sua missiva. Escreveu a um homem que no era totalmente honesto. Nem totalmente cavalheiro. E nada, 
nada simptico.
      

  Captulo 9
       
       
       
       
       
       O corvo planou em crculo sobre o reluzente castelo branco e, nisto, bandos de pssaros esvoaaram dos muros: tordos e chapins, pardais e estorninhos, piscos 
e carrias. Todas as aves que urea poderia reconhecer, e em to grande nmero que no seria capaz de as saudar a todas. O corvo pousou e apresentou-as como sendo 
os seus leais servos. Mas, ao passo que o corvo possua o dom da linguagem humana, os pssaros mais pequenos no. Nessa noite, os servos-pssaros conduziram urea 
a um esplendoroso salo. A, ela viu uma comprida mesa, magnificamente preparada com iguarias que s em sonhos imaginara. Esperava que o corvo viesse jantar com 
ela, mas ele no apareceu, pelo que comeu sozinha. Depois, foi conduzida a um quarto lindssimo, encontrando a um vestido de noite, em seda transparente, disposto 
j para ela sobre a enorme cama. Vestiu-o e meteu-se na cama, caindo imediatamente num sono profundo e sem sonhos...
       in O Prncipe Corvo
      
      
      
      A maldita peruca fazia uma comicho dos diabos.
      Edward equilibrava um prato de suspiros no colo e desejava poder enfiar um dedo por baixo da peruca pulverizada. Ou, ento, ver-se livre daquela porcaria. 
Porm, as perucas faziam parte do rigor da alta sociedade e uma visita  futura noiva e respectiva famlia por certo que o exigia. Cavalgara todo o dia anterior 
para chegar a Londres e levantara-se invulgarmente cedo nessa manh, como era seu costume. E ainda teve de ficar a marcar passo durante vrias horas, at ser apropriado 
ir bater  porta de algum. Maldizia a sociedade e as suas regras estapafrdias.
      Diante dele, a futura sogra falava para a sala em geral. Ou, melhor, discursava. A senhora Gerard era uma mulher formosssima, com uma testa ampla e olhos 
redondos, azul-claros. Debatia, com conhecimento de causa, os chapus que estavam na moda. No seria um tpico que ele escolheria e, pelo assentir da cabea de Sir 
Richard, estaria igualmente distante dos temas preferidos do velhote. Parecia, contudo, que, assim que a senhora Gerard comeava a falar, apenas alguma pequena catstrofe 
natural poderia par-la. Como, por exemplo, um relmpago. Edward semicerrava os olhos. Talvez at nem isso.
      Sylvia, a sua prometida, estava graciosamente sentada  sua frente. Os seus olhos eram to redondos e azuis como os das restantes senhoras da famlia Gerard. 
Possua a verdadeira colorao inglesa: uma tez com uma saudvel tonalidade de pssego e nata e um espesso cabelo dourado. Recordava-lhe bastante a sua prpria me.
      Edward bebeu um golo de ch e desejou que fosse usque. Na mesinha junto a Sylvia, encontrava-se um jarro com papoilas. As flores eram de um escarlate vivo 
e acentuavam na perfeio a sala amarela e laranja. Formavam, juntamente com a rapariga com o seu vestido em anil perto delas, uma imagem digna de um mestre. Teria 
sido ali colocada em pose pela me? Os argutos olhos azuis da senhora Gerard faiscavam,  medida que dissertava sobre gaze.
      Definitivamente, sim.
      Embora as papoilas no florissem em Maro. Deviam ter custado os olhos da cara, pois no se diria que fossem feitas de seda e cera, a menos que examinadas 
atentamente.
      Edward ps o prato de lado:
      - Importa-se de me mostrar os seus jardins, menina Gerard?
      A senhora Gerard, apanhada numa pausa, concedeu permisso, com um sorriso satisfeito.
      Sylvia levantou-se e avanou com ele pelas portas francesas, at ao compacto jardim urbano, com as saias sussurrando atrs dela. Caminharam em silncio pelo 
trilho, ela com a mo levemente pousada sobre a manga dele. Edward tentou lembrar-se de algo para dizer, de um tema ligeiro de conversa, mas os seus pensamentos 
estavam alhures. No seria decoroso discutir a rotao das plantaes com uma senhora, nem como se drena um terreno ou as novssimas tcnicas de fertilizao. Na 
verdade, no existia nada que o interessasse que pudesse seguramente debater com uma jovem senhora.
      Olhou para os prprios ps e reparou numa pequena flor amarela, que no era um narciso nem uma prmula. Edward parou para a tocar, perguntando-se se a senhora 
Wren teria uma flor como aquela no seu jardim.
      - Sabe que flor  esta? - perguntou ele  menina Gerard.
      Sylvia dobrou-se para examinar a flor.
      - No, excelncia. - As suas leves sobrancelhas franziram-se. - Deseja que pergunte ao jardineiro?
      - No ser necessrio. - Ele endireitou-se e sacudiu as mos. - Perguntava-me apenas.
      Chegaram ao fim do trilho, onde um pequeno banco de pedra se aninhava contra o muro do jardim.
      Edward retirou um enorme leno branco do casaco e disp-lo sobre o banco. Fez um gesto com a mo.
      - Faa o favor.
      A rapariga acomodou-se elegantemente, cruzando as mos sobre o colo.
      Ele uniu as mos atrs das costas, ficando, absortamente, a observar a pequena flor amarela.
      - Esta unio serve-lhe, menina Gerard?
      - Na perfeio, excelncia. - Sylvia no parecia nada perturbada com a rudeza da pergunta.
      - Dar-me- ento a honra de se tornar minha esposa?
      - Sim, excelncia.
      - Muito bem - rematou Edward, inclinando-se para beijar a face zelosamente oferecida.
      A peruca fazia-lhe mais comicho do que nunca.
      
      
      - Ah, est a! - A voz de Coral quebrou o silncio da pequena biblioteca. - Fico contente por ter encontrado algo de interesse.
      Anna quase deixou cair das mos o livro ilustrado. Ao voltar-se, deparou-se com a outra mulher, que a observava com um ar satisfeito.
      - Peo desculpa. Acho que ainda me estou a reger pelas horas do campo. Quando desci para o pequeno-almoo, ainda no estava pronto. A empregada disse que poderia 
dar uma vista de olhos por aqui. - Anna segurou entre as mos o livro aberto, como prova, pousando-o apressadamente quando se recordou das gravuras explcitas nele 
contidas.
      Coral fitou o volume.
      - Esse  muito bom, mas talvez considere este aqui uma ajuda maior para o que planeia fazer hoje  noite. - Dirigiu-se a outra prateleira e retirou um pequeno 
e fino volume verde, colocando-o nas mos da convidada.
      - Ah... hum... obrigada. - Anna sentiu que se propagavam nela diversas tonalidades de rural. Raramente se sentira to envergonhada.
      No seu vestido matinal, amarelo e enfeitado, Coral no parecia ter mais de dezasseis anos. Talvez at passasse por uma rapariga de boas famlias, prestes a 
ir conviver com as suas amigas. Apenas os olhos desmanchavam a iluso.
      - Venha. Tomemos juntas o pequeno-almoo - disse ela, avanando na direco da sala de pequeno-almoo, onde Pearl estava j sentada.
      Havia um aparador repleto de pratos quentes, mas Anna sentia-se sem grande apetite. Instalou-se numa cadeira em frente a Coral, com um prato de torradas.
      Aps terem comido, Pearl escusou-se e Coral recostou-se na cadeira. Anna sentia os ombros tensos.
      - Ora bem - disse a sua anfitri -, talvez devssemos fazer planos para esta noite.
      - O que sugere? - perguntou Anna.
      - Tenho vrios vestidos que talvez queira espreitar. Qualquer um deles pode ser modificado para lhe assentar bem. Alm disso, temos de falar de esponjas.
      - Desculpe? - pestanejou Anna. Como  que esponjas a poderiam ajudar?
      - Talvez no saiba. - Coral bebericou serenamente o seu ch. - Podemos inserir esponjas no corpo feminino, para impedir a concepo.
      O pensamento de Anna congelou. Nunca ouvira falar de tal coisa.
      - Eu... provavelmente, isso no ser necessrio. Estive casada quatro anos sem ter engravidado.
      - Ento, podemos esquec-las.
      Anna passou o dedo pela sua chvena. Coral prosseguiu:
      - A sua ideia  ficar pela receo da Gruta de Afrodite, para escolher um homem, ou... - disse, fitando Anna com argcia - ou haver um cavalheiro em particular 
com quem se gostasse de encontrar por l?
      Anna hesitou, tomando um golo de ch. At que ponto poderia confiar em Coral? At agora, seguira, um pouco ingenuamente, as suas indicaes, fazendo tudo o 
que ela sugerira. Mas, afinal de contas, mal a conhecia. Poderia confiar-lhe o nome daquele que realmente desejava, falando-lhe de lorde Swartingham?
      Coral parecia compreender o seu silncio.
      - Sou uma prostituta - disse ela. - E, alm disso, no sou uma mulher simptica. Mas, apesar de tudo, a minha palavra vale ouro. - Olhava Anna com seriedade, 
como se fosse muito importante ela acreditar nas suas palavras. - Ouro. Prometo-lhe que no irei mago-la deliberadamente ou tra-la, a si ou a algum a quem queira 
bem.
      - Obrigada.
      A boca de Coral contraiu-se.
      - Sou eu quem deve agradecer-lhe. Nem toda a gente levaria a srio a palavra de uma prostituta.
      Anna ignorou estas palavras.
      - Sim. Como dever suspeitar, gostaria de encontrar um cavalheiro em particular - respirou fundo -, o conde de Swartingham.
      Os olhos de Coral abriram-se levemente.
      - Combinou um encontro com lorde Swartingham na Gruta de Afrodite?
      - No. Ele no tem conhecimento de nada disto - disse Anna com firmeza. - Nem quero que tenha.
      A outra mulher soltou uma gargalhada breve, respirada.
      - Perdoe-me, mas estou confusa. Deseja passar a noite com o conde, na intimidade, sem que ele o saiba. Faz tenes de o drogar?
      - Oh, no, percebeu-me mal. - O seu rosto devia estar, por esta altura, irremediavelmente encarnado, mas Anna prosseguiu. - Desejo passar a noite com o conde... 
na intimidade. Apenas no quero que ele saiba que sou eu, por assim dizer.
      Coral sorriu, meneando cepticamente a cabea.
      - Como?
      - Estou a explicar-me mal... - Anna libertou um suspiro, tentando ordenar os pensamentos. - A questo  que o conde viajou at Londres em negcios e tenho 
motivos para crer que ele visitar a Gruta de Afrodite, provavelmente esta noite. - Mordeu o lbio. - Porm, no sei exatamente quando.
      - Isso pode ser averiguado - disse Coral. - Mas o que pretende fazer para que ele no a reconhea?
      - A Pearl disse que vrias senhoras e mulheres de reputao duvidosa usam uma mscara quando visitam a Gruta de Afrodite. Pensei que poderia fazer o mesmo.
      - Hum...
      - Acha que no funcionar? - Anna percutia, ansiosamente, o rebordo da chvena.
      -  empregada do conde, no ?
      - Sou a sua secretria.
      - Nesse caso, tem de estar ciente de que a probabilidade de ele a reconhecer  muito maior - advertiu Coral.
      - Mas se eu usar uma mscara...
      - Ainda h a sua voz, o seu cabelo, a sua figura - Coral assinalou cada item com a ponta dos dedos. - At mesmo o seu cheiro, se ele j se tiver aproximado 
o suficiente de si.
      - Tem razo, claro. - Anna sentia-se  beira das lgrimas.
      - No digo que no seja possvel conseguir - confortou-a Coral com frieza. - Mas... tem noo dos riscos?
      Anna tentava concentrar-se. Era difcil concentrar-se, estando to perto do que desejava.
      - Sim, parece-me que sim.
      Coral olhou-a por mais uns instantes. Ento, bateu uma vez as palmas da mo. 
      - Muito bem. Creio que devemos comear por tratar do disfarce. Precisamos de uma mscara que lhe cubra a maior parte do rosto. Deixe-me consultar a minha empregada, 
a Giselle. Ela tem muito jeito para a costura.
      - Mas como saberemos se lorde Swartingham visitar esta noite o estabelecimento? - indagou Anna.
      - J me esquecia. - Coral correu a ir buscar instrumentos de escrita e comeou a redigir uma carta  mesa da sala de pequeno-almoo. Falava enquanto escrevia. 
- Conheo a proprietria da Gruta de Afrodite. Costumava dar pelo nome de senhora Lavender, mas, agora, responde ao nome de Afrodite.  uma velhota avarenta, mas 
deve-me um favor. Bem grande, por sinal. Ela pensar, provavelmente, que o assunto est esquecido, da que ficar ainda mais desconcertada quando receber esta carta. 
- Ergueu os lbios, num sorriso feroz. - Tenho o hbito de nunca deixar escapar uma dvida, pelo que, de certa forma,  a senhora que me est a fazer um favor.
      Soprou sobre a tinta, para que secasse, posto o que dobrou e selou a carta, chamando ento um criado.
      - Os cavalheiros que so clientes habituais da Gruta de Afrodite costumam marcar com antecedncia, para garantirem um quarto e uma mulher para certa noite 
- explicou Coral. - A senhora Lavender informar-nos-, se for esse o caso do seu conde.
      - E se for? - perguntou Anna com ansiedade.
      - Ento, delinearemos um plano. - Coral serviu um pouco mais de ch a ambas. - Talvez possa ficar com um quarto e pediremos  senhora Lavender que envie lorde 
Swartingham at si. - Semicerrou os olhos, pensativamente. - Sim, penso que essa ser a melhor ideia. Iluminaremos o quarto com poucas velas, para que ele no consiga 
v-la bem.
      - Fantstico - Anna sorria.
      Coral deixou transparecer um leve sobressalto, mas, depois, sorriu-lhe com a mais sincera expresso que Anna alguma vez lhe vira no rosto. O plano poderia 
muito bem funcionar.
      
      
      A Gruta de Afrodite era uma fraude esplndida, reflectiu Anna nessa noite ao espreitar pela janela da carruagem. Um edifcio de quatro andares, todo ele com 
colunas de mrmore branco e talha dourada; parecia ser grandioso. Apenas atravs de um olhar mais atento se constatava que o mrmore das colunas era pintado e que 
o "ouro" no passava de lato bao. A carruagem avanou para as cavalarias nas traseiras do edifcio e parou.
      Coral, sentada diante de Anna, inclinou-se para a frente.
      - Est pronta, senhora Wren?
      Anna respirou fundo, verificando se a mscara se encontrava bem apertada.
      - Sim.
      Levantou-se sobre as pernas trmulas e desceu da carruagem, seguindo Coral. L fora, uma lanterna junto  porta das traseiras lanava uma luz frouxa sobre 
as cavalarias. A medida que se aproximavam, uma mulher alta e de cabelo arruivado abriu a porta.
      - Ah, senhora Lavender - disse arrastadamente Coral.
      - Afrodite, se no se importa - repreendeu a mulher.
      Coral inclinou ironicamente a cabea.
      Entraram no vestbulo iluminado e Anna notou que Afrodite envergava um vestido violeta, concebido para parecer uma toga clssica.
      Uma mscara dourada oscilava-lhe numa das mos. A Madame dirigiu a Anna um olhar astuto.
      - E a senhora ...?
      - Uma amiga - retorquiu Coral, antes de Anna poder dizer palavra.
      Anna lanou-lhe um olhar agradecido. Estava bastante feliz por Coral ter insistido em que colocasse a mscara antes de sair de casa. No seria sensato expor-se 
diante da Madame.
      Afrodite deitou um olhar desagradvel a Coral e comeou a subir as escadas, atravessando um corredor at chegar a uma porta. Abriu-a e fez sinal com a mo.
      - O quarto  seu at de madrugada. Informarei o conde de que o espera quando ele chegar. - Dito isto, zarpou dali para fora.
      Os lbios de Coral curvaram-se, num sorriso discreto.
      - Boa sorte, senhora Wren.
      Ento, tambm ela desapareceu.
      Anna fechou a porta com cuidado, deteve-se por um momento para acalmar a respirao enquanto olhava em volta. O quarto, surpreendentemente, denotava um certo 
bom gosto de quem o decorara. Enfim, considerando que se estava num bordel. Esfregou os braos, procurando aquec-los. Cortinas de veludo tapavam a janela, o lume 
cintilava numa bela lareira em mrmore branco e dois cadeires repousavam junto ao fogo. Puxou para baixo os cobertores que estavam sobre a cama. Os lenis estavam 
limpos, ou, pelo menos, assim pareciam.
      Despiu a capa e estendeu-a sobre uma cadeira. Trazia por baixo um vestido difano, que Coral lhe emprestara. Anna sups que se tratasse de uma camisa de dormir, 
mas era muito pouco prtico. A metade superior era feita, sobretudo, de renda. Coral assegurara-lhe, porm, que seria esta a indumentria indicada para a seduo. 
A mscara de seda tinha a forma de uma borboleta, cobrindo-lhe a testa e a franja e descendo at boa parte das faces. Os buracos para os olhos eram ovais e arrebitados 
nos cantos, conferindo aos seus olhos uma forma vagamente extica. O cabelo escorria-lhe sobre os ombros, as pontas cuidadosamente encaracoladas. Lorde Swartingham 
jamais a vira de cabelo solto.
      Tudo estava a postos. Anna deslizou at  lareira e passou os dedos por uma das velas. Que fazia ela ali? O plano era descabido e jamais resultaria. Que lhe 
passara pela cabea? Ainda estava a tempo de desistir. Podia abandonar aquele quarto e procurar a carruagem...
      A porta abriu-se.
      Anna deu meia volta e estacou. Uma figura masculina assomava  entrada, recortada pela luz do corredor. Por uma frao de segundo, Anna sentiu medo e, apreensivamente, 
deu um passo atrs. Nem sabia dizer se seria lorde Swartingham. Ento, ele entrou e ela percebeu, pela forma da cabea, pelo passo, pelo movimento do brao ao despir 
o casaco, que era mesmo ele.
      O conde pousou o casaco numa cadeira e avanou para ela de camisa, calas e colete. Anna no sabia o que fazer ou dizer. Desviou nervosamente o cabelo do rosto 
e, com o dedo mindinho, alinhou-o atrs da orelha. No conseguia ver a expresso dele  luz das velas, tal como ele no via a dela.
      Ele estendeu os braos e abraou-a. Ela descontraiu-se perante aquele movimento e levantou o rosto, esperando um beijo. Mas ele no a beijou. Ao invs, ignorou 
por completo o seu rosto, pousando a boca aberta sobre a curvatura do pescoo dela.
      Anna estremeceu. Ter esperado tanto tempo pelo seu toque e ter agora, subitamente, a sua lngua molhada a percorrer-lhe o pescoo, descendo para o ombro, era
simultaneamente perturbante e maravilhoso. Agarrou-o pelos antebraos. Os lbios dele demoravam-se nas suas clavculas, a sua respirao quente provocava-lhe pequenos
arrepios. Os mamilos despontaram contra a renda spera do vestido.
      Lentamente, ele puxou para baixo uma das alas do vestido. A renda arrepanhava e roava no seu mamilo, quase dolorosamente,  medida que o seio se expunha. 
A respirao dele tornou-se mais profunda. Tirou a mo do ombro dela, para passar a palma calosa pelo mamilo. Anna susteve a respirao, expirando fogosamente. H 
seis anos que aquele ponto no era tocado por um homem e, at ento, apenas pelo marido. O calor da palma da mo dele como que queimava contra o seu peito frio. 
Ele esfregava a mo aberta para um lado e para o outro, demorando-se a apreci-la com a largura dos seus dedos. Ento, cingiu o mamilo entre o indicador e o polegar 
e apertou; ao mesmo tempo, mordeu-a ao de leve no ombro.
      Um espasmo de raro prazer sacudiu-a, percorrendo-lhe todo o corpo. O seu ventre retesou-se de excitao. Anna passou os dedos pelos braos dele, apertando 
e esfregando, desejando desesperadamente poder sentir a sua pele por baixo daquelas camadas de roupa.
      O cabelo dele encontrava-se ligeiramente humedecido, devido  nvoa l fora, e ela sentia o seu cheiro: suor e brande e o seu inconfundvel aroma masculino. 
Voltou o rosto para ele, mas ele afastou a cabea. Ela seguiu-lhe o movimento. Queria beij-lo. Mas ele puxou, repentinamente, a outra ala do vestido, distraindo-a. 
Sem os seios a segurarem-no, o vestido caiu-lhe sobre os ps. Estava nua diante dele. Houve um momento em que Anna pestanejou e se sentiu vulnervel, mas foi ento 
que ele aproximou a boca do seu mamilo, chupando-o.
      Ela contraiu-se. Um som baixo, rouco, desprendeu-se-lhe da garganta.
      Ele chupou o outro mamilo como um gato. Toques lentos, lnguidos, que afloravam as suas terminaes nervosas. Ele fez um som semelhante a um ronronar, intensificando 
a iluso de que seria um enorme predador saboreando o gosto da sua pele.
      As pernas tremiam-lhe e Anna sentia-se fraca. Ficou espantada, ao perceber que no conseguia manter-se de p. Que sensao era aquela que se apoderava do seu 
corpo? Nunca antes lhe acontecera. Teria passado assim tanto tempo, para ela no se recordar da sensao de fazer amor? O seu corpo e as suas emoes pareciam-lhe 
alheios.
      Porm, ele amparava-a agora, ainda que as suas pernas desfalecessem por baixo de si. Sem que a boca dele deixasse o seu peito, pegou nela e deitou-a sobre 
a cama, desbaratando-lhe os pensamentos. Percorreu com as mos os seus flancos nus e, agarrando-a pelas coxas, afastou-as bem para os lados. Encostou as ancas ao 
corpo dela, como se lhe pertencesse por direito. A sua masculinidade pousou sobre a sua carne feminina e, com movimentos circulares, abriu-lhe os lbios interiores. 
Ela sentia-o, ereto e grosso e presente.
      Um tremor espalhou-se-lhe por todo o corpo.
      Ele produziu um som entre o grunhir e o ronronar. Parecia apreciar a posio e o desamparo dela. Continuou a balanar-se contra ela, enquanto lhe chupava um 
mamilo com a boca quente. Puxava com fora e ela arqueou-se contra ele desvairadamente, quase o desalojando. Ele gemeu, de facto, ao voltar-se para chupar o outro 
seio. Ao mesmo tempo, fez subir as suas ancas fraccionadamente para cair sobre ela. Anna arqueou-se novamente quando um soluo se lhe escapou dos lbios. Mas, desta 
vez, ele estava preparado e no deixou que ela o movesse. Roou-se com maior firmeza na sua pele sensvel. Pressionou-a contra o colcho, dominando-a com o seu peso 
e a sua fora.
      Estava presa, incapaz de se mexer, enquanto, incansavelmente, ele a satisfazia. No abrandava, esmagando-se inexoravelmente contra ela com os duros quadris, 
chupando incansavelmente os seus mamilos molhados.
      Ela tremia, incapaz de se controlar. Ondas de prazer fluam do centro do seu corpo at s pontas dos dedos dos ps. Seguiam-se ento pequenas rplicas e Anna 
arfava,  medida que pedaos do seu corpo pareciam projetar-se para fora de si. Num momento de xtase, a alegria sobreps-se  ansiedade. Ele balanava-se contra 
ela sem parar, agora em movimentos lentos e suaves, como se soubesse que a pele dela estava demasiado sensvel para aguentar um contacto mais forte. As mos escorriam 
em longas vagas pelos seus flancos e a boca aberta depositava beijos sobre os seus seios doridos.
      Ela no sabia quanto tempo permanecera em xtase at ter sentido os dedos dele contrarem-se, enfiando-se por entre os corpos de ambos para desabotoar as calas. 
No havia muito espao e qualquer movimento da mo dele fazia com que os ns dos dedos se comprimissem contra a sua feminilidade hmida. Ela contorcia-se desenfreadamente 
contra a mo dele. Queria mais, e j. Ele soltou uma risada negra. Exps ento o seu membro, conduzindo-o  sua cavidade feminina. Anna sentia um calor vindo da 
cabea,  medida que ele empurrava a sua masculinidade.
      Era grande, bastante grande. Claro que era grande. Todo ele era grande. Simplesmente, ela ainda no se apercebera de quo grande.
      Tremia de ansiedade feminina, mas ele no lhe concedeu tempo para hesitar. Empurrava, empurrava a sua grande presena masculina para dentro dela. E ela cedia, 
sujeitando-se.
      Anna sentia o membro ereto a encostar-se ao anel interior de msculos que guardava o seu tesouro. O peito dele vibrou com um gemido. Ergueu-se sobre braos 
enrijecidos, comprimiu as ndegas e introduziu-o na totalidade. Ela gemeu, maravilhada: sentir a sua carne masculina dentro dela, quente e rija e agora. Oh, era 
divinal! Ergueu as pernas e apertou-as  volta dele, acima da cintura, ficando um pouco incomodada ao sentir o tecido das calas a roar na parte interna das suas 
coxas nuas.
      Ento, ele retirou o pnis quase na totalidade e enfiou-o novamente, fazendo-a esquecer-se das roupas dele.
      Repetiu o movimento uma e outra vez, com mpeto e cadncia. O peito e a cabea arqueados para longe dela, na escurido, enquanto as ancas prosseguiam um contacto 
constante, absorto, de puro deleite. Ela estendeu o brao para lhe tocar o rosto, mas ele afastou com ternura as mos dela para o lado e dobrou-se, encostando o 
nariz  sua orelha. Ela ouvia-o agora a respirar rapidamente,  medida que o seu ritmo abrandava. Passou-lhe os dedos pelo cabelo, na parte de trs da cabea, e 
apertou as coxas  sua volta, procurando prolongar aquele momento. Ele gemeu ao ouvido dela e as suas ndegas contraram-se profundamente por baixo dos calcanhares 
dela,  medida que espasmos lhe percorriam o corpo e ele se derramava dentro dela.
      Ela arqueou-se, procurando receber tudo o que ele tivesse para lhe dar. Se, pelo menos, o fim nunca chegasse...
      Mas chegou... e tudo terminou. Desfaleceu, com a respirao e o corpo exaustos. Ela agarrou-o e segurou-o junto a si, fechando os olhos para que o momento 
ficasse gravado na sua memria. Sentiu o roar spero das calas contra as suas pernas e cada arrepio nos msculos dele, enquanto respirava. Deixou-se ficar a ouvir 
aquela respirao descompassada. Era um som maravilhosamente ntimo e lgrimas picavam-lhe os olhos.
      Por algum motivo, sentia-se bizarramente chorosa. A emoo inquietava-a. Fora a experincia mais gloriosa da sua vida, mas fora tambm totalmente inesperada. 
Anna pensara que seria apenas um simples alvio fsico, mas, em vez disso, ocorrera uma magnfica espcie de transcendncia. No fazia sentido algum para ela, mas 
faltava-lhe clareza de ideias para descortinar tudo aquilo.
      Abandonou aquele pensamento, planeando retom-lo mais tarde. Agora, estava com as pernas imoralmente afastadas, estendidas como haviam ficado quando ele interrompera 
o seu movimento. Ele permanecia ainda dentro de si, pulsando aqui e ali com rplicas. Ela fechou os olhos e saboreou aquele peso imenso, quente, sobre o seu corpo. 
Sentia o calor molhado do esperma, o cheiro do suor e o pungente odor a sexo. Estranho como aquele odor lhe agradava. Anna sorriu, sentindo-se completamente relaxada, 
voltando a cabea para passar os lbios pelo cabelo dele.
      Ele mexeu-se e retirou-se do corpo dela. F-lo lentamente, com ela a sentir cada um dos seus movimentos como um vazio a alastrar. A sensao cresceu mais e 
mais,  medida que ele se levantava da cama e abotoava as calas. Num pice, tinha apanhado o casaco e dirigia-se para a porta.
      Abriu-a, fazendo ento uma pausa, com a cabea iluminada por trs pela luz do corredor.
      - Venha ter comigo aqui outra vez amanh  noite. - A porta fechou-se silenciosamente.
      E Anna reparou que esta fora a nica altura em que ele lhe falara naquela noite.
      

  Captulo 10
       
       
       
       
       
       A meio da noite, quando tudo estava escuro, urea foi despertada por beijos apaixonados. Estava sonolenta e no conseguia ver, mas o toque era terno. Voltou-se 
e os seus braos rodearam a figura de um homem. Ele acarinhava-a to ternamente, que ela nem notou que ele lhe despia a camisa de dormir. Fizeram amor num silncio 
apenas interrompido pelos seus gritos de xtase. Ele ficou toda a noite com ela, venerando o corpo dela com o seu prprio corpo, e,  medida que a aurora se aproximava, 
urea tornou a adormecer, saciada de paixo. Quando despertou, de manh, o seu amante da vspera havia partido. Sentou-se na sua enorme cama solitria e procurou 
um qualquer sinal dele. Apenas encontrou uma simples pena de corvo, perguntando-se se tudo no passara de um sonho...
       in O Prncipe Corvo
      
      
      
      
      Edward largou a pena e levantou os culos para esfregar os olhos. Maldio! As palavras no lhe surgiam.
      No exterior da sua casa londrina, num bairro no muito elegante, ouvia o som dos carros de entregas comeando a subir e a descer a rua. A porta da frente bateu 
e uma cano veio a pairar at  sua janela, interpretada pela criada que varria as escadas. O quarto clareara desde que ele se levantara da cama, pelo que se inclinou 
para apagar a vela que gotejava sobre a secretria.
      O sono esquivara-se-lhe na noite anterior. Finalmente, cedera de madrugada. Estranho. Acabara de experimentar o melhor sexo da sua vida e deveria, portanto, 
estar completamente exausto. Em vez disso, passara a longa noite a pensar em Anna Wren e na rameira que levara para a cama na Gruta de Afrodite.
      Mas seria ela uma prostituta? Era esse o problema. Durante toda a noite, a questo ocupou-lhe continuamente os pensamentos.
      Quando chegara  Gruta de Afrodite, a Madame dissera-lhe apenas que tinha uma mulher  sua espera. No indicara se era uma prostituta profissional ou uma verdadeira 
senhora, preparada para uma noite de prazer ilcito. Ele tambm no perguntara. No se faziam perguntas na Gruta de Afrodite, sendo isso que fazia com que tantos 
frequentassem o local: o anonimato e uma mulher asseada estavam garantidos. A curiosidade atacara-o apenas quando deixara o bordel.
      Por um lado, ela pusera uma mscara, como faria uma senhora vida de ocultar a sua identidade. Porm, as rameiras da Gruta de Afrodite usavam por vezes mscaras, 
a fim de adquirir um ar misterioso. Contudo, por outro lado, sentira-a to apertada quando a penetrou, que era como se ela tivesse passado muito tempo sem um homem. 
Talvez fosse a sua imaginao, relembrando-o apenas daquilo que queria sentir.
      Gemeu roucamente, num murmrio arquejante. Pensar nela estava a provocar-lhe uma ereo enorme; e fazia-o tambm sentir-se culpado. Fora essa a outra coisa 
que o mantivera acordado durante a maior parte da noite: a culpa. O que era ridculo. Tudo correra bem, maravilhosamente, at que o seu pensamento se voltara para 
a senhora Wren, para Anna, ainda que nem quinze minutos tivessem passado desde que sara da Gruta de Afrodite. A sensao que esse pensamento lhe trouxera - uma 
espcie de melancolia, uma impresso de incorreo - prolongara-se at chegar a casa. Sentia como se a tivesse trado. No importava que ela no tivesse nenhuma 
pretenso em relao a ele, que nunca tivesse demonstrado que o desejo era recproco. A noo de que fora infiel estava sempre presente, corroendo-lhe a alma.
      A pequena rameira encarnara as formas de Anna.
      Ao abra-la, imaginou como seria abraar Anna Wren, como seria acarici-la. E, quando lhe beijou o pescoo, ficara imediatamente excitado. Edward resmungava 
sacudindo as mos. Era ridculo. Tinha de se libertar daqueles pensamentos constantes em relao  sua secretria, no eram dignos de um cavalheiro ingls. Aquela 
nsia de corromper uma inocente tinha de ser ultrapassada e haveria de o conseguir apenas pela fora de vontade, caso fosse necessrio.
      Saltou da secretria, caminhou at  campainha do canto e puxou-a violentamente. Comeou ento a arrumar os seus papis. Tirou os culos de leitura e guardou-os.
      Cinco minutos depois, ainda no obtivera resposta ao seu chamamento.
      Edward expirou e fitou a porta. Passou-se mais um minuto sem sinal de qualquer empregado. Ele percutia a secretria com os dedos, impacientemente. Havia limites!
      Caminhou at  porta e gritou para o corredor:
      - Davis!
      Um som arrastado, como que vindo de uma criatura invocada das infernais profundezas, atravessou o corredor. Aproximava-se lentamente.
      - Davis, se no se apressa, no chegar antes do sol se pr... - Edward susteve a respirao,  escuta.
      O arrastar de ps no acelerou. O conde expirou novamente, encostando-se ao umbral da porta.
      - Qualquer dia, mando-o embora. Substituo-o por um urso treinado. No haveria de se portar pior do que o senhor. Est a ouvir-me, Davis?
      Davis, o seu criado de quarto, apareceu  esquina, trazendo nas mos uma bacia com gua quente, que tremelicava. Quando avistou o conde, o criado abrandou 
ainda mais o seu passo de caracol. Edward franziu o nariz.
      - Isso mesmo, no se esforce. Disponho de todo o tempo do mundo para ficar aqui no corredor em camisa de dormir.
      O outro homem parecia no ouvir. Os seus movimentos estavam agora prximos do rastejar. Davis era um velhaco de cabelo esparso, da cor da neve suja. As suas 
costas curvavam-se numa corcunda anunciada. Uma verruga enorme e peluda crescia-lhe junto  boca, como que para compensar a falta de cabelo acima dos olhos cinzentos 
e aquosos.
      - Sei que est a ouvir-me - gritou-lhe Edward ao ouvido, quando ele passou.
      O criado deu um salto, como se acabasse de reparar nele.
      - Levantou-se cedo, no foi, excelncia? To debochado que nem dormiu, no ?
      - Dormi profundamente.
      - Ah, sim? - Davis soltou uma risada digna de um busardo. - Se me permite diz-lo, no  nada bom para um homem da sua idade dormir mal.
      - O que est para a a resmonear, seu pato senil?
      Davis pousou a bandeja e lanou-lhe um olhar malicioso.
      - Suga o vigor masculino! Ah! Suga, suga... se  que me fao entender, excelncia.
      - No, no se faz entender, graas a Deus - respondeu o conde, despejando a jarra de gua morna para uma bacia sobre a cmoda e comeando por molhar o queixo.
      Davis inclinou-se para ele e, num sussurro roufenho, disse:
      - Fornicar, excelncia - e piscou o olho, numa viso repugnante.
      Edward fitou-o, irritado, enquanto se ensaboava.
      - Est muito bem para um homem jovem - prosseguiu o criado -, mas o meu senhor j est a chegar ao cume da idade. Os homens mais velhos precisam de preservar
a sua fora vital.
      - Se o senhor o diz...
      Davis esboou um esgar e pegou na lmina. Edward arrebatou-lha imediatamente da mo.
      - No sou parvo ao ponto de o deixar aproximar-se do meu pescoo com uma lmina afiada - exclamou, comeando ele prprio a raspar o sabo por baixo do queixo.
      - Claro que alguns no tm de se preocupar em preservar as foras - disse o criado. A lmina aproximou-se da cova do queixo de Edward. - O membro no lhes
pra de crocitar, se  que me entende.
      Edward gritou, ao ferir o queixo.
      - Fora! Saia j daqui, seu bbado malicioso!
      Davis ofegava, enquanto corria para a porta. Outra pessoa, ouvindo aquele som assobiado, ter-se-ia preocupado com a sade do velhote, mas Edward no se deixava
enganar. Era raro o seu criado levar a melhor assim to cedo pela manh.
      Davis ria-se.


      O encontro amoroso no correra exatamente como esperara, reflectiu Anna na manh seguinte. Tinham feito amor, naturalmente. E ele no parecia t-la reconhecido.
Isso era um alvio. Mas, na verdade, quanto mais pensava no desempenho sexual de lorde Swartingham, mais desconfortvel se sentia. Fora um bom amante. Um magnfico
amante, alis. Nunca antes experimentara um tal prazer fsico, tanto que no o pudera prever. Mas o facto de no a ter beijado na boca...
      Anna serviu-se de uma chvena de ch. Tendo-se levantado novamente cedo para o pequeno-almoo, a sala estava por sua conta.
      Ele nem sequer a deixara toc-lo no rosto. De certa forma, fora uma coisa impessoal. Mas isso era natural, no seria? Ele achava que se tratava de uma prostituta 
ou de uma mulher de pouca moral e, portanto, tratara-a como tal. No fora isso que pretendera?
      Anna tirou a cabea a um arenque fumado e espetou-lhe os dentes do garfo de lado. Deveria ter contado com isso, mas no o fizera. A questo era que, enquanto 
estivera a fazer amor, ele estivera... enfim... a manter uma relao sexual com uma prostituta annima. Era deveras deprimente.
      Ficou a olhar para o arenque decapitado. E que diabo deveria ela fazer esta noite? No planeara ficar em Londres mais do que duas noites. Devia regressar a 
casa hoje, na primeira diligncia. Ao invs, estava ali sentada na sala de pequeno-almoo de Coral, despedaando um inocente arenque.
      Anna esboava ainda um esgar melanclico quando Coral entrou na sala vestindo um simples roupo rosa, rematado com penas de cisne. Estacou e olhou para Anna.
      - Ele no apareceu ontem  noite?
      - O qu? - Foram precisos uns instantes at que Anna registasse a pergunta. - Oh... sim. Sim, ele apareceu. - Corou e bebeu apressadamente um golo de ch.
      Coral serviu-se de ovos cozidos e torradas no aparador e deixou-se cair graciosamente numa cadeira diante de Anna.
      - Foi demasiado bruto?
      - No.
      - No lhe agradou? - pressionou a outra mulher. - No conseguiu lev-la ao clmax?
      Atrapalhada com a pergunta, Anna quase se engasgou.
      - No! Quero dizer, sim. Foi bastante agradvel.
      Imperturbvel, Coral serviu uma chvena de ch.
      - Ento, porque  que est to carrancuda logo pela manh, quando deveria estar com estrelas nos olhos?
      - No sei! - Para seu horror, Anna reparou que levantara a voz. O que se estava a passar com ela? Coral tinha razo, ela conseguira o que queria, passara uma 
noite com o conde e, ainda assim, ficara insatisfeita. Que criatura contraditria era!
      A outra mulher franziu o sobrolho, perante o tom de voz com que se viu contemplada.
      Anna esmigalhava um pedao de torrada, incapaz de olhar Coral nos olhos.
      - Ele quer que eu regresse esta noite.
      - A srio? - disse a outra mulher, pausadamente. - Isso  interessante.
      - No devo ir.
      Coral bebeu do seu ch.
      - Ele pode reconhecer-me, se voltarmos a encontrar-nos - Anna empurrou o arenque para a borda do prato. - Seria muito pouco prprio de uma senhora voltar para 
uma segunda noite.
      - Sim, estou a ver o seu problema - murmurou Coral. - Uma noite num bordel  perfeitamente respeitvel, ao passo que duas j nos deixam perigosamente perto 
de sermos vulgares.
      Anna arregalou os olhos. Coral sorria-lhe ironicamente.
      - Porque no vamos comprar os tecidos que disse  sua sogra que levaria consigo? Dar-lhe- tempo para pensar. Pode decidir o que fazer l mais para a tardinha.
      - Mas que bela ideia. Obrigada - Anna pousou o garfo. -  melhor ir mudar-me.
      Levantou-se da mesa e apressou-se a sair da sala, sentindo-se um pouco mais animada. Desejaria apenas conseguir libertar-se dos pensamentos acerca da noite 
que se aproximava. Apesar do que dissera a Coral, Anna receava j ter tomado uma deciso. Iria regressar  Gruta de Afrodite e aos braos de lorde Swartingham.
      
      
      Nessa noite, o conde entrou no quarto, onde Anna j o esperava, sem dizer palavra. Os nicos rudos foram a porta a fechar-se e o crepitar do fogo. Ela viu-o 
avanar, o rosto envolvido pelas sombras. Ele desenvencilhou-se do casaco, evidenciando os ombros volumosos. Ento, ela deslizou at ele antes que ele tomasse a 
iniciativa e assumisse o controlo. Ps-se em bicos dos ps para o beijar na boca. Mas ele esquivou-se ao movimento, optando por a puxar para si.
      Desta vez, ela estava decidida a tornar aquela dana mais pessoal, faz-lo compreender que ela era real. Tocar, ao menos, uma pequena parte dele. Aproveitou 
a posio e abriu com rapidez os botes do seu colete. Uma vez desabotoado, concentrou-se na camisa.
      Ele ia agarrar-lhe as mos, mas ela j tinha desabotoado parcialmente a camisa. Dirigiu-se gananciosamente para o seu prmio: aqueles formosos mamilos masculinos. 
Os dedos dela percorreram-lhe os plos do peito at os encontrar; debruou-se ainda mais sobre o peito dele e lambeu-lhe os mamilos, tal como ele lhe fizera na noite 
anterior, sentindo-se vagamente triunfante por ter conquistado to rapidamente a posio de comando. As mos dele baixaram com a inteno de agarrar os pulsos dela, 
mas acabaram por fixar-se no seu rabo.
      A estatura dele era um obstculo, visto que ela no o conseguia envolver completamente. Por isso, empurrou-o para um dos cadeires junto  lareira. Para ela, 
era importante vencer a batalha desta noite.
      Ele ficou ali esparramado, de camisa meio aberta  luz da lareira. Ela ajoelhou-se entre as suas pernas estendidas e enfiou as mos por baixo da camisa, avanando 
at aos ombros; ento, os dedos dela percorreram os braos dele, puxando o tecido consigo. Despiu-lhe a camisa e deixou-a cair para o cho, podendo ento acariciar-lhe 
os ombros e os braos, belos e musculados. Anna gemeu, deleitando-se com a hiptese de, finalmente, poder sentir a fora e o calor do corpo dele. Sentia-se enlouquecer 
de expectativa.
      Ele mexeu-se e conduziu as mos dela para a parte da frente das suas calas. Os dedos tremiam-lhe, mas ela afastou-lhe as mos quando ele tentava ajud-la. 
Fez deslizar os botes escondidos pelas casas, sentindo como a ereo dele crescia por baixo dos seus dedos; introduziu a mo pela abertura das calas.
      Era belo. Espesso e grande, com veias latejantes que sobressaam ao longo do veio. Um cume inchado. A viso enchia-a de calor. Soltou um sussurro gutural e 
afastou o mais que pde as calas, para que pudesse contemplar o peito, a barriga e o pnis. Adorava aquela viso: os caracis negros e crespos dos plos pbicos, 
a espessa coluna, despontando agora sobre o umbigo, e, por baixo, o pesado saco com os testculos. A pele nua reluzia, como que dourada pela luz da lareira.
      Ele soltou um gemido e enfiou-lhe os dedos no cabelo, na parte de trs da cabea. Suavemente, impeliu a cabea dela para o seu pnis. Por momentos, ela hesitou. 
Ela nunca... Atrever-se-ia? Foi ento que se recordou da batalha entre ambos. Aquele momento no passava de uma escaramua, mas era importante sair vencedora. Sentia-se 
excitada s de pensar nisso. Foi isso que a fez decidir-se.
      Hesitando, pegou no falo ereto e trouxe-o da barriga dele para os lbios. Olhou para cima. O rosto dele corara de excitao. Ela baixou as plpebras e envolveu-lhe 
a coroa do pnis com a boca. As ancas dele agitaram-se quando a sua lngua o tocou e, novamente, sentiu-se triunfante. Era-lhe possvel controlar um homem desta 
forma.
      Era possvel controlar aquele homem. Voltou a olhar para cima. Ele observava-a enquanto ela lambia e chupava a sua virilidade. Os olhos dele cintilavam com 
a luz da lareira. Os seus dedos contraam-se no cabelo dela.
      Cerrou as plpebras quando desceu, o mais que pde, com a boca ao longo do membro ereto. Depois, subiu devagarinho, apertando os lbios e chupando o espesso 
membro  medida que este se retirava da sua boca. Ouviu-o gemer e a plvis dele arqueou-se compulsivamente. Passou a lngua pelo sulco abaixo da glande. Parecia 
camura sobre ferro e sabia ao almscar masculino, ao sal do suor e da vitria. Por certo que, depois disto - desta noite -, as coisas se tornariam diferentes. Explorou 
aquela zona com a lngua durante algum tempo. Sentiu ento a mo dele a cobrir as suas, conduzindo os dedos dela para baixo e para cima.
      Gemia.
      Ela movia mais rapidamente a mo enquanto ele a incitava a colocar novamente o pnis na boca, com um golpe de ancas. Desta vez, ao recuar para a glande, sentiu 
o sabor de uma gota salgada na ponta. Lambeu a fenda no cimo, para verificar se haveria mais. Ele voltou a gemer. Anna contorcia-se de excitao. Na sua vida sexual, 
nunca fizera nada de to excitante. O seu corpo estava hmido e escorregadio e os seus seios pareciam palpitar a cada gemido que ela lhe arrancava.
      As ancas dele comearam a mover-se ritmicamente. Aqueles sons lquidos, sensuais, da boca dela no seu corpo, eram explcitos no quarto silencioso. Subitamente, 
ele curvou-se, ofegante, tentando retirar-se da boca dela. Ela desejava, porm, sentir o seu culminar, queria experimentar aquela intimidade partilhada, queria estar 
com ele na sua mxima vulnerabilidade. Prosseguiu e chupou com mais vigor. Uma substncia quente e intensa invadiu-lhe a boca. Ela prpria quase atingiu o orgasmo 
ao perceber que o levara  mais completa satisfao.
      Ele suspirou e inclinou-se para a puxar para o seu colo. Ficaram ali prostrados durante uns instantes, com o lume a crepitar. Ela encostou a cabea ao ombro 
dele e afastou, com um dedo, o cabelo dos olhos. Momentos depois, ele despiu-lhe o vestido at  altura dos seios. Languidamente, brincou com os seus mamilos, tocando-os
e apertando-os cuidadosamente durante vrios minutos.
      Anna gozava, de olhos semicerrados. Ento, ele levantou-a, para a libertar por completo do vestido. Virou-a e p-la ao seu colo, nua e de frente para ele,
as pernas dela envolvendo os braos da cadeira. Aberta diante dele. Vulnervel.
      Era isto que ela pretendia? No tinha a certeza. Foi ento que os dedos dele passearam pela sua barriga, descendo at onde ela se abria a ele, e Anna deixou
de se preocupar. Ele demorou-se nos seus caracis, antes de deslizar at mais abaixo. Ela inspirou profundamente, esperando, prevendo onde iria ele toc-la em seguida.
      Acariciou-a, abrindo-lhe o sexo. Ela mordeu o lbio.
      Depois, ele trouxe os dedos para cima, molhados com os seus sucos, e passou-os pelos seus mamilos. Vagamente, Anna dava-se conta de que deveria estar escandalizada, 
mas, naquele lugar, com aquele homem, as boas maneiras no entravam em jogo. Ele brincava com os seus mamilos, deslizando a mo por eles e puxando-os, para se certificar 
de que ficavam plenamente embebidos na humidade do corpo dela.
      Ela susteve a respirao diante daquela sensao animal. Era to grosseiro o que ele estava a fazer e, no entanto, excitava-a terrivelmente...
      Ele inclinou a cabea e chupou um mamilo. Tivera o cuidado de lhe deixar a pele sensvel, fazendo com que ela gemesse e se arqueasse descontroladamente com 
o contacto. Tornou a concentar-se na vulva e enfiou nela o seu dedo mdio, comprido e forte. O polegar ia tocando o clitris entumecido e, ao mesmo tempo, o outro 
dedo mexia-se dentro dela.
      Da sua garganta, elevavam-se sons semelhantes a sussurros. Sentia uma humidade a escorrer-lhe por entre as coxas.
      Ele soltou uma risada abafada e, com o polegar, massajou vigorosamente o clitris. Chupou o outro seio. Essas sensaes agudas em dois pontos diferentes do 
seu corpo misturaram-se e combinaram-se, at ela o agarrar pelos ombros e arquear involuntariamente as ancas. Ele ps a outra mo nas costas dela e amparou-a, enquanto 
o polegar comeava a rodar.
      Ela atingiu o orgasmo de forma explosiva, arfando e tremendo. Tentou fechar as pernas, mas os braos da cadeira impediram-na.
      Apenas conseguia mexer as ancas absortamente, enquanto ele lhe dava prazer. Por fim, quando recomeou a gemer, ele ergueu-a pelo rabo e empurrou-a sobre o 
seu membro viril.
      A respirao dele estava acelerada, enquanto penetrava a abertura molhada. Impeliu-a para baixo continuamente at ela ter absorvido todo o seu espesso calor
e estar quase dolorosamente aberta. Ento, com cuidado, levantou-lhe as pernas, uma de cada vez, dos braos da cadeira, e colocou-as de cada lado dele. Ergueu-a
sobre os joelhos dela, para que apenas a sua glande permanecesse, expandindo a abertura. Manteve-a assim, equilibrada no pnis, enquanto lhe chupava e lambia os
mamilos oscilantes.
      Ela gemia. Ele estava a deix-la fora de si. Freneticamente, procurava afundar-se na sua ereo ardente, mas ele ria sombriamente e mantinha-a imvel, numa
expectativa de prazer. Ela tentou rodar as ancas, girando a coroa na sua passagem.
      Foi ento que ele cedeu, puxando-a para baixo uma vez mais e penetrando-a quase violentamente.
      Oh, sim. Ela sorria, desvairadamente, de satisfao. Cavalgava-o, observando a expresso no rosto dele. Ele acariciava-lhe os seios e batia com a cabea na 
cadeira. Estava de olhos fechados, lbios recuados sobre os dentes que quase rangiam; o tremeluzir da lareira tornava as suas feies demonacas.
      Ento, ele puxou-lhe ao de leve os mamilos, simultaneamente, e ela deixou cair a cabea para trs. O cabelo escorria-lhe pelas costas, varrendo tanto as suas 
pernas quanto as dele. Um novo orgasmo chegou-lhe em ondas demoradas, sincopadas, que lhe enevoavam a viso. As ancas dele empurravam-se contra as dela. Agarrou-a
pelas ndegas para a manter em cima de si, com o pnis completamente dentro dela, com a cabea a rodar nas costas da cadeira enquanto atingia o clmax.
      Ela caiu para a frente, esbaforida, ficando encostada ao ombro nu, enquanto ele a embalava nos seus braos.
      O rosto dele estava virado para o lado, ela observou-o enquanto ele recuperava. As rugas que habitualmente lhe cobriam a testa e delineavam a boca estavam
mais discretas. As pestanas compridas e escuras fechadas, ocultando os olhos penetrantes. Ela queria acariciar-lhe o rosto, senti-lo com os dedos. Sabia, porm, 
que ele no lho permitiria naquele momento.
      Teria ela ganho o que desejava? Sentia lgrimas a arder nos cantos dos olhos. Algo no estava certo. Aquela noite fora ainda mais maravilhosa do que a anterior. 
Todavia, ao mesmo tempo, como que na proporo do seu xtase fsico, sentia na alma uma intensa sensao de vazio. Algo estava em falta.
      Ele suspirou repentinamente e mexeu-se. A carne dele deslizou para fora dela. Levou-a nos braos at  cama, onde a deitou delicadamente. Estava a tremer e 
ps a colcha  volta dos ombros, observando-o. Queria falar, mas que poderia dizer?
      Ele abotoou a camisa, enfiou-a por dentro das calas, que tambm abotoou. Passou os dedos pelo cabelo e pegou no casaco e no colete, caminhando na direco 
da porta, naquele jeito desengonado de um homem que acabou de se satisfazer. Parou junto  porta.
      - Amanh.
      E depois saiu.
      Anna ficou ali um minuto, escutando-lhe os passos a afastarem-se, sentindo-se melanclica. Despertou com risos perversos, algures na casa. Levantou-se e lavou-se 
com a gua e as toalhas que se encontravam convenientemente por perto. Deitou a toalha para o cho e ficou a olhar para ela. A bacia e as toalhas eram fornecidas
com o quarto para as lavagens aps um encontro sexual. Aquilo fazia-a sentir-se reles, como uma prostituta. E no estaria ela perigosamente prxima desse estatuto?
Estava a deixar que o desejo fsico a dominasse a tal ponto, que andava a encontrar-se com um amante num bordel.
      Suspirou e vestiu o vestido negro que trouxera consigo, dobrado num saco, juntamente com uma capa de capuz e botas. J vestida, dobrou o vestido de renda e 
enfiou-o no saco. Esquecera-se de alguma coisa? Dando uma vista de olhos pelo quarto, no viu nada que lhe pertencesse. Abriu uma fresta da porta e espreitou para 
o corredor. Caminho livre. Puxou o capuz e, de rosto coberto pela mscara em forma de borboleta, aventurou-se a sair.
      Coral aconselhara-a, na vspera, a ter cuidado nos corredores, devendo entrar e sair apenas pelas escadas das traseiras. L fora, estaria uma carruagem  sua 
espera, quando estivesse pronta para partir.
      Anna avanava agora para as escadas que Coral lhe indicara, descendo o lano a correr. Suspirou de alvio quando chegou  porta e viu a carruagem  espera. 
A mscara comeava a irritar-lhe o nariz. Desatou-a. Mal a tinha retirado, trs homens ainda jovens viraram a esquina do edifcio. Anna apressou-se na direco da 
carruagem.
      Num gesto repentino, um dos homens deu uma palmada amistosa nas costas de um outro. Mas este ltimo estava to embriagado, que perdeu o equilbrio e foi contra 
Anna, fazendo com que ambos cassem ao cho.
      - Peo 'mensa dsculpa, qu'rida.
      O homem ria-se, enquanto tentava levantar-se de cima de Anna, dando-lhe, pelo meio, cotoveladas na barriga. O melhor que conseguiu foi erguer-se sobre as mos, 
ficando nessa postura, balanando, como que demasiado embriagado para se mexer um pouco mais. Anna empurrava-o, tentando vencer o seu peso. A porta das traseiras 
da Gruta de Afrodite abriu-se. A luz que por ela saa incidia-lhe sobre o rosto.
      O rapazola sorria inebriadamente. Um canino de ouro reluzia-lhe na boca.
      - Bom, no ests assim to mal, amor. - Deixou-se cair de uma forma que obviamente considerava sedutora e lanou um hlito a cerveja sobre o rosto de Anna. 
- O que dizes, tu e eu...?
      - Saia de cima de mim, senhor! - Anna bateu com fora no peito do homem, conseguindo desequilibr-lo. Ele caiu para o lado, praguejando de modo ordinrio. 
Ela esgueirou-se na direco contrria, fugindo do seu alcance.
      - Anda c, minha puta. Vou...
      O amigo do janota impediu que ela ouvisse o resto daquele comentrio indubitavelmente obsceno, iando-o pelo colarinho da camisa.
      * Vamos embora, companheiro. No h necessidade de andarmos a brincar com as moas dos fundos quando temos umas quantas belezas l dentro  nossa espera.
      s gargalhadas, arrastaram o amigo exaltado.
      Anna correu para a carruagem, entrou nela e bateu com a porta. Aquele terrvel incidente deixara-a trmula. Um incidente que poderia ter sido bem mais grave.
      Nunca antes fora confundida com uma mulher de moral duvidosa. Sentia-se decadente, maculada. Respirou profundamente e recordou a si mesma que nada tinha com 
que se aborrecer. No se magoara na queda e os amigos daquele bruto tinham-no afastado sem que ele a tivesse insultado ou posto uma mo em cima.  verdade que lhe 
vira o rosto, mas era altamente improvvel que se cruzasse com ele em Little Battleford. Anna sentia-se um pouco melhor. Por certo, no haveria repercusses.
      Duas moedas de ouro rodaram no ar, brilhando com a luz vinda da porta das traseiras da Gruta de Afrodite. Foram apanhadas por mos notavelmente firmes.
      - Correu bem.
      - Ainda bem que sim. - Um dos rapazolas sorria foradamente, parecendo to embriagado como seria suposto estar. - Importas-te de nos dizer para que foi tudo 
aquilo?
      - Receio no poder faz-lo. - O lbio do terceiro homem ergueu-se com desdm, deixando entrever o brilho do seu dente de ouro. -  segredo.


  Captulo 11
       
       
       
       
       
       Haviam passado vrios meses desde que urea chegara ao castelo do seu esposo corvo. Durante o dia, entretinha-se lendo um das vrias centenas de livros ilustrados 
da biblioteca do castelo ou passeando pelos jardins.  noite, banqueteava-se com iguarias apenas sonhadas em vidas anteriores. Tinha vestidos lindssimos  sua disposio 
e joias inestimveis com que se adornar. Por vezes, o corvo visitava-a, surgindo repentinamente no seu quarto ou juntando-se a ela durante o jantar, sem aviso prvio. 
urea pensava que o seu estranho esposo possua uma mente vasta e inteligente, envolvendo-a em conversas fascinantes. Porm, o enorme pssaro negro acabava sempre 
por desaparecer antes de ela recolher aos seus aposentos. E todas as noites, no escuro, um estranho vinha at ao seu leito matrimonial, para, intensamente, fazer 
amor com ela...
       in O Prncipe Corvo
      
      
      
      
      - Salve,  defensor do nabo e mestre das ovelhas! - disse arrastadamente uma voz grave, na manh seguinte. - Bons olhos o vejam, camarada agrrio. 
      Edward semicerrou os olhos, para tentar discernir melhor por entre o fumo do botequim cavernoso. Mal divisava a silhueta da pessoa que lhe dirigia a palavra, 
instalada numa mesa no canto de trs,  direita. Com que ento, defensor do nabo? Abrindo caminho por entre mesas desordenadas, escurecidas pelo tempo, Edward chegou 
junto do homem e deu-lhe uma forte palmada nas costas.
      - Iddesleigh! Ainda no so cinco da tarde. Por que est acordado?
      Simon, visconde de Iddesleigh, no caiu perante a vigorosa pancada, mas ainda oscilou. Era um homem bem-parecido, escorreito, e usava uma elegante peruca polvilhada, 
vestindo uma camisa rematada a renda. Para muitos, sem dvida, pareceria excessivamente vaidoso. Mas, neste caso, as aparncias eram um engano.
      - Sou conhecido por j ter visto a claridade antes do meio-dia - disse Iddesleigh -, embora raramente. - Com um pontap, afastou uma cadeira da mesa. - Sente-se, 
homem, e sirva-se dessa santificada mistela chamada caf. Os deuses, tivessem eles sabido, no precisariam de nctar no Olimpo.
      Edward fez sinal a um rapaz que servia bebidas e tomou a cadeira oferecida. Acenou com a cabea ao terceiro homem com quem partilhava a mesa.
      - Como vai, Harry?
      Harry Pye era o feitor de uma propriedade algures no Norte de Inglaterra. No costumava andar por Londres. Devia estar ali em negcios. Contrastando com o 
exuberante visconde, Harry quase se confundia com a madeira do estabelecimento. Envergando um vulgar casaco castanho e colete, era um homem que passava despercebido 
 maioria. Edward, porm, sabia que ele transportava uma perigosa adaga numa das botas.
      Harry assentiu.
      - Excelncia,  um prazer v-lo. - No sorriu, mas havia um brilho de satisfao nos seus olhos verdes.
      - Por amor de Deus, Harry, quantas vezes j lhe disse para me chamar Edward ou De Raaf? - Acenou novamente ao rapaz.
      - Ou Ed, ou Eddie - atalhou Iddesleigh.
      - Eddie, no. - O rapaz bateu com a caneca na mesa e Edward bebeu um golo, agradecido.
      - Com certeza, excelncia - ouviu ele Harry a murmurar, mas no se deu ao trabalho de responder.
      Passou os olhos pela sala. O caf desta casa era bastante bom e essa era a principal razo pela qual o Grmio Agrrio se reunia aqui; no era certamente devido 
 arquitetura. A sala estava apinhada e o teto era demasiado baixo. O lintel da pequena porta era conhecido por infligir um horrvel galo na cabea aos clientes 
mais altos. As mesas, provavelmente, nunca tinham sido esfregadas e as canecas dispensavam um exame mais cuidadoso. E o pessoal era um bando ardiloso, capaz de ser 
seletivamente duro de ouvidos quando no lhes apetecia servir, independentemente do estatuto do fregus. Mas o caf era feito na hora e forte, e qualquer homem era 
bem-vindo desde que se interessasse por agricultura. Edward reconhecia diversos homens nobres sentados s mesas, mas havia igualmente pequenos proprietrios, gozando 
o dia em Londres, e ainda empregados, como Harry. Os Agrrios eram conhecidos pela estranha equidade do seu clube.
      - E o que o traz  nossa linda, ainda que malcheirosa, capital? - perguntou Iddesleigh.
      - Vim negociar uma aliana matrimonial - retorquiu Edward.
      Os olhos de Harry Pye aguaram-se sobre o rebordo da caneca.
      A sua mo envolvia o recipiente. Havia um espao inquietante onde deveria estar o seu dedo anelar, mas no estava.
      - Oh, homem mais corajoso do que eu - exclamou Iddesleigh. - Ento, devia estar a celebrar as iminentes npcias, quando o vi a noite passada na bela Gruta 
de Afrodite.
      - Estava l? - Edward sentiu-se estranhamente renitente. - No o vi.
      - Pois no - Iddesleigh esboou um sorriso amarelo. - Parecia estar bem... hum... relaxado, quando o vi a abandonar o estabelecimento. Eu prprio estava, na 
altura, a braos com duas ninfas sequiosas... de outro modo, t-lo-ia cumprimentado.
      - S duas? - perguntou Harry, com cara de pau.
      - Mais tarde, juntou-se-nos uma terceira. - Os olhos cinzentos e gelados de Iddesleigh cintilavam, quase inocentemente. - Mas hesitei em assumir o facto, com 
receio de que isso vos levasse a duvidar da vossa virilidade, por via de comparao.
      Harry resmungou. Edward sorriu, cruzando o olhar com o do criado. Levantou o dedo, a pedir uma nova caneca.
      - Deus do Cu! No lhe pesam j os anos, para tais malabarismos?
      O visconde colocou uma mo coberta de renda sobre o peito.
      - Garanto-vos, pela honra dos meus mortos e apodrecidos antepassados, que as trs garotas ostentavam sorrisos quando as deixei.
      - Provavelmente, por causa do ouro que estavam a embolsar - disse Edward.
      - Ofende-me profundamente - disse o visconde, contendo um bocejo.-Alm disso, tambm o senhor se envolveu num qualquer deboche no territrio da deusa. Admita-o.
      -  verdade - Edward lanou um esgar  sua caneca. - Mas, em breve, abandonarei este tipo de vida.
      O visconde soergueu os olhos do casaco, onde inspecionara os ornamentos prateados.
      - Est a dizer-me que pretende ser um noivo casto?
      - No vejo outra opo.
      - No ser uma interpretao demasiado literal, para no dizer arcaica, dos votos matrimoniais? - comentou Iddesleigh, franzindo o sobrolho.
      - Talvez. Mas creio que contribuir para o sucesso do casamento. - Edward sentiu o maxilar a contrair-se. - Quero que, desta vez, d certo. Preciso de um herdeiro.
      - Desejo-lhe sorte, ento, caro amigo - disse Iddesleigh em voz baixa. - Deve ter escolhido a sua senhora com todo o cuidado.
      - Absolutamente - Edward ps os olhos na caneca meio vazia. - Pertence a uma famlia respeitvel, mais antiga do que a minha. As minhas cicatrizes no lhe 
causam repulsa, sei-o porque lho perguntei... algo que negligenciei com a minha primeira mulher.  inteligente e reservada. E bonita, sem ser deslumbrante. E a famlia 
dela  numerosa. Se Deus quiser, ser capaz de me dar filhos vigorosos.
      - Uma puro-sangue para um puro-sangue. - A boca de Iddesleigh entortou-se. - Em breve, os seus estbulos estaro repletos de uma robusta prole aos berros. 
Estou certo de que mal pode esperar para comear a procriar com a sua escolhida.
      - Quem  a senhora? - perguntou Harry.
      - A filha mais velha de Sir Richard Gerard, a menina Sylvia...
      Iddesleigh produziu uma exclamao abafada. Harry olhou-o com severidade.
      - ... Gerard. Conhece-la? - inquiriu Edward lentamente.
      Iddesleigh escrutinava a renda dos seus punhos.
      - A mulher do meu irmo Ethan era uma Gerard. Segundo me recordo, a me foi c uma pea no casamento...
      - Ainda  - Edward encolheu os ombros. - Mas duvido que venha a ter muito contacto com ela depois de casarmos.
      Harry ergueu a taa com gravidade.
      - Parabns pelo seu noivado, excelncia.
      - Sim, felicitaes. - Tambm o visconde ergueu a sua taa. - E boa sorte, meu amigo.


      Anna despertou com um nariz frio na face. Abriu um olho e viu uns olhos castanhos de co, a centmetros dos dela. Olhavam-na sofregamente. O hlito pungente 
do animal ofegava-lhe na cara. Ela resmungou e voltou a cabea, para olhar para a janela. A alvorada clareava o cu, passando de uma cor esmaecida de pssego para 
um azul intenso.
      Fitou novamente os olhos escrutinadores do co.
      - Bom dia, Jock.
      Jock retirou as patas dianteiras do colcho junto  cabea dela e deu um passo atrs, para se sentar. Ficou muito quieto, de orelhas espetadas, quartos dianteiros 
encurvados, olhos de atalaia a qualquer movimento seu: todos os sinais de um co que deseja ir  rua.
      - Pronto, est bem. Vou levantar-me. - Caminhou at  bacia e lavou-se rapidamente, antes de se vestir.
      Co e mulher desceram rapidamente as escadas traseiras.
      Coral vivia numa rua elegante, perto de Mayfair, debruada com casas de pedra branca, construdas nos ltimos anos. A maior parte delas estava em silncio, 
tirando uma ou outra empregada que lavava os degraus frontais ou polia uma maaneta de porta. Normalmente, Anna sentir-se-ia desconfortvel por caminhar num lugar 
desconhecido sem acompanhante, mas tinha Jock como cmplice. Sempre que algum se aproximava, o co chegava-se a ela, como que para a proteger. Foram passeando num 
silncio partilhado. Jock ocupava-se a farejar os intrigantes odores da cidade, ao passo que Anna ia absorta nos seus prprios pensamentos.
      Durante a noite, refletira sobre a sua situao e, ao acordar nessa manh, tinha j uma ideia sobre o que fazer. No poderia ir ter com ele esta noite. Estava 
a brincar com o fogo e no podia continuar a esconder esse facto de si mesma. Guiada pela necessidade de estar com lorde Swartingham, ignorando qualquer prudncia, 
fugira impulsivamente para Londres e frequentara um bordel, como se se tratasse de um musical representado em Little Battleford. Era um milagre ele no a ter reconhecido. 
E o incidente da noite anterior, com os rapazes embriagados, fora demasiado arriscado. Poderia ter sido violada ou magoada, ou ambas as coisas. Que hipocrisia censurar 
os homens por fazerem aquilo que ela fizera nas duas noites anteriores! Estremecia ao pensar no que diria lorde Swartingham se a tivesse desmascarado. Era um homem 
bastante orgulhoso e com um temperamento terrvel.
      Anna meneou a cabea e olhou em frente. Estava a umas poucas casas de distncia da residncia de Coral. Ou os seus passos a tinham conduzido de volta ou Jock 
possua um apurado sentido de orientao.
      Fez uma pequena festa na cabea do co.
      - Lindo menino.  melhor entrarmos e fazermos as malas para regressarmos a casa.
      Ao ouvir a palavra "casa", Jock espetou as orelhas.
      Nesse instante, parou uma carruagem diante da morada de Coral. Anna hesitou, refazendo os passos para dobrar novamente a esquina e espreitar. Quem estaria 
a bater  porta numa hora to inconveniente?
      Da carruagem saltou um criado, colocando um degrau de madeira por baixo da porta, antes de a abrir. Avanou uma perna masculina, recolhendo novamente para 
o interior da carruagem. Ela viu o criado a mover o degrau um ou dois centmetros para a esquerda; no seguimento, desceu um homem robusto, de ombros espadados. 
Parou por instantes, para dizer algo ao criado. Pela forma como este inclinou a cabea, parecia ser "fica aqui".
      O homem robusto entrou na casa.
      Seria o marqus de Coral? Anna contemplava estes acontecimentos, enquanto Jock esperava pacientemente a seu lado. Do pouco que sabia a respeito do marqus, 
talvez fosse prudente no se encontrar com ele. No queria meter Coral em sarilhos e incomodava-a que algum de nvel a visse na residncia de Coral. Embora fosse 
altamente improvvel voltar a cruzar caminhos com o marqus, o incidente da noite anterior com os rapazes embriagados deixara-a cautelosa. Decidiu entrar em casa 
pela porta de servio, numa tentativa de passar despercebida.
      - Ainda bem que j tinha intenes de partir ainda hoje - murmurou ela a Jock, ao atravessarem a cozinha.
      Havia uma enorme agitao na cozinha. Empregadas corriam e os criados ajudavam a trazer para dentro uma montanha de bagagem. Mal deram por Anna, quando ela 
subiu pela escadaria negra das traseiras. Ainda bem. Ela e Jock avanaram em silncio pelo corredor superior. Anna abriu a porta do seu quarto e encontrou Pearl 
em ansiosa espera.
      - Oh, graas a Deus que regressou, senhora Wren - disse a outra mulher ao v-la.
      - Fui dar uma volta com o Jock - disse Anna. - A pessoa que eu vi entrar pela porta da frente seria o marqus de Coral?
      - Sim - confirmou Pearl. - A Coral no esperava que ele regressasse seno daqui a uma semana ou mais. Vai ficar furioso, ao descobrir que ela tem hspedes.
      - Eu ia agora mesmo fazer as malas e partir, pelo que no ter de se preocupar comigo.
      - Obrigada, senhora. Isso facilitar muito as coisas  Coral.
      - E o que far a Pearl? - Anna dobrou-se para puxar a sua mala de baixo da cama. - A Coral disse que a queria aqui com ela. Ser que o marqus ir permitir 
que fique?
      Pearl agarrou um fio que lhe pendia do punho.
      - A Coral acha que o convencer a deixar-me ficar, mas no sei. Ele, por vezes,  tremendamente mau, embora seja um nobre. E a casa, como v, pertence-lhe.
      Anna meneou a cabea, em sinal de compreenso, enquanto dobrava cuidadosamente as meias.
      - Estou contente por a Coral ter um lugar to bonito para viver, com criados e carruagens e tudo - disse Pearl pausadamente. - Mas aquele marqus pe-me nervosa.
      Anna deteve-se, com uma grande quantidade de roupa nos braos.
      - No acha que ele seria capaz de magoar a sua irm, pois no?
      Pearl fitou Anna sombriamente.
      - No sei.
      
      
      Edward vagueava pelo quarto do bordel como um tigre enjaulado ao qual se negou uma refeio. A mulher estava atrasada. Consultou, uma vez mais, o relgio de 
porcelana por cima da lareira. Meia hora atrasada, maldita fosse. Como podia atrever-se a deix-lo assim  espera? Aproximou-se da lareira e ficou a olhar para o 
lume. Nunca antes regressara obsessivamente pela mesma mulher. Nem uma nem duas vezes, mas trs vezes j.
      O sexo fora to bom nas duas ocasies e ela era to sensvel...! No se furtara a nada, agindo como se estivesse to enfeitiada como ele. No era ingnuo; 
sabia que as mulheres que se faziam pagar por sexo fingiam frequentemente uma excitao que no sentiam. Mas a reao natural de um corpo no podia ser simulada. 
Ela estivera molhada, literalmente ensopada, de desejo por ele.
      Soltou um gemido. Pensar no seu sexo molhado estava a ter um claro efeito no seu pnis. Onde raio se metera ela?
      Praguejou e afastou-se da lareira, retomando a sua caminhada. Comeara at a sonhar,  maneira de um rapaz deslumbrado, com o rosto por baixo da mscara. Mais 
perturbante ainda, imaginara que talvez se parecesse com o de Anna.
      Deteve-se e encostou o topo da cabea  parede, de mos apoiadas em cada lado. O seu peito expandia-se, com uma respirao profunda. Viera a Londres para, 
antes de se casar, libertar-se do terrvel fascnio em relao  sua secretria. Em vez disso, descobrira uma nova obsesso. Mas teria isso acabado com a fixao 
original? Oh, no! A sua nsia por Anna no s se fortalecera, como se misturara com o desejo pela misteriosa rameira. Tinha agora duas obsesses, em lugar de uma, 
emaranhadas no seu intrincado crebro.
      Bateu com a cabea contra a parede. Talvez estivesse a ficar louco. Isso explicaria tudo.
      Claro que, para o seu membro, nada disto importava. Louco ou lcido, continuava desejoso por sentir o calor interior daquela mulher. Parou de bater com a cabea 
na parede e voltou a olhar para o relgio. Ela estava, agora, trinta e trs minutos atrasada.
      Que raios! No iria esperar nem mais um minuto.
      Pegou no casaco e irrompeu para fora do quarto. Dois cavalheiros grisalhos caminhavam pelo corredor. Lanaram-lhe um olhar e desviaram-se para o lado, perante 
a sua passagem intempestiva. Edward correu escadaria abaixo, desembocando no salo onde os clientes masculinos iam misturar-se e conhecer as senhoras disfaradas 
e as prostitutas. Percorreu com os olhos a sala apinhada. Havia vrias mulheres vestidas de cores berrantes, cada uma rodeada de homens sequiosos, mas apenas uma 
usava uma mscara dourada. Era mais alta do que as outras e mantinha-se  parte, atenta s movimentaes na sala. A sua mscara era simples e serena, as sobrancelhas 
impondo arcos perfeitamente simtricos sobre as aberturas para os olhos amendoados. Afrodite observava as suas "mercadorias" com um radiante olho de guia.
      Edward foi direito a ela.
      - Onde  que ela est? - perguntou ele.
      A Madame, por norma uma mulher imperturbvel, deu um salto para o lado com aquela pergunta.
      - Lorde Swartingham, certo?
      - Sim. Onde est a mulher com quem era suposto encontrar-me esta noite?
      - No est no seu quarto, excelncia?
      - No - Edward cerrou os dentes. - No, no est no meu quarto. Estaria eu aqui em baixo a perguntar por ela se ela estivesse no quarto?
      - Temos muitas outras senhoras disponveis, excelncia. - A voz da Madame era insinuante. - Talvez eu possa pedir a outra senhora que suba at ao seu quarto.
      Edward inclinou-se para a frente.
      - No quero outra. Quero a mulher com quem estive nas duas ltimas noites. Quem  ela?
      Os olhos de Afrodite desviaram-se por trs da mscara dourada.
      - Excelncia, sabe bem que no podemos revelar a identidade dos nossos lindos cisnes aqui na Gruta. Integridade profissional, como sabe.
      Edward franziu o nariz.
      - Estou-me borrifando para a integridade profissional de um bordel. Quem  ela?
      Afrodite recuou um passo, como que assustada. O que no era de surpreender, pois a figura do lorde avolumara-se ameaadoramente  sua frente. Ela fez sinal 
com a mo, a algum por cima do ombro dele.
      Edward semicerrou os olhos. Sabia que tinha apenas uns minutos.
      - Quero o nome dela, j... ou terei todo o gosto em desencadear um motim no seu salo.
      - No precisa de irritar-se. Existem muitas outras senhoras que gostariam de passar a noite consigo. - A voz de Afrodite ostentava um sorriso amarelo. - Que 
no se importam com uma ou outra cicatriz.
      Edward ficou quieto. Sabia muito bem qual o aspecto do seu rosto. J no o incomodava - h muito ultrapassara a agonia da vaidade -, mas a verdade  que repelia 
algumas mulheres. A pequena rameira no parecera importar-se com as suas cicatrizes. Mas, claro, na noite anterior, tinham feito amor no cadeiro junto  lareira 
e talvez tivesse sido a primeira vez que ela lhe vira realmente a cara. Talvez tivesse ficado to enojada com a viso, que no se dera ao trabalho de aparecer esta 
noite.
      Maldita seja.
      Deu meia volta. Agarrou num jarro de falsa porcelana, ergueu-o acima da cabea e atirou-o ao cho. Estilhaou-se intempestivamente. A conversa na sala interrompeu-se 
e os rostos viraram-se na sua direco.
      Pensar demasiado fazia mal a um homem. Precisava era de ao. Se no podia gastar a sua energia na cama, enfim, aquela era a melhor alternativa.
      Foi agarrado por trs e forado a voltar-se. Um punho do tamanho de um presunto vinha na direco do seu rosto. Edward inclinou-se para trs. O golpe passou-lhe 
a rasar o nariz. Ele aplicou o seu punho direito na barriga do homem. O outro homem soltou o ar dos pulmes - um som maravilhosamente sibilante... - e ficou a cambalear.
      Trs homens avanaram para tomar o lugar do primeiro. Eram os rufies de que a casa dispunha para escoltar os desordeiros at  rua. Um deles, dedicou-se repetidamente 
ao lado esquerdo do seu rosto. Edward viu estrelas, mas isso no o impediu de responder com um belo murro no queixo de um deles.
      Os clientes incentivavam.
      Depois disso, as coisas azedaram. Alguns dos espectadores, de esprito desportista, consideraram o combate desigual e juntaram-se  rixa com um entusiasmo 
mais ou menos embriagado. As raparigas tentavam escapulir-se freneticamente subindo para cima das mesas, gritando e deslocando moblia, na pressa de fugir da confuso. 
Afrodite estava no meio da sala, vociferando ordens que ningum conseguia ouvir. S parou quando algum lhe enfiou a cabea empertigada numa taa de ponche. Voavam 
mesas pelo ar. Uma mulher, de nimo empreendedor, comeou a aceitar apostas dos homens e das raparigas que haviam ocupado as escadas para assistir ao tumulto. Outros 
quatro rufias e outros tantos homens dos quartos do andar de cima juntaram-se  confuso. Alguns dos hspedes tinham claramente sido interrompidos a meio do seu 
entretenimento, pois envergavam apenas calas ou, no caso de um cavalheiro j velho e bem distinto, nada mais do que uma camisa.
      Edward estava a divertir-se imenso. Corria-lhe pelo queixo sangue sado de um lbio aberto e sentia um dos olhos a fechar-se por causa de um inchao. Um homem 
agarrou-o pelas costas, batendo-lhe na cabea e nos ombros. Diante dele, um outro homem, maior, tentava dar-lhe pontaps nas pernas, para que ele cedesse. Edward 
esquivou-se aos golpes e levantou o p, para o arremessar contra a perna do outro homem enquanto este estava desequilibrado. O homem caiu como um colosso.
      O homem agarrado s suas costas comeava a tornar-se irritante. Agarrando-o pelos cabelos, Edward lanou-se velozmente de costas contra uma parede. Ouviu um 
estrondo quando a cabea do homem embateu na superfcie slida. O homem escorregou pelos ombros de Edward e aterrou no cho, juntamente com uma boa parte do estuque 
da parede.
      Edward sorriu e olhou em volta,  procura de novas vtimas. Um dos matules da casa tentava escapar pela porta. Olhou desvairadamente por cima do ombro, quando 
o olhar de Edward caiu sobre ele, mas no estava ali nenhum dos seus compinchas para o vir ajudar.
      - Tenha piedade, excelncia. No me pagam o suficiente para ser espancado, como fez com o resto dos rapazes. - O segurana tinha as mos erguidas, recuando 
perante o avano de Edward. - Por Deus, o senhor at arrumou com o Big Billy, e nunca vi ningum mais rpido do que ele.
      - Muito bem - disse Edward. - Ainda que quase no consiga ver do olho direito, o que equipara as coisas... - Olhava com esperana para o matulo encolhido, 
que sorria ligeiramente e meneava a cabea. - No? Ento, ser que sabe de algum stio onde um homem se possa embebedar como deve ser?...
      Assim, um pouco mais tarde, Edward deu por si no que devia ser a taberna mais decadente da zona oriental de Londres. Com ele, estavam os seguranas da casa, 
incluindo Big Billy, agora a braos com um nariz inchado e dois olhos negros, mas sem ressentimentos.
      Pusera o brao  volta dos ombros de Edward e tentava ensinar-lhe as palavras de uma cantiga originalmente concebida para cativar uma moa chamada Titty. A 
cantiga parecia ter vrios sentidos, bem insinuantes, mas que Edward pensava no o afetarem, j que, nas ltimas duas horas, andara a pagar bebidas a toda a gente 
na taberna.
      - Qu... quem era a prostituta de que o senhor andava  procura e que comeou tudo aquilo? - Jackie, o brutamontes que perguntava, no perdera nem uma rodada 
de bebidas. Lanou a questo ao ar um pouco  direita de Edward.
      - Uma mulher infiel - murmurou Edward para a sua cerveja.
      - As mulheres so todas umas cabras infiis. - Este pedao de sabedoria masculina surgiu de Big Billy.
      Os homens ali presentes assentiram melancolicamente, ainda que o dito tivesse feito com que um ou dois perdessem o equilbrio e se sentassem abruptamente.
      - No. No  verdade - disse Edward.
      - O que  que no  verdade?
      - Que todas as mulheres sejam infiis - disse ele pausadamente. - Conheo uma mulher que  to pura como a neve que cai.
      - Quem ?
      - Diga-nos ento, excelncia!
      Os homens amontoavam-se para ouvir o nome daquele paradigma feminino.
      - A senhora Anna Wren - Edward ergueu vacilantemente o copo. - Um brinde! Um brinde  senhora mais imaculada de Inglaterra. A senhora Anna Wren!
      A taberna irrompeu em ruidosos vivas e brindes  senhora. E Edward interrogou-se por que motivo se tinham apagado subitamente as luzes.
      A sua cabea parecia rebentar. Abriu os olhos, mas imediatamente reconsiderou essa inteno e fechou-os novamente. Com cuidado, tocou na tmpora e tentou pensar 
por que razo o cimo da sua cabea parecia prestes a explodir.
      Recordou-se da Gruta de Afrodite.
      Recordou-se da mulher que no apareceu.
      Recordou-se de uma luta. Esboou um esgar e procedeu a uma minuciosa inspeo com a lngua. Os dentes estavam todos intactos. Boas notcias.
      O seu pensamento esforava-se.
      Recordou-se de ter estado com um tipo divertido... Big Bob? Big Bert? No, Big Billy. Recordou-se... oh, por Deus! Recordou-se de ter feito um brinde a Anna 
no pior covil em que tivera o azar de beber cerveja inspida. O seu estmago revirou-se desagradavelmente. Teria ele realmente invocado o nome de Anna num lugar 
como aquele? Sim, pensava que sim. E, se bem se recordava, a sala inteira, cheia de infames patifes, tinha obscenamente brindado a ela.
      Gemeu.
      Davis abriu a porta, deixando-a bater contra a parede, e arrastou-se lentamente pelo quarto com uma bandeja carregada.
      Edward voltou a gemer. O barulho da porta quase lhe provocou um doloroso latejar nas tmporas.
      - Maldito seja. Agora no, Davis.
      Davis continuou o seu trajeto de caracol at  cama.
      - Sei que me est a ouvir - disse ele, um pouco mais alto, mas no muito, com medo que a cabea comeasse novamente a latejar.
      - Andmos nos copos, no foi, excelncia? - gritou Davis.
      - No sabia que o senhor tambm tinha andado - rematou Edward, por trs das mos com que cobria o rosto.
      Davis ignorou aquelas palavras.
      - Belos cavalheiros, os que o trouxeram a casa ontem  noite. Amigos novos?
      Edward afastou os dedos para atirar um olhar ao seu criado, que, evidentemente, o rechaou.
      - Os anos j pesam para andar na farra, excelncia. Na sua idade, pode dar azo a gota.
      - Sinto-me esmagado pela sua preocupao com a minha sade. - Edward olhou para a bandeja que Davis tinha conseguido pousar na mesa-de-cabeceira. Continha 
uma chvena de ch, j frio, a julgar pela espuma que flutuava  superfcie, e uma tigela de sopas de leite. - Que raio vem a ser isto? Papas de enfermaria? Traga-me 
um pouco de brande para pr as ideias em ordem.
      Davis fingiu-se surdo, evidenciando uma grande autoconfiana. Afinal de contas, eram muitos anos de treino.
      - Aqui tem um belo pequeno-almoo para o retemperar - apregoou-lhe o criado ao ouvido. - O leite fortalece muito um homem da sua idade.
      - Saia! Saia! Saia! - berrou Edward, vendo-se, mais uma vez, obrigado a segurar a cabea.
      Davis recuou at  porta, mas no resistiu a uma observao de despedida.
      - Tem de ter cuidado com o seu feitio, excelncia. Pode acabar com a cara toda vermelha e os olhos esbugalhados pela apoplexia. Pssima forma de partir, essa.
      Saiu porta fora, com uma destreza impressionante para um homem da sua idade... segundos antes de a tigela com as sopas de leite acertar nela.
      Edward resmungou e fechou os olhos, afundando novamente a cabea na almofada. Deveria levantar-se e comear a fazer as malas para voltar a casa. Tinha conseguido 
uma noiva e visitado a Gruta, no uma, mas duas vezes. Fizera, na realidade, tudo a que se propusera quando decidira viajar at Londres. E, mesmo que agora se sentisse 
muito pior do que quando ali chegara, no havia razo para permanecer na cidade. A rameira no regressaria, jamais voltaria a encontr-la, e ele tinha responsabilidades 
que no podia negligenciar. E era assim que tinha de ser.
      No havia lugar, na sua vida, para uma misteriosa mulher mascarada e para o prazer transitrio que ela representava.
      
      
      

  Captulo 12
       
       
       
       
       
       Os dias e as noites foram passando como num sonho e urea sentia-se satisfeita. Talvez estivesse at feliz. Porm, passados uns meses, comeou a sentir uma 
vontade ardente de ver o pai. Esse impulso foi crescendo mais e mais, at todos os seus momentos se encherem de saudades do rosto do pai, tendo passado a sentir-se 
inquieta e triste. Certa noite, ao jantar, o corvo focou nela o seu olho escuro e brilhante,
       como uma conta, e disse-lhe: - O que provoca este mal-estar que em vs sinto, minha esposa?
       - Desejo ver novamente o meu pai, senhor - suspirou urea.
       - Sinto saudades dele.
       - Impossvel! - crocitou o corvo, abandonando a mesa
       sem mais palavras.
       Mas urea, embora nunca se tivesse queixado, sentia tanta falta do pai, que parou de comer, limitando-se a remexer as iguarias colocadas diante de si. Foi-se 
consumindo cada vez mais, at que, um dia, o corvo j no conseguia suportar a situao. Voou at ao seu quarto, furioso.
       - Assim sendo, ide e visitai o vosso pai-grasnou ele. - Mas certificai-vos de que estareis de regresso dentro de duas semanas, porque, ultrapassado esse tempo, 
eu definharia.
       in O Prncipe Corvo
      
      
      
      
      - Oh, meu Deus! - exclamou Anna no dia seguinte. - O que aconteceu ao seu rosto?
      Anna reparava nos hematomas negros. Edward estacou e fixou-a nos olhos. No o via h cinco dias e as primeiras palavras sadas da sua boca eram uma acusao... 
Por breves momentos, ps-se a imaginar qualquer um dos seus anteriores secretrios masculinos a atreverem-se a tecer comentrios sobre o seu aspecto. Seria impossvel. 
Alis, no se recordava de ningum, a no ser a sua atual secretria feminina, que fizesse comentrios to impertinentes. Estranhamente, achava essa impertinncia 
cativante.
      Embora no deixasse que isso fosse evidente. Franziu o sobrolho e tentou pr a sua secretria no lugar.
      - No aconteceu nada ao meu rosto, obrigado pela preocupao, senhora Wren.
      No surtiu nenhum efeito assinalvel.
      - No pode chamar nada a esse olho negro e aos hematomas no seu queixo. - Anna assumia um ar reprovador. - J aplicou uma pomada?
      Estava sentada no seu lugar habitual, junto  secretria de pau-rosa, na biblioteca. Parecia extremamente serena, dourada pela luz da manh, como se no se 
tivesse afastado da secretria desde que ele fora a Londres. Era um pensamento estranhamente reconfortante. Edward reparou que ela tinha um pequeno ponto de tinta 
no queixo.
      E havia algo diferente na sua aparncia.
      - No apliquei pomada alguma, senhora Wren, pois no h motivo para tal - respondeu, tentando percorrer a distncia que faltava at  sua secretria sem coxear.
      Naturalmente, tambm ela reparou nisso.
      - E a sua perna! Porque est a coxear, excelncia?
      - No estou a coxear.
      Ela arqueou as sobrancelhas de tal forma, que elas quase lhe desapareceram sob a franja.
      Edward viu-se forado a fit-la nos olhos, para reforar a mentira. Tentava pensar numa explicao para as suas leses que no lhe permitisse passar por um 
completo idiota. Certamente que no poderia dizer  sua secretria que andara  pancada num bordel.
      Mas o que se passava com a aparncia dela?
      - Teve algum acidente? - perguntou Anna, sem ele ter conseguido pensar numa desculpa adequada.
      Ele aproveitou a sugesto.
      - Sim, um acidente. - Havia qualquer coisa com o cabelo dela... Um novo estilo, talvez?
      O seu alvio foi breve.
      - Caiu do cavalo?
      - No! - Edward esforava-se por manter um tom de voz baixo e, subitamente, teve uma inspirao. Ele conseguia ver o cabelo dela. - No, no ca do cavalo. 
Onde est a sua touca?
      Como distrao, falhou de forma abissal.
      - Decidi no voltar a us-la - disse ela, recatadamente. - Se no caiu do cavalo, ento, o que lhe aconteceu?
      Esta mulher teria um sucesso rotundo na Inquisio.
      - Eu... - No conseguia recordar-se de uma histria apropriada.
      Anna estava preocupada.
      - A sua carruagem no se virou, pois no?
      - No.
      - Foi atropelado por uma, em Londres? Ouvi dizer que as ruas andam apinhadas de gente.
      - No, tambm no fui atropelado por uma carruagem. - Tentava sorrir com todo o seu charme. - Gosto de a ver sem touca. As suas tranas brilham como um campo 
de margaridas.
      Anna semicerrou os olhos. Talvez o charme dele fosse nulo.
      - No sabia que as margaridas eram castanhas. Tem a certeza de que no caiu do cavalo?
      Edward cerrou os dente, tentando conter-se.
      - No ca do meu cavalo. Eu nunca...
      Anna franziu o sobrolho.
      - Na minha vida, foram muito poucas as ocasies em que ca do cavalo.
      Uma rpida expresso de iluminao percorreu o rosto dela.
      - No  vergonhoso - disse ela, numa voz insuportavelmente compreensiva. - At mesmo os melhores cavaleiros caem por vezes das suas montarias. No h que ter 
vergonha.
      Edward levantou-se da secretria, coxeou at  dela e, a, colocou as palmas de ambas as mos sobre o tampo. Inclinou-se at os seus olhos ficarem a poucos 
centmetros dos olhos aveludados dela.
      - No tenho vergonha - disse ele, lentamente. - No ca do cavalo. No sofri qualquer acidente. Gostava de pr um ponto final nesta discusso. Ser que se 
importa, senhora Wren?
      Anna engoliu percetivelmente, atraindo os olhos dele para o seu pescoo.
      - No. No me importo nada, lorde Swartingham.
      - Muito bem. - O olhar dele subiu para os seus lbios, molhados por os ter lambido, com o nervosismo. - Pensei em si enquanto estive fora. A senhora pensou 
em mim? Sentiu a minha falta?
      - Eu... - comeou ela, suspirando.
      Hopple irrompeu na sala.
      - Seja bem-vindo, excelncia. Espero que a sua estada na nossa bela capital tenha sido agradvel... - O feitor marcou uma paragem, quando se apercebeu de que 
o conde estava debruado sobre Anna.
      Edward endireitou-se lentamente, sem que os seus olhos se distrassem dos de Anna.
      - A minha estada foi bastante agradvel, Hopple, embora tenha sentido a falta da... doura do campo.
      Anna ficou atrapalhada. Edward sorriu. Hopple sobressaltou-se.
      - Lorde Swartingham! O que aconteceu com...?
      Anna interrompeu-o:
      - Senhor Hopple, tem tempo para mostrar ao conde a nova vala?
      - A vala? Mas... - Hopple olhou de Edward para Anna.
      Anna agitou as sobrancelhas, como se uma mosca lhe tivesse pousado na testa.
      - A nova vala para drenar o terreno do senhor Grundle. Falou disso no outro dia.
      - A... Ah, sim, a vala do senhor Grundle! - exclamou Hopple. - Se vier comigo, excelncia, creio que ter interesse em inspecion-la.
      Os olhos de Edward regressaram a Anna.
      - Vou ter consigo daqui a meia hora, Hopple. Gostaria, primeiro, de discutir um assunto com a minha secretria.
      - Oh, sim! Claro. Muito bem, excelncia. - Hopple partiu, atarantado.
      - Que assunto gostaria de discutir comigo, excelncia? - perguntou ela.
      Edward tossicou.
      - Na verdade,  algo que gostaria de lhe mostrar. Importa-se de me seguir?
      Anna estava intrigada, mas levantou-se e deu-lhe o brao. Ele levou-a para o trio, virando para a porta dos fundos, em vez de optar pela entrada principal. 
Quando penetraram na cozinha, a cozinheira quase deixou cair a sua matinal chvena de ch. Trs criadas aglomeravam-se em torno da mesa onde a cozinheira se sentava, 
como aclitas em volta do padre. As quatro mulheres puseram-se de p.
      Edward acenou, para que se sentassem novamente. No havia dvida de que interrompera os mexericos matinais. Sem explicar, seguiu em frente pela cozinha, saindo 
pela porta dos fundos. Atravessaram o amplo terreno do estbulo, com o taco das suas botas a ressoar sobre o pavimento. O sol da manh brilhava intensamente e os 
estbulos lanavam uma enorme sombra para as traseiras. Edward contornou uma esquina do edifcio e parou  sombra. Anna olhou em volta, perplexa.
      Edward teve uma repentina e terrvel sensao de incerteza. Era uma prenda pouco habitual. Talvez ela no gostasse ou, pior ainda, se sentisse insultada.
      - Isto  para si. - Apontou abruptamente para um monte de serapilheira enlameada.
      Anna voltou os olhos para o tecido.
      - O qu...?
      Edward inclinou-se e afastou um dos cantos do embrulho. Por baixo, estava o que parecia ser um conjunto de ramos secos e espinhosos.
      Anna soltou um pequeno grito.
      Aquele som s podia ser bom sinal numa mulher, certo? Edward esboou um esgar de incerteza. Ento, ela sorriu-lhe, enchendo-lhe o peito de calor.
      - Rosas! - exclamou ela.
      Deixou-se cair de joelhos, para examinar uma das roseiras adormecidas. Ele embrulhara-as cuidadosamente em serapilheira humedecida antes de sair de Londres, 
para que as razes no secassem. Cada roseira apresentava apenas uns poucos ramos espinhosos, mas as razes eram compridas e pareciam saudveis.
      - Cuidado, so afiados - murmurou Edward junto  cabea inclinada dela.
      Anna contou compenetradamente.
      - Esto aqui duas dzias. E sua inteno plant-las todas no jardim?
      Edward olhou-a, carrancudo.
      - So para si. Para a sua casa.
      Anna abriu a boca e, por instantes, parecia ter perdido todas as palavras.
      - Mas... mesmo que pudesse aceit-las todas, devem ter custado muito caro.
      Estaria ela a recusar a oferenda?
      - No me diga que no pode aceit-las...
      - Bem, desde logo, no caberiam todas no meu pequeno jardim.
      - Quantas caberiam?
      - Oh, creio que trs ou quatro - disse Anna.
      - Escolha as quatro que quiser e mandarei devolver as restantes. - Edward sentia-se aliviado. Pelo menos, ela no estava a rejeitar as rosas. - Ou queim-las 
- acrescentou ele, pensando duas vezes.
      - Queim-las?! - Anna ficou horrorizada. - No pode simplesmente queim-las. No quer ficar com elas no seu jardim?
      Ele meneou a cabea, com impacincia.
      - No sei como as plantar.
      - Sei eu. Plant-las-ei por si, em agradecimento pelas outras. - Sorria-lhe olhando para cima, um pouco envergonhada. - Obrigada pelas rosas, lorde Swartingham.
      Edward tossicou.
      - Ora essa, senhora Wren. - Sentia uma estranha urgncia em arrastar os ps como um rapazote. - Bem,  melhor ir ter com o Hopple. - Ela limitou-se a ficar 
a olhar para ele. - Sim... Ah, sim. - Deus do Cu, balbuciava como um imbecil. - Vou ento  procura dele. - Com uma despedida sussurrada, Edward arrancou em busca 
do feitor.
      Quem diria que oferecer presentes a secretrias poderia ser to constrangedor?
      Anna observava, absorta, lorde Swartingham a afastar-se, enquanto manuseava a serapilheira enlameada. Sabia o que era ter aquele homem encostado a si no escuro. 
Sabia como o seu corpo se mexia quando fazia amor. Conhecia os gemidos roufenhos que emitia guturalmente quando atingia o clmax. Sabia as coisas mais ntimas que 
se podiam saber acerca de um homem, mas no sabia como conciliar esse conhecimento com a sua viso  luz do dia. Conciliar o homem que fazia amor de forma to sublime 
com o homem que lhe trouxera roseiras de Londres.
      Anna meneou a cabea. Talvez fosse um problema demasiado complexo. Talvez nunca se pudesse compreender a diferena entre a paixo de um homem  noite e o papel 
que ele assume durante o dia.
      Anna no avaliara o que seria reencontr-lo aps passar duas noites incrveis nos seus braos. Agora, j sabia. Sentia-se triste, como se tivesse perdido algo 
que, verdadeiramente, nunca lhe pertencera. Fora a Londres com a inteno de fazer amor com ele, fruir do ato fsico como faria qualquer homem: sem compromissos 
emocionais. Porm, afinal, ela no era to estica como um homem. Era uma mulher e, para onde o seu corpo fosse, as suas emoes seguiam-no, quer ela quisesse quer 
no. De certa forma, aquele ato unira-os, mesmo que ele o ignorasse.
      E ele nunca poderia saber disso. O que ocorrera entre eles naquele quarto da Gruta de Afrodite teria de permanecer como seu segredo exclusivo.
      Anna fitava, distraidamente, os caules das flores. Talvez as rosas fossem sinal de que as coisas ainda poderiam melhorar. Tocou um ramo espinhoso. Por certo 
que deveriam querer dizer alguma coisa. No era costume um cavalheiro dar uma prenda to bonita - uma prenda to perfeita -  sua secretria, ou seria?
      Um espinho espetou-se-lhe no polegar. Sem pensar, Anna chupou a ferida. Talvez ainda houvesse esperana. Desde que ele jamais viesse a descobrir o seu logro.
      Ainda nessa manh, Edward meteu-se em gua lamacenta at aos joelhos, para inspecionar a nova vala de drenagem. Uma cotovia cantava no limite do terreno do 
senhor Grundle, maravilhada, provavelmente, por este se encontrar seco. Por perto, dois trabalhadores da quinta de Grundle, com grandes casaces, tiravam lixo  
pazada, a fim de manter a vala livre de entulho.
      Hopple estava tambm enfiado na gua lamacenta, particularmente contrariado. Em parte, isso devia-se por j uma vez ter escorregado e cado dentro da gua 
poluda. O seu colete, anteriormente de um amarelo vivo com remates verdes, estava sujo. A gua da vala corria para um ribeiro prximo,  medida que o feitor explicava 
a engenharia do projeto.
      Edward observava os trabalhadores, assentia perante o sermo de Hopple e pensava na reao de Anna ao seu presente. Sempre que ela falava, era-lhe difcil 
manter os olhos afastados da sua boca extica. Como uma mulher to simples podia possuir uma tal boca era um grande mistrio, que, aparentemente, podia fascin-lo 
horas a fio. Aquela boca seria capaz de obrigar o arcebispo de Canturia a pecar.
      - Parece-lhe bem, excelncia? - perguntou Hopple.
      - Ah, com certeza. Com certeza.
      O feitor olhou-o estranhamente.
      Edward suspirou.
      -V, prossiga.
      Jock apareceu, trazendo na boca um pequeno e desafortunado roedor. Saltou por cima da vala e aterrou com um esparrinhar de gua lamacenta, completando a runa 
do colete de Hopple. Jock exibiu o seu achado a Edward. Percebia-se imediatamente que aquele seu tesouro havia abandonado esta vida h bastante tempo.
      Hopple recuou apressadamente, acenando um leno diante do rosto e murmurando irritado:
      - Nossa Senhora! Pensei que nunca mais vssemos o raio do co, depois de ele ter desaparecido por vrios dias.
      Distrado, Edward fez uma festa a Jock, que mantinha ainda na boca o odorfero presente. O bicho caiu  gua, com um som de chapinhar. Hopple engoliu em seco 
e, com o leno a tapar o nariz e a boca, prosseguiu com a sua explicao acerca da magnfica drenagem.
      E certo que, depois de conhecer melhor Anna, Edward deixara de a considerar uma mulher singela. Na verdade, no sabia bem como explicar que a tivesse desconsiderado 
tanto da primeira vez que a vira. Por que razo teria ele pensado, inicialmente, que se tratava de uma mulher vulgar? Excepto pela boca, claro. Sempre reparara na 
boca dela.
      Soltou um suspiro e pontapeou o entulho submerso, fazendo emergir uma mancha de lama. Ela era uma senhora. Acerca disso, ele jamais se enganara, ainda que 
no se tivesse apercebido de imediato da sua sensualidade. Sendo um cavalheiro, no devia sequer pensar em Anna nestes moldes. Era para isso, afinal, que serviam 
as prostitutas. As senhoras, simplesmente, no punham a hiptese de se ajoelharem diante de um homem para curvarem lentamente as suas belas e erticas bocas na direco 
de...
      Edward sacudiu-se desconfortavelmente, esboando um esgar. Agora que o seu noivado com a menina Gerard estava oficializado, tinha de parar de pensar na boca 
de Anna... ou em qualquer outra parte do seu corpo, alis. Precisava de arrancar Anna - a senhora Wren - do pensamento, para que o seu segundo casamento corresse 
bem.
      A sua futura famlia dependia disso mesmo.
      
      
      Que coisa engraada eram as rosas: incrivelmente espinhosas  superfcie, porm to frgeis por dentro, meditou Anna nessa noite.
      So das flores mais difceis de criar, precisando de muito mais carinho e ateno do que qualquer outra planta; todavia, assim que consolidadas, so capazes 
de crescer durante anos, mesmo que abandonadas.
      O jardim por trs de sua casa tinha apenas seis por nove metros, mas ainda havia espao para uma pequena barraca ao fundo. Munira-se de uma vela, para dispor 
de luz enquanto vasculhava a barraca, encontrando uma velha bacia e uns quantos baldes de lata. Agora, colocava cuidadosamente as rosas nos contentores e cobria-as 
com a gua gelada que retirara do pequeno poo do jardim.
      Anna recuou, contemplando o seu trabalho. Quase parecia que lorde Swartingham a havia evitado aps lhe ter oferecido as rosas. No aparecera para o almoo 
e apenas passara pela biblioteca uma vez nessa tarde. Mas, claro, teria imenso trabalho acumulado, devido aos cinco dias em que estivera fora, e ele era um homem 
atarefado. Puxou a serapilheira enlameada por cima da bacia e dos baldes. Instalara os contentores  sombra da casa, para que no torrassem com o sol do dia seguinte. 
Seriam precisos talvez dois dias para que pudesse plant-las, mas a gua conservar-lhes-ia a vitalidade. Satisfeita com o trabalho realizado, regressou a casa.
      Nessa noite, a famlia Wren jantou batatas assadas e um pouco de pernil de porco. A refeio j quase terminara quando a me Wren deixou cair o garfo, exclamando:
      - Ah, esqueci-me de lhe dizer, querida. Enquanto esteve fora, a senhora Clearwater convidou-nos para o seu sarau primaveril, que se realizar depois de amanh.
      Anna fez uma pausa, com a chvena de ch a caminho dos lbios.
      - A srio? Nunca tnhamos sido convidadas.
      - Ela sabe da sua amizade com lorde Swartingham. - A sogra sorria complacentemente. - Seria uma vitria para ela, caso ele fosse.
      - No tenho qualquer influncia sobre o conde, sabe disso perfeitamente.
      - Acha mesmo que sim? - A me Wren inclinou a cabea. - Lorde Swartingham no se tem esforado por participar nas nossas atividades sociais. No aceita convites 
para um ch ou para jantar e ainda no se deu ao trabalho de ir  igreja aos domingos.
      - Parece-me que ele  bastante reservado - admitiu Anna.
      - H quem diga que  demasiado orgulhoso para comparecer em acontecimentos campestres.
      - Isso no  verdade.
      - Oh, bem sei que ele  muito simptico - comentou a sogra, servindo-se de uma segunda chvena de ch. - Ora, at j tomou o pequeno-almoo connosco aqui em 
casa, sendo bastante gentil. Mas ainda no estabeleceu contactos com as restantes pessoas da aldeia. Isso no  bom para a sua reputao.
      Anna lanou um esgar  sua batata meio comida.
      - No me tinha apercebido de que tanta gente o via dessa maneira. Os arrendatrios das suas terras adoram-no.
      A velha senhora assentiu.
      - Talvez os arrendatrios, sim. Mas ele precisa de ser gentil tambm para os que esto mais acima na escala social.
      - Tentarei convenc-lo a comparecer no sarau - disse Anna, endireitando os ombros. - O que pode vir a ser o cabo dos trabalhos. Como acabou de dizer, ele no 
se interessa muito por eventos sociais.
      A sogra sorriu.
      - Entretanto, temos de debater o que levaremos vestido para o sarau.
      - Ainda no pensei nisso. - Anna esboou um esgar. - Tenho apenas o meu velho vestido de seda verde. No h tempo para fazer um vestido com os tecidos que 
trouxe de Londres.
      -  pena - lamentou a me Wren. - Mas o seu vestido verde  apropriado, minha querida. Aquela cor linda destaca-lhe o rosado das faces e o cabelo. Todavia, 
parece-me que o decote j est fora de moda.
      - Talvez pudssemos usar alguns dos remates que a senhora Wren comprou em Londres - disse timidamente Fanny, que andara por ali a pairar durante a conversa.
      - Mas que bela ideia! - A me Wren sorriu de alegria  rapariga, fazendo-a corar. - O melhor  comearmos ainda esta noite.
      - Sim, sem dvida, mas h uma coisa que preciso de encontrar, antes de nos ocuparmos dos vestidos.
      Anna empurrou a cadeira para trs e dirigiu-se ao velho armrio de cozinha. Ajoelhou-se, abriu o compartimento de baixo e espreitou para o seu interior.
      - O que  que procura, Anna? - perguntou a sogra, atrs dela.
      Anna afastou-se do armrio e espirrou, antes de pegar triunfalmente num pequeno frasco poeirento.
      - A pomada da minha me para hematomas e feridas.
      A velha senhora olhou, duvidosa, para o frasco.
      - A sua me era uma fantstica ervanria amadora, minha querida, e dei graas  sua pomada por vrias vezes no passado, mas, de facto, tem um odor muito infeliz. 
Tem a certeza de que precisa dela?
      Anna levantou-se, sacudindo energicamente a poeira das suas saias.
      - Oh, no  para mim!  para o conde. Teve um acidente com o cavalo.
      - Um acidente com o cavalo? - A sogra pestanejava. - Caiu?
      - No, no. Lorde Swartingham  um cavaleiro demasiado bom para cair do cavalo - disse Anna. - No sei ao certo o que aconteceu. Acho que no quer falar sobre 
isso. Mas tem uns hematomas terrveis no rosto.
      - No rosto... - prolongou a me Wren, pensativamente.
      - Sim, um dos olhos parece estar bastante magoado, e tem o queixo negro e roxo.
      - Pretende, ento, aplicar-lhe a pomada no rosto? - perguntou a sogra, tapando o nariz numa expresso de compaixo.
      Anna ignorou-lhe os gestos teatrais.
      - Far com que sare mais rapidamente.
      - A senhora  que sabe - retorquiu a me Wren, embora no se mostrasse particularmente convencida.
      Na manh seguinte, Anna foi a correr at aos estbulos. Lorde Swartingham debitava instrues ao senhor Hopple, que as anotava num caderninho o melhor que 
podia. Jock estava deitado por perto, tendo-se erguido para cumprimentar Anna assim que a viu. O conde notou, parou e voltou os seus olhos negros para Anna. Sorriu.
      O senhor Hopple levantou o olhar perante a ausncia de instrues.
      - Bom dia, senhora Wren - cumprimentou ele, olhando ento para lorde Swartingham. - Devo, ento, comear por aqui, excelncia?
      - Sim, sim - respondeu, impaciente, o conde. O feitor apressou-se a sair dali para fora, aliviado. O conde avanou vagarosamente at ela.
      - Precisa de alguma coisa? - Continuou a andar at ficar bem perto dela.
      Ela via os belos fios prateados do seu cabelo.
      - Sim - disse Anna, bruscamente. - Preciso que fique quieto. Os seus lindos olhos pretos abriram-se mais.
      - O qu?
      - Trouxe uma pomada para o seu rosto. - Tirou o pequeno frasco do cesto e ergueu-o no ar.
      Ele olhou, duvidoso, para o frasco.
      - E uma receita da minha me. Ela garantia as suas propriedades curativas.
      Anna retirou a tampa e o conde atirou a cabea para trs, perante o cheiro pungente que se evolara. Jock quis enfiar o nariz no frasco. Lorde Swartingham puxou 
o co para baixo pelo cachao. 
      - Santo Deus! Cheira a est... - Anna franziu o sobrolho. - ... a pele curtida - concluiu ele, com inpcia.
      - Bom, isso adequa-se na perfeio aos estbulos, no acha? - respondeu ela sarcasticamente.
      O conde parecia preocupado.
      - Mas isso no tem mesmo est...
      - Oh, no. - Anna estava espantada. -  feito com gordura de ovelha e ervas e outras coisas mais. No sei ao certo o qu. Teria de consultar a receita da minha 
me para lhe dizer. Mas posso garantir-lhe que no tem est... hum... nada de repugnante. V, no se mexa.
      Ele levantou o sobrolho, perante aquele tom de voz, mas ficou obedientemente quieto. Anna retirou, com os dedos, uma massa gordurosa, ps-se em bicos de ps 
e comeou a espalh-la sobre a face do conde. Ele era bastante alto e ela tinha de se esticar bem perto dele para lhe chegar ao rosto. Lorde Swartingham estava calado, 
respirando profundamente enquanto ela espalhava a pomada junto ao olho negro com todo o cuidado. Sentia que ele a observava. Tirou mais uma poro e comeou a esfreg-la 
suavemente sobre o maxilar dorido. A pomada estava fria, mas ia ficando mais quente e escorregadia  medida que a pele dele a aquecia. Anna sentia o ligeiro arranhar 
da barba dele debaixo dos dedos e tinha de combater a vontade de se demorar. Terminou a ltima aplicao e deixou cair a mo.
      Lorde Swartingham estava de olhos fixos nela.
      Ao chegar-se a ele para melhor lhe espalhar a pomada, Anna metera-se entre as suas pernas abertas. O calor dele envolvia-lhe o corpo. Comeou a recuar. Mas 
as mos dele fecharam-se  volta dos seus braos. Os dedos estavam contrados e parecia olh-la fixamente. Anna susteve a respirao. Iria ele...?
      Acabou por larg-la.
      - Obrigado, senhora Wren. - Abriu a boca, como se fosse dizer algo mais, mas tornou a fech-la. - Tenho trabalho  minha espera. Vemo-nos logo  tarde. - Fletiu 
suavemente a cabea, antes de se voltar.
      Jock olhou para ela, ganiu e foi atrs do dono.
      Anna ficou a v-los afastarem-se, soltando um suspiro e, prudentemente, voltou a atarraxar a tampa no frasco de pomada.
      

  Captulo 13
       
       
       
       
       
       Ento, urea regressou a casa, para visitar o pai. Viajou num coche dourado voador, puxado por cisnes, levando consigo vrias coisas bonitas para oferecer 
 sua famlia e amigos. Porm, quando as irms mais velhas viram as prendas maravilhosas que urea trouxera, os seus coraes, em vez de se encherem de gratido 
e satisfao, conspurcaram-se de inveja e desdm. As irms juntaram as suas belas e frias cabeas e comearam a interrogar urea acerca do seu novo lar e do seu 
estranho marido. Aos poucos, ficaram ao corrente de tudo: da riqueza do palcio, dos servos voadores, das refeies exticas e, por ltimo - de suma importncia 
-, do silencioso amante noturno. Ouvindo isto, sorriram por trs das suas plidas mos e puseram-se a semear dvidas na cabea da irm mais nova...
       in O Prncipe Corvo
      
      
      
      
      - Mais acima. - Felicity Clearwater franzia o sobrolho, olhando para o teto do salo. Os cortinados corridos protegiam a diviso do sol da tarde. - No. No, 
mais para a esquerda.
      Uma voz masculina murmurou, irritada.
      - Isso mesmo - disse ela.- A. Acho que j acertou.- Ao canto, uma racha serpenteava pelo teto. Nunca antes reparara nela. Devia ser nova. - Descobriu-a?
      Chilton Lillipin, "Chilly" para os mais ntimos, entre os quais se contava Felicity, cuspiu um plo.
      - Minha tolinha, faa-me o favor de descontrair. Est a perturbar a minha arte. - Dobrou-se novamente.
      Arte? Felicity conteve um riso. Fechou os olhos por momentos e tentou concentrar-se no seu amante e no que ele estava a fazer, mas sem sucesso. Voltou a abrir
os olhos. Precisava mesmo de chamar os estucadores para repararem aquela racha. Da ltima vez que eles l tinham estado, Reginald portara-se como um perfeito animal,
andando de um lado para o outro a resmungar que os homens tinham vindo apenas para o incomodar. Felicity suspirou.
      - Isso mesmo, fofa - disse Chilly. - Deite-se e deixe que este amante supremo a leve ao cu.
      Ela rodou os olhos. J quase se esquecera do amante supremo. Voltou a suspirar. Nada havia a fazer.
      Felicity comeou a gemer.
      Quinze minutos depois, Chilly estava diante do espelho da sala de estar, compondo minuciosamente a peruca. Estudava o seu reflexo e ia deslizando lentamente
a peruca para a direita sobre a cabea rapada. Era um homem bonito, mas de aparncia um pouco descuidada, na opinio de Felicity. Os seus olhos eram de um azul profundo,
mas estavam prximos um do outro um nadinha a mais. As suas feies eram regulares, mas o queixo era um pouco curto. Os seus membros eram bem musculados, mas as
pernas eram ligeiramente curtas de mais, maculando a proporo relativamente ao resto do corpo. E os problemas de Chilly prolongavam-se at  sua personalidade.
Ela ouvira dizer que, embora fosse hbil com a espada, Chilly demonstrava a sua percia desafiando para duelos homens menos dotados e matando-os.
      Felicity semicerrou os olhos. No confiaria em Chilly num beco escuro, mas ele tinha a sua utilidade.
      - Descobriu onde  que ela foi em Londres?
      - Claro - Chilly sorriu foradamente ao espelho. O seu canino dourado cintilou. - A atrevidota foi a uma casa dissoluta chamada Gruta de Afrodite. No uma, 
mas duas vezes. D para acreditar?
      - Gruta de Afrodite?
      -  um estabelecimento pretensioso. - Deu um ltimo retoque na peruca e abandonou o espelho, para fitar Felicity nos olhos. - Senhoras de bom-tom, disfaradas, 
vo l por vezes para se encontrarem com os seus amantes.
      - A srio? - Felicity tentava no parecer intrigada.
      Chilly serviu um copo do melhor brande contrabandeado do squire.
      - At parece um pouco de mais para uma campnia viva.
      Sim, parecia. Como  que Anna Wren tinha conseguido pagar um lugar desses? O estabelecimento que Chilly descrevera era caro. O seu amante teria de ser rico. 
Teria de conhecer muito bem Londres e os seus recantos de alta sociedade menos respeitveis. E o nico cavalheiro que correspondia a essa descrio em Little Battleford, 
o nico cavalheiro que viajara at Londres durante o mesmo perodo que Anna Wren, era o conde de Swartingham. Um arrepio triunfante percorreu a espinha de Felicity.
      - Mas porque vem a ser tudo isto? - Chilly espreitava por cima dos culos. - Quem  que se preocupa com o facto de uma pessoa to desinteressante ter uma vida 
secreta? - Mostrava-se demasiado curioso para o gosto dela.
      - Esquea l isso. - Felicity recostou-se na chaise longue e esticou-se luxuriantemente, espetando os peitos. A ateno de Chilly foi imediatamente desviada. 
- Um dia, conto-lhe.
      - Ser que no mereo, pelo menos, uma recompensa? - Chilly fez beicinho, numa viso desanimadora. Aproximou-se e encostou-se  ponta da chaise longue.
      Ele portara-se bem. E Felicity estava de bem com o mundo. Porque no agradar ao homem? Esticou a mo at aos botes das calas de Chilly.
      
      
      Nessa noite, Edward puxava pela gravata amarrotada do pescoo. Tinha de controlar os impulsos do seu corpo. Esboou um esgar e atirou com a gravata enrodilhada 
para cima de uma cadeira. O seu quarto na manso era um local bastante soturno, com mveis grandes e desajeitados, cores inspidas e deprimentes. Era de espantar 
que os De Raaf tivessem conseguido manter uma linhagem familiar naquelas condies.
      Davis, como sempre, no estava por perto quando seria til. Edward enfiou a parte de trs da bota na descaladeira e comeou a fazer fora. Estivera a um passo 
de no conseguir largar Anna dos seus braos nos estbulos. De beij-la, at. Exatamente o tipo de coisas que andava a tentar evitar nas ltimas semanas.
      Assim que a primeira bota caiu ao cho, Edward comeou a tratar da segunda. A viagem a Londres deveria ter resolvido aquela questo. E agora, com o matrimnio 
praticamente acertado... Enfim, tinha de comear a representar o papel de homem prestes a casar. J bastava de pensar no cabelo de Anna e no motivo por que abandonara 
ela a sua touca. J bastava de pensar como ela estivera prxima enquanto lhe aplicava a pomada. E, especialmente, no poderia pensar na boca dela e no que poderia 
acontecer...
      Aquilo tinha de acabar!
      A segunda bota soltou-se e Davis, com refinada oportunidade, bateu  porta do quarto.
      - Jesus! Mas que cheiro  este? Pffff.
      O criado trazia um monte de gravatas recm-lavadas, a aparente razo para a sua rara e voluntria visita aos aposentos do seu amo.
      Edward soltou um suspiro.
      - Uma boa noite para si tambm, Davis.
      - Oh, Deus do Cu! Caiu dentro de uma pocilga, foi?
      Edward comeou a tirar as meias.
      - Davis, sabia que alguns criados passam o tempo a ajudar de facto os seus amos a vestirem-se e a despirem-se, em vez de se entreterem a tecer comentrios 
mal-educados acerca deles?
      Davis soltou uma gargalhada.
      - Ah! Deveria ter-me dito que estava a sentir dificuldades em abotoar as calas, excelncia. Eu tinha-lhe dado uma ajuda.
      Edward esboou um esgar.
      - Deixe a as gravatas e v-se embora.
      Davis dirigiu-se para o armrio, abriu uma das gavetas de cima e despejou as gravatas para dentro dela.
      - Que coisa pegajosa  essa na sua cara? - perguntou ele.
      - A senhora Wren aplicou-me gentilmente uma pomada para os meus hematomas, esta tarde - disse Edward, com dignidade.
      O criado inclinou-se para ele e inalou sonoramente.
      -  da que vem o fedor. Cheira a esterco de cavalo.
      - Davis!
      - Mas cheira. No cheirava nada to mau desde os tempos em que o senhor era menino e caiu naquela pocilga, na quinta do Peward. Recorda-se?
      - Como poderia eu esquecer, com o senhor por perto? - murmurou Edward.
      - Chia! Pensvamos que nunca mais amos conseguir tirar-lhe aquele fedor. E tive de deitar fora as calas.
      - Por mais agradvel que essa recordao possa ser...
      - Claro que no teria cado l dentro, se no estivesse a fazer olhinhos  filha do Peward - prosseguiu Davis.
      - No estava a fazer olhinhos a ningum. Limitei-me a escorregar.
      - No... - Davis coou a cabea. - Os seus olhos estavam prestes a cair-lhe da cara, especados que estavam nos "marmelos" dela.
      Edward rangeu os dentes.
      - Eu escorreguei e ca.
      - Foi como que um sinal de Deus - disse Davis, num tom filosofal. - Embasbaca-te com as maminhas de uma rapariga e cais no esterco.
      - Oh, por amor de Deus! Estava sentado no rebordo da pocilga e escorreguei.
      - A Prissy Peward sempre teve uns seios grandes, l isso  verdade. - Davis soava um pouco saudoso.
      - O senhor nem estava l.
      - Mas esse fedor da pocilga nada tem a ver com o esterco de cavalo que agora tem no rosto.
      - Davis...
      O criado dirigiu-se novamente para a porta, acenando uma mo com manchas amareladas junto  cara.
      -  preciso ser parvo para deixar uma mulher espalhar esterco de...
      - Davis!
      -... no rosto.
      O criado chegou  porta e dobrou a esquina, ainda a murmurar. Uma vez que a sua velocidade era, como de costume, lenta, Edward continuou a ouvi-lo a pairar 
durante uns bons cinco minutos. Estranhamente, o volume aumentava conforme Davis se afastava da porta.
      Edward lanou uma careta a si mesmo diante do espelho de barbear. A pomada tinha mesmo um cheiro horrvel. Puxou de uma bacia e despejou nela um pouco de gua 
do jarro que estava sobre a cmoda. Pegou numa toalha, mas hesitou. A pomada j estava de facto no seu rosto e Anna apreciara aplicar-lha. Passou o polegar pelo 
queixo, recordando as suas mos suaves.
      Deixou cair a toalha.
      Podia muito bem retirar a pomada quando fizesse a barba de manh. No faria mal nenhum deix-la durante a noite. Afastou-se da cmoda e despiu o resto das 
roupas, dobrando-as e colocando-as numa cadeira. Havia pelo menos uma vantagem em ter um criado de quarto invulgar: aprendera a ser arrumado com a sua indumentria, 
pois Davis no se dignava a cuidar do que quer que fosse. Ali, nu, Edward bocejou e espreguiou-se, antes de se deitar na velha cama de dossel. Inclinou-se e soprou 
a vela  cabeceira, deixando-se ficar de olhos abertos no escuro, fitando os contornos imprecisos das cortinas. Pensou, confuso, sobre a idade que teriam. Certamente, 
seriam mais antigas do que a prpria casa. Teriam elas, de origem, aquele terrvel tom amarelo-acastanhado?
      Os seus olhos varreram, ensonados, o quarto e, junto  porta, divisaram uma figura feminina.
      Pestanejou e, subitamente, ela estava junto  cama.
      Sorria. O mesmo sorriso que Eva esboou quando estendeu a fatdica ma a Ado. A mulher estava gloriosamente nua,  exceo de uma mscara em forma de borboleta 
sobre o rosto.
      Ele pensou:  a rameira da Gruta de Afrodite. E depois: Estou a sonhar.
      Mas esse pensamento dissipou-se. Ela passou lentamente as mos sobre o ventre, arrastando consigo o seu olhar. Segurou os seios e inclinou-se para a frente, 
para que os mamilos lhe ficassem ao nvel dos olhos. Depois, comeou a beliscar e a excitar os prprios mamilos.
      A boca dele secava  medida que via os mamilos dela a entumecerem e rosarem. Ergueu a cabea para lhe beijar os seios, pois a sua boca salivava com a urgncia 
de lhe tocar, mas ela afastou-se, com um sorriso provocador. Desviou do pescoo os seus cabelos castanhos, soltos. Tentculos encaracolados agarraram-se aos seus 
braos. Ela arqueou as costas esguias, espetando os seios para cima e para a frente, como frutos sumarentos. Ele gemeu sentindo o membro a pulsar-lhe contra a barriga, 
diante de tal provocao.
      A mulher sorria malevolamente. Sabia exatamente o que estava a fazer-lhe. Percorreu com as mos o tronco, passando pelos seios despontados, pelo ventre delgado, 
e parou. Os dedos acabavam de tocar os caracis da sua pbis. Ele desejava que continuasse, mas ela provocava-o, penteando levemente os seus plos femininos. E, 
no momento em que ele j no aguentava mais, ela riu-se baixinho e afastou as pernas.
      Edward no sabia se continuava a respirar. Os seus olhos estavam fixos nas mos e no sexo dela. Ela separou os seus lbios inferiores, para ele os contemplar. 
Observava aquela pele vermelha a brilhar com os seus fluidos e sentia o aroma intenso que se desprendia da sua carne. Ela mergulhou um magro dedo na sua vagina. 
Lentamente, foi subindo at encontrar o clitris. Acariciou-se, com o dedo a desenhar crculos escorregadios sobre o boto. As suas ancas comearam a rodar e deixou 
descair a cabea para trs, gemendo. O som misturava- -se com os seus prprios gemidos, pleno de luxria. Estava com uma enorme ereo, vibrante de desejo.
      Edward observava-a, enquanto ela empurrava a plvis contra si. Enfiou ento o dedo mdio, movendo-o para fora e para dentro, devagarinho, languidamente. O 
brilho no dedo molhado; a sua outra mo mexia-se rapidamente sobre o clitris, massajando-o delicadamente. Subitamente, ficou quieta, de cabea ainda cada para 
trs, entre gemidos e queixumes. O seu dedo movimentava-se furiosamente para fora e para dentro do seu corpo.
      Edward tornou a gemer. Os sucos do orgasmo dela escorriam- -lhe pelas coxas suaves. Aquela viso quase que o tirava de si. A mulher suspirava e descontraa, 
as ancas giraram sensualmente uma ltima vez. Afastou de si os dedos e levou-os, molhados e reluzentes, aos lbios dele. Passou-lhe os dedos pela boca, fazendo-o 
provar o seu desejo. Entontecido, ele olhou-a e apercebeu-se de que a mscara lhe cara do rosto.
      Anna sorria diante dele.
      Ento, o orgasmo apoderou-se do seu corpo e Edward acordou com os espasmos agonizantes do seu membro, finalmente realizado.
      Na manh seguinte, nos estbulos de Ravenhill Abbey, Anna ia ajustando a vista  penumbra fria, enquanto caminhava pela coxia de terra batida. O edifcio era 
venervel. Servira a manso ao longo de vrias reconstrues e expanses. Pedras do tamanho da cabea de um homem formavam as fundaes e as paredes inferiores. 
A dois metros do cho, as paredes eram de uma robusta madeira de carvalho, que se prolongava at s vigas expostas, pairando seis metros acima. Por baixo, os estbulos 
ladeavam um corredor central.
      Os estbulos de Ravenhill podiam acolher, facilmente, cinquenta cavalos, embora, atualmente, albergasse menos de dez. A relativa escassez de cavalos entristecia 
Anna. Em tempos, este lugar devia ter tido uma atividade prspera. Agora, os estbulos estavam calmos - como um gigante em hibernao. Cheirava a palha, a couro 
e a dcadas, talvez sculos, de bosta de cavalo. O odor era quente e acolhedor.
      Ela e lorde Swartingham iam encontrar-se naquela manh para inspecionarem mais terrenos. O improvisado fato de montar de Anna arrastava pela poeira enquanto 
caminhava. Aqui e ali, uma cabea equina espetava-se curiosa sobre as tbuas e relinchava uma saudao. Ela divisou o conde um pouco mais  frente, distrado, a 
conversar com o cavalario-mor. Ele era bem mais alto do que o velhote e estavam ambos iluminados por um feixe poeirento de luz ao fundo dos estbulos. Ao aproximar-se, 
Anna ouviu que eles discutiam o coxear crnico de um capo. Lorde Swartingham levantou o olhar e viu-a. Ela parou junto ao estbulo de Daisy. Ele sorriu e voltou-se 
novamente para o cavalario-mor.
      Daisy estava j equipada com sela e freio, atada com um n lasso. Anna esperou, falando baixinho com a gua. Observava como lorde Swartingham se baixava para 
escutar o cavalario-mor, totalmente atento ao que este dizia. O velhote era um homem rijo e experiente. As suas mos apresentavam ns da artrite e ossos calcificados, 
fraturados h muito tempo. Tinha uma postura orgulhosa, de cabea rigidamente direita. Como muitos homens do campo, falava devagar e gostava de discutir exaustivamente 
um problema. Anna reparou que o conde permitia pacientemente que ele desse a sua opinio, nem o apressando nem o interrompendo, at sentir que o problema j fora 
suficientemente dissecado. Ento, lorde Swartingham deu uma palmada cordial nas costas do homem, ficando a v-lo a abandonar os estbulos. Voltou-se e dirigiu-se 
para Anna.
      Sem avisar, Daisy, ternurenta e plcida, empinou-se. Cascos ferrados golpearam o ar a alguns centmetros do rosto de Anna. Ela caiu contra a porta do estbulo, 
atemorizada. Um dos cascos assentou na madeira perto do seu ombro.
      - Anna! - Ela ouviu o grito do conde a sobrepor-se ao relinchar irrequieto dos cavalos prximos e do prprio frenesim de Daisy.
      Uma ratazana esgueirou-se pelas tbuas, agitando a cauda nua enquanto desaparecia. Lorde Swartingham agarrou o cabresto da gua e puxou-a com fora para longe. 
Anna ouviu um ronco e o bater da porta do estbulo.
      Braos fortes envolveram-na.
      - Meu Deus, Anna, magoou-se?
      Ela no conseguia responder. O medo parecia ter-lhe bloqueado a garganta. Ele percorreu com as mos os seus ombros e braos, palpando rapidamente e acariciando-a.
      - Anna... - O seu rosto baixou-se ao nvel do dela.
      Ela no pde evitar fechar os olhos.
      Ele beijou-a.
      Os lbios dele estavam quentes e secos, suaves e firmes. Passaram pelos dela com leveza, antes de ele inclinar a cabea e pressionar com fora. As narinas 
dela dilataram-se, captando o odor a cavalos e o cheiro dele. Anna pensou, irrelevantemente, que, da em diante, associaria sempre o cheiro a cavalos com lorde Swartingham.
      Com Edward.
      Ele aflorou os lbios dela com a sua lngua, to ligeiramente que, a princpio, Anna julgou ser da sua imaginao. Mas ele repetiu a carcia, um toque muito 
suave, e ela abriu a boca para a dele. Sentiu o seu calor a invadir-lhe a boca, preenchendo-a, tocando na sua lngua. Sabia ao caf que ele devia ter bebido ao pequeno-almoo.
      Anna cravou os dedos na parte de trs do pescoo dele e ele abriu ainda mais a boca, puxando-a para si. Uma das suas mos tocou-a na face. Ela enfiou-lhe as 
mos no cabelo. O seu rabo-de-cavalo desfez-se e ela deleitou-se com o toque suave dos seus cabelos entre os dedos. Ele passou a lngua pelo lbio inferior dela 
e apanhou-o entre os dentes, chupando-o delicadamente. Ela ouviu-se a gemer. Tremia. As suas pernas mal conseguiam suportar o prprio peso.
      O alarido no exterior dos estbulos fez com que Anna despertasse para o ambiente circundante. Ele ergueu a cabea para escutar. Um dos cavalarios estava a 
repreender um rapaz por ter deixado cair um qualquer equipamento.
      Edward voltou novamente a cabea para Anna e passou o polegar pela sua face.
      - Anna, eu...
      A sua linha de pensamento parecia perder-se. Meneou a cabea. Ento, como que impelido, beijou-a suavemente na boca, demorando-se  medida que o beijo se aprofundava.
      Mas algo no estava certo; Anna conseguia senti-lo. Ele estava a escapar-se. Ela estava a perd-lo. Apertou-o com mais fora, procurando prolongar o beijo. 
Ele passou os lbios pelas suas mas do rosto e leve, delicadamente, sobre as suas plpebras fechadas. Sentia a respirao dele a filtrar-se pelas suas pestanas.
      Os braos dele caram e ela sentiu-o a afastar-se.
      Abriu os olhos e viu-o a passar as mos pelo cabelo.
      - Peo desculpa. Foi apenas... Meu Deus, peo imensa desculpa.
      - No, por favor, no pea desculpa. - Ela sorriu, com um calor a espalhar-se-lhe pelo peito conforme ganhava coragem. Talvez fosse esta a altura. - Eu queria 
aquele beijo tanto quanto o senhor. Alis...
      - Estou noivo.
      - O qu? - Anna recuou, como se ele a tivesse atingido.
      - Vou casar-me - Edward esboava um esgar de desgosto, talvez de dor.
      Ela ficou transida, esforando-se por compreender aquelas simples palavras. Uma dormncia envolveu-lhe o corpo, escoando o seu calor como se nunca tivesse 
existido.
      - Foi por isso que fui a Londres, para ultimar os pormenores do matrimnio. - Edward andava de um lado para o outro, passando agitadamente as mos pelo cabelo 
desgrenhado. - Ela  filha de um baronete, uma famlia bastante antiga. Creio que talvez tenham chegado com Guilherme o Conquistador, que  mais do que podem dizer 
os De Raaf. As terras dela... - Edward parou subitamente, como se Anna o tivesse interrompido.
      Ela no o fizera.
      Cruzaram o olhar durante um instante de agonia, desviando-o depois. Era como se um cordo, que se esticara entre eles, tivesse sido cortado.
      - Lamento, senhora Wren. - Edward tossicou. - No deveria ter-me portado to mal consigo. Dou-lhe a minha palavra de honra que no tornar a acontecer.
      - Eu... eu... - Anna esforava-se por fazer passar palavras pela garganta inchada. - Tenho de voltar ao trabalho, excelncia.
      - O seu nico pensamento coerente era que precisava de manter a compostura. Moveu-se para se ir embora - alis, para fugir -, mas a voz dele impediu-a.
      - Sam...
      - O qu? - Ansiava unicamente por um local onde se pudesse refugiar, onde no tivesse de pensar. Onde os sentimentos no tivessem lugar. Mas algo no rosto 
dele a impediu de ir-se embora.
      Edward olhou para cima, como se procurasse qualquer coisa, ou algum. Anna acompanhou-lhe o olhar. Nada via nele. O velho palheiro estava quase vazio. Onde 
antes deviam ter estado montes de palha, flutuavam agora apenas partculas de p. A palha para os cavalos era armazenada na parte de baixo, em estbulos vazios.
      Porm, ele olhava para o palheiro.
      - Este era o lugar favorito do meu irmo - disse ele, por fim. 
      - Samuel, o meu irmo mais novo. Tinha nove anos de idade, nasceu seis anos depois de mim. Uma diferena suficiente para que eu no lhe prestasse ateno. 
Era um mido calado. Costumava esconder-se no palheiro, ainda que isso enfurecesse a nossa me, pois tinha medo que ele casse e se aleijasse. Isso no o impedia. 
Passava metade do dia l em cima, a brincar com tudo e mais alguma coisa, com soldadinhos de chumbo ou pies ou o que fosse. Era fcil esquecermo-nos que ele estava 
l em cima e, de vez em quando, ele atirava palha sobre a minha cabea s para me irritar. - As suas sobrancelhas aproximaram-se. - Ou, julgo eu, para conseguir 
a ateno do irmo mais velho. No que eu lha desse. Aos quinze anos, andava demasiado ocupado a aprender a disparar e a beber e a ser um homem, para dar ateno 
a uma criana.
      Afastou-se alguns passos, perscrutando ainda o palheiro. Anna tentou engolir e desfazer o n na garganta. Porqu agora? Para qu revelar-lhe agora toda aquela 
dor, quando j no fazia sentido nenhum?
      Mas resolveu prosseguir:
      -  engraado, contudo. Quando voltei pela primeira vez, estava sempre com a esperana de o ver aqui nos estbulos. Vinha para aqui e punha-me  procura... 
do seu rosto, suponho. - Pestanejou e murmurou, quase para si mesmo: - Por vezes, ainda o fao.
      Anna enfiou o n de um dedo na boca e mordeu. No queria ouvir aquela histria. No queria sentir compaixo por aquele homem.
      - Estes estbulos costumavam estar cheios - disse ele. - O meu pai adorava cavalos, fazia criao. Havia imensos cavalarios e amigos do meu pai que passavam 
a vida aqui, a falar de cavalos e a caar. A minha me ficava na manso, a dar festas e planeando o debute da minha irm. Este lugar tinha tanta vida... tanta felicidade. 
Era o melhor stio do mundo.
      Edward tocou, com a ponta dos dedos, a velha porta de um dos estbulos vazios.
      - Nunca pensei que me fosse embora. Nunca quis faz-lo.
      Anna abraou-se a si mesma e rejeitou um soluo.
      - E ento, apareceu a varola.- Olhava para o vazio e as linhas do seu rosto destacavam-se, num relevo pronunciado. - E eles foram morrendo, um a um. Primeiro 
o Sammy; depois, o meu pai e a minha me. A Elizabeth, a minha irm, foi a ltima a partir. Cortaram-lhe o cabelo por causa da febre... ela chorava, pois considerava 
os seus cabelos como o seu melhor atributo. Dois dias depois, puseram-na no jazigo da famlia. Tivemos sorte, suponho, se  que a isto se pode chamar sorte. Outras 
famlias tiveram de esperar pela Primavera para enterrar os mortos. Era Inverno e o cho estava gelado.
      Edward inspirou.
      - Mas no me recordo desta ltima morte, sei apenas o que me disseram mais tarde, porque, na altura, tambm eu j havia contrado.
      Bateu com o dedo na ma do rosto, onde se aglomeravam as bexigas, e Anna perguntou-se quantas vezes teria ele feito aquele gesto ao longo dos anos.
      - E, como  bvio, sobrevivi. - Olhou-a com o sorriso mais amargo que ela alguma vez vira, como se tivesse blis na lngua. - S eu fiquei vivo. De todos, 
sobrevivi eu.
      Fechou os olhos.
      Quando os abriu de novo, o seu rosto apresentava uma mscara inexpressiva, firme.
      - Sou o ltimo da minha linhagem, o ltimo dos De Raaf - disse ele. - No h primos afastados para herdar o ttulo e a manso, no h herdeiros obscuros  
espera. Quando eu morrer, se morrer sem filhos, tudo reverter para a Coroa.
      Anna obrigou-se a suportar o olhar dele, embora isso a fizesse tremer.
      - Preciso de um herdeiro, percebe? - Cerrou os dentes e disse, como se arrancasse as palavras, ensanguentadas e destroadas, ao seu prprio corao: - Preciso 
de casar com uma mulher que possa ter filhos.
      

  Captulo 14
       
       
       
       
       
       Quem seria o amante dela? As irms de urea interrogavam-se e os seus sobrolhos franziam-se, com falsa preocupao. Por que razo nunca o vira ela  luz do 
dia? E, se nunca o vira, como poderia ela
       ter a certeza de que ele era humano?
       Talvez fosse um monstro, demasiado horrendo para se expor  claridade, que partilhasse o seu leito. Talvez esse monstro a engravidasse e ela viesse a dar 
 luz uma criatura demasiado terrvel s de imaginar.
       Quanto mais urea escutava as suas irms, mais desassossegada ia ficando, at deixar de saber o que pensar ou o que fazer. Foi ento
       que as irms sugeriram um plano...
       in O Prncipe Corvo
      
      
      
      Durante o resto do dia, Anna limitou-se a suportar o passar do tempo. Obrigou-se a ficar sentada  secretria de pau-rosa, na biblioteca da manso. Obrigou-se 
a mergulhar a pena na tinta sem derramar uma gota. Obrigou-se a copiar uma pgina do manuscrito de Edward. Quando terminou essa primeira pgina, obrigou-se a refaz-la. 
Uma e outra vez. E outra ainda. Era esse o trabalho de uma secretria, afinal de contas. 
      H muito tempo, quando Peter a pedira em casamento, ela pensara em ter filhos. Interrogava-se se os seus filhos teriam cabelo ruivo ou castanho e sonhava com 
os nomes possveis. Quando casaram e se mudaram para a pequena casa de campo, ela preocupara-se se haveria espao suficiente para uma famlia.
      Nunca pensara em no ter crianas.
      No segundo ano de casamento, Anna comeou a prestar ateno ao seu fluxo menstrual. A partir do terceiro, passou a chorar todos os meses. No quarto ano do 
seu casamento com Peter, Anna percebeu que ele se envolvera com outra mulher. Fosse por ela se mostrar ineficaz enquanto amante ou procriadora ou por ambas as coisas, 
isso nunca viria a saber. E quando Peter morreu...
      Quando ele morreu, ela pegou nas suas esperanas de ter um filho e encerrou-as cuidadosamente dentro de uma caixa, que enterrou bem fundo no seu corao. To 
fundo, que pensou nunca mais ter de enfrentar esse sonho. Porm, com uma frase, Edward exumara a caixa e escancarara-a. E as esperanas dela, os seus sonhos, o seu 
desejo de ter um filho, estavam agora to frescos como no tempo em que era recm-casada.
      Oh, Deus do Cu, ser capaz de dar um filho a Edward! O que ela no daria, aquilo de que abdicaria para poder abraar um beb! Um beb gerado a partir dos corpos 
e das almas de ambos. Anna sentia uma dor fsica no peito. Uma dor que se expandia para fora de si, at no ser capaz de a aguentar e ter de se enrolar para a conter.
      No entanto, tinha de manter a compostura. Estava na biblioteca de Edward - alis, Edward estava sentado a metro e meio dela - e no podia demonstrar a sua 
dor. Ferozmente, concentrava-se em mover a pena ao longo do papel. No interessava que os arranhes que fazia com a pena ficassem ilegveis, no interessava que 
a pgina tivesse de ser copiada novamente. Ela iria superar aquela tarde.
      Algumas sinistras horas depois, Anna recolheu devagar as suas coisas, mexendo-se como uma velha. Ao faz-lo, o convite para o baile de Felicity Clearwater 
caiu-lhe do xaile. Ficou, por momentos, a olhar para ele. H algum tempo, ela fizera tenes de falar com Edward acerca do sarau. Agora, parecia inconsequente. Mas 
a sogra dissera que seria importante o conde participar nos eventos sociais locais. Endireitou os ombros. Seria apenas mais isto e, depois, poderia ir para casa.
      - O sarau da senhora Clearwater  amanh  noite. - A sua voz vacilava.
      - No pretendo aceitar o convite da senhora Clearwater.
      Anna recusava-se a olhar para ele, mas a voz de Edward no soava muito melhor do que a dela.
      - O senhor  o aristocrata mais importante da regio - disse ela. - Seria honroso aparecer.
      - Sem dvida.
      -  a melhor forma de ficar a conhecer os ltimos boatos da aldeia.
      Ele resmungou.
      - A senhora Clearwater serve sempre o seu ponche especial. Toda a gente concorda que  o melhor do condado - mentiu ela.
      - Eu no...
      - Por favor, v, por favor... - Continuava sem o fitar, mas sentia os olhos dele postos no seu rosto, to tangveis como uma mo.
      - Como queira.
      - Muito bem.- Anna afundou o chapu na cabea e recordou-se de uma coisa. Abriu a gaveta central da sua secretria e retirou O Prncipe Corvo. Levou-o at 
 secretria de Edward, pousando-o delicadamente. - Isto pertence-lhe.
      Voltou-se e abandonou a sala, sem que ele tivesse tempo de replicar.
      
      
      O salo estava sufocantemente quente, a decorao estava fora de moda e a msica soava desafinada. Era o sarau anual de Primavera dado por Felicity Clearwater. 
Todos os anos, os cidados de Little Battleford que tinham a sorte de receber um convite vestiam-se com as suas melhores roupas e iam beber um ponche deslavado a 
casa dos Clearwater. Felicity Clearwater estava  porta para receber os convidados. Trazia um vestido novo, este ano de musselina azul-anil, com uma cascata de folhos 
nas mangas. A saia de baixo ostentava um padro de pssaros carmesins voando sobre um campo azul-claro, e laos carmesins em v delineavam o espartilho. O squire 
Clearwater, com uma postura de cavalheiro, com meias cor de laranja e a peruca da sua juventude, enervava-se ao lado dela, embora fosse claramente evidente que o 
evento pertencia a Felicity.
      Anna passara pela fila de cumprimentos com apenas uma saudao gelada de Felicity e um aceno algo abstrato do squire. Aliviada por se ver livre daquele martrio, 
Anna pairava a um canto da sala. Aceitara, imprudentemente, um copo de ponche estendido pelo vigrio e, agora, no lhe restava seno beb-lo.
      A me Wren estava ao seu lado, lanando-lhe olhares ansiosos. Anna no lhe contara o que tinha acontecido nos estbulos entre ela e Edward. Nem fazia tenes 
de contar. Mas a sogra sentia, de alguma forma, que algo estava errado. Obviamente, a nora no era muito boa a fingir-se alegre.
      Bebeu um novo golo do amargo ponche. Apresentava-se com o seu melhor vestido. Ela e Fanny tinham passado algumas horas a trabalhar nele, procurando fazer alteraes 
to aprimoradas como possvel. O vestido era de um tom verde-ma e elas tinham-no renovado com alguma renda branca no decote. A renda escondia igualmente a alterao 
do decote: anteriormente curvo, era agora quadrangular, mais na moda. Fanny, num ataque de inveno artstica, a partir de um pouco de renda e de uma fita verde, 
tinha engendrado uma roseta para o cabelo de Anna. Ela no se sentia de todo festiva, mas ofenderia Fanny se no a usasse.
      - O ponche no est mau - segredou a me Wren.
      Anna nem reparara. Deu mais um gole, ficando agradavelmente surpreendida.
      - Sim,  melhor do que dizem.
      A sogra sacudiu-se por um instante, antes de avanar com mais uma investida de conversa.
      -  pena a Rebecca no poder vir.
      - No vejo razo para tal.
      - Sabe bem que ela no pode ser vista em circunstncias sociais, querida, assim to prxima do parto. No meu tempo, no nos atrevamos a pr o p fora de casa 
mal se comeasse a notar.
      Anna franziu o nariz.
      - Isso  uma parvoce. Toda a gente sabe que a barriga dela est a crescer. No se trata de nenhum segredo.
      -  o decoro que importa, e no o que toda a gente sabe. Alm disso, a Rebecca j est to adiantada, que no me parece que fosse gostar de estar de p durante 
horas. Nunca h assentos que cheguem nestes bailes. - A senhora olhou  volta da sala. - Acha que o seu conde aparecer?
      - Ele no  o meu conde, como bem sabe - disse Anna com alguma amargura.
      A me Wren olhou peremptoriamente para ela. Anna tentou moderar o tom.
      - Eu disse-lhe que achava ser uma boa ideia ele vir ao sarau.
      - Espero que chegue antes de comear a dana. Gosto mesmo de ver uma figura masculina distinta na pista de dana.
      - Ele pode at nem aparecer e, portanto, vai ter de se contentar com o desempenho do senhor Merriweather na pista de dana. - Apontou com a taa na direco 
do dito cavalheiro, que estava do outro lado do salo.
      Ambas olharam para o senhor Merriweather, um cavalheiro esqueltico de joelhos proeminentes,  conversa com uma senhora volumosa num vestido cor de pssego. 
Enquanto observavam, o senhor Merriweather chegou-se para a frente, para dar nfase a um argumento e, distraidamente, inclinou a sua taa de ponche. Um delgado fio 
de lquido escorreu, aparatosamente, pelo decote do vestido da senhora.
      A me Wren meneou a cabea, com tristeza.
      - Sabe uma coisa... - disse Anna compenetradamente - no sei ao certo se alguma vez o senhor Merriweather se safou de um sarilho sem perder a pose.
      A sogra suspirou. Depois, espreitou por cima do ombro de Anna, na direco da porta, e o seu rosto iluminou-se visivelmente.
      - Acho que, afinal, no terei de me contentar com o senhor Merriweather. Ali est o seu conde  porta.
      Anna voltou-se para ver a entrada para o salo e levou a taa aos lbios. Por momentos, quando viu Edward, esqueceu-se dela a. Trazia calas pretas pelo joelho, 
com um casaco e um colete cor de safira. O cabelo preto, penteado num rabo-de-cavalo inusitadamente aprumado, resplandecia como a asa de um pssaro  luz de velas. 
Era praticamente uma cabea mais alto do que qualquer outro homem na sala. Felicity estava, simplesmente, deleitada com a sorte de ser a primeira a atrair o fugidio 
conde para um encontro social. Mantinha uma mo firme sobre o cotovelo e apresentava Edward a toda a gente que se encontrasse por perto.
      Anna sorria ironicamente. Os ombros de Edward estavam tensos e apresentava um semblante carregado. Mesmo encontrando-se do outro lado da sala, Anna percebia 
que ele estava a conter o seu temperamento. Parecia estar prestes a dar um passo em falso, que passaria por afastar-se da sua anfitri. Edward olhou nesse preciso 
momento e viu Anna.
      Ela reteve a respirao. Era impossvel descortinar a expresso dele.
      Edward virou-se para Felicity e disse alguma coisa, comeando depois a abrir caminho por entre a multido, na direco de Anna. Ela sentiu um frio lquido 
no pulso e olhou para baixo. A mo tremia-lhe tanto, que entornara o resto do ponche sobre o brao. Ps a outra mo em volta da taa, para a imobilizar. Por um instante, 
esteve quase a escapulir-se, mas a sogra estava mesmo ao seu lado. E, mais tarde ou mais cedo, teria de o enfrentar.
      Felicity deve ter feito sinal aos msicos, porque os violinos soltaram um lamento.
      - Ah, senhora Wren. Que prazer rev-la - cumprimentou Edward, curvando-se sobre a mo da me Wren, sem sorrir.
      A velha senhora no parecia incomodar-se com isso.
      - Oh, excelncia, estou muito contente por ter vindo. A Anna est desejosa por danar - disse ela, enquanto erguia significativamente o sobrolho.
      Anna desejou ter escapado enquanto tivera a oportunidade.
      O clamoroso desafio ficou ali suspenso entre eles durante uns longos e desconfortveis momentos, at que Edward disse:
      - Se me conceder o prazer...
      Ele nem sequer a olhou. Por amor de Deus, fora ele a beij-la!
      Anna comprimiu os lbios.
      - No sabia que danava, excelncia.
      O olhar de Edward incidiu incisivamente sobre ela.
      - Claro que dano. Afinal, sou um conde.
      - Como se eu me esquecesse disso - murmurou ela.
      Edward estreitou os seus olhos de obsidiana.
      Ah! Agora, ela captara claramente a sua ateno.
      Estendeu a mo enluvada e, modestamente, Anna pousou nela a sua prpria mo. Apesar das duas camadas de tecido entre as palmas das suas mos, Anna sentia o 
seu calor corporal. Por um instante, recordou-se de como era passar as pontas dos dedos pelas suas costas nuas. Quentes. Suadas. Extremamente bom. Engoliu em seco.
      Com um simples aceno de cabea para a me Wren, Edward arrastou-a para a pista de dana, onde provou que, de facto, sabia danar, ainda que algo desajeitadamente.
      - Conhece bem os passos - disse Anna, quando desfilava por entre os outros pares.
      Pelo canto do olho, viu-o esboar um trejeito.
      - No nasci debaixo de uma rocha. Conheo os modos da alta sociedade.
      A msica terminou sem que Anna conseguisse formular uma resposta adequada. Fez uma mesura e comeou a puxar a sua mo do punho de Edward.
      Ele fez o movimento contrrio, com firmeza, e enfiou-a no gancho do seu cotovelo.
      - Nem pense em abandonar-me, senhora Wren. Desde logo, porque  por sua culpa que estou neste maldito sarau.
      Ser que ele tinha de estar sempre a tocar nela? Anna olhou em redor,  procura de uma distrao.
      - Agradar-lhe-ia um pouco de ponche?
      Ele olhou para ela, desconfiado.
      - Ser que sim?
      - Bem, talvez no - admitiu ela. - Mas  a nica bebida disponvel de momento e a mesa dos refrescos est do lado oposto  senhora Clearwater.
      - Provemos ento o ponche, sem sombra de dvidas. Edward dirigiu-se para a mesa do ponche e ela reparou que as pessoas se desviavam, naturalmente,  sua passagem. 
Pouco depois, Anna bebericava da sua segunda taa daquele fraco ponche.
      Edward virara-se ligeiramente para o lado, para responder a uma pergunta do vigrio, quando ela ouviu uma voz sibilina, junto ao seu cotovelo.
      -  uma surpresa v-la aqui, senhora Wren. Ouvi dizer que enveredou por uma nova profisso.
      Edward voltou-se devagar para ver quem falava, um homem ruborizado com uma peruca mal posta. No lhe parecia seu conhecido. Ao lado, Anna ficara rgida, de 
rosto transido.
      - Aprendeu algum truque novo com os seus ltimos hspedes? - A ateno do homem concentrava-se totalmente em Anna. Ela abriu a boca, mas, por uma vez, Edward 
foi mais rpido.
      - No me parece que o tenha compreendido bem.
      O grosseiro parecia reparar nele pela primeira vez. Os seus olhos abriram-se. O silncio comeou a apoderar-se do salo,  medida que os convidados se apercebiam 
de que algo estava a passar-se. O homem era mais corajoso do que aparentava.
      - Eu disse...
      - Tenha muito, muito cuidado com o que vai dizer a seguir. - Edward sentia os msculos dos seus ombros a contrarem-se. O outro homem pareceu entender, por 
fim, o perigo que estava a correr. Os seus olhos escancararam-se e engoliu visivelmente, em seco.
      Edward assentiu com a cabea.
      - Muito bem. Talvez pretenda pedir desculpas  senhora Wren, por aquilo que no disse.
      - Eu... - O homem teve de parar e tossicar. - Lamento imenso se algo do que disse a ofendeu, senhora Wren.
      Anna anuiu sem se mexer, mas o homem olhava expectante para Edward, tentando perceber se teria conseguido redimir-se.
      No tinha.
      Voltou a engolir em seco. Uma gota de suor deslizou gordurosamente pelo rebordo da sua peruca.
      - No sei o que me deu. Lamento abjectamente qualquer dano que lhe tenha causado, senhora Wren. - Deu um puxo na gravata e inclinou-se para acrescentar: - 
Sou mesmo um idiota, como v.
      - Pois  - disse Edward, suavemente.
      A tez do homem adotou um tom doentio.
      - Bom! - disse Anna. - Parece-me que j  tempo da prxima dana. A msica no est a comear?
      Anna falou em voz alta na direco dos msicos, que aproveitaram imediatamente a sua sugesto. Pegou na mo de Edward e comeou a caminhar para a pista de 
dana. Tinha bastante fora, para uma mulher to pequena. Edward lanou um ltimo olhar de soslaio ao grosseiro, consentindo, em seguida, deixar-se levar docilmente.
      - Quem  ele?
      Anna ergueu o olhar para ele, enquanto compunham a formao.
      - Na realidade, aquilo no me afetou.
      A dana comeou e ele viu-se obrigado a esperar at que os passos os unissem novamente.
      - Quem  ele, Anna?
      Ela estava exasperada.
      - John Wiltonson. Era amigo do meu marido.
      Edward esperou.
      - Aps a morte do Peter, fez-me uma proposta...
      - Queria casar consigo? - Assumiu um olhar mais carregado.
      - ... uma proposta indecente. - Os olhos de Anna fugiam. - Ele j era... ... casado.
      Edward ficou parado, fazendo com que o par seguinte chocasse contra eles.
      - Ele atacou-a?
      - No. - Puxou-o pelo brao, mas ele permaneceu imvel. Anna segredou-lhe ao ouvido: - Queria que eu me tornasse sua amante. Eu recusei.
      Os danarinos comeavam a acumular-se atrs deles.
      - Excelncia!
      Edward deixou-se envolver novamente na dana, embora ficassem os dois descompassados com a msica.
      - No quero voltar a ouvir algum a falar daquela maneira a seu respeito.
      - Um belo sentimento, no haja dvida - respondeu ela, sarcasticamente. - Mas no vai poder passar o resto da sua vida a andar atrs de mim e a intimidar os 
impertinentes.
      Incapaz de cogitar uma resposta, ele ficou simplesmente a olh-la. Ela tinha razo. O pensamento corroa-o. Anna era apenas a sua secretria, to simples como 
isso. No poderia estar com ela a toda a hora. No poderia impedir os insultos. No poderia sequer proteg-la de investidas insultuosas. Esse tipo de proteo era 
prerrogativa de um marido.
      Anna interrompeu-lhe os pensamentos.
      - No deveria ter danado to rapidamente consigo outra vez. No fica bem.
      - No me interessa nada o que fica bem - disse Edward. - Alm disso, era a nica forma de me afastar daquele babuno.
      Anna sorriu-lhe e algo dentro do peito dele se desconjuntou. Como iria ele mant-la a salvo?
      Passadas duas horas, Edward continuava a remoer naquela questo. Encostou-se a uma parede e ficou a ver Anna conduzindo um cavalheiro ofegante num reel2. Ela 
precisava claramente de um marido, mas no conseguia imagin-la com um homem. Ou melhor, no conseguia imagin-la com outro homem. Esboou um esgar.
      Algum tossiu com deferncia perto de si. Era um homem alto e jovem, com uma peruca em forma de tigela. O colarinho identificava-o como sendo o vigrio Jones.
      O vigrio tossiu novamente e sorriu-lhe, mope, atravs das suas lunetas.
      - Lorde Swartingham,  simptico da sua parte comparecer no nosso pequeno acontecimento local.
      Edward perguntava-se como  que o vigrio conseguia aparentar o dobro da idade. No teria mais de trinta anos.
      - Ol, senhor vigrio. Estou a apreciar o sarau da senhora Clearwater. - Para sua surpresa, reparou que dissera a verdade.
      - Ainda bem. Os eventos sociais da senhora Clearwater so sempre muito bem organizados. E os seus refrescos so uma verdadeira delcia. - O vigrio comprovou 
o que dizia sorvendo entusiasticamente o seu ponche.
      Edward olhou para o seu prprio ponche e tomou uma nota mental, para verificar o salrio do vigrio. Era bvio que o homem no estava habituado a comida e 
a bebida decentes.
      - Parece-me que a senhora Wren est a fazer uma figura vistosa na pista de dana, no lhe parece? - O vigrio entortava os olhos, para ver Anna. - Est diferente, 
esta noite.
      Edward seguiu o seu olhar.
      - No traz touca.
      - Ser isso? - O vigrio Jones parecia vago. - O senhor tem olhos mais capazes do que os meus. Perguntava-me se ela teria comprado um vestido novo durante 
a sua viagem.
      Edward erguia a sua prpria taa de ponche para a levar  boca, quando as palavras do vigrio se afundaram. Esboou um trejeito e baixou a taa.
      - Que viagem?
      - Hum... - O vigrio Jones continuava a observar os danarinos. A sua ateno no estava, claramente, voltada para a conversa.
      Edward estava prestes a repetir a pergunta com um pouco mais de convico, quando a senhora Clearwater os interrompeu.
      - Ah, lorde Swartingham! Vejo que j conhece o vigrio.
      Os dois homens saltaram, como se lhes tivessem beliscado o rabo. Edward ofereceu um sorriso forado  sua anfitri. Reparou, pelo canto do olho, que o vigrio 
olhava em redor, como se quisesse fugir.
      - Sim, j conheci o vigrio Jones, senhora Clearwater.
      - Lorde Swartingham teve a bondade de contribuir para o novo telhado da igreja- comentou o vigrio Jones, cruzando o olhar com um outro convidado. - Ser o 
senhor Merriweather que ali est? Preciso de lhe dar uma palavrinha, se me permitem. - O vigrio curvou-se e escapuliu-se.
      Edward sentiu alguma inveja do vigrio. O homem j devia ter frequentado os seres da senhora Clearwater anteriormente.
      - Que bom ter um momento a ss consigo, excelncia - disse a senhora Clearwater. - Gostava de falar sobre a sua viagem a Londres.
      - Ah, sim? - Talvez se ele captasse o olhar da senhora Wren mais velha. No ficava nada bem abandonar uma senhora.
      - Sim, de facto. - A senhora Clearwater chegou-se para mais perto dele. - Ouvi dizer que foi visto nos lugares mais inesperados.
      - A srio?
      - Na companhia de uma senhora que ambos conhecemos.
      A ateno de Edward voltou-se subitamente para Felicity Clearwater. De que raio estaria a mulher a falar?
      - Fe-li-ci-ty! - cantarolou uma voz masculina, deturpada pela bebida, ali por perto.
      A senhora Clearwater estremeceu.
      O squire Clearwater encaminhava-se aos tombos para eles.
      - Felicity, querida, no deve monopolizar o conde. Ele no est interessado em conversas sobre moda e bi... bi... bijuteria. - O squire enterrou um cotovelo 
pontiagudo nas costelas de Edward. - No , excelncia? A caa  que . Desporto de homens! O que foi? O que foi?
      A senhora Clearwater produzira um som que, num homem, poderia ser considerado um ronco.
      - Na realidade, no costumo caar - disse Edward.
      - Os ces a latir, os cavalos a galopar, o cheiro a sangue...- O squire estava num mundo  parte.
      Do outro lado da sala, Edward viu Anna a colocar uma capa por cima dos ombros. Raios. Estaria ela a ir-se embora sem se despedir dele?
      - Com licena.
      Curvou-se para o squire e para a mulher e rompeu por entre a amlgama de gente. Porm, quela hora, o sarau estava bem concorrido. Quando chegou  porta, Anna 
e a senhora Wren j se encontravam no exterior.
      - Anna! - Junto  entrada, Edward empurrou os criados para os lados e abriu a porta. - Anna!
      Ela estava apenas a uns passos de distncia. Perante o seu grito, tanto ela quanto a senhora Wren se voltaram.
      - Seria melhor no ir sozinha para casa, Anna. - Edward olhava-a fixamente, apercebendo-se ento do seu deslize. - Nem a senhora, senhora Wren.
      Anna ficou confusa, mas a sogra sorriu.
      - Veio para nos acompanhar at casa, lorde Swartingham?
      - Sim.
      A carruagem dele esperava ali perto. Podiam ir nela, mas, dessa forma, o sero terminaria numa questo de minutos. Alis, estava uma linda noite. Edward fez 
sinal  carruagem para que os seguisse, enquanto caminhavam. Ofereceu a Anna um dos braos e o outro  senhora Wren. Apesar de as senhoras terem abandonado cedo 
a festa, j era tarde e estava escuro. A lua cheia brilhava, gloriosamente enorme no negro cu, estendendo compridas sombras diante deles.
      Ao aproximarem-se de uma encruzilhada, Edward ouviu, mais adiante, um repentino som de ps em corrida, bem audveis no ar silencioso. Ps de imediato as senhoras 
atrs de si. Um vulto vago contornou velozmente a esquina, vindo na direco deles.
      - Meg! O que se passa? - gritou Anna.
      - Oh, minha senhora! - A rapariga dobrou-se em duas, agarrando o flanco enquanto tentava recuperar o flego. -  a senhora Fairchild. Caiu das escadas e no 
consigo lev-la para cima. E acho tambm que o beb est para chegar!
      -
      -
  Captulo 15





       urea voou de volta na sua magnfica carruagem dourada, com o plano das suas irms a consumir-lhe o pensamento. Quase com indiferena, o corvo saudou a sua
esposa de regresso. urea partilhou com ele um jantar esplendoroso, deu-lhe as boas-noites e foi para o seu quarto, aguardando pelo sensual visitante. Subitamente, 
ele estava junto  sua cama, mais sfrego, mais exigente do que alguma vez se demonstrara. As atenes dele deixaram urea ensonada e saciada, mas manteve teimosamente 
o seu plano e permaneceu acordada, mesmo quando ouviu a respirao do seu amante a repousar na serenidade do sono. Silenciosamente, sentou-se e tateou,  procura 
da vela que colocara na mesinha junto  cama...
       in O Prncipe Corvo
      
      
      
      
      - Oh, Deus! - Anna procurava recordar quando exatamente  que Rebecca esperava ter o beb. No seria da a um ms?
      - O doutor Billings est no sarau - disse Edward, com uma tranquila autoridade. - Leve a minha carruagem, rapariga, e v busc-lo rapidamente. - Voltou-se
e gritou algumas ordens ao cocheiro John, mandando avanar a carruagem com um aceno.
      - Eu vou com a Meg - disse a me Wren.
      Edward assentiu e ajudou-a e  criada a entrarem na carruagem.
      - Ser necessrio encontrar igualmente uma parteira? - A pergunta era dirigida a Anna.
      - A Rebecca estava a contar com a senhora Stucker...
      - A parteira est a assistir a senhora Lyle - interrompeu a sogra.- Vive a uns sete ou oito quilmetros, nos arredores. Vrias senhoras falaram no assunto 
na festa.
      - Levem primeiro o doutor Billings a casa da senhora Fairchild e, depois, a carruagem ir buscar a senhora Stucker - ordenou Edward.
      A me Wren e Meg anuram do interior da carruagem. Edward bateu com a porta e deu um passo atrs.
      - V, John!
      O cocheiro incitou os cavalos e a carruagem arrancou.
      Edward agarrou na mo de Anna.
      - Para que lado fica a casa da senhora Fairchild?
      - E mesmo ali  frente. - Anna segurou as saias e correu com Edward na direco da casa.
      A porta principal da casa de Rebecca estava entreaberta. A escurido era completa,  exceo de uma cortina de luz que, desde a entrada, caa sobre o soalho. 
Edward empurrou a porta e Anna foi atrs dele. Ela olhou em volta. Estavam no vestbulo, com as escadas para o andar superior mesmo diante deles. A parte de baixo 
era visvel com a luz do vestbulo, mas os degraus mais acima estavam obscurecidos. No havia sinal de Rebecca.
      - Ser que ela conseguiu mexer-se? - arquejou Anna.
      Ouviram um gemido grave, vindo do cimo das escadas. Anna subiu a correr, sem que Edward se tivesse mexido. Ouviu-o a praguejar atrs dela.
      Rebecca estava deitada num patamar a meio da escadaria. Anna agradeceu ao destino que ela tivesse parado ali sem ter cado pelo segundo lano de escadas, bem 
maior. A sua amiga estava de lado, a volumosa barriga ainda mais proeminente devido  posio. O rosto brilhava, branco e gorduroso, devido  transpirao.
      Anna mordeu o lbio.
      - Rebecca, consegue ouvir-me?
      - Anna - Rebecca estendeu a mo e Anna agarrou nela. - Graas a Deus que est aqui.- Arquejava e a mo dela apertava a sua, devido s dores.
      - O que se passa? - perguntou Anna.
      - O beb. - Rebecca expirou profundamente. - Vem a.
      - Consegue levantar-se?
      - Sou uma trapalhona. Magoei o tornozelo. - Os olhos de Rebecca estavam lacrimejantes. - O beb vem cedo demais.
      Os olhos de Anna encheram-se subitamente de lgrimas. Mordeu o interior da bochecha, ao tentar control-las. As lgrimas no iriam ajudar a amiga.
      - Deixe-me lev-la de volta ao seu quarto, senhora Fairchild. - A voz grave de Edward interrompeu-lhe os pensamentos.
      Anna olhou para cima. Edward estava ao seu lado, de semblante carregado. Ela afastou-se, soltando a mo de Rebecca. Ele colocou as mos por baixo da parturiente, 
agachou-se e puxou-a para os seus braos, antes de se levantar num movimento fluido. Teve, obviamente, cuidado para no bater com o tornozelo de Rebecca, mas ela 
chorava e engalfinhava as mos no seu casaco. Edward comprimiu os lbios. Acenou com a cabea a Anna e ela foi  frente dele, escadas acima e ao longo do corredor. 
Uma nica vela tremeluzia na mesa-de-cabeceira do quarto de Rebecca. Anna correu para pegar nela e acender vrias outras. Edward virou-se de lado para entrar, pousando 
ento a amiga de Anna cuidadosamente sobre a cama. Pela primeira vez, Anna reparou que ele estava bastante plido.
      Anna afastou uma madeixa de cabelo hmido da testa de Rebecca.
      - Onde est o James?
      Teve de aguardar pela resposta, pois a amiga viu-se acometida por uma outra dor. Rebecca gemeu baixinho e as suas costas arquearam- -se na cama. Quando terminou, 
ofegava.
      - Foi a Drewsbury para tratar de negcios. Disse que regressaria amanh depois do meio-dia. - Mordeu o lbio. - Ele vai ficar muito aborrecido comigo.
      Edward murmurou algo cortante atrs delas e dirigiu-se para as janelas escuras do quarto.
      - Que absurdo - ralhou Anna, delicadamente. - Nada disto  culpa sua.
      - Se ao menos no tivesse cado escadas abaixo... - soluou Rebecca.
      Anna tentava confort-la, quando a porta principal bateu l em baixo. O mdico tinha obviamente chegado. Edward escusou-se e foi buscar o homem.
      O Dr. Billings procurava mostrar um rosto impassvel, mas era evidente que estava bastante preocupado. Ligou o tornozelo de Rebecca, que j inchara e ficara 
roxo. Anna ficou sentada junto  cabeceira da amiga, segurando-lhe a mo e falando com ela, na tentativa de a acalmar. No era fcil. De acordo com os clculos da 
parteira e de Rebecca, o beb vinha com um ms de avano. A medida que a noite avanava, a agonia de Rebecca piorava e ela comeou a desanimar. Convencera-se de 
que perderia o beb. Nada do que Anna dissesse a ajudava, mas permaneceu junto da amiga, segurando-lhe a mo e compondo-lhe o cabelo.
      Passadas trs horas aps a chegada do mdico, a senhora Stucker, a parteira, irrompeu pelo quarto. A chegada daquela mulher, baixa e de formas arredondadas, 
com faces coradas e cabelo negro, agora polvilhado de cinzento, era providencial.
      - Oh! Esta  uma noite para bebs - disse a parteira. - Ficaro todos contentes por saber que a senhora Lyle teve um outro rapaz, o quinto, d para acreditar? 
No sei porque se d ela ao trabalho de me chamar. Fico sentada a um canto a coser malha, at chegar a altura de apanhar o pequenote. - A senhora Stucker libertou-se 
do manto e de vrios cachecis, lanando-os para uma cadeira. - Tem um pouco de gua e sabo, Meg? Gosto de lavar as mos antes de ajudar uma senhora.
      O Dr. Billings olhava-a com desaprovao, mas no objetou a que a parteira visse a sua paciente.
      - Como se sente, senhora Fairchild? Vai-se aguentando, apesar do tornozelo? Nossa Senhora, deve ter dodo bastante. - A parteira ps a mo na barriga de Rebecca 
e olhou-a com perspiccia. - O beb est desejoso por nascer mais cedo, s para irritar a me. Mas no h motivos para se preocupar. Os bebs tm, por vezes, as 
suas prprias ideias em relao ao momento da chegada.
      - Ele vai ficar bem? - Rebecca lambia os lbios ressequidos.
      - Ora, sabe que no posso prometer nada, meu amor. Mas a senhora  valente e bondosa, se  que posso diz-lo. Darei o meu melhor para a ajudar, a si e ao beb.
      As coisas pareciam agora ter melhorado. A senhora Stucker fez com que Rebecca se sentasse na cama, pois "os bebs escorregam melhor para baixo do que para 
cima". Rebecca parecia recuperar a esperana, tentando conversar, apesar das dores.
      No instante em que Anna sentiu que iria desfalecer de cansao sobre a cadeira, Rebecca comeou a gemer profundamente. De incio, Anna ficou bastante assustada, 
pensando que algo no estava bem. Mas a senhora Stucker no parecia perturbada, declarando alegremente que o beb estaria prestes a aparecer. E, de facto, meia hora 
depois, durante a qual Anna despertou por completo, o beb de Rebecca nasceu. Era uma menina, enrugada e pequena, mas capaz de berrar bem alto. O som ps um sorriso 
no rosto exausto da me. A beb tinha cabelo escuro, que despontava como a penugem de um pintainho, os seus olhos azuis pestanejavam devagarinho e virou a cabea 
para o peito de Rebecca, quando a aninharam nele.
      - Digam l se no  o beb mais lindo que j viram! - exclamou a senhora Stucker. - Sei que deve estar completamente extenuada, senhora Fairchild, mas talvez 
aceite um pouco de ch ou uma sopa.
      - Vou ver o que encontro - disse Anna, bocejando.
      Desceu lentamente as escadas. Quando chegou ao patamar, reparou numa luz que brilhava na sala de estar, l em baixo. Intrigada, empurrou a porta e ficou a 
olhar por momentos.
      Edward estava esparramado no canap rosado de Rebecca, com as pernas a penderem-lhe ao fundo. Retirara a gravata e desabotoara o colete. Um brao cobria-lhe 
os olhos. O outro alongava-se para o cho, onde a mo quase envolvia um copo semivazio do que parecia ser o brande de James. Anna entrou na sala e ele retirou de 
imediato o brao dos olhos, contrariando a impresso de que estivera a dormir.
      - Como est ela? - A sua voz estava rugosa, a sua expresso apavorada. Os hematomas, mais ligeiros, destacavam-se notavelmente na sua cara plida, e a barba 
por fazer conferia-lhe um ar dissoluto.
      Anna sentia-se envergonhada. Esquecera-se de Edward, presumindo que tivesse ido para casa h muito, mas ele ficara todo aquele tempo ali em baixo,  espera 
do desfecho do parto de Rebecca.
      - A Rebecca est bem - disse ela vivamente. - Teve uma menina.
      A expresso dele no se modificou.
      - Viva?
      - Sim. - Anna hesitou. - Sim, claro. Ela e a beb esto vivas e de bem sade.
      - Graas a Deus. - O seu rosto no perdera o ar tenso.
      Ela comeou a sentir-se desconfortvel. Estaria ele assim to preocupado? Apenas conhecera Rebecca na noite anterior, ou no?
      - O que se passa?
      Ele suspirou e voltou a cobrir os olhos com o brao. Fez-se um longo momento de silncio, to longo que achou que ele no iria responder  pergunta. Por fim, 
ele l falou:
      - A minha mulher e o beb morreram durante o parto.
      Anna sentou-se lentamente num banco perto do canap. Nunca pensara na mulher dele. Sabia que fora casado e que a esposa morrera jovem, mas no como. T-la-ia 
amado? Am-la-ia ainda?
      - Lamento.
      Ele ergueu a mo do copo de brande, esboou um gesto de impacincia e deixou que a mo pousasse novamente no copo, como se estivesse demasiado cansado para 
lhe encontrar outro lugar.
      - No lho disse para suscitar a sua compaixo. Ela morreu h bastante tempo, faz j dez anos.
      - Que idade tinha?
      - Tinha completado vinte anos duas semanas antes. - A boca dele contorceu-se. - Eu tinha vinte e quatro.
      Anna esperou. Quando ele voltou a falar, as palavras saram-lhe to baixinho, que ela teve de se inclinar para as ouvir.
      - Ela era jovem e saudvel. Nunca me passara pela cabea que dar  luz a pudesse matar, mas ela abortou ao stimo ms. O beb era demasiado pequeno para viver. 
Disseram-me que era um rapaz. Depois, ela comeou a sangrar.
      Afastou o brao da cara e Anna reparou que ele fitava, abstratamente, uma viso interior.
      - No conseguiram estancar a hemorragia. Mdicos e parteiras no conseguiram estanc-la. As criadas vinham a correr com mais e mais lenis - segredou ele, 
perante o horror da memria. - Ela foi sangrando e sangrando, at a vida se esvair por completo do seu corpo. O colcho ficou com tanto sangue, que estava completamente 
empapada. Tivemos de o queimar, depois disso.
      As lgrimas que Anna contivera para bem de Rebecca corriam-lhe agora pelas faces. Perder de forma to horrvel algum que se amou, to tragicamente, que desgraa 
no seria... E ele deve ter querido tanto aquele beb... Ela j sabia quo importante era para ele ter uma famlia.
      Tapou a boca com uma mo e o gesto ter arrancado Edward s suas recordaes. Quando viu as lgrimas no rosto dela, disse um palavro baixinho. Sentou-se no 
canap e agarrou nela. Sem sinal de esforo, ergueu-a do banco para o seu colo, pousando-a a de frente para ele, amparada pela sua mo. Encostou a cabea dela ao 
seu peito.
      Uma mo enorme afagava-lhe o cabelo.
      - Peo desculpa. No deveria ter-lhe contado esta histria. No  para os ouvidos de uma senhora, sobretudo depois de ter estado acordada toda a noite, preocupada 
com uma amiga.
      Anna deixou-se ficar junto dele, confortada pelo seu calor masculino e pela sua mo carinhosa.
      - Devia am-la imenso.
      A mo parou, retomando em seguida.
      - Pensava que sim. Mas, afinal, no a conhecia assim to bem.
      Ela puxou a cabea para trs, para o fitar.
      - Quanto tempo esteve casado?
      - Pouco mais de um ano.
      - Mas...
      Ele encostou novamente a cabea dela ao seu peito.
      - No nos conhecamos h muito tempo quando ficmos noivos e creio que nunca cheguei a conversar realmente com ela. O pai dela estava ansioso pela unio, disse-me 
que era do agrado da rapariga e eu simplesmente presumi... - A voz tornou-se-lhe mais spera. - Vim a descobrir, j casados, que o meu rosto lhe causava repugnncia.
      Anna quis falar, mas ele silenciou-a novamente.
      - Creio que ela tambm tinha medo de mim - disse ele, ironicamente. - Talvez ainda no tenha reparado, mas tenho um feitio desgraado... - Anna sentiu a mo 
dele a tocar-lhe suavemente o alto da cabea. - Quando ficou grvida, percebi que algo estava errado e, nas suas ltimas horas, ela s o maldizia.
      - Maldizia a quem?
      - Ao pai, por a ter obrigado a casar com um homem to feio.
      Anna tremia. Que rapariguinha parva devia ser aquela mulher.
      - Ao que parece, o pai dela tinha-me mentido. - A voz de Edward tornou-se glida como o Inverno. - Ele desejava desesperadamente a unio e, no querendo ofender-me, 
proibiu a minha noiva de me dizer que as minhas marcas a revoltavam.
      - Lamento, eu...
      - No diga nada... - murmurou ele.- Isto aconteceu h muito tempo e, desde ento, aprendi a viver com a minha cara e a discernir aqueles que tentam esconder 
a averso que lhes causa. Mesmo que mintam, costumo descobrir.
      Porm, no descobrira as suas mentiras. Anna sentiu um calafrio ao pensar nisso. Ela enganara-o e ele jamais lhe perdoaria, caso viesse a saber.
      Edward deve ter confundido o tremor dela com um prolongamento da tristeza perante a sua histria. Segredou-lhe algo aos ouvidos e apertou-a com mais fora, 
at o calor do corpo dele se ter substitudo ao frio que sentia. Ficaram ento sentados por uns instantes, reconfortando-se mutuamente. L fora, a luz comeava a 
despontar. Formara-se um halo em torno das cortinas fechadas da sala de estar. Anna aproveitou a oportunidade para esfregar o nariz contra a sua camisa amarrotada. 
Cheirava ao brande que estivera a beber, combinado com um odor... muito masculino.
      Edward inclinou-se para trs, para olhar para ela.
      - O que est a fazer?
      - A cheir-lo.
      - Provavelmente, estou com um cheiro ftido.
      - No - Anna meneou a cabea. - Cheira... bem.
      Ele ficou a estudar, por uns instantes, a cabea dela voltada para cima.
      - Perdoe-me, por favor. No quero que tenha esperanas. Se houvesse uma maneira...
      - Eu sei.- Anna ps-se de p. - Compreendo at.- Dirigiu-se bruscamente para a porta. - Vim c abaixo buscar uma coisa para a Rebecca. Ela deve estar a perguntar-se 
o que me ter acontecido.
      - Anna...
      Ela, porm, fingiu que no tinha ouvido e abandonou a sala de estar. Edward podia rejeit-la, mas ela no tinha de suportar a sua compaixo.
      A porta principal abriu-se nesse momento, para deixar entrar um desgrenhado James Fairchild. Era uma viso de loucos: cabelo louro revolto, sem gravata.
      Olhou desvairadamente para Anna.
      - Onde est a Rebecca?
      Nesse instante, como uma resposta vinda do alto, ouviu-se o choro flutuante de um beb recm-nascido. A expresso de James Fairchild passou de frentica a 
abismada. Sem esperar a resposta de Anna, correu escadas acima, saltando os degraus de trs em trs. Ao sair do seu campo de viso, Anna reparou que ele apenas tinha 
calada uma meia.
      Sorriu para si mesma, enquanto se dirigia para a cozinha.
      
      
      - Creio estar quase na altura de plantar, excelncia - disse Hopple, tentando ser comunicativo.
      - Sem dvida. - Edward semicerrou os olhos, perante o brilho do sol vespertino.
      Depois de uma noite mal dormida, no estava com disposio para conversa fiada. Ele e o feitor caminhavam ao longo de um terreno, verificando se precisaria 
de uma vala de drenagem, como o do senhor Grundle. Parecia que os cavadores de valas locais tinham a vida garantida nos prximos tempos. Jock avanava junto s sebes 
que delimitavam os terrenos, enfiando o focinho em tocas de coelho. Edward enviara, de manh, uma mensagem a Anna a dizer-lhe que no precisaria de vir  manso 
nesse dia. Poderia aproveitar o dia para descansar. E ele precisava de uma pausa da presena dela. Dera por si novamente  beira de a beijar, na noite anterior, 
apesar da sua palavra de honra. Tinha de deix-la em paz; de qualquer maneira, depois de se casar, ser-lhe-ia difcil manter uma secretria feminina. Mas, ento, 
ela deixaria de ter uma fonte de rendimentos e Edward tinha a impresso de que a famlia Wren precisaria do dinheiro.
      - Talvez se cavssemos a vala de drenagem aqui...? - Hopple apontou para um ponto em que Jock estava a escavar, lanando para o ar salpicos de lama.
      Edward franziu o nariz.
      - Ou talvez... - Hopple virou-se e quase tropeou num monte de detritos. Olhou, enojado, para a sua prpria bota. - Foi sensato da sua parte no incluir a 
senhora Wren neste priplo.
      - Ela ficou em casa - disse Edward. - Disse-lhe para passar o dia a dormir. Ouviu falar do parto da senhora Fairchild, na noite passada?
      - A senhora esteve em apuros, ao que sei.  um milagre me e filha estarem bem.
      Edward soltou um suspiro.
      - Um verdadeiro milagre. Mas que estupidez um homem deixar a mulher sozinha, salvo uma criadeca, assim to perto do parto.
      - Ouvi dizer que o pai estava bastante consternado hoje de manh - avanou Hopple.
      - No que isso tenha valido de muito  mulher, ontem  noite - disse Edward secamente. - Seja como for, a senhora Wren ficou acordada toda a noite com a sua 
amiga. Achei que seria razovel ela tirar uma folga. Para mais, tirando os domingos, trabalhou todos os dias desde que  minha secretria.
      - Sim, de facto - disse Hopple. -  exceo daqueles quatro dias, quando o senhor foi pela primeira vez a Londres, claro.
      Jock deu de caras com um coelho e encetou uma perseguio. Edward estacou, voltando-se para o feitor.
      - O qu?
      - A senhora Wren no veio trabalhar enquanto o senhor esteve em Londres. - Hopple engoliu em seco. - Isto , tirando o dia antes de o senhor ter regressado. 
Nesse dia, veio trabalhar.
      - Estou a ver - disse Edward. Mas no estava nada.
      - Foram apenas quatro dias, excelncia - Hopple apressou-se a apaziguar a situao. - E ela j tinha adiantado a papelada, pelo que me disse. No  que tivesse 
deixado trabalho por fazer.
      Edward fitava compenetradamente a lama por baixo dos seus ps. Recordou-se da meno do vigrio na noite anterior, a respeito de uma "viagem".
      - Onde  que ela foi?
      - Onde, excelncia? - Hopple parecia estar a empatar. - Eu... hum... no sei se chegou a ir a algum lado. No me disse.
      - O vigrio disse que ela fez uma viagem. Confidenciou que ela fora fazer umas compras.
      - Talvez se tenha enganado - disse Hopple. - Se no encontrasse o que pretendia nas lojas de Little Battleford, porque iria uma senhora at Londres? Por certo 
que a senhora Wren no ter ido to longe.
      Edward resmungou. Voltou a fitar o cho a seus ps, s que, desta vez, de sobrolho carregado. Onde teria ido Anna? E porqu?
      
      
      Anna fincou os ps e puxou a velha porta do jardim com toda a fora. Edward concedera-lhe um dia livre, mas ela no conseguiria dormir durante tanto tempo. 
Ao invs, depois de ter descansado durante a manh, pensou em aproveitar a tarde para plantar rosas. A porta insistiu, teimosamente, em permanecer fechada por alguns 
instantes, cedendo depois repentinamente, escancarando-se e quase fazendo com que Anna casse de rabo no cho. Sacudiu as mos e pegou no cesto de jardinagem, dirigindo-se 
ao jardim descuidado. Edward trouxera-a ali h pouco mais de uma semana. Nesse curto espao de tempo, ocorrera uma grande transformao no interior dos velhos muros. 
Rebentos verdes despontavam no meio dos canteiros e por entre as frestas abertas no caminho. Alguns eram, obviamente, ervas daninhas, ainda que nem todos. Anna at 
reconheceu alguns: as pontas avermelhadas das tlipas, as rosetas desenroladas das folhas da aquilgia e as palmas orvalhadas da alquemila. Tudo tesouros que ia 
descobrindo com deleite. O jardim no estava morto, apenas estivera adormecido.
      Pousou o cesto e saiu pela porta do recinto, para ir buscar as restantes roseiras que Edward lhe oferecera. J plantara trs delas no seu pequeno jardim. As 
roseiras estavam l fora, ainda molhadas. Em cada uma, comeavam a despontar mnimos botes verdes. Anna observou-as. Haviam-lhe oferecido tanta esperana, quando 
Edward lhas oferecera... Mesmo que essa esperana estivesse morta, no era justo deixar as rosas a languescer. Plant-las-ia hoje e, se Edward no voltasse ao jardim, 
enfim, ela saberia que estavam aqui.
      Arrastou a primeira poro para o jardim, pousando as roseiras no caminho lamacento. Endireitou-se e olhou em redor,  procura de um bom lugar para as plantar. 
O jardim possura um padro, em tempos; todavia, agora, era praticamente impossvel discernir qual teria sido. Anna encolheu os ombros e decidiu dividir as plantas 
em partes iguais pelos quatro canteiros principais. Pegou na p e comeou a golpear a vegetao emaranhada no primeiro canteiro.
      Anna estava no jardim quando Edward a descobriu nessa tarde. Ele vinha irascvel. Aps Hopple o ter informado de que ela se encontrava na manso, ele andara 
 sua procura durante cerca de quinze minutos. Na verdade, no deveria ter ido atrs dela; acabara de tomar uma resoluo nessa mesma manh. Mas algo dentro de si 
fazia-o sentir-se incapaz de se manter afastado da sua secretria quando sabia que ela estava por perto. Da que se revoltasse contra a sua prpria falta de firmeza 
assim que a avistou. Mesmo nessa altura, Edward parou junto  porta do jardim, para admirar aquela imagem. Estava de joelhos na lama, a plantar uma roseira. De cabea 
destapada, o cabelo descia-lhe do n dado junto  nuca. Ao sol brilhante da tarde, as madeixas castanhas reluziam, douradas e avermelhadas.
      Edward sentiu um aperto no peito. Pensou que talvez fosse medo. Esboou um trejeito e avanou pelo caminho. O medo no era emoo que um homem forte como ele 
devesse sentir ao confrontar uma dbil viva, disso estava certo.
      Anna viu-o.
      - Excelncia.- Afastou o cabelo da testa, deixando um trilho de sujidade. - Pensei em plantar as suas rosas, antes que morressem.
      - Estou a ver que sim.
      Ela lanou-lhe um olhar intrigado, mas, como  bvio, decidiu no dar grande importncia ao seu estranho humor.
      - Plantarei umas quantas em cada canteiro, uma vez que o jardim se dispe segundo linhas to simtricas. Mais tarde, se assim desejar, poderamos rode-las 
de alfazema. A senhora Fairchild tem umas alfazemas lindas nas traseiras da casa dela e sei que ficaria contente se eu trouxesse uns ps para os seus jardins.
      - Hum...
      Anna interrompeu o seu monlogo para afastar novamente o cabelo, sujando ainda mais a testa.
      - Que maada! Esqueci-me de trazer o regador.
      Franziu o sobrolho e comeou a levantar-se, mas ele impediu-a.
      - Fique aqui. Eu vou buscar a gua para si.
      Edward ignorou o protesto abortado de Anna, comeando a percorrer o caminho inverso. Chegou  porta do jardim, mas algo o fez hesitar. Da em diante, haveria 
de matutar sempre naquilo que o fez parar. Voltou-se e olhou novamente para ela, ainda de joelhos junto  roseira. Estava a compactar a terra em redor. Enquanto 
a observava, Anna levantou a mo e, com o dedo mindinho, prendeu uma madeixa de cabelo atrs da orelha.
      Ele ficou transido. Todos os sons se suspenderam durante um terrvel e intemporal minuto, enquanto todo o seu mundo estremecia e rua. Trs vozes segredaram, 
murmuraram, balbuciaram ao seu ouvido, reunindo-se ento numa linguagem coerente:
      Hopple junto  vala: "Pensei que nunca mais vssemos o raio do co, depois de ele ter desaparecido vrios dias."
      O vigrio Jones no sarau da senhora Clearwater: "Perguntava-me se ela teria comprado um vestido novo durante a sua viagem."
      E Hopple, uma vez mais, no dia de hoje: "A senhora Wren no veio trabalhar enquanto o senhor esteve em Londres."
      Uma nvoa escarlate obscureceu-lhe a viso.
      Quando clareou, Edward estava quase junto de Anna e sabia que devia ter comeado a andar na sua direco ainda antes de as vozes se terem tornado compreensveis. 
Anna continuava dobrada junto  roseira, inconsciente da tempestade que se aproximava, at ele se encontrar junto dela e ela olhar para cima.
      Ele devia trazer estampada no rosto a conscincia do seu malogro, pois o sorriso de Anna desvaneceu-se ainda antes de se ter formado por completo.
      

  Captulo 16





       Cautelosamente, urea acendeu a vela e virou-se para a segurar sobre o seu amante. Susteve a respirao, abriu bem os olhos e teve um sobressalto. Um pequenssimo
sobressalto, mas suficiente para derramar uma gota quente de cera do rebordo da vela para o ombro do homem deitado a seu lado. Tratava-se de um homem - no um monstro
ou um bicho -, um homem de pele macia e branca, membros compridos e fortes, cabelo escurssimo. Ele abriu os olhos e urea viu que tambm eles eram negros. Um negro
penetrante e inteligente que, de alguma forma, lhe era familiar. No peito dele, cintilava um pendente. Tinha a forma de uma pequena e perfeita coroa, incrustada
com reluzentes rubis...
       in O Prncipe Corvo
       
      
      
      Anna interrogava-se se plantara a roseira a uma profundidade correta, quando uma sombra se abateu sobre si. Olhou para cima. Edward surgiu junto dela. O seu 
primeiro pensamento foi que ele tinha voltado demasiado rpido para poder trazer o prometido regador.
      E foi ento que reparou na sua expresso.
      Os seus lbios estavam recuados numa rigidez de raiva e os olhos, quais buracos negros, cintilavam-lhe no rosto. Nesse instante, Anna sentiu a terrvel premonio 
de que, de alguma forma, ele descobrira. Segundos antes de ele falar, ela tentou recompor-se, garantir a si mesma que no havia possibilidade alguma de ele ter descoberto 
o seu segredo.
      As palavras do conde mataram qualquer esperana.
      - A senhora... - Ela no lhe reconheceu a voz, de to grave e terrfica. - ... a senhora esteve naquele bordel.
      Ela nunca fora boa a mentir.
      - O qu?
      Ele fechou com fora os olhos, como que atingido por uma intensa luz.
      - A senhora estava l. Esperou por mim como uma aranha e eu ca perfeitamente na sua teia.
      Deus do Cu, era pior do que imaginara. Ele pensava que ela o fizera por uma qualquer espcie de vingana doentia ou capricho.
      - Eu no fiz...
      Os olhos de Edward abriram-se de repente e ela levantou uma das mos para travar o inferno que via neles.
      - A senhora no fez o qu? No viajou at Londres, no foi  Gruta de Afrodite?
      Os olhos dele levantaram-se e ela comeou a erguer-se, mas Edward j tinha as mos nela. Agarrara-a pelos ombros e levantou-a facilmente, sem esforo, como 
se no pesasse mais do que uma pena. Era to forte! Como  que ela jamais se apercebera da diferena de foras entre um homem e uma mulher? Sentia-se uma borboleta 
capturada por um enorme pssaro negro. Ele empurrou o corpo dela contra o muro de tijolos que estava por perto e susteve-a a. Baixou o rosto na direco do dela, 
at os narizes quase se tocarem e ele conseguir ver distintamente o seu reflexo naqueles olhos abertos e aterrorizados.
      - A senhora ficou  espera, vestindo pouco mais do que umas peas de renda. - As palavras banhavam-lhe a cara com um hlito quente e ntimo. - E, quando eu 
apareci, exibiu-se, ofereceu-se e forniquei-a at deixar de ver bem.
      Anna sentia nos prprios lbios cada expirao dele. E encolheu-se perante a obscenidade. Queria neg-la, dizer que no descrevia a sublime doura que haviam 
descoberto juntos em Londres, mas as palavras estavam-lhe presas na garganta.
      - E estava eu genuinamente preocupado que o contacto com a prostituta a que a senhora deu abrigo lhe manchasse o nome... Mas que parvo fui. Como conseguiu 
conter o riso quando lhe pedi perdo por a ter beijado?- As mos dele pressionavam-lhe os ombros. - Tenho andado a conter-me este tempo todo por pensar que seria 
uma senhora respeitvel. Todo este tempo, quando tudo o que a senhora queria era isto.
      Inclinou-se e devorou a boca dela com a sua, devassando a sua delicadeza, sem concesses perante o seu tamanho menor, a sua feminilidade. Os seus lbios esmagaram 
os dela contra os dentes. Anna gemeu; se de dor ou prazer, no sabia. Sem prembulos ou pr-aviso, ele enfiou a lngua na cavernosidade da sua boca, como se lhe 
pertencesse.
      - Devia ter-me dito que queria apenas isto. - Edward ergueu a cabea para respirar. - Eu ter-lhe-ia feito o favor.
      Ela parecia incapaz de pensar coerentemente, quanto mais falar.
      - Bastava-lhe dizer uma palavra e poderia t-la possudo na minha secretria na biblioteca, na carruagem com o cocheiro John l  frente, ou at mesmo aqui 
no jardim.
      Ela tentava formar palavras no meio do nevoeiro da sua confuso.
      - No, eu...
      - S Deus sabe como tenho andado h dias... semanas... excitado ao p de si - vociferou ele. - Poderia t-la satisfeito a qualquer momento. Ou ser que no 
consegue admitir que quer ir para a cama com um homem com o rosto como o meu?
      Ela tentou sacudir a cabea, mas esta caiu inapelavelmente quando ele lhe dobrou as costas sobre o seu brao. A outra mo desceu at s ancas e empurrou-as 
contra as suas. A sua inflexvel ereo pressionou-lhe o ventre.
      -  isto que a senhora quer. Foi para isto que foi a Londres - sussurrou ele, junto  boca dela.
      Anna gemia negativamente, ainda que as suas ancas se encaixassem nas dele.
      Ele imobilizou-a com mo de ferro e libertou a sua boca da dela. Porm, quase como se no conseguisse abandonar o encantamento da pele dela, voltou. A sua 
boca foi percorrendo a cara dela at apanhar um lbulo de orelha entre os dentes.
      - Porqu? - A pergunta dele foi-lhe segredada ao ouvido. - Porqu, porqu, porqu? Porque me mentiu?
      Ela tentou, novamente, libertar a cabea. Ele castigou-a com uma forte mordidela.
      - Foi uma brincadeira? Achou divertido deitar-se comigo uma noite e fazer de viva virtuosa na seguinte? Ou ter sido um desejo perverso? Algumas mulheres 
consideram empolgante ir para a cama com um homem com bexigas.
      Ela agitou ento a cabea com violncia, apesar da dor que os dentes dele provocaram ao arranhar a sua orelha. Ela no podia - no podia - deixar que ele pensasse 
aquilo.
      - Por favor, preciso de lhe dizer...
      Ele voltou a cabea. Anna tentou encar-lo e ele fez a coisa mais terrvel at ento.
      Largou-a.
      - Edward! Edward! Por amor de Deus, oua-me, por favor! - Estranho ter sido aquela a primeira vez em que ela o chamou pelo nome prprio.
      Ele avanava pelo caminho do jardim. Correu atrs dele, de olhos rasos de lgrimas, tropeando numa tijoleira solta.
      Edward parou ao ouvir a sua queda, ainda virado de costas.
      - Essas lgrimas, Anna. Consegue fabric-las quando quer, como o crocodilo? - E, depois, to baixinho que ela poderia t-lo imaginado: - Houve outros homens?
      Afastou-se.
      Anna ficou a v-lo desaparecer pelo porto. Sentia o peito apertado. Pensou vagamente que talvez se tivesse magoado na queda. Mas, depois, ouviu um som gutural, 
spero, e uma pequena parte do seu crebro registou, friamente, o estranho rudo que o seu choro emitia.
      Quo rpido e quo severamente chegara o castigo por ousar transgredir a sua tranquila vida de viva. Todas as lies e avisos, explcitos e implcitos, que 
lhe tinham sido ensinados enquanto crescera, eram, agora, uma realidade de facto. Todavia, Anna acreditava que o seu castigo no fora previsto pelos moralistas de 
Little Battleford. No, o seu destino era bem pior do que a exposio e a censura. O seu castigo era o dio de Edward. Isso e saber que no fora a Londres apenas 
pelo sexo. Desde o incio que fora para estar com ele, Edward. Desejara o homem, no o ato fsico em si. Sentia-se como se tivesse mentido a si prpria, tanto quanto 
a ele. Como era irnico chegar agora a essa concluso, quando tudo  sua volta eram cinzas.
      No se apercebeu de quanto tempo esteve ali deitada, o seu velho vestido castanho a molhar-se com a lama que espirrara. Quando, finalmente, parou de soluar, 
o cu da tarde estava carregado. Soergueu-se com a ajuda dos braos at ficar ajoelhada, recuando ento para se pr de p. Cambaleava, mas segurou-se, apoiando uma 
das mos no muro do jardim. Fechou os olhos e inspirou profundamente. Depois, recuperou a p do cho.
      Em breve, teria de ir para casa e de dizer  sogra que ficara sem trabalho. Enfrentaria uma cama solitria nessa noite e em milhares de noites futuras, at 
ao fim da sua vida.
      No entanto, por agora, limitar-se-ia a plantar rosas.
      
      
      Felicity colocou sobre a testa uma compressa humedecida com gua de violetas. Retirara-se para a pequena salinha matinal, um local que costumava proporcionar-lhe 
um pouco de satisfao, especialmente ao pensar no que lhe custara remobilar aquele espao. S o preo daquele canap de damasco amarelo serviria para alimentar 
e vestir a famlia Wren durante cinco anos. Mas, para j, sentia-se atormentada por alguns pensamentos.
      As coisas no iam bem.
      Reginald andava preocupado, queixando-se de que a sua gua premiada sofrera um aborto. Chilly voltara para Londres de mau humor, por ela no lhe ter contado 
sobre Anna e o conde. E esse mesmo conde estivera aborrecidamente obtuso no sarau.  certo que a maior parte dos homens, pela sua experincia, so de raciocnio 
lento, num ou noutro sentido, mas no imaginara que lorde Swartingham fosse to ingnuo. O homem parecia no ter percebido o que ela insinuara. Como iria ela convenc-lo 
a manter Anna calada, se era estpido ao ponto de no se dar conta de que estava a ser chantageado?
      Felicity estremeceu.
      No era chantagem. Isso pareceria demasiado mal-educado. Era um incentivo. Assim soava melhor. Lorde Swartingham recebera um incentivo para impedir que Anna 
espalhasse por toda a aldeia os podres do passado de Felicity.
      Nesse instante, a porta abriu-se e a mais nova das suas duas filhas, Cynthia, entrou de sbito. A irm, Christine, vinha atrs, num passo mais calmo.
      - Mam - disse Christine, - a ama diz que temos de lhe pedir permisso para ir a uma doaria na vila. Podemos?
      - Chupas de men... ta! - Cynthia corria  volta do canap em que Felicity estava deitada. - Rebuados de li... mo! Go... mas! - Por estranho que parecesse, 
a mais nova assemelhava-se a Reginald em vrios sentidos.
      - Por favor, pare com isso, Cynthia - disse Felicity.- A mam est com dor de cabea.
      - Peo desculpa, mam - retorquiu Christine, ainda que no se mostrasse nada arrependida. - Vamos embora assim que tivermos a sua permisso. - Sorriu modestamente.
      - Per... misso da mam! Per... misso da mam! - entoava Cynthia.
      - Sim! - disse Felicity. - Sim, dou-vos a minha permisso.
      - Hurra! Hurra! - Cynthia saiu da sala a correr, com o seu cabelo ruivo fluindo atrs de si.
      Aquela viso f-la franzir o nariz. O cabelo ruivo de Cynthia era a maldio da sua vida.
      - Obrigada, mam - Christine fechou a porta com recato.
      Felicity lamentou-se e tocou a campainha, pedindo um pouco mais de gua. Se, ao menos, no tivesse escrito aquela mensagem incriminadora, num arroubo de sentimentalismo... 
E qual fora a ideia de Peter ao guardar o medalho? Os homens eram mesmo uns idiotas.
      Fez fora com os dedos sobre a compressa na sua testa. Talvez lorde Swartingham no tivesse mesmo percebido a que  que ela se referira. Parecia ter ficado 
confuso quando ela disse que ambos conheciam a identidade da senhora com quem ele estivera na Gruta de Afrodite. E se, de facto, ele no soubesse...
      Felicity sentou-se, deixando cair desamparadamente, a compressa para o cho. Se ele no conhecia a identidade da mulher, ento, Felicity tinha andado a chantagear 
a pessoa errada.
      Na manh seguinte, Anna estava ajoelhada no seu pequeno jardim, nas traseiras da casa. No tivera coragem de dizer  sogra que perdera o emprego. Chegara tarde 
a casa na noite anterior e, de manh, no lhe apetecera falar no assunto. No para j, pelo menos, enquanto continuasse a confrontar-se com questes para as quais 
ela no tinha ainda resposta. Acabaria por ter de reunir a coragem de se desculpar perante Edward. Mas isso poderia, tambm, esperar, enquanto lambia as prprias 
feridas. Era isso que a fazia estar hoje no jardim a trabalhar. As tarefas mundanas, como cuidar de vegetais e o cheiro da terra remexida, proporcionavam  sua alma 
uma espcie de consolo.
      Estava a desenterrar razes de rbano, para as plantar novamente, quando ouviu um grito na parte da frente da casa. Franziu o sobrolho e ps a p de lado. 
Teria acontecido alguma coisa  beb de Rebecca? Levantou as saias para contornar a casa to rapidamente como possvel. O som de uma carruagem e de cavalos dissipou-se. 
Uma voz claramente feminina gritou novamente.
      Pearl estava  entrada, com uma outra mulher. Ao aproximar-se, ambas se viraram e Anna suspirou. A outra mulher apresentava os olhos inchados e o nariz parecia 
estar partido. Anna demorou uns segundos a reconhec-la.
      Era Coral.
      - Oh, meu Deus! - suspirou Anna.
      A porta da frente abriu-se.
      Anna apressou-se a amparar Coral pelo outro brao.
      - Fanny, segura na porta para ns passarmos, por favor.
      Esta, de olhos muito abertos, obedeceu,  medida que, desajeitadamente, levavam Coral para dentro.
      - Disse  Pearl - sussurrou Coral - para no vir aqui. - Tinha os lbios to inchados, que as palavras mal se distinguiam.
      - Graas a Deus que ela no lhe deu ouvidos - disse Anna.
      Avaliou as escadas estreitas que conduziam ao andar de cima.
      Jamais conseguiriam subir com Coral a apoiar-se nelas com tanta fora.
      - Levemo-la para a salinha.
      Pearl assentiu.
      Pousaram delicadamente Coral no canap. Anna mandou Fanny ir buscar um cobertor ao piso superior. Os olhos de Coral estavam agora fechados e Anna perguntava-se 
se ela no teria desmaiado. A mulher respirava sonoramente pela boca. O nariz estava demasiado maltratado e inchado para permitir que o ar entrasse.
      Anna puxou Pearl  parte.
      - O que lhe aconteceu?
      A outra mulher lanou um olhar ansioso a Coral.
      - Foi o marqus. Ontem, chegou embriagado a casa, ao cair da noite; mas no to embriagado como isso, para conseguir deix-la neste estado.
      - Mas porqu?
      - Pelo que sei, no tinha motivos para tal. - Os lbios de Pearl tremiam. Perante o choque de Anna, esboou um trejeito. - Ele murmurou qualquer coisa sobre 
ela andar a encontrar-se com outros homens, o que  absurdo. A Coral v esse tipo de vida como um negcio. No se envolveria com outra pessoa enquanto tivesse um 
protetor. Apeteceu-lhe, simplesmente, dar-lhe uns murros na cara. - Pearl enxugou uma lgrima raivosa. - Se no a tivesse tirado de l quando ele foi urinar, talvez 
a tivesse matado.
      Anna ps-lhe o brao por cima do ombro.
      - Temos de agradecer a Deus por ela ter escapado com vida.
      - No sabia para que outro stio a podia levar, senhora - disse Pearl. - Lamento incomod-la, depois de ter sido to bondosa da outra vez. Se pudermos ficar 
uma ou duas noites, s at a Coral conseguir voltar a pr-se novamente de p...
      - Podero ficar o tempo que for necessrio, at a sua irm se restabelecer. Mas receio que uma ou duas noites no chegaro. - Anna olhava, consternadamente, 
para a sua hspede espancada. - Vou pedir  Fanny que v imediatamente chamar o doutor Billings.
      - Ah, no! - A voz de Pearl intensificou-se com o pnico. - No faa isso!
      - Mas ela precisa de ser vista.
      -  melhor que ningum saiba que estamos aqui,  exceo da Fanny e da sua sogra - disse Pearl. - Ele pode tentar procur-la.
      Anna assentiu. Era bvio que Coral ainda corria perigo.
      - Ento e os ferimentos?
      - Eu posso cuidar deles. No h ossos partidos. J verifiquei e posso pr-lhe novamente o nariz no stio.
      - Sabe "consertar" um nariz partido? - Anna fitava Pearl com estranheza.
      A outra mulher comprimiu os lbios.
      - J o fiz anteriormente. D jeito, no meu negcio.
      Anna fechou os olhos.
      - Peo desculpa. No quis duvidar de si. Do que precisa?
      Instruda por Pearl, Anna reuniu rapidamente gua, panos e ligaduras, bem como o frasco com a pomada da sua me. Pearl tratou do rosto da irm com a ajuda 
de Anna. A rapariga foi direta ao assunto, embora Coral gemesse e tentasse afastar-lhe as mos. Anna segurou nos braos da mulher ferida, para que Pearl pudesse 
concluir a aplicao da ligadura, suspirando de alvio quando ela indicou que tinham terminado. Certificaram-se de que Coral estava to confortvel como possvel, 
antes de recolherem  cozinha para uma merecida chvena de ch.
      Pearl suspirou, ao aproximar o ch quente dos lbios.
      - Obrigada. Obrigada, minha senhora. A senhora  muito bondosa.
      Anna como que riu, num pequeno grasnar.
      - Sou eu quem deve agradecer-vos. Se soubessem porqu... Tenho de fazer uma boa ao.
      
      
      Edward pousou a pena e aproximou-se das janelas da biblioteca. Ainda no escrevera uma nica frase coerente. A sala estava demasiado silenciosa, demasiado 
vazia para se conseguir sentir em paz. S pensava em Anna e no que ela lhe fizera. Porqu? Porqu escolh-lo a ele? Seria o seu ttulo? A sua riqueza?
      Meu Deus! As cicatrizes?
      Que motivo haveria para uma mulher respeitvel pr uma mscara e fazer-se passar por prostituta? Se queria um amante, no poderia encontr-lo em Little Battleford? 
Ou gostaria ela de fazer de rameira?
      Esfregou a testa contra o vidro frio da janela. Recordou tudo o que acontecera entre ele e Anna naquelas duas noites. Cada ponto delicado que a sua mo tocara, 
cada centmetro de pele que a sua lngua conhecera. Recordou coisas que jamais pensaria fazer a uma senhora, a no ser a uma que conhecia e de quem gostava. Ela 
vira um lado seu que ele se esforara por esconder do mundo, um lado privado, secreto. Conhecera a sua faceta mais animalesca. Que teria ela sentido quando ele lhe 
empurrou a cabea ao encontro do seu membro? Excitao? Medo? Repulsa?
      E havia outros pensamentos que no conseguia conter. Teria ela estado com outros homens na Gruta de Afrodite? Teria partilhado o seu belo e luxuriante corpo 
com homens que nem sequer conhecia? Teria permitido que esses homens beijassem a sua boca perversa, lhe palpassem os seios, se aproveitassem do seu desejo, lhe abrissem 
as pernas? Edward bateu na esquina da janela com o punho, at a pele estalar e sangrar. Era impossvel apagar da mente as imagens obscenas de Anna, da sua Anna, 
com outro homem. A viso ofuscou-se-lhe. Porcaria! Estava a chorar como um rapazinho.
      Jock tocou-o na perna e ganiu.
      Fora ela que provocara isto. Estava completamente desfeito. E, no entanto, no tinha relevncia alguma, pois ele era um cavalheiro e ela, apesar das suas aes, 
uma senhora. Teria de casar com ela e, ao faz-lo, de abdicar de todos os seus sonhos, de todas as suas esperanas de constituir famlia. Ela no podia ter filhos. 
A sua linhagem morreria com o seu ltimo flego. No haveria raparigas parecidas com a sua me, nenhum rapaz que lhe fizesse recordar Sammy. Ningum com quem desabafar. 
Ningum para ver crescer. Edward endireitou-se. Se era isso que a vida lhe reservava, que assim fosse, mas faria tudo para que Anna pagasse o seu preo.
      Limpou o rosto e tocou selvaticamente a campainha.
      
      

  Captulo 17




       O homem na sua cama olhou para urea e, ento, com arrependimento, sussurrou-lhe: - Ento, minha esposa, no conseguistes deixar as coisas como estavam. Satisfarei,
pois, a vossa curiosidade. Sou o prncipe Niger, o senhor destas terras e deste palcio. Lanaram-me a maldio de ter de assumir a forma de um feio corvo durante
o dia, e pela qual todos os meus servos se tornaram tambm aves. O meu atormentador imps uma condio ao feitio: se eu encontrasse uma donzela que concordasse
casar comigo, de livre-vontade, na minha forma de corvo, ento, poderia viver como homem, da meia-noite at ao primeiro raio da manh. Sois essa donzela. Todavia,
agora, o nosso tempo juntos est a chegar ao fim. Passarei o resto dos meus dias naquela odiosa forma emplumada e todos os que me seguirem estaro
       tambm condenados...
       in O Prncipe Corvo
      
      
      Na manh seguinte, Felix Hopple balanou-se entre um p e outro, suspirou e bateu novamente  porta da casa de campo. Ajeitou a peruca recm-polvilhada e passou 
a mo pela gravata. Nunca antes tivera uma misso como esta. Alis, no estava certo de este tipo de misso fazer parte das suas obrigaes. Claro que seria impossvel 
dizer isso mesmo a lorde Swartingham, especialmente quando ele o fitava com aqueles olhos negros, ardentes, demonacos.
      Suspirou de novo. O humor do seu amo andava pior do que o costume naquela ltima semana. Pouqussimos adereos permaneciam intactos na biblioteca e at o co 
se escondia quando o conde deambulava pela manso.
      Uma bela mulher abriu a porta. Felix pestanejou e recuou um passo. Estaria na casa certa?
      - Sim? - A mulher ajeitou a camisa e sorriu-lhe com hesitao.
      - Hum... eu... procurava a senhora Wren - gaguejou Felix. - A senhora Wren mais nova. Estarei na morada certa?
      - Oh, sim,  aqui a morada certa - disse ela -, quero dizer, esta  a casa das Wren. Eu estou c apenas por uns dias.
      - Ah, compreendo, menina...?
      - Smythe. Pearl Smythe.- A mulher corou por algum motivo. - No vai entrar?
      - Obrigado, menina Smythe. - Felix avanou para o pequeno vestbulo e parou desajeitadamente.
      A menina Smythe fitava-o, aparentemente fascinada com a sua indumentria.
      - Uau! - proferiu ela. - Tem a o colete mais bonito que alguma vez vi.
      - Ora essa... hum... obrigado, menina Smythe. - Hopple passou os dedos pelos botes do seu colete verde.
      - So abelhes? - A menina Smythe dobrou-se para examinar de perto o bordado roxo, concedendo-lhe uma viso inapropriada da parte frontal do seu vestido.
      Nenhum cavalheiro se aproveitaria da exposio involuntria de uma senhora, pelo que Felix olhou para o teto, para o alto da cabea dela e, por fim, para o 
vestido. Pestanejou rapidamente.
      - Ora digam l se isto no  delicioso!? - observou ela, endireitando-se novamente. - Acho que nunca vi nada to bonito num cavalheiro.
      - O qu? - exaltou-se ele. - Ah, sim. De facto. Obrigado uma vez mais, menina Smythe.  raro encontrarmos uma pessoa com um to grande apreo pela moda.
      A menina Smythe ficou um pouco confusa, mas sorriu-lhe.
      Ele no conseguia evitar ach-la lindssima. Em todos os sentidos.
      - Disse que vinha  procura da senhora Wren. Porque no espera aqui - apontou para a pequena salinha -, enquanto vou chamar a senhora Wren ao jardim?
      Felix entrou na salinha. Ouviu os passos da bela mulher e a porta das traseiras a fechar-se. Foi at  lareira e ficou a observar um pequeno relgio de porcelana. 
Esboou um esgar e retirou o relgio da algibeira. O da lareira estava adiantado.
      A porta das traseiras abriu-se novamente e a senhora Wren apareceu.
      - Senhor Hopple, em que posso ser-lhe til?
      Anna estava concentrada em esfregar a lama das mos, pelo que no o olhou nos olhos.
      - Vim aqui... hum... a pedido do conde.
      - Ah, sim? - A senhora Wren continuava sem levantar os olhos.
      - Sim. - Ele no sabia como prosseguir. - Porque no se senta?
      A senhora Wren fitou-o, intrigada, e sentou-se. Felix tossicou.
      - Chega um momento na vida de um homem em que os ventos da aventura se esgotam e ele sente a necessidade de descanso e conforto. Uma necessidade de pr de 
lado os descuidos da juventude... ou, pelo menos, do incio da idade adulta, neste caso... e de dedicar-se  tranquilidade domstica. - Marcou uma pausa, para se 
certificar de que as suas palavras estavam a ser registadas.
      - Sim, senhor Hopple? - Anna estava cada vez mais confusa.
      Ele preparou-se mentalmente e prosseguiu.
      - Sim, senhora Wren. Acontece com todos os homens, at mesmo com um conde - aqui, marcou uma pausa, para enfatizar o ttulo -, porque at mesmo um conde precisa 
de um lugar repousado e calmo. Um santurio cuidado pela mo delicada de uma mulher. Uma mo guiada pela fora da mo masculina de... hum... um guardio, para que 
ambos possam enfrentar as tempestades e as provaes que a vida nos impe.
      A senhora Wren olhava-o, completamente atarantada. Felix comeava a sentir-se desesperado.
      - Todos os homens, todos os condes, sentem a necessidade, a certa altura, de usufruir do conforto nupcial.
      Anna franziu o sobrolho.
      - Nupcial?
      - Sim. - Hopple limpou a sobrancelha. - Nupcial. Aquilo que diz respeito ao matrimnio.
      Ela pestanejou.
      - Senhor Hopple, porque o mandou aqui o conde?
      Felix expirou profundamente.
      - Oh, no se atormente, senhora Wren! Ele deseja casar consigo.
      Anna ficou completamente lvida.
      - O qu?
      Felix resmungou. Sabia que iria armar uma confuso. Lorde Swartingham estava, de facto, a pedir-lhe demasiado. Ele era apenas um feitor, por amor de Deus, 
no era um cupido com arco dourado e setas! No tinha outra alternativa, agora, seno prosseguir.
      - Edward de Raaf, o conde de Swartingham, pede a sua mo em casamento. O conde apreciaria um casamento restrito e est a ponderar...
      - No.
      - ... o primeiro de Junho. Como diz que disse?
      - Disse que no. - A senhora Wren vincou bem o que pretendia dizer. - Diga-lhe que lamento muito, mas casar-me com ele est fora de questo.
      - Mas... mas... mas... - Felix inspirou profundamente, tentando controlar o seu gaguejar. - Mas ele  um conde. Bem sei que o seu feitio  deveras difcil, 
de facto, e que passa bastante tempo no meio da lama. Coisa de que - disse, tremendo - parece gostar. Mas o seu ttulo e a sua considervel riqueza, que poderamos 
at classificar de obscena, compensam tudo isso, no acha?
      Felix esgotara o ar nos pulmes, vendo-se obrigado a parar.
      - No, no acho. - Anna dirigiu-se para a porta. - Diga-lhe simplesmente que no.
      - Mas, senhora Wren! Com que cara lhe direi isso?
      Ela fechou suavemente a porta atrs de si, com o apelo desesperado de Hopple a ecoar na sala vazia. Felix abateu-se sobre uma cadeira e desejou ter  mo uma 
garrafa de vinho da Madeira. Lorde Swartingham no iria gostar nada daquilo.
      
      
      Anna mergulhou uma pequena p na terra mole e escavou cruelmente um dente-de-leo. Que teria pensado Edward ao enviar o senhor Hopple a pedi-la em casamento 
nessa manh? No teria, certamente, sido arrebatado pelo amor. Anna franziu o nariz e arrancou outro dente-de-leo.
      A porta das traseiras abriu-se com um chiar. Ela voltou-se e lanou um olhar preocupado. Coral arrastava um banco de cozinha para o jardim.
      - O que est a fazer c fora? - perguntou Anna. - Eu e a Pearl tivemos de a levar para cima hoje de manh.
      Coral sentou-se no banco.
      - Diz-se que o ar do campo cura, no ?
      O inchao no rosto havia diminudo, mas as marcas ainda eram evidentes. Pearl enchera-lhe as narinas de algodo, numa tentativa de curar a fractura. Agora, 
apresentavam-se grotescamente abertas. A plpebra esquerda de Coral descaa at mais abaixo do que a direita e Anna perguntou-se se voltaria ao lugar com o tempo 
ou se ficaria, para sempre, assim desfigurada. Uma pequena cicatriz em forma de crescente ornamentava-lhe a parte de baixo do olho descado.
      - Creio que devo agradecer-lhe. - Coral reclinou a cabea contra a parede da casa e fechou os olhos, aproveitando a luz do sol no rosto marcado.
      -  o que se costuma fazer - disse Anna.
      - No no meu caso. No gosto de ficar a dever nada a ningum.
      - Ento, no pense nisto como uma dvida - resmungou Anna ao arrancar uma raiz. - Considere-o como uma prenda.
      - Uma prenda - meditou Coral. - Pela minha experincia, as prendas, normalmente, acabam por ter de ser pagas de uma ou de outra forma. Mas talvez, consigo, 
no suceda realmente assim. Obrigada.
      Soltou um suspiro e mudou de posio. Embora no tivesse partido nenhum osso, apresentava hematomas negros por todo o corpo. Devia estar ainda a debater-se 
com intensas dores.
      - Valorizo mais a estima das mulheres do que a dos homens - prosseguiu Coral. -  muito mais rara, especialmente na minha profisso. Foi uma mulher que me 
fez isto.
      - O qu? - Anna ficou horrorizada. - Pensei que o marqus...
      A outra mulher proferiu um rudo desdenhoso.
      - Ele no foi seno o instrumento dela. A senhora Lavender disse-lhe que eu andava envolvida com outros homens.
      - Mas porqu?
      - Queria ocupar a minha posio como amante do marqus. E j se passaram outras coisas entre ns. - Coral sacudiu uma das mos. - Mas isso no importa. Tratarei 
dela assim que ficar bem. Porque no est hoje a trabalhar na manso? E a que costuma passar os seus dias, no ?
      Anna esboou um trejeito.
      - Decidi no voltar l mais.
      - Desentendeu-se com o seu homem? - perguntou Coral.
      - Como...?
      - Foi com ele que esteve em Londres, no foi? Edward de Raaf, o conde de Swartingham?
      - Sim, foi com ele que me encontrei - suspirou ela. - Mas no  o meu homem.
      - Tenho reparado que mulheres da sua classe, mulheres respeitosas e com princpios, no vo para a cama com um homem a menos que o corao esteja envolvido. 
- A boca de Coral ondulou sardonicamente. - Depositam muito sentimentalismo no ato.
      Anna levou, desnecessariamente, um longo momento at encontrar outra raiz com a ponta da p.
      - Talvez tenha razo. Talvez tenha depositado demasiado sentimentalismo no ato. Mas isso agora  irrelevante. - Fez fora na pega da p e o dente-de-leo quase 
que saltou do solo. - Tivemos uma discusso.
      Coral contemplou-a de olhos semicerrados durante um tempo, encolhendo depois os ombros e fechando novamente as plpebras.
      - Ele descobriu que era a senhora...
      Anna levantou o olhar, perplexa.
      - Como  que...?
      - E, agora, a senhora ir aceitar, conformadamente, a sua condenao - prosseguiu Coral sem paragens. - Ocultar a sua vergonha por trs da fachada de uma 
viva respeitvel. Talvez venha a coser meias para os pobres da aldeia. As suas boas aes iro, por certo, reconfort-la, quando, daqui a uns anos, ele casar e 
se deitar com outra mulher.
      - Ele pediu-me em casamento.
      Coral abriu os olhos.
      - Ora a est uma coisa interessante.- Os seus olhos concentraram-se na pilha de dentes-de-leo arrancados. - Mas a senhora recusou.
      Zs!
      Anna comeou a golpear a pilha de dentes-de-leo.
      - Ele acha-me uma devassa.
      Zs!
      - Eu sou estril e ele precisa de filhos.
      Zs!
      - E ele no me ama de verdade.
      Zs! Zs! Zs!
      Anna parou de falar, olhando para o montculo de ervas desfeitas.
      - Ser que no? - murmurou Coral. - E a senhora? Ser que... hum... o deseja?
      Anna sentiu um calor invadir-lhe as faces.
      - Estive vrios anos sem um homem. Posso voltar a estar sozinha.
      Um sorriso agitou o rosto de Coral.
      - J reparou que, depois de provar alguns doces, e aproveito para confessar que a tarte de framboesa  o meu desespero, se torna quase impossvel no pensar, 
no querer, no desejar, at darmos outra dentada?
      - Lorde Swartingham no  uma tarte de framboesa.
      - No... assemelha-se mais a uma musse de chocolate preto, diria eu - murmurou Coral.
      - E - prosseguiu Anna, como se no tivesse sido interrompida- eu no preciso de outra dent... hum... de outra noite com ele.
      Uma viso daquela segunda noite ergueu-se diante dos seus olhos: Edward de peito nu, calas desapertadas, estendido naquele cadeiro diante da lareira como 
um pax turco. A sua pele, o seu pnis, brilhavam com o fogo.
      Anna engoliu em seco. A boca dela salivava.
      - Consigo viver sem lorde Swartingham - declarou com firmeza.
      Coral franziu o sobrolho.
      - Consigo, sim! Alm disso, a senhora no estava l. - Anna sentiu-se, subitamente, to desenraizada como os dentes-de-leo. - Ele estava furibundo. Disse-me 
coisas horrveis.
      - Ah! - exclamou Coral. - Tem incertezas quanto a si.
      - No sei porque deveria isso deix-la feliz - disse Anna. - E, alis,  mais do que isso. Ele jamais me perdoar.
      Coral sorriu como um gato a observar um pardal a saltitar por perto.
      - Talvez sim, talvez no.


      - O que quer dizer com isso, que no quer casar comigo? - Edward caminhava da estante de um dos lados da pequena sala de estar at ao canap do outro lado, 
dava meia volta e voltava para trs. No era uma grande proeza, pois cruzava a sala em trs passadas. - Sou um conde, por Deus!
      Anna esboou um trejeito. Nunca deveria t-lo deixado entrar em casa. Claro que, na altura, no tivera grande escolha, j que ele ameaara arrombar a porta 
caso ela no abrisse.
      Estava, alis, com ar de quem seria capaz de o fazer.
      - No me casarei consigo - repetiu ela.
      - Porque no? Estava mortinha por fornicar comigo.
      Anna estremeceu.
      - Gostaria mesmo que parasse de usar essa palavra.
      Edward voltou-se e assumiu um semblante abominavelmente sarcstico.
      - Preferiria pinocar? Malhar? Dar uma cambalhota?
      Anna comprimiu os lbios. Graas a Deus que a sogra e Fanny tinham ido s compras nessa manh. Edward no fazia esforo algum para baixar a voz.
      - O senhor no quer casar-se comigo - Anna proferiu lentamente cada palavra, como se falasse com um campnio duro de ouvidos.
      - Se quero ou no casar consigo, no  a questo, como bem sabe - disse Edward. - A verdade  que tenho de casar consigo.
      - Porqu? - perguntou ela, exalando. - No h a mnima possibilidade de poder vir a ter um filho meu. Como j referi por diversas vezes, sabe perfeitamente 
que sou estril.
      - Eu comprometi-a.
      - Fui eu que fui  Gruta de Afrodite disfarada. Parece-me que fui eu que o comprometi. - Anna achou recomendvel no agitar os braos no ar, em sinal de exasperao.
      - Isso  ridculo! - O berro de Edward ter-se-ia talvez ouvido na manso.
      Porque  que os homens julgam que falar mais alto acrescenta verdade ao que dizem?
      - No mais ridculo do que um conde que est noivo vir pedir a sua secretria em casamento! - Agora, tambm ela levantara a voz.
      - No estou a pedi-la em casamento. Estou a dizer-lhe que temos de casar.
      - No. - Anna cruzou os braos.
      Edward avanou pela sala na direco dela, cada passo deliberadamente dado para parecer intimidador. No parou at ter o peito a escassos centmetros da cara 
dela. Ela esticou o pescoo para o olhar nos olhos; recusava-se a amedrontar-se.
      Ele inclinou-se, para que a sua respirao lhe aflorasse intimamente a fronte.
      - A senhora ir casar-se comigo.
      Cheirava a caf. Anna desviou o olhar para a boca dele. Mesmo enraivecida, era notavelmente sensual. Recuou um passo e voltou-se de costas.
      - No me casarei consigo.
      Anna ouvia-o respirar pesadamente atrs de si. Espreitou por cima do ombro.
      Edward olhava atentamente para o seu rabo. Os olhos dele ergueram-se de um golpe.
      - A senhora vai casar-se comigo. - Levantou uma mo quando ela comeou a falar. - Mas no quero, para j, discutir quando. Entretanto, continuo a precisar 
de uma secretria. Quero-a na manso hoje  tarde.
      - No creio... - Anna teve de se deter, para normalizar a voz -, no creio que,  luz da nossa relao passada, deva continuar como sua secretria.
      Edward semicerrou os olhos.
      - Corrija-me se estiver errado, senhora Wren, mas no foi a senhora quem deu incio a essa relao? Portanto...
      - J disse que lamento!
      Ele ignorou a exploso dela.
      - Portanto, no vejo por que motivo deveria perder uma secretria apenas por causa do seu desconforto, se  esse o problema.
      - Sim,  esse o problema! - O desconforto, como descrio, no se aproximava da agonia que seria continuar como se nada se tivesse passado. Anna inspirou profundamente, 
para recuperar a calma. - No posso regressar.
      - Muito bem, ento - disse suavemente Edward. - Temo que no me seja possvel pagar-lhe os salrios em atraso.
      - Isso ... - Anna, horrorizada, sentir-se sem energias para continuar a falar.
      A famlia Wren estava a contar com esse dinheiro, que seria pago no final do ms. De tal forma, que haviam j contrado pequenas dvidas em lojas locais. J 
seria mau no ter um trabalho. Se no recebesse os salrios que lhe eram devidos enquanto secretria de Edward, as consequncias seriam desastrosas.
      - Sim? - inquiriu Edward.
      - Isso  uma injustia! - vociferou Anna.
      - Ora, minha querida, quem lhe disse que eu era justo? - perguntou ele, sorrindo delicadamente.
      - No pode fazer isso!
      - Posso, sim. Passo a vida a dizer-lhe que sou um conde, mas parece que ainda no interiorizou isso. - Edward ps o punho por baixo do queixo. - Claro que, 
se voltar ao trabalho, os seus salrios ser-lhe-o pagos na totalidade.
      Anna fechou a boca e, durante um momento, respirou bruscamente pelas narinas.
      - Muito bem, regressarei. Mas quero ser paga ao final da semana - disse ela. - De cada semana.
      Ele riu.
      -  muito desconfiada...
      Inclinou-se para a frente e beijou-lhe as costas da mo. Depois, virou a mo dela e passou rapidamente a lngua pela palma da mo. Por um segundo, Anna sentiu 
aquela temperatura suave, molhada, e os seus msculos ntimos contraram-se. Ele largou-a e saiu porta fora, sem que ela pudesse protestar.
      Pelo menos, Anna estava quase certa de que protestaria, se lhe tivesse sido dada a oportunidade.
      Mas que mulher mais obstinada! Edward instalou-se na sela do baio. Qualquer outra mulher de Little Battleford venderia a av para casar com ele. Caramba, quase 
todas as mulheres de Inglaterra venderiam a famlia inteira, os empregados e os animais de estimao para se tornarem suas noivas.
      Esboou um trejeito. No era uma questo de narcisismo. No tinha nada a ver com ele, pessoalmente. Era o ttulo a ele associado que possua um alto valor 
de mercado. Bom, isso e o dinheiro que acompanhava o ttulo. Mas no para Anna Wren, viva empobrecida e sem estatuto social. Ah, isso no! Para ela e para ela apenas, 
ele era suficientemente bom para uma relao frugal, no para casar. Que pensaria ela que ele era? Um pnis de aluguel?
      Edward apertou as rdeas, quando o baio se desviou de uma folha a esvoaar. Pois bem, a mesma sensualidade que a conduzira ao bordel haveria de ser, agora, 
a sua desgraa. Apanhara-a a olhar para a sua boca a meio da discusso e tivera uma revelao: porque no usar a sexualidade dela para os seus prprios fins? Muito 
mais do que o motivo por que ela decidira seduzi-lo - fosse ou no por causa das suas cicatrizes -, o mais importante era que o tinha feito. Gostava da boca dele, 
no era? Haveria de a ver todos os dias, a toda a hora, enquanto sua secretria. E ele faria o mximo por lhe recordar as outras coisas que estaria a deixar escapar 
at ela consentir ser sua noiva.
      Edward sorria. Na verdade, o prazer seria dele, mostrando-lhe que recompensas a aguardariam depois de casarem. Com a sua natureza lasciva, Anna no seria capaz 
de aguentar muito tempo. E, ento, tornar-se-ia sua esposa. Pensar em Anna como sua mulher era estranhamente reconfortante, e um indivduo poderia habituar-se a 
tal volpia feminina numa esposa. Oh, sim, sem dvida!
      Sorrindo cruelmente, e com um golpe nos flancos do animal, Edward ps o cavalo a galopar.
      

  Captulo 18





       Horrorizada, urea fitava o esposo. Ento, os primeiros raios da aurora infiltraram-se pela alta janela do palcio, caindo sobre o prncipe. A sua figura
comeou a encolher e a entrar em convulso. Os ombros amplos e lisos franziram e diminuram de envergadura;
       a boca larga e elegante endureceu; os dedos das suas fortes mos metamorfosearam-se empenas delicadas e negras. Conforme o corvo se ia materializando diante
dos olhos de urea, as paredes do palcio abanavam e tremiam, at que todo ele se dissolveu e desapareceu.
       Ouviu-se um enorme zunir e bater de asas,  medida que o corvo e os seus servos levantavam voo. urea ficou sozinha. Estava sem roupas, comida ou gua, numa
plancie estril que se estendia em todas as direces, at perder de vista...
       in O Prncipe Corvo



      Anna estava a chegar ao limite da sua pacincia. Deu por si a bater o p. Encontrava-se nas imediaes dos estbulos, enquanto Edward discutia com um cavalario 
sobre a sela de Daisy. Aparentemente, algo no estava bem. O qu, ao certo, ela no sabia, j que ningum se dignava inform-la, a ela, uma mulher, sobre qual seria 
o problema.
      Suspirou. H quase uma semana que se continha, cumprindo escrupulosamente as ordens de Edward. Para no falar de algumas instrues que tinham o intuito claro 
de a fazer perder a compostura. Ou da particularidade de, pelo menos uma vez por dia, Edward tecer um comentrio qualquer sobre a perfdia das mulheres. Para no 
falar que, de cada vez que ela levantava o olhar, os seus olhos colidiam com os de Edward, a fitarem-na. Comportara-se como uma senhora, fora dcil, e isso estava 
quase a mat-la.
      Anna fechou os olhos. Pacincia. Pacincia era a virtude que ela teria de desenvolver.
      - Est a adormecer? - Edward falou mesmo junto dela, fazendo com que Anna saltasse e olhasse furiosa, reao que ele no viu, pois j se tinha virado. - O 
George diz que o cinto est demasiado gasto. Teremos de levar a carruagem mais pequena.
      - No me parece que... - comeou Anna.
      Mas ele dirigia-se j para onde um grupo de cavalos estava a ser atrelado ao veculo.
      Anna ficou boquiaberta, indo depois atrs dele.
      - Excelncia.
      Ele ignorava-a.
      - Edward - soprou ela.
      - Querida? - Ele parou to repentinamente, que ela quase se estatelou contra ele.
      - No me trate assim. - Ela dissera aquela frase tantas vezes na ltima semana, que as palavras j se tinham tornado um cntico. - No h espao naquela coisa 
para um cavalario ou uma criada.
      Edward olhou para a carruagem, Jock tinha j saltado para o lugar mais alto, estando sentado de atalaia, pronto para uma viagem.
      - Porque haveria eu de querer levar um cavalario ou uma criada para ir ver terrenos?
      Anna resmungou.
      - Sabe muito bem porqu.
      Ele franziu o sobrolho.
      - Como acompanhante. - Ela sorriu docemente, para cativar os moos de estrebaria.
      Ele inclinou-se para ela.
      - Querida, sinto-me lisonjeado, mas nem eu conseguirei seduzi-la enquanto estiver a conduzir a carruagem.
      Anna corou. Tinha perfeita conscincia disso.
      - Eu...
      Edward agarrou-lhe na mo sem que ela pudesse dizer nem mais uma palavra, puxou-a para a carruagem e empurrou-a para o assento. Foi ento ajudar os cavalarios 
a atrelar os cavalos.
      - Homens arrogantes - murmurou ela a Jock.
      O mastim bateu com a cauda no assento e pousou a sua colossal cabea no ombro dela, sujando-o de baba canina. Alguns minutos depois, Edward saltou para o veculo, 
fazendo-o chocalhar, e pegou nas rdeas. Os cavalos arrancaram e a carruagem comeou a andar, com um estico. Anna agarrou-se  parte de trs do assento. Jock inclinou-se 
para o vento, de orelhas a ondular. A carruagem dobrou uma esquina com rapidez e Anna foi sacudida contra Edward. Por instantes, o peito dela esteve pressionado 
contra o seu peito. Ela endireitou-se e agarrou-se com mais fora.
      A carruagem virou e Anna bateu novamente contra ele. Fuzilou-o com os olhos, mas sem efeito. Cada vez que ela largava a parte de trs do assento, o veculo 
guinava e ela via-se forada a agarr-lo.
      - Est a fazer de propsito?
      No houve resposta.
      - Se me est a sacudir para me pr no meu lugar - suspirou ela -, acho que est a ser infantil.
      Um olho de bano fitou-a por entre pestanas fuliginosas.
      - Compreendo que me pretenda castigar - disse ela -, mas de certeza que dar cabo da carruagem lhe trar inconvenientes tambm a si.
      Ele abrandou aos poucos.
      Anna ps as mos sobre o colo.
      - Porque haveria eu de querer castig-la? - perguntou ele.
      - O senhor sabe. - De facto, ele tornava-se exasperante, quando se propunha a isso.
      Mantiveram-se em silncio durante algum tempo. O cu comeou a clarear, assumindo depois uma tmida tonalidade carmesim.
      Anna conseguia ver as feies dele com maior clareza. No pareciam confiantes.
      Suspirou.
      - Lamento, est bem?
      - Lamenta ter sido descoberta? - A voz de Edward saiu com uma doura suspeita.
      Ela mordeu a parte de dentro da bochecha.
      - Lamento t-lo enganado.
      - Tenho dificuldade em acreditar nisso.
      - Est a insinuar que estou a mentir? - Anna cerrou os dentes, para conter as emoes, procurando recordar-se do voto de pacincia.
      - Ora, pois , minha querida, parece que estou mesmo. - Os dentes dele soavam como se estivessem a ser amolados. - A senhora mostra ter uma capacidade inata 
para a mentira.
      Ela inspirou profundamente.
      - Percebo porque poder pensar assim, mas, por favor, acredite que jamais quis mago-lo.
      Edward franziu o nariz.
      - Muito bem, timo. Esteve num dos mais famigerados bordis de Londres vestida de meretriz de alta categoria e calhei a dar de caras consigo. Sim, vejo por 
que motivo foi mal compreendida.
      Anna contou at dez. Depois, contou at cinquenta.
      - Estava  sua espera. Apenas de si.
      Isto pareceu tirar-lhe um pouco o tapete debaixo dos ps. O sol estava agora a pino. Aos solavancos, a carruagem descreveu, uma curva, assustando duas lebres 
que estavam no meio da estrada.
      - Porqu? - resmoneou ele.
      Ela perdera o fio da conversa.
      - O qu?
      - Porque me escolheu a mim, aps, quantos... seis anos de celibato?
      - Perto de sete.
      - Mas est viva h seis.
      Anna assentiu, sem explicaes de maior.
      Reparou que Edward a olhava com curiosidade.
      - Seja qual for o perodo, porqu eu? As minhas cicatrizes...
      - No teve nada a ver com as suas malditas cicatrizes! - gritou ela. - As cicatrizes no me importam, ser que no percebe isso?
      - Ento, porqu?
      Era a sua vez de permanecer muda. O sol brilhava agora intensamente, realando cada detalhe, para que nada ficasse escondido.
      Anna tentou explicar.
      - Eu acreditava... no... eu sabia que sentamos uma atraco mtua. Depois, o senhor foi-se embora e apercebi-me de que iria dar aquilo que sentia por mim 
a outra mulher. Uma mulher que nem sequer conhecia. E eu queria... precisava... - Anna levantou as mos, em sinal de frustrao - queria ser aquela com quem o senhor 
iria... fazer amor.
      Edward engasgou-se. Ela no soube dizer se ele estaria horrorizado, enjoado ou, simplesmente, a rir-se dela.
      O feitio dela entrou subitamente em ebulio.
      - Foi o senhor que partiu para Londres. Foi o senhor que decidiu desfrutar de outra mulher. Foi o senhor que se afastou de mim. Quem  o maior pecador? No 
continuarei a...
      Anna engoliu as palavras, no momento em que Edward puxou os cavalos com tal brusquido, que eles recuaram um pouco. Jock viu-se quase catapultado do assento. 
Anna abriu a boca, assustada, mas, antes que pudesse protestar, a boca dele cobriu a sua. Edward enfiou a lngua na boca dela, sem qualquer prembulo. Ela sentia 
o sabor a caf conforme ele passava a lngua na sua, abrindo mais e mais os lbios. Dedos bruscos massajavam-lhe a nuca. Sentia-se rodeada pelo aroma almiscarado 
de um homem vigoroso. Lentamente, relutantemente, a boca dele abandonou a sua. A lngua de Edward lambeu suavemente o seu lbio inferior, num sinal de arrependimento.
      Anna pestanejou perante a luz forte do sol, quando ele ergueu a cabea. Edward estudava as suas feies toldadas de espanto tendo, talvez, ficado satisfeito 
com o que nelas viu. Sorriu, fazendo cintilar os dentes brancos. Pegou nas rdeas e ps os cavalos a meio-galope, com as crinas a esvoaar. Anna agarrou-se  parte 
de trs do assento, uma vez mais, tentando descortinar o que acabara de suceder. Era-lhe bastante difcil pensar, com o sabor dele ainda na sua boca.
      - Hei-de casar consigo - gritou Edward.
      Ela no sabia o que dizer. Assim, optou pelo silncio.
      Jock ladrou, deitando a lngua de fora, que ficou a badalar ao vento.
      
      
      Coral inclinou a cabea para o cu e sentiu os raios de sol a deslizarem-lhe pela face, como um calor lquido. Sentou-se junto  porta das traseiras da casa 
das Wren, tal como fizera todos os dias desde que o seu estado lhe permitia levantar-se da cama. Em redor, pequeninas plantas verdes espreitavam atravs da terra 
negra e, por perto, um engraado passarinho fazia um chinfrim dos demnios. Estranho como nunca se repara no sol em Londres. Os gritos roucos de milhares de vozes, 
o fumo fuliginoso, as ruas a tresandar a cheiro de esgoto, so uma distrao e um obscurecimento, a ponto de j ningum olhar para cima. Deixa-se de sentir o toque 
terno do sol.
      - Oh, senhor Hopple!
      Coral abriu os olhos face ao som da voz da irm, permanecendo, porm, imvel. Pearl parara junto ao porto que dava para o jardim das traseiras. Vinha acompanhada 
por um homem baixo, que vestia o colete mais espalhafatoso que Coral alguma vez vira. Parecia tmido, a julgar pelas vezes que alisou o colete, o que no era surpresa 
alguma. Muitos homens ficam ansiosos quando esto na companhia de uma mulher que os atrai. Pelo menos, os melhores ficam. Mas Pearl estava a mexer no cabelo, enrolando 
e prendendo-o entre os dedos, indicando que tambm ela no se sentia  vontade. E isso  que era surpreendente. Uma das primeiras coisas que as prostitutas aprendem 
 a manter uma mscara confiante, arrogante at, na companhia do sexo mais forte.  a chave do seu sustento.
      Pearl separou-se da sua escolta com um belo sorriso. Abriu o porto e entrou no pequeno quintal. Estava quase a chegar  porta quando reparou na irm.
      - Oh, meu Deus, no te vi aqui sentada! - Pearl sacudiu o rosto corado. - Pregaste-me um grande susto.
      - Estou a ver que sim - disse Coral. - No ests  procura de uma nova oportunidade, pois no? J no precisas de trabalhar. Alm disso, partiremos para Londres 
em breve, agora que me sinto melhor.
      - Ele no  uma oportunidade - disse Pearl. - Pelo menos, no no sentido que lhe deste. Ofereceu-me um trabalho como criada na manso.
      - Criada?
      - Sim - Pearl enrubescera. - Tenho experincia nessas tarefas. Voltaria a dar uma bela criada.
      Coral esboou um esgar.
      - Mas no precisas de trabalhar. Disse-te que tomaria conta de ti e  isso que farei.
      A irm puxou para trs os seus finos ombros e empinou o queixo.
      - Vou ficar por aqui, com o senhor Felix Hopple.
      Coral fitou-a por um breve instante. A postura de Pearl no vacilou.
      - Porqu? - perguntou por fim, num tom tranquilo.
      - Ele pediu permisso para me cortejar e eu disse-lhe que sim.
      - E quando ele souber o que tu fazes?
      - Creio que j sabe. - Pearl apercebeu-se da questo e meneou rapidamente a cabea. - No, ainda no lhe disse, mas a minha ltima estada aqui no foi segredo 
algum. E, se ele no souber, eu conto-lhe. Acho que querer ficar comigo, ainda assim.
      - Mesmo que ele aceite a tua antiga forma de vida - disse Coral, suavemente -, as outras pessoas da aldeia no o faro.
      - Oh, sei que ser difcil! J no sou uma rapariguinha com pozinhos de fada nos olhos. Mas ele  um cavalheiro a srio. - Pearl ajoelhou-se perto da cadeira 
de Coral. - Trata-me muito bem e olha-me como se eu fosse uma senhora.
      - E  por isso que queres ficar por aqui?
      - Tu tambm poderias ficar - Pearl falou baixinho, pegando na mo da irm. - Poderamos ambas comear aqui uma nova vida, constituir famlia como as pessoas 
normais. Podamos ter uma casa pequena como esta e podias viver comigo. No seria bom?
      Coral olhou para a sua mo entrelaada na da irm mais velha. Os dedos de Pearl eram da cor dos biscoitos, com pequenas e leves cicatrizes em torno dos ns, 
recordaes dos seus anos de servio. A sua prpria mo era branca, lisa e invulgarmente macia. Libertou-a do aperto da de Pearl.
      - Receio no poder ficar aqui. - Tentou sorrir, mas no conseguiu. - Perteno a Londres. No me sinto confortvel em mais lado algum.
      - Mas...
      - Silncio, querida. O meu destino est escrito desde h muito.
      - Coral levantou-se e sacudiu as saias. - Alm disso, todo este ar fresco e este sol no sero benficos para a minha pele. Entra comigo e ajuda-me a fazer 
as malas.
      - Se  isso que queres - disse Pearl lentamente.
      - . - Coral estendeu a mo para puxar a sua irm para si. - Disseste-me o que sente o senhor Hopple, mas no o que tu sentes por ele.
      - Faz-me sentir segura e reconfortada - Pearl corou. - E beija to bem...
      - Uma tarte de limo - murmurou Coral. - E tu sempre apreciaste muito tarte de limo.
      - O qu?
      - Esquece, querida - Coral beijou a irm na face. - Estou feliz por teres encontrado um homem para ti.


      - E, alm do mais, esta teoria louca apenas vem confirmar a suspeita de que a sua senilidade est j bastante avanada. Os meus sentimentos.
      Anna escrevia freneticamente as palavras, enquanto Edward caminhava diante da sua secretria de pau-rosa. Ela nunca tinha feito um ditado e descobriu, para 
seu desalento, que era mais difcil do que pensava. O facto de Edward compor as suas pungentes cartas a um ritmo infernal tambm no ajudava.
      Pelo canto do olho, Anna reparou que O Prncipe Corvo estava de regresso  sua secretria. Desde aquela viagem na carruagem, h dois dias, ela e Edward pareciam 
andar a jogar um jogo com o livro. Numa manh, encontrou-o no centro da sua secretria. Devolveu-o sem nada dizer, mas, aps o almoo, o livro regressara  sua secretria. 
Ela pusera-o uma vez mais na secretria de Edward e o processo repetiu-se. At agora, Anna no reunira a coragem para perguntar qual era exatamente o significado 
do livro para ele e porque  que queria que ela ficasse com ele.
      Agora, Edward deambulava no meio do seu ditado.
      - Talvez a sua triste deteriorao mental possua uma raiz familiar. - Apoiou o punho na secretria dela. - Recordo-me do seu tio, o duque de Arlington, que 
tinha uma teimosia similar a respeito da procriao de sunos. Alis, h quem diga que o seu ltimo ataque de apoplexia se deveu a uma discusso demasiado acesa 
acerca de currais de pario. No acha que est calor aqui?
      Anna tinha j escrito "calor", quando reparou que a ltima pergunta lhe era dirigida. Levantou o olhar a tempo de o ver despir o casaco.
      - No, a sala parece-me bem aclimatada. - O seu sorriso hesitante imobilizou-se quando Edward retirou a gravata.
      - Estou cheio de calor - disse ele. E desabotoou o colete.
      - O que est a fazer? - sobressaltou-se Anna.
      - A ditar uma carta? - Edward arqueou as sobrancelhas, simulando inocncia.
      - Est a despir-se!
      - No, estaria a despir-me se tirasse a camisa - disse Edward, fazendo exatamente isso.
      - Edward!
      - Sim, querida?
      - Vista imediatamente a camisa - rogou Anna.
      - Porqu? Sente-se ofendida pelo meu torso? - Edward encostou- -se, indiferente,  secretria dela.
      - Sim. - Anna estremeceu com a expresso dele. - No! Volte a vestir a camisa.
      - De certeza que as minhas cicatrizes no a repugnam? - Ele inclinou-se para a frente, passando os dedos sobre as marcas na parte de cima do peito.
      Os olhos dela seguiam hipnoticamente a mo dele, at que, repentinamente, afastou o olhar. Uma resposta mordaz balanava-lhe na ponta da lngua. F-la parar 
o -vontade estudado de Edward. A questo era realmente importante para aquele homem intratvel.
      Soltou um suspiro.
      - No o acho de todo repugnante, como bem sabe.
      - Ento, toque-me.
      - Edward...
      - V - segredou ele. - Preciso de saber. - Pegou na mo dela e p-la diante de si.
      Anna olhou-o no rosto, debatendo-se entre o que era prprio e o desejo de o tranquilizar. A verdadeira questo era que, obviamente, ela queria tocar-lhe. Demasiado.
      Ele esperou.
      Ela levantou a mo. Hesitou. E depois tocou. A palma da sua mo repousou, tremendo, na juno entre o pescoo e o peito de Edward, exatamente no ponto onde 
era possvel sentir a batida implacvel do seu corao. Os olhos dele pareceram escurecer para um negro absolutamente intenso, enquanto olhava para ela. O peito 
dela enchia-se a custo de ar, ao deslizar a mo sobre os msculos firmes. Sentia o recorte das cicatrizes da varola, parando para circundar, carinhosamente, uma 
delas com o dedo mdio. As plpebras dele caram, como se pesassem. Passou a outra cicatriz e percorreu-a do mesmo modo. Anna observava a sua prpria mo e pensava 
na dor distante que estas cicatrizes representavam. Uma dor para o corpo de um rapaz e para a sua prpria alma. A sala estava silenciosa,  exceo do suspiro cadenciado 
de ambas as respiraes. Ela nunca explorara o peito de um homem com tal detalhe. Sabia to bem... Era algo de muito sensual. De certa forma, mais ntimo do que 
o ato sexual em si.
      O seu olhar desviou-se para o rosto dele. Edward estava de lbios separados, molhados no ponto por onde passara a lngua.
      Sentia-se, claramente, to afetado como ela. A percepo de que o seu mero toque exercia aquele poder sobre ele desencadeou a sua prpria excitao. A sua 
mo encontrou o plo escuro e encaracolado do peito dele. Estava hmido devido  transpirao. Anna enfiou, devagar, os dedos naquele emaranhado, observando como 
os caracis se enrolavam em torno das pontas dos dedos. Sentia uma essncia masculina a ascender no ar, juntamente com o calor do corpo.
      Balanou-se para a frente, impelida por uma fora para l do seu controlo. Os plos do peito fizeram-lhe ccegas nos lbios. Enterrou o nariz no calor dele. 
O peito movia-se agora aos solavancos. Anna abriu a boca e exalou. A lngua estendeu-se para provar o sal da sua pele. Um dos dois, talvez ambos, gemeu. As suas 
mos agarraram-no pelos flancos e Anna sentia ligeiramente os braos dele a puxarem-na para mais perto. A sua lngua prosseguiu a explorao: plos que faziam ccegas, 
suor odorfero, a proeminncia de um mamilo masculino.
      O sal das suas prprias lgrimas.
      Anna percebeu que os seus olhos estavam, lentamente, a derramar lgrimas pelo rosto, misturando-se  humidade no corpo de Edward. No fazia sentido, mas no 
conseguia estancar as lgrimas. Tal como no conseguia impedir o seu corpo de desejar aquele homem, ou o seu corao de... o amar.
      Esta percepo libertou-a um pouco, dissipando ligeiramente a nvoa no seu pensamento. Inspirou, trmula, e afastou-se ento do abrao de Edward.
      Os braos dele apertaram-na mais.
      - Anna...
      - Por favor, deixe-me. - A voz soou-lhe estridente aos seus prprios ouvidos.
      - Bolas. - Mas os braos dele abriram-se, soltando-a.
      Ela recuou rapidamente.
      Ele assumiu um ar carrancudo.
      - Se acha que esquecerei isto...
      - No precisa avisar-me. - O riso dela saiu demasiado agudo, como se se sentisse no limite de perder por completo a compostura. - J sei que no esquece nem 
perdoa nada.
      - Por Deus, sabe perfeitamente...
      Ouviu-se uma batida na porta da biblioteca. Edward afastou-se e endireitou-se, passando impacientemente a mo pelo cabelo e desprendendo o rabo-de-cavalo.
      - O que ?
      O senhor Hopple espreitou pela porta. Pestanejou ao constatar que o conde estava meio despido. Porm, balbuciou:
      - Pe... peo desculpa, excelncia, mas o cocheiro John diz que uma das rodas traseiras da carruagem ainda se encontra a ser reparada no ferreiro.
      Edward olhou, carrancudo, para o feitor e abotoou a camisa.
      Anna aproveitou a oportunidade para limpar sub-repticiamente as faces hmidas.
      - Ele garantiu-me que no demorar mais de um dia - continuou o senhor Hopple. - Dois, no mximo.
      - No disponho de tanto tempo, homem. - Edward acabara de se vestir e voltou-se, comeando a remexer a secretria, atirando papis para o cho. - Levaremos 
o faetonte e os criados podero seguir mais tarde, quando a carruagem estiver reparada.
      Anna levantou um olhar duvidoso. Era a primeira vez que ouvia falar de uma viagem. Por certo que ele no se atreveria...
      O senhor Hopple esboou um esgar.
      - Levaremos, excelncia? No me tinha apercebido de que...
      - A minha secretria far-me- companhia at Londres, como  bvio. Precisarei dos seus servios, se quiser concluir o manuscrito.
      Os olhos do feitor abriram-se horrorizados, mas Edward no viu essa reao. Olhava desafiadoramente para Anna.
      Ela inspirou bruscamente, calada.
      - Mas... mas, excelncia! - gaguejou o senhor Hopple, aparentemente escandalizado.
      - Tenho de terminar o manuscrito. - Edward dirigia a explicao para ela, ardendo-lhe nos olhos um lume negro. - A minha secretria tomar notas no encontro 
dos Agrrios. Terei de tratar de vrios outros assuntos relacionados com as minhas propriedades.
      Sim, creio ser essencial que a minha secretria viaje comigo - rematou ele num tom mais baixo, mais ntimo.
      O senhor Hopple tomou a palavra.
      - Mas ela  uma... enfim! Uma senhora. Uma senhora no casada, perdoe-me a franqueza, senhora Wren. No  nada apropriado ela viajar...
      - De todo, de todo - interrompeu Edward. - Levaremos uma dama de companhia. Peo-lhe que traga uma amanh, senhora Wren. Partiremos de madrugada. Esperarei 
por si no trio. - E saiu de supeto da sala. O senhor Hopple saiu no seu encalo, murmurando objees ineficazes.
      Anna no sabia verdadeiramente se deveria rir ou chorar. Sentiu uma lngua molhada e spera na palma da mo e olhou para Jock, que arfava junto de si.
      - O que deverei fazer?
      Mas o co limitou-se a suspirar e a rebolar sobre as costas, ficando com as patas a oscilar absurdamente no ar, o que no servia como resposta quela pergunta.
      
      
  Captulo 19





       urea chorava por tudo o que perdera, ali sozinha no deserto infindvel. Pouco depois, porm, apercebeu-se de que a sua nica esperana seria encontrar o
esposo desaparecido, redimindo-os a ambos. Foi ento que se decidiu a procurar o Prncipe Corvo. No primeiro ano, procurou-o nas terras a leste. Viviam a estranhos
animais e pessoas, mas ningum ouvira falar do Prncipe Corvo. No segundo ano, viajou para as terras a norte. Ventos gelados governavam os ritmos humanos desde a
manh at  noite, mas ningum ouvira falar do Prncipe Corvo. No terceiro ano, explorou as terras a ocidente. Erguiam-se a palcios opulentos, to altos que quase
roavam o cu, mas ningum ouvira falar do Prncipe Corvo. No quarto ano, dirigiu-se para o extremo sul. A, o sol ardia muito perto da terra, mas ningum ouvira
falar do Prncipe Corvo...
       in O Prncipe Corvo
      
      
      
      - Lamento imenso, querida. - Nessa noite, a me Wren apertava as mos, enquanto Anna fazia as malas. - Sabe bem como as carruagens abertas me deixam a barriga 
s voltas. S de pensar nisso, alis,  quase suficiente pa... para...
      Anna levantou rapidamente os olhos. A sogra contrara um leve tom esverdeado.
      Levou a mulher mais velha para uma cadeira.
      - Sente-se e respire. Quer um pouco de gua? - Anna tentou abrir a nica janela do quarto, mas estava empenada.
      A sogra ps um leno sobre a boca e fechou os olhos.
      - Daqui a nada, fico bem.
      Anna despejou um pouco de gua do jarro que estava sobre a cmoda e ps-lhe o copo na mo. A velhota bebeu dele e as suas faces comearam a recuperar a cor.
      -  uma pena a Coral ter-se ido embora to repentinamente. - A me Wren havia insistido nesse ressentimento ao longo de todo o dia, com variaes.
      Anna comprimiu a boca.
      Fanny acordara-as nessa manh, aps ter descoberto uma mensagem na cozinha. No bilhete, Coral agradecia, simplesmente, o cuidado que lhe haviam dispensado. 
Anna correra para o quarto onde Coral estivera a dormir, mas estava vazio e de cama j feita. A, encontraria uma outra mensagem presa  almofada. Coral pedia que 
Pearl fosse autorizada a permanecer um pouco mais e inclura moedas de ouro, que tilintaram no cho quando Anna desdobrou a missiva. Tentara dar o dinheiro a Pearl, 
mas ela meneara negativamente a cabea, afastando-se.
      - No, minha senhora. Esse dinheiro  para si e para a senhora Wren. Foram as melhores amigas que eu e a Coral j tivemos.
      - Mas vai precisar do dinheiro.
      - A senhora e a sua sogra tambm iro precisar dele. Alm do mais, comearei em breve a trabalhar... - Pearl corara - l na manso.
      Agora, Anna meneava a cabea.
      - Espero que a Coral esteja bem. Os hematomas estavam a comear a desaparecer. A Pearl no faz ideia de outro stio para o qual ela pudesse ter ido a no ser 
Londres.
      A sogra levou a mo  testa.
      - Se ela tivesse esperado, poderia t-la acompanhado at Londres.
      - Talvez a Pearl no se importe de adiar o seu trabalho na manso e vir comigo primeiro. - Anna abriu uma gaveta da cmoda e vasculhou,  procura de um par 
de meias sem buracos.
      - Creio que a Pearl preferir ficar por c. - A sogra pousou cuidadosamente o copo no cho, junto  cadeira. - Ao que parece, conheceu um cavalheiro l na 
manso.
      - Ah, sim? - Anna voltou-se, com as mos cheias de meias. - Quem acha que ? Um dos criados?
      - No sei. Anteontem, perguntou-me sobre a casa e quem  que trabalhava l. Depois, murmurou qualquer coisa acerca de abelhas.
      - A manso tem um apicultor? - Anna franziu o sobrolho pensativamente, antes de menear a cabea, dobrar um par de meias e coloc-lo na sua mala.
      - Que eu saiba, no - a me Wren encolheu os ombros. - Seja como for, estou feliz por lorde Swartingham ter decidido lev-la a Londres.  um homem muito simptico. 
E est interessado em si, querida. Talvez lhe faa uma declarao importante por l.
      Anna estremeceu.
      - Ele j me pediu em casamento.
      A me Wren deu um pulo, deixando escapar um gritinho digno de uma rapariga com um quarto da sua idade.
      - E eu disse-lhe que no - concluiu Anna.
      - No? - A velha senhora estava perplexa.
      - No.- Anna dobrou minuciosamente uma camisa e colocou-a na mala.
      - Maldito Peter! - A outra mulher bateu com o p.
      - Minha sogra!
      - Peo desculpa, querida, mas ambas sabemos que no abdicaria daquele belo homem se no fosse por causa do meu filho.
      - Eu no...
      - Ora, no vale a pena desculp-lo.- A me Wren ficou mesmo carrancuda. - Deus Nosso Senhor sabe como eu amava o Peter. Era o meu nico filho e foi um rapazito 
deveras encantador. Mas o que ele lhe fez durante o casamento , simplesmente, imperdovel.
      O meu querido marido, se estivesse vivo nessa altura, ter-lhe-ia aplicado o chicote.
      Anna sentia as lgrimas a aflorarem-lhe os olhos.
      - No tinha conscincia de que soubesse.
      - E no sabia. - A sogra sentou-se novamente, agitada. - No at quela ltima doena. Ele estava febril e comeou a falar sozinho, numa das noites em que 
fiquei junto dele. A Anna j se deitara.
      Anna olhou para as mos, tentando ocultar as lgrimas que j lhe embaciavam a viso.
      - Ele ficou muito aborrecido quando descobriu que eu no podia ter filhos. Lamento isso.
      - Eu tambm lamento que no pudessem ter tido filhos juntos.
      Anna limpou a cara com a palma da mo e ouviu o roagar das saias da sogra conforme ela se aproximava.
      Braos rechonchudos, quentes, envolveram-na.
      - Mas ele tinha-a a si. No imagina como fiquei feliz quando o Peter casou consigo...
      - Oh, me Wren...
      - A Anna era...  a filha que no tive - murmurou a senhora. - Tomou conta de mim todos estes anos. De certa forma, tornei-me mais prxima de si do que alguma 
vez consegui s-lo do Peter.
      Por algum motivo, isto fez com que Anna chorasse ainda mais.
      A sogra abraou-a, balanando ligeiramente de um lado para o outro. Anna chorava compulsivamente, tecendo soluos que lhe desfaziam o peito e lhe doam no 
corao. Era doloroso ver esta parte da sua vida assim exposta, depois de a ter mantido oculta durante tanto tempo. A infidelidade de Peter fora a sua vergonha secreta, 
para suportar e sofrer a ss. Porm, durante todo aquele tempo, a me Wren soubera e, mais ainda, no a culpara. As suas palavras soavam a absolvio.
      Por fim, os soluos de Anna abrandaram e acalmaram, embora mantivesse os olhos fechados. Sentia-se demasiado desgastada, os membros pesavam-lhe nervosamente.
      A mulher mais velha ajudou-a a deitar-se e aconchegou a colcha por cima dela.
      - V, descanse.
      A mo fria e macia da me Wren afastou delicadamente o cabelo da testa de Anna, e ela ouviu-a murmurar:
      - Por favor, seja feliz, querida.
      Anna ficou a dormitar e ouviu o som dos saltos da outra mulher a descer as escadas. Mesmo com a dor de cabea com que estava, sentia-se em paz.
      
      
      - Foi a Londres? - A voz de Felicity subiu agudamente de tom.
      Duas senhoras que passavam pela casa das Wren olharam para ela. Ela voltou-lhes as costas.
      A me Wren observava-a com estranheza.
      - Sim, esta manh mesmo, com o conde. Lorde Swartingham disse que no poderia passar sem ela na reunio do grmio. No me recordo agora como se chamam eles, 
talvez os "Agrcolas", ou algo parecido.  espantoso o que esses senhores da alta sociedade encontram para se entreter, no ?
      Felicity estampou um sorriso na cara, enquanto a outra mulher tagarelava, embora desejasse gritar de impacincia.
      - Sim, mas quando estar a Anna de regresso?
      - Oh, diria daqui a um ou dois dias. - O sobrolho da senhora Wren enrugou-se pensativamente. - Talvez at uma semana? Certamente, daqui a uma quinzena.
      Felicity sentiu o sorriso transformar-se num esgar. Deus do Cu, estaria a mulher senil?
      - Certamente. Bem, tenho de ir-me embora. Prendem-me afazeres.
      Percebeu, pelo sorriso vacilante da senhora Wren, que a sua partida aflorava o limite da m educao, mas Felicity no dispunha de tempo agora. Subiu  sua 
carruagem, bateu no tejadilho e foi-se queixando,  medida que a carruagem arrancava. Porque fora Chilly to indiscreto? E qual dos seus criados teria cometido o 
deslize? Assim que pusesse as mos em cima do traidor, tomaria medidas para que nunca mais voltasse a trabalhar neste condado. Nessa mesma manh, o squire irritara-se 
 mesa do pequeno-almoo. Exigia saber quem se escapulira dos aposentos dela na semana anterior. Isso distrara-a dos seus ovos cozidos.
      Se, ao menos, Chilly tivesse trepado at  janela, em vez de usar a entrada de servio. Mas no, ele insistira que a pedra no peitoril da janela lhe rasgaria 
as meias. Homem idiota e vaidoso. E, como se no bastassem as suspeitas a respeito de Chilly, Reginald tecera um comentrio, no dia anterior, acerca do cabelo ruivo 
de Cynthia. Aparentemente, os cabelos ruivos no surgiam na famlia Clearwater desde que havia memria. Se  que alguma vez haviam surgido.
      Ora, claro que no, seu estpido, quisera gritar Felicity. O cabelo ruivo dela no vem da sua famlia. Porm, optara por umas referncias vagas s madeixas 
avermelhadas da sua av e mudara rapidamente o assunto da conversa para ces, um tema que fascinava sempre o seu esposo.
      Felicity passou os dedos pelo seu penteado perfeito. Porque estaria a famlia do squire a reparar nas suas filhas logo agora, aps tanto tempo? Se aquela carta 
fosse descoberta, a juntar s suspeitas do marqus em relao a Chilly, a situao dela sofreria um considervel revs. Felicity estremeceu. A expulso para uma 
reles casinha de campo era uma possibilidade. At mesmo o divrcio, o mais terrvel dos destinos, lhe poderia acontecer. Inconcebvel. No a Felicity Clearwater.
      Tinha de encontrar Anna e de conseguir aquela carta.
      
      
      Anna rebolou e deu um murro na pesada almofada de baixo pela centsima vez. Impossvel adormecer,  espera de ser arrebatada por um conde.
      No se surpreendera nessa manh quando Fanny, a sua dama de companhia, foi relegada para a carruagem que partiria mais tarde. Isso fizera com que Anna fosse 
sozinha com Edward at Londres. Ela certificara-se de que Jock iria entre eles no assento do veculo e quase se sentiu desiludida quando Edward pareceu no ter reparado. 
Viajaram todo o dia, sendo j noite quando chegaram  casa citadina de Edward em Londres. Aparentemente, tinham acordado o pessoal. O mordomo, Dreary, abrira a porta 
em camisa de dormir e barrete. Ainda assim, as bocejantes criadas acenderam as lareiras e prepararam-lhes uma refeio fria.
      Depois disso, Edward desejara-lhe educadamente as boas-noites, pedindo  governanta que acompanhasse Anna at ao quarto. Uma vez que a carruagem que transportava 
Fanny ainda no chegara, Anna tinha o quarto s para si. A, havia uma pequena porta de ligao, facto que lhe levantou graves suspeitas. A diviso era demasiado 
grande para ser apenas um quarto de hspedes. No seria possvel ele t-la instalado na sute da condessa, pois no? No se atreveria.
      Anna suspirou. Na verdade, ele era bem capaz disso.
      O relgio sobre a lareira batera j a uma da manh. Se Edward tivesse de vir ter com ela, j o teria feito. No que lhe servisse de muito experimentar as duas 
portas. Anna trancara ambas.
      Passos cadenciados e masculinos pisaram as escadas. Anna ficou quieta como uma lebre sobrevoada por uma ave de rapina. Olhou para a porta do corredor. Os passos 
aproximaram-se, abrandando ao chegar  porta. Pararam. Todas as suas atenes se concentraram na maaneta da porta.
      Houve uma pausa e, depois, os passos retomaram o seu caminho. Uma porta mais afastada abriu-se e foi fechada. Anna enfiou-se novamente nas suas almofadas. 
Como era natural, sentia-se aliviada com aquele desfecho. Muito, muito aliviada. No se sentiria aliviada qualquer senhora ao perceber que no iria ser violentada 
por um conde demonaco?
      Anna cogitava como deveria apresentar-se uma senhora bem-educada para ser arrebatada no quarto de um conde demonaco, quando o trinco da porta de ligao deu 
um estalido. Edward penetrou na diviso, trazendo nas mos uma chave e dois copos.
      - Pensei que talvez quisesse partilhar o meu brande? - Ele fazia gestos com os copos.
      - Eu, hum... - Anna marcou uma pausa para tossicar. - No aprecio brande.
      Ele manteve os copos erguidos por mais uns instantes e, depois, baixou-os.
      - No? Bom...
      - Mas sinta-se bem-vindo para o beber aqui. - As palavras de Anna colidiram com as de Edward.
      Ele fitava-a silenciosamente.
      - Comigo, quero dizer - Anna sentia as faces a ruborizar. Edward voltou as costas e, por um momento horrendo, Anna pensou que, afinal, ele ir-se-ia embora. 
Mas limitou-se a pousar os copos numa mesa, olhando novamente para ela e comeando a tirar a gravata.
      - Na verdade, no vim aqui para tomar uma bebida. A respirao dela susteve-se.
      Edward atirou a gravata para cima de uma cadeira e despiu a camisa pela cabea. Os olhos dela fixaram-se imediatamente no seu peito nu.
      Ele olhou para ela.
      - No diz nada? Acho que  a primeira vez que isso acontece. Sentou-se na cama para retirar primeiro as botas e, depois, as meias. As molas da cama acusaram 
o seu peso. Levantou-se e levou as mos aos botes das calas. Ela susteve a respirao.
      Edward sorriu de forma travessa e desabotoou-se lentamente. Enganchou os polegares na cintura e, num s gesto, desembaraou-se das calas e das ceroulas. Depois, 
endireitou-se e o seu sorriso dissipou-se.
      - Se vai dizer no, diga-o j. - Parecia um pouco incerto. Anna demorou-se a olhar para ele. Dos olhos negros e velados aos ombros largos e musculados, da 
barriga lisa  espessa masculinidade, dos pesados testculos s coxas volumosas e pernas peludas; e, por fim, aos grandes ps ossudos. A luz era pouca na Gruta de 
Afrodite e ela queria gravar esta imagem, caso nunca mais o voltasse a ver assim. Ele estava lindo ali de p, oferecendo-se sob o brilho das velas. Anna sentiu a 
garganta demasiado apertada para falar, tendo-se limitado a estender os braos.
      Edward fechou os olhos por um segundo. Teria ele realmente pensado que ela o mandaria embora? Depois, avanou sem rudo at  cama. Parou diante dela. Curvando 
a cabea com uma elegncia inesperada, levantou uma mo para puxar a fita que lhe atava o rabo-de-cavalo. Seda preta escorreu-lhe sobre os ombros marcados. Subiu 
para a cama e debruou-se sobre ela. O cabelo dele fazia-lhe ccegas na face. Baixou a cabea para depositar beijos ternos nas suas faces, no seu nariz, nos seus 
olhos. Anna tentou erguer os lbios para ele, mas ele esquivava-se. Ela foi ficando impaciente.
      Desejava tanto a boca dele!
      - Beije-me. - Anna enfiou os dedos no cabelo e puxou para si o rosto dele.
      Edward abriu os lbios sobre os dela, recebendo em si a sua respirao, como uma bno. Aquilo fazia tanto sentido... Agora, ela sabia. Esta paixo entre 
ambos era a coisa mais perfeita do mundo.
      Ela retorceu-se, procurando aproximar-se mais, mas as mos e os joelhos dele, de cada lado do seu corpo, pressionavam o lenol que a cobria. Estava aprisionada. 
Ele arrebatava-lhe a boca a seu bel-prazer. Demorava-se, bruscamente, suavemente em seguida, depois, uma vez mais bruscamente, at ela comear a sentir-se a derreter 
de desejo.
      De sbito, ele recuou sobre os joelhos. Havia um belo resplendor de suor no seu peito e o esperma orvalhava-lhe a ponta do pnis. Anna gemeu baixinho para 
si mesma, perante aquela viso. Ele era to magnfico, to belo e, naquele instante, pertencia-lhe por inteiro.
      Ele apontou o olhar ao seu rosto e foi descendo conforme removia o lenol dos seus seios. Ela tinha apenas a sua camisa de noite. Ele puxou a fina veste sobre 
o seu peito, examinando-lhe os seios. Anna sentiu os mamilos a endurecerem contra o tecido, tensos e desejosos.  espera do toque dele. Edward debruou-se, colocou 
a sua boca molhada sobre um dos mamilos e chupou-o atravs da camisa de noite. A sensao era to acutilante, que Anna arqueou-se. Passou para o outro mamilo e chupou-o 
tambm, deixando as pontas dos seus seios cobertas de um tecido molhado e transparente. Recuou e soprou sobre o primeiro mamilo, depois sobre o outro, fazendo-a 
arfar e debater-se.
      - Pare de brincar. Por amor de Deus, toque-me.
      Ela no reconheceu a sua prpria voz, de to rouca.
      - Como queira.
      Edward agarrou a camisa de noite pelo decote e, com um s golpe, rasgou o frgil material. Os peitos nus sentiram o glido ar noturno. Por um segundo, Anna 
sentiu-se tmida. Esta noite, no tinha mscara para se esconder. Era o seu verdadeiro ser a fazer amor com Edward. No sentia a pretenso de se ocultar; ele podia 
ver o seu rosto, as suas emoes. Ento, ele precipitou-se, uma vez mais, e arrebatou um dos mamilos com a boca. Aquele chupar caloroso, aps a frescura do tecido 
molhado, quase a fez perder a cabea. Ao mesmo tempo, enterrou os dedos compridos nos plos pbicos dela.
      Anna ficou quieta, esperando sem respirar, enquanto ele procurava delicadamente at encontrar, por fim, aquilo que procurava. O seu polegar iniciou um crculo 
insidioso. Oh, meu Deus, sabia to bem! Edward sabia exatamente como toc-la. Anna gemia, as suas ancas seguindo instintivamente a mo dele. Ele enfiou o dedo dentro 
dela e ela tremeu, com a repentina tempestade do clmax.
      Ele segredou-lhe s plpebras fechadas.
      - Olhe para mim.
      Ela voltou a cabea na direco do gemido dele, de olhos ainda fechados de xtase.
      - Anna, olhe para mim.
      Ela abriu os olhos.
      Edward estava por cima dela, de rosto corado, narinas dilatadas.
      - Vou penetr-la agora.
      Ela sentiu a ereo a tocar a abertura molhada. A glande comeou a abrir caminho, as plpebras de Anna fecharam-se.
      - Anna, doce Anna, olhe para mim - sussurrou Edward.
      Metade do pnis dele penetrara j na sua vagina, e Anna esforava-se por manter os olhos focados. Ele inclinou a cabea e lambeu-lhe a ponta do nariz.
      Os olhos dela dilataram-se.
      E Edward penetrou-a por completo.
      Anna gemia, arqueada contra ele. To certo. To perfeito. Ele preenchia-a, como se ambos tivessem sido feitos para aquilo. Como se tivessem sido feitos um 
para o outro. Fechou as coxas  volta das ancas dele, embalando-o com a plvis, fitando-o nos olhos. Ele fechou os olhos, o rosto rgido de nsia. Uma madeixa de 
cabelo preto colara-se-lhe ao maxilar.
      Edward abriu ento os olhos, trespassando-a com a sua negra intensidade.
      - Estou dentro de si e a senhora abraa-me. No h como voltar atrs.
      Ela gemeu com aquelas palavras, a respirao dentro do seu peito parecia estremecer. As ancas de Edward investiam. Ela envolveu-o com os braos, prendendo-o, 
enquanto o movimento do pnis lhe apagava qualquer pensamento. Ele acelerou e gemeu. Os seus olhos estavam fixos nos dela, como se tentasse comunicar algo de inefvel. 
Anna tocou-o na face com uma das mos.
      O seu enorme corpo parecia estar prestes a rebentar. Balanava-se com fora. Ela sentiu o clmax em vagas, uma alegria to rara a inund-la, sem que pudesse 
abarc-la. Gemeu de xtase. Ao mesmo tempo, Edward atirou a cabea para trs, expondo os dentes num grito de prazer. Um calor inundou-lhe o ventre, o corao, o 
fundo da alma.
      O corpo dele estava pesadamente deitado sobre o dela e Anna sentia o seu batimento cardaco. Suspirou. Ento, ele rebolou letargicamente de cima dela. Ela 
aninhou-se a seu lado, com uma dor agradvel nos membros. A ltima coisa que sentiu antes de se render ao esquecimento foram as mos de Edward sobre o seu ventre, 
puxando-a de novo para o seu calor.
      

  Captulo 20




       No quinto ano da sua busca, j tarde numa noite chuvosa, urea caminhava por um bosque soturno, escuro. Vestia finos trapos, que mal lhe cobriam o corpo;
de ps descalos e feridos, sentia-se perdida e exausta. Uma derradeira cdea de po era o seu nico alimento.
       Melanclica, urea espiou uma luz trmula. No meio de uma clareira, vislumbrava uma pequena cabana. Quando bateu  porta, uma velha encarquilhada e baixa,
praticamente dobrada em dois pela
       idade, veio abrir e convidou-a a entrar.
       - Ah, minha querida -grasnou a velhota -, est uma noite demasiado fria e hmida para andar sozinha por a. Venha partilhar a lareira comigo. Mas receio no
ter mantimentos para lhe oferecer, a minha mesa est vazia. Oh, mas o que no daria por qualquer
       coisa para comer!
       Ouvindo isto, urea teve piedade da velha. Levou a mo ao bolso e ofereceu  velhota o seu ltimo pedao de po...
       in O Prncipe Corvo
       
      
      
      Na manh seguinte, um grito agudo e feminino fez Edward pular do sono. Levantou-se de supeto, assustado, e olhou na direco daquele terrvel som. Davis, 
com as suas madeixas grisalhas e desalinhadas sobre o rosto cinzento, retribua o olhar com um horror abjeto. Ao lado de Edward, uma voz feminina lanou um protesto 
ensonado. Meu Deus! Ele puxou rapidamente os lenis por cima de Anna.
      -  Por tudo o que h de mais sagrado, Davis, o que se passa consigo? - berrou Edward, embora sentisse a cara a aquecer.
      -  Como se no lhe bastasse passar a vida naquelas casas de meretrizes, agora, trouxe para casa uma... - a boca do criado contorceu-se.
      -  Senhora - terminou Edward a frase. - Mas no do gnero que est a pensar. Esta  a minha noiva.
      Os lenis da cama comearam a mexer-se. Ele ps uma mo na parte de cima, aprisionando a sua ocupante.
      -  Noiva! Posso estar velho, mas no sou estpido. Essa no  a menina Gerard.
      A cama murmurou ameaadoramente.
      -  V chamar a criada para acender a lareira - ordenou Edward em desespero.
      -  Mas...
      -  V imediatamente.
      Demasiado tarde.
      Anna conseguira desembaraar-se dos lenis e punha agora a cabea de fora. O seu cabelo estava encantadoramente desgrenhado, a sua boca pecaminosamente inchada. 
Edward sentiu uma parte da sua anatomia a entumecer. Ela e Davis olhavam um para o outro. Os quatro olhos semicerraram-se simultaneamente.
      Edward resmungou e ps a cabea entre as mos.
      -  O senhor  o criado de quarto de lorde Swartingham?- Nunca uma mulher nua, apanhada numa situao comprometedora, fora to empertigada.
      -  Claro que sou. E a senhora ...
      Edward fulminou Davis com um olhar que carregava uma promessa de desmembramento, mutilao e apocalipse.
      Davis parou e prosseguiu com maior cautela.
      -  A senhora... hum... do meu amo.
      -  Nem mais. - Anna tossicou e retirou um brao de baixo dos lenis, para compor o cabelo.
      Edward esboou um esgar e puxou os lenis com maior firmeza em redor dos ombros dela. No precisaria de se preocupar. Davis estava a examinar cuidadosamente 
o teto.
      -  Talvez - disse Anna - pudesse trazer o ch de sua senhoria e chamar a criada para acender a lareira?
      Davis assentiu a esta original ideia.
      -   para j, senhora.
      Estava j a recuar pelo corredor, quando a voz de Edward o parou.
      -  Daqui a uma hora.
      O criado ficou escandalizado, mas no disse uma palavra, algo que Edward nunca presenciara. A porta fechou-se. Edward pulou da cama, foi at  porta e rodou 
a chave na fechadura. Atirou-a e ela foi a tilintar at ao outro lado do quarto, contra a parede. Meteu-se novamente na cama, antes que Anna pudesse sentar-se.
      - O seu criado de quarto  bem invulgar - disse ela.
      - Pois . - Apanhando o lenol, Edward puxou-o por completo para fora da cama, levando-a a soltar um pequeno grito. Ali estava ela, completamente quente e 
ensonada e nua para seu deleite. Ele soltou um gemido de aprovao e a sua ereo matinal endureceu ainda mais. Que bela maneira de acordar.
      Ela lambeu os lbios, um gesto que o seu membro amplamente aprovou.
      - Re... reparei que as suas botas raramente esto lustrosas.
      - O Davis , definitivamente, um incompetente. - Ps as mos em ambas as ancas dela e comeou a abrir caminho por entre as suas pernas.
      - Oh! - Por momentos, julgou ter conseguido distra-la, mas ela refez-se. - Porque continua com ele, ento?
      - O Davis foi criado do meu pai, antes de trabalhar para mim. - Edward prestava escassa ateno  conversa. Sentia o seu prprio odor no corpo de Anna, o que 
o satisfazia de uma forma primria.
      - Ento, mantm-no c por razes sentimentais... Edward!
      Anna arfou quando ele enterrou o nariz nos seus plos pbicos, inspirando. O cheiro dele era ali mais forte, nos seus caracis dourados, to fofos e belos 
 luz da manh.
      - Suponho que sim - Edward falava para os plos dela, fazendo Anna contrair-se. - E gosto do velho e terrvel rprobo. De quando em quando. Ele conhece-me 
desde pequeno e trata-me sem qualquer rstia de respeito.  refrescante. Ou, pelo menos, diferente.
      Passou um dedo pelo sexo dela. Os lbios vaginais abriram-se timidamente, revelando um interior rosa-escuro. Ele inclinou o rosto para ver melhor.
      - Edward!
      - Gostaria de saber como  que contratei o Hopple?- Apoiou-se nos cotovelos, por entre as pernas dela. Mantendo-lhe a vagina aberta com uma das mos, ficou 
a provocar o seu clitris com o indicador da outra mo.
      - Ohhhh!
      - E ainda nem conheceu bem o Dreary, que tem um passado bem interessante.
      - Edward!
      Deus do Cu, ele adorava ouvir o seu nome nos lbios de Anna. Pensou em lamb-la, mas decidiu que no iria aguentar tanto assim to cedo pela manh. Avanou 
para os seus seios, chupando um e outro.
      - H ainda todo o pessoal da manso. Quer saber como foi com eles?
      Edward segredou-lhe a pergunta ao ouvido. Espessas pestanas quase escondiam os seus olhos castanho-claros.
      - Faa amor comigo.
      Algo dentro dele, talvez o seu corao, parou por um segundo.
      - Anna.
      Os lbios dela estavam macios e ansiosos. Ele no foi delicado, mas ela no protestou. Anna abriu docemente a boca e ofereceu-se at ele no conseguir aguentar.
      Ele afastou-se e voltou-a de barriga para baixo, cuidadosamente. Encheu as mos com as suas ndegas rechonchudas e puxou-a para si, at ela ficar sobre cotovelos 
e joelhos. Parou para estudar o seu sexo vulnervel daquele ngulo. O peito estremeceu-lhe com o que viu. Era a sua mulher e apenas ele teria o privilgio de a ver 
desta forma.
      Pegou no membro e enfiou-o na abertura hmida. Percorreu-o uma sensao extremamente agradvel, pois empurrara com mais fora do que pretendera. Parou para 
arfar. Depois, impeliu novamente. E uma vez mais, at as paredes escorregadias cederem e ele se aninhar no seu calor. Os msculos dela apertavam-se em torno dele.
      Edward cerrou os dentes, tentando no ejacular demasiado cedo.
      Esticando-se, passou a palma da mo ao longo da coluna dela. Do pescoo s ndegas e at  vagina. Demorou ento a os dedos, sentindo a tenso do corpo dela 
e a sua prpria carne dura a empal-la.
      Anna gemia e empurrava-se contra ele.
      Ele retirou a glande do pnis, tornando a enfi-la. F-lo com tal mpeto, que o corpo dela deslizou sobre a cama. Ele retirou e enfiou novamente. As ancas 
dela mexiam-se cada vez mais rapidamente, ele inclinou a cabea para trs e cerrou os dentes.
      Ouvia os gritos quentes de Anna e tateou com a mo  volta das ancas dela, para encontrar aquela subtil salincia e apert-la. As paredes da vagina de Anna 
comearam a contrair-se em vagas e ele no aguentaria muito mais. Atingiu o orgasmo em jatos de um prazer quase doloroso, bombeando-a, marcando-a como sua. Ela sucumbiu 
debaixo dele e ele seguiu-a sobre a cama, de ancas encostadas a ela, ainda estremecendo.
      Ficou deitado por instantes, ofegante, e rebolou de cima de Anna antes de a sufocar com o seu peso. Apoiado sobre as costas, com um brao sobre os olhos, procurava 
regularizar a respirao.
      A medida que o suor secava sobre o seu corpo, Edward comeou a pensar na situao em que a colocara. Agora, Anna estava indubitavelmente comprometida. Ele 
quase agredira Davis apenas pelo olhar que ele lhe lanara. S Deus sabia o que iria fazer quando algum tecesse um comentrio a respeito dela, como iria inevitavelmente 
acontecer.
      - Tem de casar-se comigo. - Vacilou. Fora demasiado brusco. Aparentemente, tambm Anna pensava do mesmo modo. O corpo dela sobressaltou-se junto do dele.
      - O qu?
      Ele esboou um esgar. No era altura para parecer fraco.
      - Eu comprometi-a. Temos de nos casar.
      - Ningum sabe, a no ser o Davis.
      - E a casa inteira. Acha que eles ainda no tero reparado que eu no dormi na minha cama?
      - Ainda assim. Ningum em Little Battleford sabe e isso  que importa. - Ela levantou-se da cama e tirou uma camisa da sua mala.
      Edward esboou um trejeito de dvida. Ela no poderia ser assim to ingnua...!
      - Quanto tempo  que acha que demorar at as notcias chegarem a Little Battleford? Aposto que chegaro antes de ns.
      Anna vestiu a camisa e dobrou-se para procurar uma outra coisa qualquer na sua mala, exibindo tentadoramente as ndegas, atravs do fino linho. Estaria a tentar 
distra-lo?
      - O senhor j est noivo - disse ela, com voz firme.
      - No por muito tempo. Encontrar-me-ei com o Gerard amanh.
      - O qu? - Ele conseguira cativar-lhe a ateno. - Edward, no faa nada de que venha a arrepender-se. No casarei consigo.
      - Por amor de Deus, porqu? - Sentou-se, impacientemente. 
      - Ela empoleirou-se na cama e desenrolou uma meia. Ele reparou que estava remendada junto ao joelho, o que o deixou ainda mais irado. Ela no tinha de usar 
trapos. Por que no haveriam de casar-se, para que ele pudesse cuidar devidamente dela?
      - Por que no? - repetiu ele, to baixo como possvel. Anna engoliu em seco e passou para a outra meia, alisando-a cuidadosamente sobre os dedos dos ps.
      - Porque no quero que se case por causa de um deslocado sentimento de dever.
      - Corrija-me se estiver errado - disse ele. - No fui eu o homem com quem fez amor ontem  noite e hoje de manh?
      - E eu a mulher que fez amor consigo - disse Anna. - Tenho tantas responsabilidades no ato quanto o senhor.
      Edward observava-a, procurando palavras, o argumento que a convenceria.
      Ela comeou a prender uma liga.
      - O Peter ficou triste quando eu no consegui engravidar.
      Ele esperou.
      Anna suspirou, sem olhar para ele.
      - Acabou por ir ter com outra mulher.
      Pulha estpido e maldito. Edward afastou os cobertores e avanou para a janela.
      - Estava apaixonada por ele? - A pergunta soube-lhe a amargo, mas viu-se obrigado a faz-la.
      - No comeo, quando nos casmos. - Ela continuava a alisar a seda rasgada sobre as pernas. - Para o fim, no.
      - Compreendo. - E ele estava a pagar pelos pecados de outro homem.
      - No, no creio que compreenda.- Anna pegou na outra liga, ficando a olhar para ela nas suas mos. - Quando um homem trai uma mulher daquela forma, destri 
algo nela que julgo no poder ser recuperado.
      Edward olhava pela janela, tentando formar uma resposta. A sua felicidade futura dependia do que dissesse a seguir.
      - Eu j sei que a senhora  estril. - Voltou-se finalmente para a encarar. - Sinto-me feliz consigo tal como . Posso prometer-lhe que jamais arranjarei uma 
amante, mas apenas o tempo poder dar provas da minha fidelidade. Em ltima instncia, tem de confiar em mim.
      Anna esticou a liga entre os dedos.
      - No sei se consigo.
      Edward virou-se de novo para a janela, para que ela no visse a sua expresso. Pela primeira vez, apercebeu-se de que talvez no conseguisse convencer Anna 
a casar consigo, um pensamento que o fazia sentir-se quase em pnico.
      
      
      - Oh, por amor de Deus!
      - Chiu. Olhe que ele ouve-o - segredou Anna ao ouvido de Edward.
      Encontravam-se na conferncia vespertina de Sir Lazarus Lillipin sobre a rotao de culturas recorrendo s nabias e  beterraba forrageira. At quele momento, 
Edward discordara de quase tudo o que o pobre homem dissera. E no estava a guardar para si mesmo o que pensava sobre ele e as suas teorias.
      Olhava, furioso, para o orador.
      - No ouve nada. O homem  mais surdo do que uma porta.
      - Mas outros ouviro, com certeza.
      Edward olhou para ela, indignado.
      - Espero bem que sim. - E regressou ao que estava a ser dito.
      Anna suspirou. Ele no estava a comportar-se pior do que o resto da assembleia, antes bem melhor do que muitos. A assistncia s poderia ser descrita como 
"ecltica". Ia dos aristocratas vestidos com sedas e rendas at homens em botas enlameadas, fumando cachimbos de barro. Estavam todos reunidos num botequim pardacento 
que Edward lhe garantira ser perfeitamente respeitvel.
      Anna tinha as suas dvidas.
      Nesse preciso instante, desencadeou-se uma disputa efusiva no fundo da sala, entre um latifundirio e um dndi. Ela esperava que no chegasse a envolver punhos 
ou, at mesmo, espadas. Todos os aristocratas na sala se apresentavam com uma espada, como smbolo de estatuto. At mesmo Edward, que se abstinha desse enfatuamento 
no campo, embainhara de manh uma espada  cintura.
      Antes de sarem, pedira-lhe que tirasse notas dos pontos importantes da conferncia para que, mais tarde, ele os pudesse comparar com a sua prpria anlise. 
Anna fizera uns rabiscos indiferentes, sem saber se viriam a revelar-se teis. Grande parte da conferncia foi incompreensvel e ela sentia-se um pouco confusa relativamente 
ao que seria, de facto, uma beterraba forrageira.
      Comeou a suspeitar que a principal razo da sua presena era a oportunidade de Edward a ter debaixo de olho. Desde aquela manh, insistia teimosamente na 
argumentao de que deveriam casar-se.
      Parecia ter desenvolvido a impresso de que, se se limitasse a repetir esse argumento com frequncia, Anna acabaria por ceder. E talvez estivesse certo, caso 
ela conseguisse, pelo menos, vir a confiar nele.
      Fechou os olhos e pensou como seria ser a esposa de Edward. Andariam a cavalo de manh pelas propriedades, discutiriam sobre poltica e acerca de pessoas durante 
a ceia. Ele arrast-la-ia para conferncias arcanas, como aquela em que se encontravam. E partilhariam a mesma cama, todas as noites.
      Anna suspirou. Parecia uma viso paradisaca.
      Edward soltou um brado explosivo.
      - No, no, no! At mesmo um louco sabe que no se pode semear nabos a seguir a centeio!
      Anna abriu mais os olhos.
      - Se o homem lhe desagrada tanto, para qu assistir  sua apresentao?
      - Desagradar-me, o Lillipin? - parecia genuinamente surpreendido. -  um homem s direitas. Apenas de pensamento retrgrado, nada mais do que isso.
      O final da conferncia foi assinalado por uma salva de palmas, bem como por algumas vaias. Edward segurou-a possessivamente pela mo, comeando a acenar com 
o ombro na direco da porta.
      Uma voz cumprimentou-os, vinda da esquerda.
      - De Raaf! Atrado novamente a Londres pelo fascnio das beterrabas forrageiras?
      Edward parou, obrigando Anna a parar tambm. Ela espreitou por cima do ombro dele, vendo um cavalheiro excecionalmente elegante, com taces vermelhos.
      - Iddesleigh, no contava v-lo por c - disse Edward, movendo-se de forma a que Anna no conseguisse ver o rosto do homem.
      Ela tentou inclinar-se para a direita, mas foi impedida por um ombro volumoso.
      - Como poderia eu perder a retrica ardente do Lillipin sobre os nabos? - Uma mo envolta em renda acenou graciosamente no ar.- At abandonei as minhas premiadas 
rosas em flor para comparecer. A propsito, como vo as rosas que me adquiriu da ltima vez que esteve na capital? No sabia que se interessava por flores ornamentais.
      - O Edward comprou-lhe a si as minhas rosas? - Anna ultrapassou-o, tal era a sua ansiedade.
      Olhos cinzentos e glidos semicerraram-se.
      - Ora, ora, o que temos ns aqui?
      Edward tossicou.
      - Iddesleigh, permita-me que lhe apresente a senhora Anna Wren, a minha secretria. Senhora Wren, este  o visconde de Iddesleigh.
      Anna fez uma mesura, quando o visconde se curvou e puxou das suas lunetas. Os olhos cinzentos que a examinavam atravs das lentes eram bem mais acutilantes 
do que o estilo de discurso e o modo de vestir levariam a pensar.
      - A sua secretria? - indagou, arrastadamente, o visconde. - Fascinante. E, se bem me recordo, arrancou-me  cama s seis da manh para escolher as rosas - 
sorriu lentamente a Edward.
      Este esboou um esgar. Anna recuou.
      - Lorde Swartingham foi muito generoso ao deixar-me ficar com algumas das rosas que comprara para o jardim da manso - fabulou ela. - Elas esto bastante bem, 
posso garantir-lhe, excelncia. Alis, todas as rosas ramificaram e algumas esto j a desenvolver botes.
      Os olhos glidos do visconde regressaram aos dela e um canto da sua boca contraiu-se.
      - E defende a carria o corvo.3 - Curvou-se novamente, desta vez com maior exuberncia, murmurando a Edward: - Dou-lhe os parabns, caro amigo - antes de se 
esfumar na multido.
      A mo de Edward apertou o ombro de Anna, agarrando-a em seguida pelo cotovelo e impelindo-a para a porta. Uma amlgama de corpos bloqueava a entrada. Vrias 
discusses acaloradas estavam a ser levadas a cabo ao mesmo tempo, algumas pelas mesmas pessoas.
      Um jovem parou para assistir s discusses, com um olhar de desdm. Trazia um tricrnio ridiculamente pequeno, empoleirado no cimo de uma peruca polvilhada 
de amarelo, e um rabo-de-cavalo extravagantemente encaracolado. Anna jamais vira um dndi, mas estudara os desenhos que os representavam nos jornais. O jovem olhou 
para Anna quando eles se aproximaram da entrada. Os olhos dele abriram-se e transferiram-se para Edward. Inclinou-se e, quando o casal chegou ao passeio, murmurou 
algo a outro homem. A carruagem esperava no fim do quarteiro, numa rua menos movimentada. Ao voltarem a esquina, Anna olhou para trs.
      O dndi fitava-a ainda. Um arrepio percorreu-lhe a espinha, antes de se virar.
      Chilly ficou a ver a viva campnia a contornar a esquina de brao dado com um dos homens mais ricos de Inglaterra, o conde de Swartingham. No admirava que 
Felicity tivesse sonegado o nome do amante da viva. O potencial de lucro era enorme. E ele tinha uma perptua necessidade de dinheiro. Bastante, at. Os ornamentos 
de um cavalheiro londrino atento  moda no saam baratos.
      Os seus olhos semicerraram-se  medida que estimava quanto poderia pedir como primeiro pagamento. Felicity tivera uma bela ideia. Na ltima carta, implorara-lhe 
que contactasse Anna Wren em seu nome. Enquanto amante de lorde Swartingham, a senhora Wren deveria ter quilos de joias e outras prendas valiosas, que Felicity poderia 
converter em dinheiro. Obviamente, ela planeava chantagear a senhora Wren, deixando-o fora do esquema.
      Chilly fitou-os com desprezo. Agora que estava a par da tramia, poderia prescindir totalmente de Felicity. Alm do mais, ela nunca apreciara devidamente os 
seus desempenhos na cama.
      - Chilton, vieste ouvir a minha conferncia? - O seu irmo mais velho, Sir Lazarus Lillipin, estava nervoso.
      E tinha razes para tal, uma vez que Chilly localizara o irmo para lhe pedir um novo emprstimo. Claro que, agora que sabia de Anna Wren, j no precisaria 
do dinheiro do irmo. Por outro lado, aquele alfaiate havia sido bastante insolente na sua ltima comunicao. Um pouco de dinheiro extra nunca fizera mal a ningum.
      - Ol, Lazarus. - Deu o brao ao irmo e foi direto ao assunto.
      
      
      - Edward?
      - Hum? - Edward escrevinhava furiosamente  secretria. Retirara o casaco e o colete h bastante tempo e os punhos da camisa estavam sujos de tinta.
      As velas gotejavam. Anna suspeitava que Dreary se ausentara para o seu quarto; aps lhes enviar a ceia numa bandeja. O facto de o mordomo no se ter dado ao 
trabalho de pr a mesa da sala de jantar para a refeio dizia imenso acerca da experincia que tinha com o amo, depois das conferncias do Grmio Agrrio. Desde 
que haviam regressado que Edward estivera a escrever refutaes quilo que Sir Lazarus dissera.
      Anna suspirou. Levantando-se, caminhou at onde Edward trabalhava e comeou a brincar com o cachecol de gaze, enfiado no decote do seu vestido.
      - J  bastante tarde.
      - Sim? - ele nem sequer olhou para ela.
      - Sim.
      Ela encostou a anca  secretria e inclinou-se sobre o cotovelo dele.
      - Estou to fatigada...
      O cachecol desprendeu-se sobre um dos seios. A mo de Edward parou. Rodou a cabea para observar os dedos dela no peito, a centmetros da sua cara. O dedo 
anelar passeou-se entre os seios, metendo-se ento entre ambos.
      - No acha que est na hora de ir para a cama?
      Para dentro. Para fora. Para dentro. Para fora...
      Edward ps-se de p repentinamente, quase a derrubando. Agarrou-a e levantou-a nos braos.
      Anna agarrou-se ao pescoo dele, ao inclinar-se.
      - Edward!
      - Querida? - dirigiu-se at  porta do escritrio.
      - Os criados.
      - Se acha que, depois daquela pequena exibio - subia dois degraus de cada vez -, eu perderia tempo a preocupar-me com os criados, no me conhece.
      Alcanaram o piso de cima. Edward passou ao lado do quarto dela e parou no seu.
      - A porta - instigou ele.
      Ela rodou a maaneta e Edward abriu a porta com o ombro. Dentro do quarto, Anna viu, de relance, duas pesadas mesas cobertas de livros e papis. Mais livros 
amontoavam-se ao acaso sobre cadeiras e no cho.
      Ele atravessou o quarto para a colocar na sua enorme cama. Sem dizer palavra, virou-a e comeou a desabotoar-lhe o vestido. Anna susteve a respirao, subitamente 
tmida. Era a primeira vez que ela dava incio quele jogo depois de Edward saber quem ela era. Ele no parecia intimidado pela sua ousadia, contudo. Longe disso. 
Anna sentia distintamente as pontas dos dedos dele a percorrerem-lhe a coluna atravs das camadas de roupa. O vestido caiu-lhe em volta dos ombros e Edward puxou-o, 
at a libertar dele. Desprendeu, ento, as suas peas de roupa interior uma a uma, bem como os espartilhos. Ela estava diante dele apenas de combinao e meias. 
Os olhos de Edward estavam densos e intensos, com um olhar srio ao passar o polegar pela ala da combinao dela.
      - Linda - sussurrou ele.
      Dobrou-se e beijou-a sobre o ombro, fazendo cair a ala. Ela arrepiou-se. Se por causa do toque ou do olhar, no saberia dizer. No podia continuar a fingir 
que a relao entre ambos era meramente fsica, Edward sentiria certamente o mesmo. Sentiu-se exposta.
      Os lbios dele deslizavam pela sua pele sensvel, mordiscando-a. Passou para o outro ombro, fazendo cair a outra ala. Suavemente, baixou um pouco a camisa, 
descobrindo-lhe os seios. Os mamilos dela estavam j empertigados. Edward abriu as mos sobre cada um dos seios, com palmas quentes e possessivas. Parecia examinar 
o contraste entre as suas mos escuras e a pele branca dela. O seu rosto ardia. Anna imaginou os seus mamilos cor-de-rosa a espreitarem por entre aqueles dedos calejados, 
deixando descair a cabea para trs, como se lhe pesasse.
      Ele apertou-lhe os seios.
      Anna empurrou-se contra as mos dele. Sentia-lhe o olhar no seu rosto. Edward despiu-lhe ento a combinao e levou-a para a cama. Ela ficou a v-lo despir 
rapidamente as roupas e baixar-se junto a ela. A mo dele percorreu o seu ventre nu. Anna levantou os braos para o puxar para si, mas ele agarrou-lhe delicadamente 
os pulsos e colocou-os junto  cabea. Depois, deslizou pelo seu corpo abaixo, at ficar com a cabea ao nvel do ventre. Colocou as mos nas virilhas dela, afastando-lhe 
as pernas.
      - H uma coisa que sempre quis fazer com uma mulher. - a voz dele soava aveludada.
      Que queria ele dizer? Assustada, ela resistiu. Quereria ele fazer aquilo? Nessa manh, fora diferente, j que estava meio a dormir. Agora, estava completamente 
desperta.
      - No  uma coisa que um homem possa fazer com uma prostituta - disse ele.
      Oh, Deus, ser que ela podia fazer isto? Expor-se to intimamente? Esticou o pescoo para olhar o rosto dele.
      O seu olhar mostrava-se implacvel. Edward queria aquilo.
      - Deixe-me, por favor.
      Corando, Anna deitou-se, rendendo-se a ele e  sua vontade. Deixou que os joelhos se afastassem, sentindo como se estivesse a oferecer-lhe uma prenda de amor. 
Ele observou as pernas dela a abrirem-se mais e mais, at se ver ajoelhado entre as suas coxas afastadas, com os seus lugares mais ntimos agora expostos. Anna fechou 
bem os olhos, incapaz de o ver a observ-la.
      Edward no fez mais nada e, por fim, ela j no suportava esperar mais. Abriu os olhos. Ele fitava o mais feminino dos rgos dela, de narinas dilatadas, a 
boca comprimida numa expresso to possessiva que at assustava.
      Anna sentiu a sua abertura a contrair-se, em reao. De dentro dela, escorria um fluido.
      - Preciso de si - suspirou ela.
      Ento, ele assustou-a verdadeiramente, mergulhando a lngua na sua vagina molhada.
      - Oh!
      Olhou para a cara dela e lambeu-lhe lentamente os lbios da vulva.
      - Quero sabore-la e chup-la at se esquecer do seu nome - sorria carnalmente. - At me esquecer do meu prprio nome.
      Anna arqueou-se e expirou mal ouviu aquelas palavras, mas as mos dele estavam agora nas suas ancas, segurando-a. A lngua dele perscrutava as dobras da sua 
feminilidade, cada golpe de lngua a atingi-la mais intimamente. Encontrou o clitris e lambeu.
      E ela perdeu a cabea. Um longo e gutural gemido desprendeu-se da sua boca. Com os punhos, Anna retorceu a almofada, de cada lado da sua cabea. As suas ancas 
subiram. Mas ele no se deixaria afastar do seu objetivo. Edward passou a lngua continuamente pela sua salincia at ela se sentir em xtase e, despudoradamente, 
pressionar a plvis contra o rosto dele.
      Ento, ele colocou o clitris dela entre os lbios e chupou ao de leve.
      - Edward! - Aquele nome invocava-se nela  medida que uma vaga de calor lhe invadia o corpo, expandindo-se at aos dedos dos ps.
      Ele ps-se em cima dela, invadindo-a com o seu pnis, antes de ela ter tido tempo de abrir os olhos. Anna tremia e agarrava-o, enquanto ele investia contra 
a sua carne ultrasensvel. E sentiu a vaga a crescer, transportando-a nos seus movimentos. As suas coxas vibravam irresistivelmente abertas e ela esfregava a sua 
plvis contra a ereo dele. Edward respondeu metendo os braos por baixo dos joelhos dela e empurrando-lhe as pernas para junto dos ombros. Estava to aberta quanto 
possvel, exposta e dominada,  medida que ele a amava. A medida que recebia tudo o que ele tinha para lhe dar.
      - Deus! - O som rebentou nos lbios dele, mais gutural do que propriamente verbal. O seu enorme corpo tremia inapelavelmente, endurecendo-se contra ela.
      A viso de Anna dividia-se em pequenos arco-ris, enquanto ele arremetia continuamente a sua enrgica carne na pele sensvel. Ela arfava. Queria que aquele 
momento jamais terminasse; agora, estavam ligados, de corpo e alma.
      At que Edward se deixou cair sobre ela, com o peito a receber enormes baforadas de ar. Ela passou as mos pelas ndegas dele, de olhos ainda fechados, tentando 
fazer perdurar aquela intimidade. Oh, como ela desejava aquele homem! Queria abra-lo assim amanh e por mais cinquenta anos. Queria estar do seu lado quando ele 
acordasse a cada manh, queria que a voz dele fosse a ltima a ser ouvida antes de adormecer,  noite.
      Edward mexeu-se ento e virou-se de costas. Anna sentiu o ar fresco a acariciar-lhe a pele molhada. Um brao robusto puxou-a para junto dele.
      - Tenho uma coisa para si - disse ele.
      Anna sentiu um leve peso no peito, pegando no volume. Era O Prncipe Corvo. Pestanejou para contrariar as lgrimas e ps as mos sobre a capa de couro vermelho, 
sentindo por baixo dos dedos os recortes da pena embutida.
      - Mas, Edward, isto era da sua irm, no era?
      Ele assentiu.
      - E agora  seu.
      - Mas...
      - Chiu! Quero que fique com ele.
      Beijou-a com tal ternura, que Anna sentiu o corao encher-se e transbordar de emoo. Como poderia ela continuar a negar o seu amor por aquele homem?
      - Eu... eu acho... - comeou ela.
      - Silncio, querida. Falaremos de manh - murmurou ele roucamente.
      Anna suspirou e aninhou-se nele, inalando o seu forte aroma masculino. H anos que no se sentia assim to abenoadamente feliz. Talvez nunca se tivesse sentido 
assim.
      A manh no tardaria a chegar.
      

  Captulo 21





       urea e a velhota partilharam a cdea de po diante do escasso lume. Quando urea engoliu o ltimo pedao, a porta abriu-se, por ela entrando um homem alto
e atltico. Uma rajada de vento fez
       a porta fechar-se.
       - Como se sente, minha me? - disse, cumprimentando a velhota. A porta abriu-se uma vez mais. Desta vez, entrou um homem de cabelos em p, como a penugem
de um dente-de-leo. - Uma boa noite para si, minha me - disse ele. Depois, outros dois homens surgiram, com o vento a assobiar atrs deles. Um era alto e bronzeado,
o outro rechonchudo e de
       faces ruborizadas.
       - Ol, me - cumprimentaram ambos. Os quatro homens sentaram-se junto  lareira e, ao fazerem-no, as chamas aumentaram e tremeram, o p girou e enrolou-se
no cho, perto dos seus ps. - J adivinhou quem sou?- A velhota sorria para urea, exibindo a boca desdentada. - Estes so os Quatro Ventos e eu sou a me deles...
       in O Prncipe Corvo



      Na manh seguinte, Anna sonhava com um beb de olhos pretos, quando uma voz masculina se riu ao seu ouvido e a acordou.
      - Nunca vi ningum que dormisse to profundamente. - Lbios percorreram o espao entre o lbulo da sua orelha e o queixo.
      Ela sorriu. Ia chegar-se a ele quando descobriu que no havia um corpo quente junto de si. Confusa, abriu os olhos. Edward estava ao lado da cama, j vestido.
      - O que...?
      - Vou encontrar-me com o Gerard. Chiu... - Ps-lhe um dedo sobre os lbios, quando ela ia para falar. - Volto assim que puder. Faremos planos quando regressar. 
- Dobrou-se para lhe dar um beijo, que lhe dispersou os pensamentos. - No saia da minha cama.
      E saiu sem que ela tivesse tempo de dizer fosse o que fosse. Anna suspirou, rebolando sobre si mesma.
      Quando acordou novamente, uma criada corria as cortinas. A rapariga olhou para cima, quando ela se espreguiou.
      - Oh, j acordou, minha senhora. Trouxe-lhe um pouco de ch e pezinhos frescos.
      Anna agradeceu  criada e sentou-se para receber a bandeja. Reparou numa folha dobrada junto  chaleira.
      - O que  isto?
      A criada olhou.
      - No sei, senhora, juro. Um rapaz entregou-a  porta e disse que era para a senhora que estava na casa. - Fez uma vnia e partiu.
      Anna serviu uma chvena de ch e pegou na folha de papel. Estava um pouco suja. Fora selada com cera no verso, mas sem marca alguma. Usou a faca da manteiga 
para a abrir, levando a chvena  boca enquanto lia a primeira linha. A chvena bateu contra o pires.
      Era um bilhete de chantagem.
      Anna ficou a olhar para aquela coisa horrvel. O autor vira-a na Gruta de Afrodite e sabia que ela se encontrara l com Edward. Em termos srdidos, ameaava 
contar  famlia Gerard. Ela poderia impedir esse desastre, caso aparecesse no salo da Gruta de Afrodite nessa mesma noite s nove horas. Outra condio era que 
levasse cem libras escondidas num agasalho.
      Anna ps a folha de lado e contemplou o ch que arrefecia e os sonhos que se desvaneciam. Momentos antes, a felicidade parecera-lhe estar extremamente perto. 
Quase lhe pusera a mo em cima, quase sentira o bater das suas asas. Mas, depois, precipitara-se e escapara, deixando-a de mos a abanar.
      Uma lgrima caiu-lhe da face, sobre a bandeja do pequeno-almoo.
      Mesmo que dispusesse de cem libras, o que no acontecia, o que levaria o chantagista a no pedir a mesma soma uma vez mais? E outra ainda? Poderia at subir 
o preo do seu silncio. Estando prestes a tornar-se condessa de Swartingham, era, sem dvida, um alvo preferencial. E de pouco valia Edward estar, naquele preciso 
instante, a romper o seu noivado com a menina Gerard. Estaria desgraada, se o resto da sociedade viesse a saber das suas visitas  Gruta de Afrodite.
      Pior, Edward insistiria em casar com ela fosse como fosse, independentemente do escndalo. Ela traria vergonha e catstrofe sobre o conde e o seu nome, esse 
nome que tinha tanto significado para ele. No podia, de modo algum, destru-lo desta forma. Havia apenas uma coisa a fazer. Anna tinha de abandonar Londres e Edward. 
De imediato, antes que ele regressasse.
      No via outra maneira de o proteger.
      
      
      - Vai recusar a minha filha por uma... uma...! - O rosto de Sir Richard escurecera, assumindo um perigoso tom castanho-escuro. Parecia estar  beira de um 
ataque de apoplexia.
      - Uma viva de Little Battleford - concluiu Edward a frase do outro homem, antes que ele encontrasse uma descrio menos apropriada de Anna. - Sim, senhor.
      Os dois homens estavam frente a frente, no escritrio de Sir Richard.
      A sala fedia a fumo de tabaco. As paredes, j de uma cor lamacenta, estavam ainda mais escuras devido aos efeitos da fuligem, que comeavam a meio para desaparecerem 
nas trevas, junto ao teto. Um nico quadro a leo pendia, ligeiramente torto, por cima da lareira. Era uma cena de caa, com ces brancos e castanhos a rodearem 
uma lebre. Momentos antes de ser despedaada, os olhos da lebre, negros e inexpressivos, pareciam serenos. Sobre a secretria, dois clices de cristal meio cheios 
esperavam com o que seria, sem dvida, um belo brande.
      Nenhum dos copos fora tocado.
      - O senhor brincou com o bom nome da Sylvia. Hei-de lev-lo  runa por isto - vociferou Sir Richard.
      Edward suspirou. A discusso amargara mais do que o esperado. E a peruca, como sempre, estava a fazer-lhe comicho. Iria o velhote desafi-lo? O visconde de 
Iddesleigh nunca lhe explicara tudo at ao fim, na eventualidade de Edward se ver desafiado para um duelo com um baronete corpulento que sofria de gota.
      - A reputao da menina Gerard no sofrer com isto - disse Edward, to serenamente como possvel. - Anunciaremos que ela me rejeitou.
      - Lev-lo-ei a tribunal, senhor, por quebra de promessa!
      Edward semicerrou os olhos.
      - Para perder. Disponho de infinitamente mais fundos e contactos do que o senhor. No casarei com a sua filha. - Edward deixou que a sua voz se tornasse mais 
suave.- Alm disso, o tribunal apenas serviria para pr nas bocas de Londres o nome da menina Gerard. Nenhum de ns deseja isso.
      - Mas ela passou os ltimos tempos  procura do marido certo. - A pele pendente por baixo do queixo de Sir Richard tremia.
      Ah! Ali estava o verdadeiro motivo para a irritao do homem. Estava menos preocupado com o nome da sua filha do que com a perspectiva de ter de lhe custear 
uma nova corte. Por um instante, Edward sentiu pena da rapariga, por ser filha de tal pai. Depois, aproveitou a abertura.
      - Como  natural - murmurou ele -, desejaria recompens-lo pela sua desiluso.
      Os cantos dos pequenos olhos de Sir Richard enrugaram-se gananciosamente. Mentalmente, Edward dedicou uma orao de agradecimento a quaisquer que fossem os 
deuses que estivessem a velar por ele. Fora por um triz que escapara a ter este homem como sogro.
      Vinte minutos mais tarde, Edward saiu para a claridade da escadaria principal da casa dos Gerard. O velhote fora um regateador empenhado. Como um buldogue 
recusando-se a abdicar da ponta de um osso, rosnara e puxara e meneara furiosamente a cabea, mas acabaram por chegar a um acordo. Edward tinha os bolsos consideravelmente 
mais leves, em resultado disso, mas livrara-se da famlia Gerard. Agora, s faltava voltar para Anna e planear o casamento.
      Edward sorriu. Se a sorte continuasse a bafej-lo, ela ainda estaria na cama.
      Assobiando, desceu a correr os degraus at  carruagem. Apenas parou para arrancar a maldita peruca da cabea, atirando-a para o cho antes de entrar no veculo. 
Olhou pela janela quando a carruagem se ps em marcha. Um vagabundo experimentava a peruca, averiguando se lhe serviria. A peruca polvilhada, com os seus rijos caracis 
laterais e rabo-de-cavalo, contrastava de forma abstrusa com as roupas imundas do homem e com o rosto por barbear. O vagabundo dobrou-se, ps as mos nas pegas do 
seu carrinho e partiu alegremente.
      Quando a carruagem parou diante da casa citadina, Edward cantarolava. Com os Gerard fora do caminho, no via razo alguma para no ser um homem casado da 
por um ms. Ou uma quinzena, se conseguisse uma licena especial.
      Atirou com o tricrnio e a capa para as mos de um criado e subiu os degraus da escada de dois em dois. Ainda lhe faltava conseguir o consentimento de Anna, 
mas, depois da ltima noite, estava certo de que ela capitularia em breve.
      Ao chegar aos cimo das escadas, virou para o corredor.
      - Anna! - abriu a porta do quarto com um empurro. - Anna, eu...
      Estacou repentinamente. Ela no estava na cama.
      - Maldio.
      Passou pela porta de ligao, at  sala de estar. Tambm estava vazia. Proferiu um suspiro de exasperao. Ao regressar ao quarto, espreitou pela porta e 
gritou por Dreary. Depois, percorreu a diviso. Onde se metera a mulher? A cama estava feita, as cortinas corridas; o lume extinguira-se na lareira. Ela devia ter 
abandonado o quarto h j algum tempo. Reparou no livro vermelho de Elizabeth pousado sobre a cmoda. Por cima dele, um pedao de papel.
      Comeou a dirigir-se para o livro, quando Dreary entrou no quarto.
      - Excelncia?
      - Onde est a senhora Wren? - Edward pegou no papel dobrado. O seu nome aparecia escrito na face, com a letra de Anna.
      - A senhora Wren? Um criado informou-me que ela ter deixado a casa por volta das dez da manh.
      - Sim, mas para onde foi ela, homem? - Edward abriu a mensagem e comeou a l-la.
      - Nada mais sei. A senhora no disse onde... - A voz do mordomo zunia ao longe,  medida que Edward compreendia as palavras escritas na mensagem.
      "Lamento imenso... tenho de partir... Sempre sua, Anna."
      - Excelncia?
      Ela desaparecera.
      - Excelncia?
      Abandonara-o.
      - Est tudo bem, excelncia?
      - Ela foi-se embora - sussurrou Edward.
      Dreary ainda disse uma ou outra coisa e, depois, deve ter sado, visto que, passado um tempo, Edward deu por si sozinho. Sentou-se diante de um lume extinto, 
sozinho no seu quarto. No entanto, at h bem pouco tempo, era a isso que estava habituado. A estar sozinho.
      
      
      A roda da diligncia passou por um buraco na estrada, o que a fez estremecer.
      - Ai! - exclamou Fanny. Esfregou o cotovelo, que chocara com a porta. - A carruagem de lorde Swartingham decerto teria amortecedores em melhores condies.
      Anna murmurou um assentimento, mas, na realidade, pouco lhe importava. Deveria estar a fazer planos, a decidir para onde ir quando chegassem a Little Battleford. 
A pensar numa forma de fazer dinheiro. Mas, naquele momento, era-lhe terrivelmente difcil pensar, mais ainda fazer planos. Era bem mais fcil ficar a olhar pela 
janela da diligncia e deixar que esta a levasse aonde quer que fosse. Em frente delas, o nico outro ocupante da diligncia, um pequeno homem de peruca cinzenta, 
tinha a cabea apoiada numa das mos, ressonando. Adormecera assim que comearam a viagem, em Londres, e nunca mais acordara, apesar dos solavancos da diligncia 
e das frequentes paragens. Pelo cheiro que dele emanava, uma pungente mistura de gim, vomitado e odores corporais, no acordaria nem que soassem trombetas a anunciar 
um novo Cristo. No que isso interessasse particularmente a Anna.
      - Acha que estaremos em Little Battleford ao cair da noite? - perguntou Fanny.
      - No sei.
      A criada suspirou, ajeitando o avental. Anna sentiu um breve instante de culpa. No dissera a Fanny porque estavam a ir-se embora de Londres quando a acordara 
nessa manh. Alis, quase no falara  rapariga desde que tinham abandonado a casa citadina de Edward.
      Fanny tossicou.
      - Acha que o conde vir atrs de ns?
      - No.
      Silncio.
      Anna olhou para a criada, que levantara o sobrolho.
      - Pensei que estivesse prestes a casar com o conde!?- A rapariga enunciou a frase como se fosse uma pergunta.
      - No.
      A boca de Fanny tremeu.
      Anna falou com mais suavidade:
      -  muito pouco provvel, no ? Um conde e eu?
      - E provvel, se ele a amar - disse a criada com sinceridade. - E lorde Swartingham ama-a, toda a gente o diz.
      - Oh, Fanny. - Anna voltou os olhos para a janela, tentando evitar as lgrimas.
      - Enfim,  possvel - insistiu a rapariga. - Para alm disso, a senhora tambm ama o conde. Por isso, no vejo porque haveremos de voltar a Little Battleford.
      -  mais complicado do que isso. Eu... eu seria uma imputabilidade para ele.
      - Uma qu? - A boca de Fanny comprimiu-se.
      - Uma imputabilidade. Uma espada sobre o seu pescoo. No posso casar-me com ele.
      - No vejo porque... - Fanny interrompeu-se, no momento em que a carruagem parava junto a uma estalagem.
      Anna aproveitou gratamente a interrupo.
      - Vamos descer e esticar as pernas.
      Deixando para trs o terceiro passageiro ainda adormecido, saltaram as duas da diligncia. No terreiro, andavam cavalarios de um lado para o outro, segurando 
o grupo de cavalos, descarregando bagagens do cimo da diligncia e trazendo outras em substituio. O cocheiro debruou-se do seu banco, gritando mexericos ao responsvel 
pela estalagem. Para se juntar ao barulho e  confuso, uma carruagem privada estava igualmente estacionada na estalagem. Vrios homens inclinavam-se sobre um dos 
cavalos da direita, examinando-lhe a pata. O animal parecia ter perdido uma ferradura ou ficado manco.
      Anna deu o brao a Fanny e colocaram-se ambas debaixo dos beirais da estalagem, para no ficarem no caminho da correria dos homens. Fanny apoiava-se num p 
e depois no outro e, por fim, revelou:
      - D-me licena, minha senhora. Tenho de ir  casa de banho.
      Anna assentiu e a pequena criada retirou-se. Ficou a ver, distraidamente, os homens a cuidar do cavalo manco.
      - Quando exatamente  que a carruagem ficar pronta? - exclamou uma voz estridente. - J estou h uma hora  espera nesta estalagem imunda.
      Anna ficou transida com aqueles sons familiares. Oh, meu Deus... Felicity Clearwater, no era possvel! Agora no. Encolheu-se contra a parede da estalagem, 
mas o destino, hoje, no estava para brincadeiras. Felicity Clearwater saiu da estalagem e viu-a de imediato.
      - Anna Wren. - A boca da outra mulher apertou-se at indesejadas rugas lhe irradiarem dos lbios. - Finalmente. - Avanou e agarrou-a impositivamente pelo 
brao. - No acredito que tive de viajar quase at Londres para falar consigo. Tive de arrefecer os ps nesta estalagem desgraada. Ora, oua com ateno. - Felicity 
sacudia-lhe o brao, para dar nfase. - No quero voltar a repetir-me. Sei tudo sobre o seu envolvimento na Gruta de Afrodite.
      Anna sentiu os olhos a dilatar-se.
      - Eu...
      - No. - Felicity sobreps-se.- No tente neg-lo. Tenho uma testemunha. E sei que se encontrou com o conde de Swartingham nesse lugar. A guindar-se a voos 
muito altos, no? Jamais o teria previsto, tendo em conta o "ratinho tmido" que .
      Por instantes, a outra mulher quase pareceu curiosa, mas refez-se e prosseguiu sem que Anna conseguisse pr a sua boca a trabalhar.
      - Mas isso no interessa nada. Esta  que  a parte importante - Felicity sacudiu novamente o brao de Anna, desta vez com mais fora. - Quero o meu medalho 
de volta e a carta que est nele. E, se alguma vez disser palavra sobre mim e o Peter, assegurar-me-ei de que todas as almas de Little Battleford ficaro a saber 
da sua indiscrio. A senhora e a sua sogra sero expulsas. Tratarei disso mesmo pessoalmente.
      Os olhos de Anna escancararam-se. Como se atrevia...?
      - Espero - deu-lhe um ltimo abano violento - ter-me feito entender. - Felicity assentiu com a cabea, como se tivesse posto cobro a um pequeno assunto domstico. 
O despedimento de uma criada impertinente, talvez. Desagradvel, mas necessrio. Passava agora a questes mais importantes. Voltou-se para ir-se embora.
      Anna fitava-a, embasbacada.
      Felicity pensava verdadeiramente que ela era um "ratinho tmido", que cederia por medo das ameaas da amante do seu marido. E no seria? Estava a fugir do 
homem que amava. O homem que cuidara dela e que queria casar com ela. Em fuga por causa de uma chantagem imunda. Anna sentia-se envergonhada. No admirava que a 
mulher pensasse que podia pr-lhe o p em cima!
      Anna lanou a mo e agarrou a outra mulher pelo ombro. Felicity quase caiu no meio da imundcie da estalagem.
      - O que...?
      - Oh, fez-se entender muito bem - bramiu Anna, ao encostar a mulher mais alta contra a parede. - Mas enganou-se numa pequenina coisa: que eu temeria as suas 
ameaas. Se eu no me importar com o que disser sobre mim, ento, no tem nada com que me atacar, no ser, senhora Clearwater?
      - Mas a senhora...
      Anna assentiu, como se Felicity tivesse dito algo de muito profundo.
      -  isso mesmo. Mas eu, pelo contrrio, tenho entre mos algo de substancial acerca de si: o facto de se ter envolvido com o meu marido.
      - Eu... eu...
      - E, se a memria no me falha - Anna tocou o rosto com um dedo, numa pardia de espanto -, no ter sido por altura da concepo da sua filha mais nova, aquela 
que tem o cabelo ruivo como o Peter?
      Felicity ficou colada  parede, olhando para Anna como se esta tivesse desenvolvido um terceiro olho mesmo no centro da testa.
      - Diga-me l o que pensaria o squire disto? - perguntou Anna docemente.
      A outra mulher tentou recuperar.
      - Mas pense assim...
      Anna ergueu um dedo junto da cara dela.
      - No. Pense a senhora assim. Se alguma vez tentar ameaar-me, a mim ou a algum que eu ame, contarei a todos os habitantes de Little Battleford que ia para 
a cama com o meu marido. Mandarei imprimir folhetos para serem entregues em cada casa e barraca do Essex. Alis, contarei ao pas inteiro. O melhor mesmo ser abandonar 
Inglaterra.
      - No seria capaz disso - exasperou Felicity.
      - No? - Anna sorriu, nada simpaticamente. - Experimente.
      - Isso ...
      - Chantagem, sim. A senhora sabe bem o que isso .
      O rosto de Felicity ficou lvido.
      - Ah... e mais uma coisa. Preciso de me deslocar a Londres. Imediatamente. Levarei a sua carruagem. - Anna deu meia volta e lanou-se para a carruagem, pegando 
em Fanny, que estava especada  porta da estalagem.
      - E como voltarei eu a Little Battleford? - berrou Felicity ao longe.
      Anna nem se deu a trabalho de se virar.
      - Pode ficar com o meu lugar na diligncia.
      
      
      Edward estava sentado num cadeiro de couro estalado, na biblioteca da sua casa citadina, pois no conseguia suportar as memrias no seu quarto.
      Havia uma estante de livros, para fazer jus ao nome da sala. Volumes religiosos e empoeirados preenchiam as prateleiras, alinhados em fila como campas num 
cemitrio, intactos h geraes. A nica janela estava coberta de veludo azul, puxado para um dos lados por um denegrido cordo dourado. Edward via o contorno fantasmagrico 
do telhado do prdio em frente. H pouco, o sol poente, tingido de vermelho, havia recortado as vrias chamins no telhado. Agora, estava praticamente escuro, l 
fora.
      A sala estava fria, porque o fogo se extinguira.
      Viera uma criada h algum tempo - ele no sabia ao certo quando - para reacender a lareira, mas ele mandara-a embora. Ningum o incomodara desde ento. Aqui 
e ali, ouvia vozes murmurantes no corredor, mas ignorava-as.
      No lia.
      No escrevia.
      No bebia.
      Estava simplesmente sentado, com o livro no colo, e pensava e olhava para lado nenhum,  medida que a noite o envolvia. Jock tocava-lhe na mo de vez em quando, 
mas tambm esse contacto ele ignorava, at que o co desistiu e se deitou ao seu lado.
      Seriam as bexigas? Ou o seu feitio? No teria ela gostado da sua maneira de fazer amor? Andaria ele demasiado absorvido pelo seu trabalho? Ou poderia dar-se 
o caso de, simplesmente, no o amar?
      Apenas isto. To pouco e, porm, tudo.
      Se o seu ttulo, a sua riqueza, o seu - oh, Deus! -, o seu amor, no lhe diziam nada, ento nada tinha. O que a levara a partir? Era uma pergunta  qual no 
conseguia encontrar resposta. Uma pergunta que no lhe dava trguas. Envolvia-o, consumia-o, tornara-se na nica coisa que importava. Porque, sem ela, nada mais 
havia. A sua vida estendia-se diante dos seus olhos em tons cinzentos e fantasmagricos.
      Sozinho.
      No tinha ningum para lhe tocar a alma como Anna fazia, que lhe transmitisse a plenitude que ela lhe proporcionara. Ele nem sequer reparara at ela ter desaparecido, 
mas, sem ela, sentia um enorme vazio dentro de si.
      Poderia um homem viver com um vazio assim dentro de si?
      Mais tarde, Edward reparou vagamente num alarido de vozes que se aproximavam pelo corredor. A porta da biblioteca abriu-se, revelando o visconde de Iddesleigh.
      - Oh, que bela viso. - O visconde fechou a porta. Pousou a nica vela que trazia sobre uma mesa e atirou a capa e o chapu para cima de uma cadeira. - Um 
homem forte e inteligente deprimido por uma mulher.
      - Simon, v-se embora. - Edward no se mexeu, nem sequer voltou a cabea para o intruso.
      - Iria, meu rapaz, se no tivesse uma conscincia. - A voz de Iddesleigh ecoava sinistramente pela sala. - Mas, na verdade, tenho conscincia, o que  um incmodo 
maldito. - O visconde ajoelhou-se junto  lareira fria, comeando a reunir uma pilha de gravetos.
      Edward franziu ligeiramente o nariz.
      - Quem o enviou?
      - O seu estranho velhote - Iddesleigh esticou-se para a escotilha de carvo. - Davis, creio? Estava preocupado com a senhora Wren. Parece que lhe ganhou afeto, 
um pouco como se uma franga pudesse impressionar um cisne. Talvez tambm estivesse preocupado consigo, mas era difcil perceber. No consigo entender porque continua 
com aquela criatura.
      Edward no respondeu.
      Iddesleigh amontoou delicadamente pedaos de carvo em volta dos gravetos. Era estranho ver o fastidioso visconde a fazer um trabalho to sujo. Edward no 
suspeitava que ele soubesse como atear um fogo.
      Iddesleigh disse por cima do ombro:
      - Ento, o que planeia fazer? Ficar aqui sentado at gelar? Um pouco passivo, no?
      - Simon, por amor de Deus, deixe-me em paz.
      - No, Edward. Por amor de Deus, e de si, ficarei. - Iddesleigh riscou pedra contra ao, mas a mecha no pegou.
      - Ela foi-se embora. O que quer que faa?
      - Pea desculpa. Compre-lhe um colar de esmeraldas. Ou, no caso desta senhora, talvez rosas sejam preferveis. - Uma fagulha pegou e comeou a envolver o carvo. 
- Tudo menos ficar aqui sentado.
      Pela primeira vez, Edward agitou-se, um desconfortvel mexer de msculos ainda muito arrastado.
      - Ela no me quer.
      - Ora, isso - disse Iddesleigh, levantando-se e puxando de um leno -  uma mentira absoluta. Vi-a consigo, recorda-se, na conferncia do Lillipin? A senhora 
est apaixonada por si, embora s Deus saiba porqu. - Limpou as mos ao leno, deixando-o negro, contemplando ento o arruinado quadrado de seda por um instante, 
antes de o lanar para as chamas.
      Edward virou a cabea, olhando para o vazio.
      - Ento, por que me abandonou ela? - murmurou ele.
      Iddesleigh encolheu os ombros.
      - Que homem conhece a mente de uma mulher? Eu no, certamente. Talvez tenha dito alguma coisa que a ofendeu, praticamente certo que o fez, alis. Ou talvez 
Londres lhe tenha causado um sbito desagrado. Ou - mergulhou a mo no bolso do casaco, estendendo um pedao de papel entre dois dedos - talvez tenha sido chantageada.
      - O qu? - Edward deu um pulo e pegou no papel. - De que est a falar... - A sua voz foi sumindo  medida que lia a maldita mensagem. Algum ameaara Anna. 
A sua Anna.
      Levantou os olhos.
      - Onde raio  que conseguiu isto?
      Iddesleigh mostrou-lhe as palmas das mos.
      - O Davis, uma vez mais. Deu-me isto l em baixo. Ao que parece, estava na lareira do seu quarto.
      - O grande filho-da-me. Quem  este homem? - Edward brandiu o papel antes de, violentamente, o amachucar numa bola e o atirar para o fogo.
      - No fao ideia - disse Iddesleigh. - Mas deve frequentar a Gruta de Afrodite, para saber tanto.
      - Caramba! - Edward saltou da cadeira e enfiou os braos no casaco. - Quando o apanhar, ficar incapaz de visitar uma rameira. Corto-lhe os testculos. E depois 
vou atrs da Anna. Porque se atreveu ela a no me contar que algum a ameaara? - Parado subitamente por um pensamento, Edward voltou-se para Iddesleigh. - Porque 
no me atribuiu logo esse papel?
      O visconde voltou a encolher os ombros, impassvel perante aquele acesso de m disposio.
      - O chantagista no estar na Gruta antes das nove. - Puxou de um canivete e comeou a limpar por baixo da unha do polegar. - Ainda s so sete e meia. No 
me pareceu haver razo para apressar as coisas. Talvez possamos comer qualquer coisa antes?
      - Se o senhor no se revelasse til de vez em quando - resmungou Edward -, j o teria estrangulado.
      - Oh, sem dvida. - Iddesleigh ps de lado o canivete e apanhou a capa. - Mas seria bom levarmos, pelo menos, um pouco de po e queijo na carruagem.
      Edward esboou um esgar.
      - O senhor no vem comigo.
      - Receio bem que v. - O visconde ajustou o tricrnio no ngulo perfeito, diante do espelho junto  porta. - E o Harry tambm. Est  espera no vestbulo.
      - Porqu?
      - Porque, meu caro amigo, esta  uma daquelas ocasies em que posso ser til - Iddesleigh sorriu ferozmente. - Ir precisar de testemunhas, no  assim?
      

  Captulo 22





       A velhota sorriu, face  expresso surpreendida de urea. - Os meus filhos calcorreiam os quatro cantos da Terra. No h homem, ave ou criatura que no conheam.
Do que anda  procura? Ento, urea falou-lhe do seu estranho matrimnio com o Prncipe Corvo, dos seus servos areos, da sua procura pelo marido perdido.
       Os primeiros trs ventos menearam a cabea, compassivamente. Nunca tinham ouvido falar do Prncipe Corvo. Mas o Vento Oeste,
       o filho alto e atltico, hesitou. - H algum tempo, um passarinho contou-me uma histria estranha. Disse-me que havia um castelo nas nuvens, no qual os pssaros
falavam com vozes humanas. Se quiserdes, poderei
       levar-vos at l.
       urea ps-se s cavalitas do Vento Oeste e, com os braos, agarrou-se bem ao seu pescoo, para no cair, pois este voa mais velozmente
       do que qualquer ave...
       in O Prncipe Corvo



      Harry ajeitou, uma vez mais, a mscara de seda preta.
      - Diga-me novamente porque temos de ir mascarados, excelncia.
      Edward percutia os dedos na porta da carruagem, desejando que pudessem galopar pelas ruas de Londres.
      - Houve um pequeno desentendimento da ltima vez que estive na Gruta.
      - Um desentendimento... - A voz de Harry soou relativamente suave, reservada.
      -  melhor que no me reconheam.
      - Ah, sim? - Iddesleigh parou de brincar com a sua mscara. Estava fascinado. - No sabia que esse estabelecimento impedia a entrada a determinadas pessoas. 
O que fez o senhor, ao certo?
      - No interessa - Edward acenou uma mo impaciente. - Tudo o que devem saber  que temos de ser discretos quando entrarmos.
      - E o Harry e eu tambm estamos mascarados porque...?
      - Porque, se este homem me segue ao ponto de saber do meu compromisso com a menina Gerard, saber tambm que os trs somos camaradas.
      Harry grunhiu um aparente assentimento.
      - Ah! Nesse caso, talvez devssemos mascarar tambm o co. - O visconde fitava Jock, sentado no banco perto de Harry. O co espiava, atento, pela janela.
      - Tente ser srio - replicou Edward.
      - Estava a ser - murmurou Iddesleigh.
      Edward ignorou o outro homem, para tambm ele olhar pela janela. Estavam numa zona prxima do East End, que no era inteiramente de m reputao nem inteiramente 
respeitvel. Captou o movimento de uma saia numa porta, ao passarem. Uma prostituta a exibir a mercadoria. Vultos menos benignos esgueiravam-se pelas sombras. Parte 
do fascnio da Gruta devia-se ao facto de se posicionar na fina linha entre o ilcito e o verdadeiramente perigoso. O fato de, numa dada noite, uma pequena parte 
dos frequentadores da Gruta terem sido roubados, ou pior ainda, no parecia reduzir a sua atraco; de certa forma, acrescentava-lhe, indubitavelmente, fascnio.
      O brilho das luzes adiante indicava que se aproximavam do bordel. Pouco depois, a falsa fachada clssica aparecia  vista. Mrmore branco e uma abundncia 
de dourados conferiam  Gruta de Afrodite um magnfico ar vulgar.
      - Como tenciona encontrar o chantagista? - perguntou Harry, em voz baixa, ao descerem da carruagem.
      Edward encolheu os ombros.
      - Pelas nove horas, poderemos comear a limitar as possibilidades. - Dirigiu-se para a entrada com toda a arrogncia das suas nove geraes de aristocracia.
      Dois tipos musculados, vestindo togas, guardavam as portas. As roupas do homem da frente ficavam-lhe um pouco curtas, revelando pernas espantosamente peludas.
      O segurana olhou para Edward, desconfiado.
      - Oua l, o senhor no  o conde de...
      - Fico feliz por me reconhecer. - Edward ps a mo sobre o ombro do homem e esticou a outra, para um aperto aparentemente amigvel.
      A palma estendida continha um guinu. O punho do segurana fechou-se suavemente sobre a moeda dourada, desaparecendo nas dobras da sua toga.
      O homem sorriu ironicamente.
      - Est tudo timo, excelncia. Mas, depois da ltima vez, talvez no se importasse de...? - O homem esfregou sugestivamente os dedos.
      Edward esboou um esgar. Que lata! Inclinou-se para a cara do outro homem, at lhe conseguir cheirar a podrido dos dentes.
      - Talvez me importe.
      Jock rosnou.
      O segurana recuou, de mos esticadas, num gesto de calma.
      - Tudo bem! Tudo bem, excelncia! Faa favor de entrar.
      Edward assentiu e subiu os degraus.
      A seu lado, Iddesleigh murmurou:
      - O senhor tem mesmo de me falar desse desentendimento, um dia destes.
      Harry soltou uma risada. Edward ignorou-os. Tinham entrado e havia assuntos mais importantes a considerar.
      
      
      - Mas onde se meteu ele? - Anna estava na entrada da casa de Edward, interrogando Dreary. Tinha ainda vestidas as suas mofadas roupas de viagem.
      - Desconheo por completo, senhora. - O mordomo parecia estar a ser genuno.
      Ela olhou-o frustradamente. Passara o dia inteiro a viajar, compusera e recompusera o seu pedido de desculpas a Edward, sonhara at com a reconciliao e, 
agora, o tolo no estava l. Era como um anticlmax, para no dizer mais.
      - Algum sabe onde foi lorde Swartingham?- Anna comeava a desesperar.
      Fanny balanava de um p para o outro, ao lado dela.
      - Talvez tenha ido  sua procura, minha senhora.
      Anna voltou o olhar para Fanny. Nisto, um movimento na parte de trs do vestbulo prendeu-lhe a ateno. O criado pessoal de Edward fugia em bicos de ps, 
furtivamente.
      - Senhor Davis. - Agarrou as saias e dirigiu-se para o homem a uma velocidade pouco comum para uma senhora. - Senhor Davis, espere um pouco.
      Mas o velhote era mais lesto do que parecia. Esgueirava-se escadas acima, fingindo-se de surdo.
      Anna, esbaforida, seguia no seu encalo.
      - Pare!
      O criado dobrou a esquina, ao cimo das escadas. Estavam num corredor estreito; evidentemente, aquela era a zona da criadagem. Davis encaminhou-se para a porta 
ao fundo do corredor, mas Anna era mais rpida em terreno plano. Gastou as ltimas energias e chegou  porta antes do pequeno homem. Encostou-se  porta fechada, 
de braos esticados para cada um dos lados, barrando-o.
      - Senhor Davis.
      - Oh, vinha atrs de mim, senhora? - Abriu bem os olhos remelosos.
      - Precisamente- Anna inspirava profundamente, tentando acalmar a respirao. - Onde est o conde?
      - O conde? - Davis olhou em redor, como se esperasse que, subitamente, Edward surgisse das sombras.
      - Edward de Raaf, lorde Swartingham, o conde de Swartingham? - Anna inclinou-se. - O seu amo?
      - No precisa de se empertigar. - Davis parecia realmente ofendido.
      - Senhor Davis!
      - O senhor talvez tivesse considerado - disse cuidadosamente o criado - que precisavam dele noutro stio qualquer.
      Anna bateu com o p.
      - Diga-me j onde  que ele est.
      Davis olhou para cima e, depois, para o lado, mas no vinha ajuda pelo corredor sombrio. Soltou um suspiro.
      - Ele talvez tenha visto a carta. - O criado no a fitou nos olhos. - Talvez tenha ido a uma casa detestvel. Com um nome estranhssimo, Afrodtica ou Afro...
      Mas Anna descia j a correr as escadas, derrapando sempre que dava a volta num patamar. Oh, meu Deus. Oh, meu Deus.
      Se Edward encontrara a nota de chantagem...
      Se fora confrontar o chantagista...
      O chantagista no tinha certamente nenhum sentido de honra e seria perigoso. Que faria ele quando se visse encurralado? Certamente que, sozinho, Edward no 
estaria  altura de um tal homem! Anna choramingava. Oh, sim, estaria. Se lhe acontecesse alguma coisa, a culpa seria sua.
      Dirigiu-se a correr para a porta, afastando Dreary do caminho. Antes de sair, ainda hesitou.
      - Minha senhora! - Fanny foi atrs dela.
      Anna voltou-se.
      - Fanny, fica aqui. Se o conde regressar, diz-lhe que voltarei rapidamente. - Virou-se novamente e levou as mos em concha  boca, para gritar  carruagem 
que arrancava  frente da casa.
      - Pare!
      O cocheiro puxou as rdeas com fora, fazendo com que os cavalos da frente se empinassem. Olhou em redor.
      - O que foi agora, senhora? No quer descansar um bocadinho, agora que est em Londres? A senhora Clearwater...
      - Preciso que me leve  Gruta de Afrodite.
      - Mas a senhora Clearwater...
      - J.
      O cocheiro suspirou, exausto.
      - Em que direco, ento?
      Anna indicou sucintamente e entrou na carruagem que acabara de abandonar. Agarrou-se s pegas de cabedal e rezou: Oh, Deus do Cu, que eu chegue a tempo. No 
conseguiria viver consigo mesma se Edward se magoasse.
      A viagem na carruagem parecia no ter fim, mas Anna acabou por chegar, subindo a correr os degraus de mrmore. No interior, a Gruta de Afrodite ecoava com 
a conversa de circunstncia e a risota dos noctvagos de Londres. Todos os rapazolas, todos os dissolutos idosos, todas as senhoras que desfilavam no limiar da respeitabilidade, 
pareciam ter-se reunido na Gruta. Era um quarto para as nove e a multido estava ruidosa, desinibida e mais do que ligeiramente embriagada.
      Anna apertou o manto  sua volta. As salas estavam quentes e cheiravam a cera queimada, a lcool. Todavia, manteve-se agasalhada, numa fina barreira entre 
ela e a gentalha. Olhou para cima e reparou nos lbricos cupidos no teto. Retiravam um vu pintado e revelavam uma Afrodite voluptuosamente rosa, rodeada de... enfim, 
de uma orgia.
      Afrodite parecia piscar-lhe o olho, com conhecimento de causa.
      Anna apressou-se a desviar o olhar e prosseguiu a sua busca. O plano era simples: encontrar o chantagista e seduzi-lo para fora da Gruta, antes que Edward 
o apanhasse. O problema era que ela no sabia quem era o chantagista. Na verdade, no sabia sequer se se tratava de um homem. Nervosamente, manteve-se atenta tambm 
a Edward. Talvez, se ela o encontrasse antes de o chantagista aparecer, conseguisse convenc-lo a ir-se embora. Embora lhe fosse difcil imaginar Edward a desistir 
de uma luta, mesmo de uma que pudesse perder.
      Entrou no salo principal. Aqui, alguns pares envolviam-se em canaps e os rapazolas procuravam diverso noturna. Percebeu imediatamente que seria prudente 
continuar a andar  volta da sala. O tema clssico encontrava aqui sequncia, com vrias cenas de Zeus a seduzir jovens raparigas. A de Europa e do Touro era particularmente 
sugestiva.
      - Disse-lhe que trouxesse um agasalho. - Uma voz irritada interrompeu os pensamentos de Anna.
      Finalmente.
      - No lhe darei aquela quantia ridcula. - O chantagista no tinha um ar nada assustador. Era mais jovem do que ela esperava, com um queixo familiar, recuado. 
Anna esboou um esgar. - O senhor  o dndi da conferncia.
      O homem ficou perturbado.
      - Onde est o meu dinheiro?
      - J lhe disse, no pagarei. O conde est c e  do seu interesse ir-se j embora, antes que ele o encontre.
      - Mas o dinheiro...
      Anna batia o p exasperadamente.
      - Oua, seu piolho desmiolado, no trago comigo dinheiro algum e o melhor ...
      Um enorme vulto peludo saltou de trs de Anna. Ouviu-se um grito e uma terrvel e grave rosnadela. O chantagista acabou estendido no cho, com o corpo quase 
obliterado por Jock. Os caninos descobertos do mastim estavam a escassos centmetros dos olhos do homem e uma crista de plo eriava-se nas costas do co,  medida 
que prosseguia com a sua rosnadela ameaadora.
      Extemporaneamente, uma mulher gritou.
      - Segura, Jock - disse Edward ao avanar. - Chilton Lillipin. Devia ter adivinhado. Deve ter estado na conferncia do seu irmo mais velho, ontem.
      - Por favor, Swartingham, tire este animal de cima de mim! Como  que pode gostar desta cab...
      Jock ladrou, quase arrancando o nariz do homem.
      Edward ps a mo no pescoo do co.
      - Amo absolutamente esta senhora.
      Os olhos de Lillipin semicerraram-se ardilosamente.
      - Ento, querer por certo uma desforra.
      - Naturalmente.
      - Falarei com as minhas testemunhas...
      - J. - Embora Edward falasse com suavidade, a sua voz sobreps-se  do outro homem.
      - Edward, no! - Era exatamente isto que Anna queria evitar.
      Edward ignorou-a.
      - Tenho aqui as minhas testemunhas.
      O visconde de Iddesleigh e um homem mais baixo, com atentos olhos verdes, deram um passo em frente. Os seus rostos estavam concentrados naquele jogo masculino.
      O visconde sorriu.
      - Escolha as suas testemunhas.
      Lillipin, prostrado, olhou em volta da sala. Um jovem, de camisa desfraldada, puxou a sua companhia vacilante para a frente da multido.
      - Seremos as suas testemunhas.
      Oh, meu Deus!
      - Edward, pare com isso, por favor. - Anna falava baixinho.
      Edward arrancou Jock de cima de Lillipin e apontou na direco de Anna.
      - Guarda.
      O co ficou, obedientemente, de atalaia em frente de Anna.
      - Mas...
      Edward olhava-a inflexvel, dispensando as suas palavras. Despiu o casaco. Lillipin ps-se de p, despiu o casaco e o colete e desembainhou a espada. Tambm 
Edward desembainhou a sua arma. Os dois homens encontravam-se numa clareira subitamente formada.
      Tudo estava a acontecer demasiado rpido. Era como um pesadelo que ela no conseguia parar. A sala ficara em silncio, os rostos voltados avidamente, na perspectiva 
de sangue derramado.
      Os homens saudaram-se, erguendo as espadas diante do rosto; ento, cada um dobrou-se ligeiramente pelo joelho, de espada empunhada. Mais magro e baixo do que 
Edward, a postura do jovem era conscientemente elegante, com a mo esquerda a descrever um gracioso arco por trs da cabea. Lillipin vestia uma camisa de linho, 
com folhos de renda belga que flutuavam com os seus movimentos. Edward fitava-o fixamente, com a mo desarmada atrs de si por motivos de equilbrio, no de elegncia. 
O colete preto possua apenas uma fina linha de fita preta ao longo do rebordo e a camisa branca no apresentava adornos.
      Lillipin escarnecia.
      - En garde! - gritou o mais jovem. A sua espada agitou-se no ar, num fremir dourado.
      Edward bloqueou o ataque. A sua arma deslizou e arranhou a do seu oponente. Deu dois passos atrs, conforme Lillipin avanou. A lmina cintilava, Anna mordeu 
o lbio. Estaria ele na defensiva? Lillipin parecia pensar o mesmo. Os seus lbios curvavam-se, num sorriso amargo.
      - O Chilly Lilly matou dois homens no ano passado - crocitou uma voz do meio da multido. Anna inspirou bruscamente. Ouvira falar dos jovens arruaceiros de 
Londres, que se entretinham a desafiar e matar espadachins menos dotados. Edward passava a maior parte do seu tempo no campo. Conseguiria ele defender-se?
      Os homens moviam-se num crculo fechado, o suor a reluzir-lhes na cara. Lillipin investiu e a sua espada bateu contra a de Edward. A manga direita de Edward 
rompeu-se. Anna gemeu, mas no havia sangue a manchar a manga. A lmina de Lillipin vibrou novamente, como uma serpente, atingindo o ombro de Edward, fazendo-o gemer. 
Desta vez, gotas carmesins caram ao cho. Anna avanou, mas foi parada pelas mandbulas de Jock, delicadamente fechadas em torno do seu brao.
      - Sangue - gritou Iddesleigh, ecoado de perto pelas testemunhas de Lillipin.
      Nenhum dos dois hesitou. As lminas tilintavam e investiam. A manga de Edward floria em vermelho vivo e uniforme. Cada movimento do seu brao espirrava sangue 
sobre o cho, gotculas brilhantes imediatamente esborratadas pelos ps dos combatentes. No era suposto pararem ao primeiro derrame de sangue?
      A menos que lutassem at  morte.
      Anna enfiou o punho na boca, para abafar um grito. No podia distrair Edward agora. Ficou absolutamente calada, os olhos cravejados de lgrimas.
      Subitamente, Edward investiu uma e outra vez. O seu p da frente batia no cho, pautando a ferocidade do ataque. Lillipin caiu para trs, levantando a arma 
para defender o rosto. O brao de Edward traou um movimento circular; a sua espada esquivou-se  do seu oponente. Lillipin soltou um guincho de dor. A espada voou-lhe 
da mo, deslizando sobre o soalho. Edward tinha a ponta da sua arma contra a pele macia da garganta de Lillipin.
      O jovem respirava a custo, com a mo direita a sangrar, amparada pela esquerda.
      - Ganhou por sorte, Swartingham - esbaforiu Lillipin -, mas no poder impedir-me de falar assim que sair deste...
      Edward retirou a espada e desferiu um murro no rosto do outro homem. Lillipin foi projetado, de braos abertos, e caiu no cho com estrondo, no se tornando 
a levantar.
      - Na verdade, posso - murmurou Edward, abanando a mo direita.
      Ouviu-se um suspiro sofrido, mesmo atrs de Anna.
      - Eu sabia que acabariam por recorrer aos punhos. - O visconde de Iddesleigh contornou Anna.
      Edward sentiu-se afrontado.
      - Eu derrubei-o primeiro.
      - Sim, e a sua postura foi atroz, como sempre.
      O homem de olhos verdes contornou Anna pelo outro lado, dobrando-se silenciosamente para recolher a espada de Edward.
      - Ganhei - disse Edward enfaticamente.
      O visconde fitou-o com desdm.
      - Infelizmente, sim.
      - Preferia que ele me tivesse vencido? - perguntou Edward.
      - No, mas, num mundo perfeito, a postura clssica levaria sempre a melhor.
      - Graas a Deus que este no  o mundo perfeito.
      Anna no aguentava mais.
      - Parvo! - Bateu no peito de Edward. Depois, lembrou-se do seu ferimento, agarrando-se desvairadamente  manga ensanguentada.
      - Querida, o que...? - Edward parecia embaraado.
      - No bastou ter de lutar contra aquele homem horrvel - disse ela ofegante, os olhos meio obscurecidos pelas lgrimas -, ainda deixou que ele o ferisse. Est 
a sangrar abundantemente. - Anna abriu a manga, sentindo-se tonta quando viu o terrvel corte a macular aquele belo ombro. - E agora, provavelmente morrer. - Soluava, 
enquanto pressionava o leno, lamentavelmente inadequado, contra a ferida.
      - Anna, querida, calma - Edward tentou pr os braos  sua volta, mas ela deu-lhes um safano.
      - E porqu? De que serviu travar-se em duelo com aquele homem horrvel?
      - Fi-lo por si. - Edward disse-o com suavidade, ao que a respirao dela parou. - Eu faria tudo pela senhora, at mesmo sangrar at  morte num bordel.
      Anna engasgou-se, incapaz de falar.
      Ele passou a mo com ternura pela sua face.
      - Preciso de si. J lho tinha dito, mas a senhora parece no ter acreditado em mim. - Inspirou e os seus olhos brilharam. - Nunca mais me abandone, Anna. Da 
prxima vez, no sobreviverei. Quero que case comigo, mas, se no for capaz... - Engoliu em seco.
      Os olhos dela encheram-se novamente de lgrimas.
      - Simplesmente, no me abandone - segredou ele.
      - Oh, Edward- Anna suspirou, com o rosto envolto nas mos ensanguentadas dele. Ele beijou-a.
      Suspirou entre lbios:
      - Amo-a.
       distncia, ela ouviu gritos e vrios assobios. O visconde tossia junto ao ouvido dela.
      Edward levantou a cabea, mantendo os olhos fixos no rosto de Anna.
      - No v que estou ocupado, Iddesleigh?
      - Oh, sem dvida. Toda a Gruta j constatou que o senhor est ocupado, De Raaf - disse, secamente, o visconde.
      Pela primeira vez, Edward reparou no pblico que os cercava. Esboou uma careta.
      - Certo. Tenho de levar a Anna para casa e pedir - apontou para o ombro - que me vejam isto. - Fitou o inconsciente Lillipin, que agora se babava. - Pode tratar 
daquilo?
      - Parece que terei de o fazer. - O visconde franziu os lbios com desagrado. - Deve haver algum navio a partir para qualquer stio extico esta noite. No 
se importa, pois no, Harry?
      O homem de olhos verdes sorriu.
      - O mar far imensamente bem a este crpula. - Pegou nos ps de Lillipin. O visconde de Iddesleigh pegou na outra ponta, nenhum deles com delicadeza, e, entre 
os dois, levantaram Chilly Lilly.
      - Parabns - com a cabea, Harry acenou a Anna.
      - Sim, felicitaes, De Raaf- disse arrastadamente o visconde, ao passar. - Poderei contar com um convite para as iminentes npcias?
      Edward suspirou.
      Rindo, o visconde avanou, segurando o homem inconsciente. Edward deu de imediato o brao a Anna, comeando a lev-la pelo meio das pessoas. Pela primeira 
vez, ela reparou que a prpria Afrodite observava,  frente da multido. Anna ficou boquiaberta. A Madame estava mais baixa e com os seus olhos verdes de gata escondidos 
atrs de uma mscara dourada, o cabelo polvilhado de p dourado.
      - Eu sabia que ele a perdoaria - ronronou Afrodite, ao cruzar-se com Anna; depois, levantou a voz: - Bebidas para todos, em celebrao do amor!
      A multido soltou um brado atrs deles. Anna e Edward desciam j a correr os degraus at  carruagem, que os aguardava. Edward bateu no tejadilho e caiu sobre 
as almofadas. No a largara por um instante e puxava-a agora para o seu colo, cobrindo com a sua a boca dela, aproveitando os seus lbios separados para enfiar a 
lngua. Passaram vrios minutos at Anna conseguir inspirar.
      Ele parou apenas para aplicar uma srie de mordiscadelas no seu lbio inferior.
      - Quer casar-se comigo? - segredou ele, to perto dela, que o seu flego lhe percorreu o rosto num sopro.
      Mais lgrimas ofuscaram os olhos de Anna.
      - Amo-o tanto, Edward - confessou ela. - E se nunca tivermos uma famlia?
      Ele aconchegou o rosto dela entre as suas mos.
      - A senhora  a minha famlia. Se nunca tivermos filhos, ficarei triste, mas, se no a tiver a si, ficarei destroado. Eu amo-a. Preciso de si. Por favor, 
confie em mim o suficiente para se tornar minha esposa.
      - Sim... - Edward j mordiscava uma coluna de beijos pelo pescoo de Anna, pelo que lhe foi difcil pronunciar a palavra, mas ela voltou a proferi-la, de to 
importante que era.
      - Sim.
      

      -
  Eplogo





       O Vento Oeste voou com urea at um castelo nas nuvens, rodeado de pssaros. Quando ela desceu das suas costas, um corvo gigante pousou a seu lado e transformou-se
no Prncipe Niger. - Encontraste-me, urea, meu amor! - disse ele. Quando o Prncipe Corvo falou, os pssaros desceram do cu e tornaram-se novamente homens e mulheres.
Um enorme grito de exultao ergueu-se do coro de seguidores do Prncipe Corvo. Ao mesmo tempo, as nuvens dissolveram-se  volta do castelo, revelando que ele se
situava no alto de uma grande montanha. urea estava estupefacta.
       - Mas como  possvel? O prncipe sorriu e os seus olhos negros cintilaram. - O vosso amor, urea. O amor quebrou a maldio..."
       in O Prncipe Corvo




      Trs anos depois...

      - E urea e o Prncipe Corvo viveram felizes para sempre. - Anna fechou, lentamente, o livro de couro vermelho. - J adormeceu?
      Edward ajustou o pano de seda, para que protegesse o beb do sol da tarde.
      - Hum... h algum tempo, creio.
      Olharam ambos para aquele rosto enganadoramente anglico. O filho de ambos estava deitado em almofadas de seda vermelha, amontoadas no centro do jardim murado 
da manso. Os seus pequenos membros espraiavam-se, como se o sono o tivesse dominado a meio de um movimento. Lbios cor-de-rosa comprimiam-se sobre os dois dedos 
que tinha na boca, e um vento ligeiro agitava-lhe os caracis de corvo. Jock estava deitado ao lado do seu ser humano preferido, indiferente  mo rechonchuda que 
lhe segurava a orelha. Em volta, o jardim estava gloriosamente em flor: uma exuberncia multicolorida espalhava-se pelos caminhos e os muros estavam quase cobertos 
de rosas trepadeiras. O ar enchia-se do aroma das rosas e do zunir das abelhas.
      Edward esticou-se e tirou-lhe o livro das mos. Pousou-o junto aos restos do almoo; retirou, ento, uma rosa do vaso que se encontrava no meio da toalha de 
piquenique, chegando-se para junto da sua mulher.
      - O que ests a fazer? - sussurrou Anna, embora soubesse muito bem.
      - Eu? - Edward tentou assumir um ar inocente, enquanto passava a rosa sobre os seios descobertos de Anna. No era to bom nisso como o seu filho.
      - Edward!
      Uma ptala caiu-lhe entre os seios. Ele franziu o sobrolho, num susto fingido.
      - Oh, querida.
      Os seus dedos compridos mergulharam entre os seios dela, procurando a ptala, empurrando-a mais para baixo. No se estava a sair muito bem, pois as pontas 
dos seus dedos no paravam de tocar os mamilos de Anna.
      Ela sacudia a mo dele, sem convico.
      - Pra com isso. Ests a fazer-me ccegas. - Anna soltou um pequeno grito, quando ele apertou um dos mamilos entre os dedos.
      Edward fez cara sria.
      - Chiu... olha que acordas o Samuel. - O espartilho dela cedeu. - Tens de fazer pouco barulho.
      - Mas a me Wren...
      - Foi ver como se est a sair a Fanny no seu novo emprego no condado mais prximo.- A respirao dele acariciava-lhe os seios expostos. - No voltar antes 
da ceia.
      Colocou um mamilo na boca. Anna susteve a respirao.
      - Acho que estou novamente grvida.
      Edward levantou a cabea, com os seus olhos negros a brilharem.
      - Importar-te-ias de ter outra criana to cedo?
      - Adoraria - disse ela, suspirando de felicidade.
      Edward estava a aceitar as notcias da segunda gravidez dela bem melhor do que da primeira. A partir do momento em que Anna lhe comunicara que estava grvida, 
ele tinha comeado a andar terrivelmente srio. Dera o seu melhor a reconfort-lo nessa altura, mas resignara-se perante o facto de ele no recuperar totalmente, 
at que ela tivesse dado  luz sem problemas. E, de facto, Edward ficou sentado, completamente plido, ao lado dela durante o parto. A senhora Stucker deu uma olhadela 
ao rosto do futuro pai e mandou ir buscar brande, no qual Edward se recusou a tocar. Cinco horas mais tarde, nascia Samuel Ethan de Raaf, visconde de Herrod. Era, 
possivelmente, o beb mais bonito na histria do mundo, de acordo com a sua me. Edward bebera quase um tero da garrafa de brande antes de se meter na cama com 
a sua mulher e filho recm-nascido, abraando-os aos dois.
      Agora, puxava as saias de Anna para cima e punha-se entre as suas pernas nuas.
      - Desta vez, ser uma menina.
      Semeava beijos no pescoo de Anna. As duas mos cobriam-lhe os seios e os polegares brincavam com os mamilos.
      Anna gemeu.
      - Um outro rapaz seria bom, tambm, mas, se for uma rapariga, j tenho um nome para ela.
      - Qual? - Edward mordiscava-lhe a orelha e Anna sentia contra o corpo a sua ereo.
      Ele no estaria provavelmente a ouvir, mas ela respondeu-lhe na mesma.
      - Elizabeth Rose.
      
      
      
      FIM

1 Ttulo atribudo, em Inglaterra, a grandes latifundirios [N. do T.]
   2 Dana tradicional escocesa. [N. do T]

     3  O visconde brinca com o apelido Wren, que em ingls significa "carria". [N. do T.]

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